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O processo de suburbanização da
cidade do Rio de Janeiro inicia-se por volta de
1865 e se consolida na década de 1930.
Ela se deu em momentos, ritmos e direções
diferentes. Os eixos ferroviários foram
os responsáveis pelo direcionamento da
ocupação espacial, e as duas grandes
áreas suburbanas - a da Central e a da
Leopoldina - se desenvolveram a partir de características
diferentes, o que lhes deu uma fisionomia arquitetônica
e urbana bastante próprias.
A área onde eles se localizariam era a
da sesmaria doada por Estácio de Sá
aos jesuítas em 1565. Era a zona rural
da cidade, o extenso Vale de Inhaúma, dividido
em duas freguesias - Inhaúma e Irajá
-, onde predominam as grandes propriedades baseadas
no trabalho escravo. Havia cerca de 40 fazendas
e 15 engenhos de açúcar.
Os jesuítas obtinham uma renda significativa
através do arrendamento a lavradores de
um grande número de chácaras e sítios
em que foram divididas as três fazendas
que tinham em bairros mais próximos do
centro urbano - Engenho Velho, Engenho Novo e
São Cristóvão. Os recursos
obtidos eram destinados ao colégio da ordem,
localizado no Morro do Castelo.
Após a expulsão, em 1759, dos jesuítas
de Portugal e colônias, suas terras foram
confiscadas e leiloadas. A sesmaria foi parcelada.
A fazenda do Engenho Novo, entretanto, só
seria vendida, e em um único lance, duas
décadas mais tarde, e só posteriormente
subdividida, fato que levou à modificação
da estrutura fundiária do Vale de Inhaúma.
Assinale-se que em fins do século XVIII,
a cidade, assim como a província do Rio
de Janeiro, sofrem a decadência da lavoura
açucareira e a conseqüente estagnação
de sua zona rural.
A policultura intensiva de subsistência
foi se implantando, em horta e pomares, como nova
forma de uso da terra. Muitos proprietários
aforavam terrenos a pequenos lavradores que os
mantinham produtivos e lhes pagavam uma taxa anual.
Note-se que tal produção destinava-se
aos mercados locais, uma vez que eram as fazendas
do sul de Minas que abasteciam a cidade.
Ainda que retalhadas, persiste, na primeira metade
do século XIX, um número significativo
de grandes propriedades. O sistema de sesmarias
- a doação de terras pelo governante
-, única forma de acesso à terra,
acabou sendo extinto. Em 1850, a promulgação
da Lei das Terras permitiu que elas passassem
a ser vendidas ou arrendadas. Desenvolveu-se,
então, um mercado de terras rurais, e a
terra passou a ser usada também para fins
especulativos.
O transporte ferroviário foi um outro
fator fundamental para o crescimento da cidade
em direção às áreas
rurais. O traçado das vias férreas
instaladas - além das mencionadas Central
do Brasil e Leopoldina, havia a Rio D'Ouro e a
Linha Auxiliar - determinaria os quatro eixos
dessa expansão.
O primeiro e mais importante dos eixos compreendia
a Estrada de Ferro Central do Brasil, inaugurada
em 1858, e suas estações localizadas
no Campo de Santana, São Cristóvão,
Engenho Novo, Cascadura e Deodoro. Destinada,
inicialmente, a escoar a produção
cafeeira do Vale do Paraíba, seus trens
suburbanos contribuíram para a redistribuição
da população antes concentrada no
centro da capital do Império.
A população fixou-se em torno das
estações. Mais tarde, a implantação
do serviço de bondes permitiu a expansão
desses núcleos, pois se tornou possível
viver em locais mais afastados das estações.
O bonde foi, na verdade, o principal impulsionador
da segunda onda urbanizadora dos subúrbios
da Central.
Entre 1870 e 1890, dá-se, em Inhaúma
e Irajá, a derradeira transformação
das fazendas em conjuntos de lotes urbanos, isto
é, lotes de menor tamanho localizados em
áreas arruadas. Começa a se formar
uma malha urbana.
Cabe enfatizar o papel desempenhado nesse processo
por famílias proprietárias de vastas
extensões. Um exemplo: a família
Duque Estrada Meyer, proprietária da Quinta
dos Duques, a antiga fazenda jesuíta do
Engenho Novo, foi pioneira da abertura de ruas
e venda de lotes em suas terras. Nelas tiveram
origem os bairros do Méier, Boca do Mato,
Lins de Vasconcelos, Cachambi, Maria da Graça,
Del Castilho, Todos os Santos, Jacaré,
Engenho Novo e Benfica.
O período que vai de 1890 a 1920 foi marcado
por profundas reformas urbanas na área
central da cidade. Os aluguéis de imóveis
e terrenos encareceram e inúmeras habitações
coletivas foram destruídas. Acirrava-se
o sempre presente déficit habitacional,
provocando um grande deslocamento de pessoas para
as freguesias vizinhas, morros e subúrbios.
É possível localizar a última
grande onda de urbanização no período
que vai de 1910 a 1930, quando outras fazendas
foram retalhadas para dar lugar a novos bairros,
como Madureira, Bento Ribeiro e Osvaldo Cruz.
Até 1940, os subúrbios eram áreas
exclusivamente residenciais. Podiam-se comprar
apenas gêneros de primeira necessidade em
suas vendinhas, padarias, farmácias, armarinhos,
pequenas lojas de ferragens. O comércio
mais especializado e de luxo concentrava-se na
área central da cidade.
O crescimento da população nas
décadas seguintes e o distanciamento cada
vez maior das áreas residenciais em relação
ao centro criaram um mercado consumidor bastante
amplo, capaz de incentivar o desenvolvimento das
atividades de comércio e serviços.
Surgem, então, nos bairros, os chamados
subcentros. Na área sob a influência
da Central do Brasil, destacam-se o Méier
e Madureira, e da Leopoldina, Bonsucesso.
Na rua Dias da Cruz, no Méier, conhecido
como a capital dos subúrbios, seria erguido,
muitos anos depois, o primeiro shopping center
do país.
Um antigo morador do bairro lembra que o Méier
tinha uma intensa vida noturna: muitas lojas com
vitrines iluminadas, bares, cafés, confeitarias
e cinemas lotados de gente. O Café do Ponto
era o preferido dos jovens devido ao seu enorme
salão de bilhar e sinuca. A turma da boemia
preferia o Imparcial, bar onde se servia chope,
pão preto e salsichas vindas de Viena.
As famílias se reuniam nas confeitarias
Japão e Moderna, famosas pelos seus doces
e salgadinhos. E os intelectuais, no bar Sul-Americano,
promovido a "Colombo do subúrbio".
Madureira, que chegou a ser o maior arrecadador
de ICMS do Rio de Janeiro, dispõe hoje
de um grande centro comercial, de viés
bastante popular. O Mercadão e o Madureira
Shopping são marcos de diferentes momentos
do crescimento da atividade comercial. Bonsucesso
é um subcentro mais modesto e disputa com
Ramos e Penha a primazia dentro da área
da Leopoldina. Desde os primórdios do bairro,
os estabelecimentos comerciais se concentram na
praça das Nações.
Os bairros dos subúrbios passaram, sem
dúvida, por mudanças significativas,
muitas delas positivas, nas últimas décadas,
mas ainda persistem problemas tão sérios
quanto o déficit habitacional e as precariedades
da infra-estrutura, cuja face mais dramática
é a da intensa favelização.
Bibliografia
PECHMAN, Robert Moses - A gênese do mercado
urbano de terras, a produção de
moradias e a formação dos subúrbios
no Rio de Janeiro. IPUR, UFRJ, 1985, tese de mestrado,
xerox.
DUARTE, Haidine da Silva Barros - A cidade do
Rio de Janeiro: descentralização
das atividades terciárias, os centros funcionais
in Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro,
jan/mar 1974.
ZYLBERBERG, Sonia - De fazenda jesuíta
a bairros suburbanos: o Grande Méier Departamento
Geral de Patrimônio Cultural, Secretaria
Municipal das Culturas, RJ, xerox.
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