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A primeira ocupação da Zona Sul
do Rio de Janeiro aconteceu bem antes de 1565,
quando a cidade foi fundada: em 1502, quando marinheiros
portugueses vieram procurar água doce na
foz do rio Carioca, atual praia do Flamengo. A
ocupação dos arredores da cidade
data do século XVI, quando surgiram as
primeiras fazendas de cana-de-açúcar
e engenhos.
No século XVII, o Rio de Janeiro torna-se
um importante entreposto comercial. De seu porto,
partem mercadorias para Portugal e outros países.
No século XVIII, a cidade se torna a grande
exportadora do ouro produzido em Minas Gerais.
Seu enriquecimento desperta a cobiça dos
franceses, que tentam invadi-la, levando o governo
português a construir fortificações
em todo o litoral. A principal delas ficou na
Praia Vermelha, outras menores surgiram na Praia
de Copacabana. Foi o primeiro estopim do desenvolvimento.
Os diversos elementos físicos da paisagem
carioca - morros, planícies e vales nos
quais se multiplicam, ainda no século XVIII,
as chácaras, uma divisão das primitivas
fazendas e grandes propriedades - foram ocupados
aos poucos. Em 1763, a transferência da
capital da colônia portuguesa de Salvador
para o Rio faz crescer o status político
da cidade.
Em 1808, um novo incentivo: a chegada da Corte
Portuguesa, a abertura dos portos e o conseqüente
aumento do número de estrangeiros, impõem
novos costumes ao Rio. Um deles, o de morar longe
do Centro, em lugares mais aprazíveis,
perto das praias ou das montanhas. Chácaras
que eram usadas apenas nos de fins-de-semana,
viram moradia da elite. Seus mais lídimos
representantes se instalam em luxuosas residências
da Zona Sul. Um exemplo de requinte é o
atual Museu da República, construído
por um fazendeiro do interior da Província
para ser sua residência. Mais tarde, a casa
foi sede da Presidência da República,
e ficou conhecida como Palácio do Catete.
Os locais na Zona Sul mais procurados são
Glória, Catete, Flamengo, Laranjeiras,
Cosme Velho e Botafogo. Copacabana, Ipanema e
Leblon ainda ficavam muito longe. Jardim Botânico
e Gávea? Quase nem falar.
O progressivo fim da escravidão leva os
proprietários a perceber que terra, a terra,
é um bom negócio. Aliam-se, então,
aos capitalistas, impedidos de investir na mão-de-obra
escrava, e ao capital internacional, sempre a
procura de novas fontes de renda. Os estrangeiros
investem, principalmente, em serviços de
infra-estrutura urbana. A partir de 1868, a Botanical
Garden Railroad leva suas linhas de bonde até
o Largo do Machado, Jardim Botânico, Gávea
e Copacabana. Tem início o processo de
valorização das terras na Zona Sul.
No final do século XIX, vive-se a industrialização
da cidade. E as indústrias preferem se
instalar nos bairros. Na Zona Sul, tecelagens
passam a ocupar grandes terrenos próximos
a cursos de água. Ao lado das grandes fábricas
de tecidos edificadas a partir de 1880 em Laranjeiras,
Jardim Botânico e Gávea surgem comunidades
operárias, com suas áreas residenciais,
igrejas, clubes e escolas. Elas começaram
a desaparecer em 1930, mas algumas sobrevivem
até hoje, como, por exemplo, a vila operária
da rua Pacheco Leão, no Jardim Botânico.
No século XX, assentaram-se na Gávea,
bairro de classe média, várias fábricas
de tecidos e laboratórios farmacêuticos.
O capital imobiliário, mola do comércio,
parece andar no estribo do bonde: em 1892, a abertura
do túnel hoje chamado de Velho começa
a transformar a praia de Copacabana em bairro.
Ao contrário dos bairros mais antigos,
Copacabana nunca foi rural, foi urbana desde que
deixou de ser areal. A partir de 1900, suas terras
foram loteadas em duas grandes propriedades: uma
ia da rua Siqueira Campos até a ponta do
Leme e a outra da rua Francisco Sá até
o Forte de Copacabana. As empresas imobiliárias
fizeram, com a linha de carris da Botanical Garden,
um acordo que atendia a interesses mútuos:
a valorização das terras e a extensão
das linhas de transporte coletivo.
A rápida ocupação de Copacabana
nas primeiras décadas do século
XX por uma grande quantidade de casas e hotéis
levou à ampliação das principais
vias internas e da avenida oceânica, a Atlântica.
Em 1923, a inauguração do hotel
Copacabana Palace Hotel incentivou a construção
dos primeiros edifícios de apartamentos
nas proximidades.
Em 1945, Copacabana já é o símbolo
da modernidade carioca. Não há quem
não queira viver no bairro, estímulo
para a industria da construção civil
erguer prédios de apartamentos para as
mais variadas camadas das classes média
e alta. Há palacetes. Há conjugados.
No início dos anos 60, são abertos
túneis que facilitam o acesso à
Ipanema. Na década de 1970, a construção
do interceptor oceânico leva ao alargamento
da faixa de areia, duplica a Atlântica,
cria estacionamentos e o mais novo símbolo
da orla carioca: o calçadão.
Quanto a Ipanema e Leblon, o futuro Barão
de Ipanema começa a tomar posse de suas
terras na década de 1880. E, preocupado
com problemas ambientais, constrói um canal
ligando a Lagoa Rodrigo de Freitas ao mar. Em
1894, ele já é proprietário
de toda a faixa de areia que vai até Copacabana.
O areal é dividido em quadras, ganha duas
praças, uma linha de bonde vinda de Copacabana,
vira um novo bairro e passa a ser vendido, com
incentivos fiscais, sob o nome de Villa Ipanema.
Em 1922, surge um novo bairro na Zona Sul, a
Urca, projetada sobre um aterro, ao lado do local
onde foi fundada a cidade e fica o maior símbolo
físico dela: o Pão de Açúcar.
Houve ali, ao lado de inúmeras instalações
militares, um célebre cassino. Até
que uma primeira dama, a Sra. Eurico Gaspar Dutra,
se aborreceu. E acabou com todos os cassinos,
palcos de estrelas internacionais. O Atlântico,
de Copacabana, como é evidente, também
sucumbiu.
A partir de 1930, com a propagação
do uso do concreto armado, começa o processo
de verticalização radical da Glória,
Flamengo e Copacabana. Na passagem da década
de 1930 para 1940, as fábricas de tecidos
localizadas nesses bairros são quase todas
desativadas e seus terrenos, loteados.
Na década de 40, a Praia de Botafogo é
novamente aterrada para a abertura da avenida
das Nações Unidas, que leva à
duplicação da entrada para Copacabana.
E na década de 1960, quando a cidade completa
400 anos, o Flamengo muda a fisionomia de sua
orla com a complementação do aterro
que ilumina da Glória a Botafogo. Nos anos
70, Glória, Catete, Flamengo e Botafogo
passam por uma grande transformação:
entre 1979 e 1982, são abertas cinco estações
do metrô.
O Rio de Janeiro se caracteriza fisicamente pela
sua divisão em áreas separadas por
montanhas e interligadas por gargantas que são
passagem obrigatória do sistema viário.
Até a década de 1960, o Leblon e
a Gávea eram o final da Zona Sul da cidade.
As únicas saídas para o outro lado
(Baixada de Jacarepaguá, Barra da Tijuca)
eram a avenida Niemeyer e a Estrada da Gávea.
Mas a abertura de túneis ligando Laranjeiras
ao Catumbi e o Jardim Botânico ao Rio Comprido
facilitaram o acesso à Zona Norte. Na década
de 1970, o Túnel Dois Irmãos completa
a ligação para a Barra da Tijuca,
que começa a se tornar o novo Eldorado
para moradia e negócios da cidade. Em conseqüência,
a Lagoa passa a ser um distribuidor do sistema
viário da cidade, com tráfego pesado
em ruas antes residenciais e a verticalização
substituindo residências unifamiliares.
Copacabana surgiu como bairro residencial e manteve
essa característica até cerca de
1940, quando passou a ser tratada como grande
área de lazer, mas a presença de
hotéis-balneários, pensões
e bares-restaurantes na região data de
cerca de 1900. No entanto, foi o Copacabana Palace
que iniciou a fase dos grandes hotéis,
trazendo um ar cosmopolita e internacional para
o bairro.
A partir dos anos 1940, cresce a presença
da classe média no bairro, o que gera a
instalação de um comércio
mais sofisticado, edifícios de escritórios
e consultórios, agências bancárias,
cinemas, teatros, casas noturnas e clubes. No
comércio, uma das características
de Copacabana foi a presença de filiais
de grandes lojas tradicionais do centro da cidade,
como as Lojas Americanas e Brasileiras, a Barbosa
Freitas, a Sloper, a Gebara e a Confeitaria Colombo.
A população consumidora flutuante
foi trazida por um grande número de linhas
de ônibus que ligavam a Zona Sul ao Centro
e à Zona Norte.
Outra característica de Copacabana foi
a abertura de galerias comerciais que aproveitava
melhor o espaço dividindo-o em pequenas
lojas. Na década de 1940, surgiram a Menescal
e a Duvivier. Tornaram-se muito populares, também,
duas pequenas galerias, mais voltadas para a prestação
de serviços, da avenida Copacabana: os
chamados mercadinhos Azul e Amarelo, pontos de
encontro para o cafezinho no balcão. Ou
a compra antecipada de passagens de ônibus
interestaduais e ingressos para o Maracanã.
Mas só para entendidos. Na década
de 1950, foram lançadas duas grandes galerias
comerciais: o Centro Comercial de Copacabana,
com três pavimentos de pequeno comércio
na esquina da Avenida Copacabana com a Praça
Serzedelo Correa, e o Cidade de Copacabana, entre
as ruas Siqueira Campos e Figueiredo de Magalhães.
Este foi anunciado como "o primeiro super-shopping
center do mundo!" Muita pretensão
dos empreendedores, a família Collor de
Melo, para um negócio que foi pouco freqüentado
ao longo da vida e não possuía as
características do modelo norte-americano
de shopping center. Na verdade, ele não
foi estruturado para funcionar como um shopping
center americano, mas antecipou-se à era
dos shoppings no Brasil, iniciada em São
Paulo. O primeiro shopping center verdadeiro do
Rio foi o Rio Sul. Inaugurado em 1980, não
ficou em Copacabana (mera falta de terreno), mas
na porta botafoguense do bairro. Logo ali, ao
lado do estádio onde fizeram merecida fama
Nilton Santos, Garrincha e Didi.
Copacabana também foi pioneira em alguns
segmentos comerciais: teve o primeiro fast food
(Bob's), a primeira filial brasileira do McDonald's,
o primeiro supermercado com auto-serviço
(Disco), e o primeiro supermercado e a primeira
farmácia 24 horas (Casas da Banha e Farmácia
do Leme). Há quem diga que em Copacabana
foi servida a primeira pizza do Rio de Janeiro
- com mostarda e ketchup.
Cinema modesto em Copacabana é coisa de
1910. Grande palácio cinematográfico,
como o Metro, o Roxi e o Rian, de 1940 para cá.
O grande número de bares e restaurantes
freqüentados por uma população
mais exigente culturalmente, e por turistas, levou
à instalação de muitos teatros,
fenômeno antes restrito ao Centro. A população
permanente, a local visitante e a visitante de
fora, aquela dos hotéis, levou ao bairro
uma diversificada vida noturna, muitas vezes sofisticada,
muitas vezes nem tanto. Havia restaurantes especializados:
culinária italiana no Leme, francesa no
Le Bec Fin, polonesa na Polonesa e alemã
no Lucas. As boates Sacha's, Arpége e Vogue
eram o local de encontro da alta sociedade e dos
políticos do Rio de Janeiro, vale dizer,
do Brasil. As paredes dos inferninhos da Prado
Junior, da Praça do Lido e da Princesa
Isabel também teriam muito a contar. Mas
é melhor lembrar o Beco das Garrafas, berço
da bossa nova, princesinha do mar.
Apesar da evolução do comércio
em Ipanema e Leblon e do seu vizinho shopping
Rio Sul, os serviços prestados em Copacabana
continuam dinâmicos. O comércio ficou
mais popular. Hotéis continuam sendo construídos
em Copacabana - o nome da praia ainda é
internacional. Os cinemas seguiram a tendência
geral de fechamento. Sai a tela, entra o púlpito.
A vida noturna também se transformou e,
a partir de 1970, com a abertura do calçadão
da Atlântica, surgiram restaurantes no calçadão
e quiosques na calçada da orla.
Ipanema começa a deixar de ser apenas
um bairro com serviços de uso cotidiano
ainda na década de 1930, com o aparecimento
de atividades voltadas para o lazer além
da praia: cinemas e bares. Grandes salas cinematográficas
são inauguradas na rua Visconde de Pirajá:
Ipanema, Pirajá, Astória. Na mesma
época, foram criados bares que, pela presença
sistemática de artistas e intelectuais,
ficaram na memória dos moradores do bairro
e de mais além: Zeppelin, Rhenânia
(depois Jangadeiros), Veloso (atual Garota de
Ipanema), Berlim (atual Lagoa).
A transformação de Ipanema em uma
espécie de sub-centro de comércio
e serviços só vai ter início
no final da década de 1960, quando Copacabana
começa a ficar congestionada e o bairro
passa a abrigar uma população de
alto poder aquisitivo. As pequenas casas e os
primeiros edifícios de apartamentos de
no máximo quatro andares vão sendo
substituídos por altos prédios de
luxo. Ardósia e gelosia por ray-ban e aço
escovado. É nesta época que surgem,
na rua Visconde de Pirajá, galerias comerciais
e prédios de consultórios e escritórios.
Entre as novas lojas, famosas butiques como a
Blu Blu e a Company, exportadoras de moda. E mais
tarde, já nos anos 90, aparecem marcas
internacionais como a Cartier e a Mont Blanc.
Quanto ao velho Catete do palácio construído
pelo fazendeiro onde Vargas se suicidou, a rua
que leva o seu nome especializou-se no comércio
de móveis. Baratos, à primeira impressão,
errada, pois o conjunto de lojas serve à
população de alto poder aquisitivo
de Botafogo, Flamengo e arredores. O Catete, que
no passado concentrou muitos hotéis, bares
e restaurantes que hospedavam e serviam políticos
que se dirigiam à Presidência da
Republica, foi atingido dramaticamente em 1970,
pela obra do metrô, que demoliu grande parte
do seu casario machadiano. Como, no entanto, nem
todo mal é totalmente terrível,
a inauguração de duas estações
(Catete e Largo do Machado) trouxe uma nova população
flutuante para o bairro, que foi se recuperando
com a abertura de galerias e prédios de
escritórios. Nas proximidades do Largo
do Machado estão os poucos cinemas que
sobreviveram e bares e restaurantes novos e antigos
- o centenário Lamas, por exemplo -, sempre
lotados.
Na Gávea, destaca-se o Shopping da Gávea,
de 1975, anterior ao Rio Sul, um daqueles sem
as características monumentais de um shopping
center. Ele concentra teatros, galerias de arte,
livrarias e um sofisticado comércio de
roupas, móveis, artigos esportivos. O Jardim
Botânico continua modesto, o que não
o impede de exibir restaurantes tão disputados
como o Claude Troigros (francesa de alto escalão),
Capricciosa (pizza a preço de caviar),
Quadrifoglio (da corte italiana) e a Escola do
Pão. E também a água de coco
com garças na beira da lagoa, uma sauna,
adorada por motoristas de táxi, um mexicano
especializado em gatas precariamente vestidas,
e o botequim do Dema, onde você pode encontrar
desde um Walter eletricista até um Jards
Macalé, compositor, cantor, violinista.
Neste início de século, a Zona
Sul do Rio de Janeiro não é mais
o limite da área urbana carioca, que perfurou
os morros e invade, pela orla, a Barra da Tijuca.
No entanto, apesar da ocupação intensa,
ela não perdeu os encantos da sua paisagem,
tem um rico patrimônio cultural... e o que
você quiser comprar ou usar, praticar ou
usufruir, está lá, em cada um dos
seus bairros.
Bibliografia
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Ipanema" . Rio, Editora Novo Quadro, 1994
CARDOSO, Elisabeth Dezouzart e outros: "História
dos Bairros: Botafogo". Rio, João
Fortes Engenharia/Index Editora, 1983.
CARDOSO, Elisabeth Dezouzart e outros: "História
dos Bairros: Copacabana". Rio, João
Fortes Engenharia/Index Editora, 1986.
CAMPOS, Maria Clara Redig de: "Lagoa Rodrigo
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DUARTE, Haidine da S. Barros: "A Cidade
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das atividades terciárias. Os centros funcionais."
Revista Brasileira de Geografia, n.36, janeiro-março
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Cultural: "Jardim Botânico:história
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1999.
RIBEIRO, Luiz Cesar de Queiroz. "Formação
do capital imobiliário e a produção
do espaço construído no Rio de Janeiro
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de Estudos Regionais e Urbanos, n.15, São
Paulo, NERU, 1985.
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