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Diariamente, o Rio de Janeiro
entra na história de novas pessoas. Vindas
de diferentes cidades, seja a passeio, a trabalho
ou em busca da sobrevivência, elas encontram
o Rio pela primeira vez. Rever esse momento é
perceber como sua trajetória passou a ser
parte da cidade e qual foi o rumo dessa história.
Neste especial, reunimos relatos sobre a chegada
de diferentes personagens do comércio.
Confira a seguir o que eles viram e sentiram.
Queremos ampliar esse olhar e conhecer também
a sua história. para participar.
De Portugal
Quando cheguei fui morar em Ramos. Morava com
minha irmã. Mas ali tinha meus tios perto,
todo mundo perto, e eu ia para a casa de um, para
a casa de outro, e fiquei assim até casar.
Casei com 17 anos. E continuei morando em Ramos.
Quando cheguei, fui visitar os cartões
postais da cidade e isso me emocionava, porque
eu vinha da fazenda, que não tinha nada.Cheguei
aqui, comecei a ver tanta coisa diferente e bonita,
fiquei doida pelo Brasil, pelo Rio. Onde eu fui?
O primeiro passeio foi na Quinta da Boa Vista.
Depois eu fui ao Corcovado. E não quis
mais voltar.
De Sobral, Ceará
Um dia, eu disse: 'Mãe eu vou embora'.
'Não, não faz isso, você ainda
é o único que a gente não
discute'. Eu falei: 'Não, eu vou embora,
não dá mais para segurar'. Eu tinha
14 anos, mas eu sentia que o negócio era
complicado. Eu vendi uma vaca que eu tinha, -cada
filho tinha umas vacas - eu deixei algumas e vendi
outras, aí comprei a passagem, apanhei
o ônibus e vim embora. Não conhecia
nada do Rio de Janeiro, nada, absolutamente nada.
Nem parentes eu tinha aqui. Por que o Rio? Porque
as pessoas que saíam de lá só
saíam para o Rio de Janeiro, eu sempre
conheci pessoas que vinham para o Rio de Janeiro.
Voltavam, mas eu não entendia por que,
e eu queria entender por que vinham e voltavam,
então é por isso que vim para o
Rio. Cheguei aqui e comecei a ver porque eles
voltavam, era saudade! Aquela liberdade, que a
gente não podia ter aqui, porque lá
a gente era livre, era solto, à vontade.
Longe da família, eu tinha que cuidar de
mim mesmo. Lá não. Havia quem olhasse
pela gente.
Da Paraíba
Eu cheguei na cidade numa segunda-feira de madrugada.
Eu olhei assim e pensei: Ih! O lugar é
tão difícil! Mas para os olhos de
Deus não é difícil: Eu vou
me dar bem aqui! Seja lá o que Deus quiser!".
Quando eu cheguei na casa da minha tia aqui no
Rio, ela saiu e começou a falar: 'Eu vou
escrever uma carta para a tua mãe, para
o teu pai, pensa mais um pouco, porque o Rio de
Janeiro não é fácil, não!'
De Minas
Gerais
Eu
tinha o Rio de Janeiro como a cidade maravilhosa.
E realmente constatei assim que cheguei aqui:
é linda, muito bonita, Parabéns
Rio! O que me trouxe para o Rio de Janeiro foi
a necessidade de trabalhar. Eu tinha 16 anos,
não tinha ninguém da família
aqui não. Essa viagem foi de carona, vim
num caminhão com madeira vindo da Bahia.
Quando eu cheguei no Rio, eu saltei em São
Cristóvão e ai peguei um ônibus.
Eu não tinha destino, para onde eu ia?
Eu não dormi na rua, eu voltei para São
Cristóvão e o motorista ficou meu
amigo e ai eu dormi no caminhão que eu
tinha umas coisas. No dia seguinte fui pensar
o que fazer.
De Pernambuco
Quando
nós viemos para o Rio foi um choque porque
eu estava acostumado com o ritmo de vida, tinha
6 para 8 anos e aqui no Rio de Janeiro era completamente
diferente, lá eu andava descalço,
de short, aqui no Rio já tinha que andar
calçado e havia o problema do sotaque,
aquele sotaque carregado. Os garotos ficavam rindo,
todo dia tinha uma briga na rua porque eu achava
um absurdo todo mundo rindo daquelas coisas que
eu falava, depois eu fui me acostumando e já
nem ligava mais.
De Ipú, Ceará
Cheguei
na rodoviária, o meu amigo estava lá,
a gente pegou um ônibus que passava lá
perto, e seguiu pela Vieira Souto, ele falou assim
para mim: 'Olha, esse aqui é o melhor lugar
do mundo'. Aí eu olhei, assim: 'Vieira
Souto'. Ele falou: 'Você está na
Vieira Souto. Isso aqui é o melhor lugar
do mundo.' Mas eu estava acostumado com aquelas
praias. Eu falei, até brinquei com ele:
'Por quê? Por causa da praia?' Aí
ele falou assim: 'Não, você vê
e observa bem.' Aí eu fiquei observando
no calçadão, na Vieira Souto, aí
passou um monte de garotas, mais ou menos umas
cinco ou seis, mas tudo essas garotas de Ipanema.
Então eu falei: 'Realmente tu tem razão,
aqui deve ser o melhor lugar do mundo mesmo.'
De Portugal
Eu
cheguei em 24 de setembro de 1958 e tavam me aguardando,
além do meu irmão, outras pessoas
que também eram da minha terra. Me assustei
com o Rio de Janeiro, com o tamanho. Até
que nós fomos andar no Leblon e depois
fomos pra Santa Tereza, que era um bairro nobre
da época, né? Aquela casa era de
um tio que eu tinha aí, e cada um então
ficava na sua cama, um dia na semana cada um fazia
a comida, cozinhava com álcool. Se era
arroz com carne era arroz com carne, se era sopa
era sopa, não tinha variedade de comida.
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