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Muitos caminhos levam ao comércio:
a herança de pai para filho, a batalha
no primeiro emprego que vira profissão
pelo resto da vida ou o começo do próprio
negócio. Muitos dos que vivem o comércio
ficam para contar história de uma profissão
que marca presença no dia-a-dia da cidade.
Em homenagem ao Dia do Comerciante, 16 de julho,
leia algumas histórias de nosso acervo
em que os próprios comerciantes contam
como começaram na profissão e os
segredos de quem está atrás do balcão.
Pai no balcão
Meu pai era comerciante nato. Era aquele pai que
sabia trabalhar no balcão. Era primeiro
de venda. Ele preparava, fazia, pendurava, inventava.
Sempre foi de atender o freguês, de entrar
no meio da venda: "Mas, não vendeu,
eu vou vender". Aí chegava lá:
"Já comprou? Mas vem ver um negocinho
aqui comigo". Aí pegava a mulher e
ela saía cheia de mercadoria. Era o comerciante
meu pai. Eu não, eu sempre fui outra coisa.
Eu sou administrador.
Ronaldo de Almeida Servos, Casa Turuna
Sacrifício diário
O primeiro frigorífico em que eu trabalhei
era em São Cristóvão. Ainda
existe lá. Eu tinha a impressão
que não tinha futuro. Era um emprego onde
eu ia ganhar sempre aquela coisa, que não
daria para crescer. Aí eu vim trabalhar
com um primo, que estava comprando um açougue.
Disse: "Eu vou trabalhar com você,
vou aprender e vou te ajudar". Aí
fomos. O açougue era na Cândido Mendes,
o "Açougue Cândido Mendes",
existe lá até hoje. Eu trabalhei
com ele dois anos de empregado, um emprego muito
duro, uma vida muito sofrida. Eu cheguei a pensar
muitas vezes que, se tivesse uma estrada que me
levasse de volta, uns trocadinhos na mão,
eu voltava. Ele dormia num escritoriozinho que
tinha lá e eu dormia atrás do balcão,
numa caminha de abrir e fechar. Ouvia um radinho
de pilha. E isso era de segunda a segunda.
Antônio
Hermínio Garcia, Açougue Tijucano
Amor às panelas
Você
precisa ter amor às panelas, cada panela
lá em casa tem um nome. Tem a Ramona. Ramona
foi de mamãe. Ela é grande, enorme.
Ela foi de uma senhora chamada Ramona, aí
ficou com o apelido até hoje. "Me
dá a Ramona aí." Tudo ali no
restaurante é a minha vida. Eu falo daqui,
eu falo dali, eu exijo a comida bem feita. Quando
não está bem feita, eu vou lá
e pego os temperos e boto, sabe? Até hoje
ainda dou receita para os meus empregados porque
se deixar eles botam um pinguinho de alho, um
pinguinho de cebola, um pinguinho... Não
é pinguinho, é muito para dar gosto.
As pessoas perguntam: "Por que a sua comida
tem gosto, Palmira? Tem um paladar bom."
É o alho.
Palmira
de Souza Leal, do restaurante Tia Palmira
Primeiro espelho
Meu pai começou a trabalhar aos 12 anos
em uma quitanda de uma pessoa lá de Dom
Joaquim, um senhor que o acolheu e deu esse emprego.
E se tornou um excelente funcionário. Era
um homem com quem eu aprendi muito, observando
ele trabalhar. Eu ia para o armazém todos
os dias a pé, levava a sacolinha com a
garrafa de café, a broa, o biscoitinho
que minha mãe fazia. E eu observava os
pequenos gestos dele no dia-a-dia. Então
ele foi meu grande espelho.
Plínio
Fróes, Rio Scenarium
Dia-a-dia
vivo
Eu
entrei no comércio justamente pelo Pepê.
Ele tinha construído a Barraca do Pepê,
em São Conrado. E na Barra da Tijuca, nós
montamos juntos um restaurante japonês e
aí foi quando eu comecei. Larguei o Direito
para entrar no comércio. Para ser uma empreendedora
e vi o que é lidar com comércio.
Eu descobri que eu tinha muito mais a ver trabalhar
numa coisa dinâmica, com vida. Um escritório
de advocacia é uma coisa super burocrática.
Uma coisa bem oposta do que você estar ali
no comércio. Que é lidar com as
pessoas, é trocar informações,
ter a tua postura ali perante aos outros, saber
negociar.
Ana
Carolina Gayoso, Barraca do Pepê
De
tudo um pouco
O
trabalho era muito pesado e todos tinham que fazer
de tudo na loja. Se não tivesse ninguém
para atender e entrasse cinco, seis fregueses,
vinham cinco, seis funcionários atender
e depois voltavam todos para suas funções
novamente. As tarefas eram divididas dentro do
cotidiano da chapelaria, havia o rapaz que era
o lavador, ele lavava, e engomava o chapéu,
os outros enformavam o chapéu de Panamá,
enquanto outros o chapéu de pêlos.
Não pode misturar uma coisa com a outra
por causa do enxofre. Se o pó de enxofre
cair no pêlo, acaba com o chapéu
todo. Além disso, as formas também
não podem ser misturadas. A forma de Panamá
é de panamá e a forma do chapéu
de pêlo é do de pêlo.
Almir
Romão Damásio, Chapelaria Porto
Jogo
de cintura
E
você, atrás do balcão, você
nunca tem razão. Quem tem razão
é sempre a pessoa que está ali pagando.
O patrão não quer saber se a pessoa
lhe tratou bem. Você está lá
para tratar as pessoas bem. Então, você
tem que ter um jogo de cintura para poder ficar
tanto tempo assim, e não ter esse tipo
de mau humor. Porque eu sempre procuro, eu faço
o máximo para atender as pessoas numa boa,
para que ele não saia dali tendo uma imagem,
um pensamento ruim de mim, dizendo: "Poxa,
esse cara é mau humorado." Olha, eu
vou falar para vocês, todo mundo fala "Oi,
tudo bem." Não sabem o meu nome, mas
sabem que eu sou dali da casa de suco.
Edvaldo
Torres, Polis Sucos
Eterno
balcão
Continuei
sempre trabalhando no balcão. A gente ia
subindo pelo aprendizado. E, por incrível
que pareça, o objetivo era o balcão.
Porque realmente o comércio vive do balcão.
Hoje o freguês vai lá e escolhe,
mas antigamente era o balcão.
Aristides
Miranda de Albuquerque, Casa Cruz
Você
é comerciante? Conte sua história
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