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Passar a infância no Rio
de Janerio é privilégio. A paisagem
da cidade não está apenas no cartão-postal
distante, nem é um recorte que se vê
de longe através da janela. A capital é
viva e faz parte das memórias da infância
e da brincadeira. Mas quem veio de fora também
traz doces recordações dos tempos
de criança e, às vezes, parece que
nem foi há muito tempo. Boa leitura!
Queremos conhecer também a sua história.
para participar.
O Diabololô
Eu brincava de tudo. Pião, pipa, diabolô.
Diabolô é aquele que roda aqui, joga
pra cima, fica feito um carretel de linha que
joga pro alto. E o futebol: um dia meu pai disse,
assim: vou fazer um campo de futebol aqui.
Ninguém acreditou, até que um dia,
ele começou a fazer uma obrinha na casa.
E tinha tanta árvore, e tinha que tirar
as árvores fora. Meu pai arrancou tudo,
botou pedra, muro de pedra. Fez um campinho. Aí,
sopa no mel, né? Ninguém mais ficava
na rua. Ia todo mundo pra lá jogar futebol,
tênis... Tudo que você imagina, a
gente jogou. Do lado de fora, mesa de pingue-pongue.
Tinha uma mesa de carteado, campeonato de jogo,
víspora. Minha mãe inventava, era
uma loucura aquilo!
Ronaldo
Servos nasceu
no Rio de Janeiro, em 1937
A moréia do Passeio
Público
Quando eu ia brincar um tio me levava no Passeio
Público. Naquele tempo, o Passeio Público
tinha um aquário de água salgada
que sumiu. Eu fazia sempre questão de ir
lá, no aquário tinha uma moréia
muito grande, de meter medo. O meu pai dizia que
era venenosa. Tinha também cavalos-marinhos.
Eu também me distraia na loja do meu avô,
eu ia muito na seção quadros. Os
clientes eram pintores que levavam os quadros
pra emoldurar ali, então eu me interessei,
comecei a conhecer muito de arte por acaso. O
meu primeiro quintal de brincar foi justamente
nessa oficina de quadros. E embora eu visse o
Pão de Açúcar lá de
casa, com o bondinho de madeira, a coisa que eu
mais gostava era de ir num lugar que tivesse terra
e planta.
Aristides
Miranda de Albuquerque
nasceu no Rio de Janeiro, em 1918
Infância na Favela
do Pinto
A Favela do Pinto era ali agora em frente à
décima quarta. Décima quarta DP,
que hoje em dia se chama de Selva de Pedra. Que
fizeram um conjunto residencial grande lá.
Ali em si não podia brincar muito, porque
era muito peralta. Muita barulheira, muito tiro,
muito bagulho. Minha infância foi bola de
gude, peão. Bater na porta dos outros.
Tocar campainha. Tinha espaço. A gente
fazia as pipas. A gente comprava nas barraquinhas
ali vizinhas. Tipo uma birosca. A birosca tinha
tudo. Tinha coca-cola, cerveja, pirulito, bala,
doce, papel higiênico, arroz. Sempre que
faltava uma coisinha a gente corria lá
e apanhava.
Irany
Dantas nasceu
no Rio de Janeiro, em 1960
Brincadeiras
em Portugal
A
minha casa aquela casa assim de aldeia. De pedra
como a maioria das casas são. Simples.
Que é uma casa de campo, de agricultor.
Era muito bom. As brincadeiras naquele local em
que eu nasci e me criei eram brincadeiras de rua.
Aquela coisa que a gente hoje não tem mais.
Para mim foi uma infância muito boa mesmo.
Era brincar de boneca, dessas coisas muito simples.
Porque é um meio pequeno então não
tem essas coisas que a gente tem hoje em dia para
os filhos da gente. Era muito gostoso correr pelo
meio das plantações. No verão
que é muito gostoso. As árvores
todas floridas.
Irene
Maria Barandas
nasceu em Portugal, em 1944
Ajudando as jangadas
Éramos
quatro irmãos e eu me lembro muito que
tinha um pé de fruta-pão, eu não
sei se aqui no Rio tem isso, e nós brincávamos
muito e tinha um cachorro Collie, eu tinha a mania
de soltar ele de noite só para o meu pai
sair correndo de cueca atrás do cachorro,
porque ele mordia todo mundo na rua. A minha infância
era muito solta, não tinha essa coisa que
tem hoje, sempre praia e nós, quando chegavam
as jangadas, ajudávamos os pescadores a
empurrar os tocos de coqueiros para a jangada
chegar até a areia, para eles tirarem os
cestos de lagostas ou peixes e com isso nós
ganhávamos sempre lagosta, era uma felicidade
só!
Silvio
Guimarães Nascimento
nasceu em Recife, Pernambuco, em 1952
Menina do engenho
A
minha infância foi na usina de açúcar
Santa Tereza. E foi uma infância muito bonita,
passada em um canavial. Eu andava de cavalo, eu
dava banho no meu cavalo no riacho, eu ia para
a usina. O apito da usina é uma coisa que
não me sai da lembrança, da locomotiva
que carregava as canas pelo engenho e levava para
a usina. Muito pé no chão, muita
terra, muito cheiro de terra molhada. Havia diferença
entre brincadeira de menino e menina: menina brincava
de boneca e menino de brincava de coisas másculas.
Maria
Clara Tapajós
nasceu em Pernambuco, em 1945
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