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A arte, qualquer que seja, porque é arte, instiga a ver mais do que vêem os olhos, a ouvir mais do que podem os ouvidos, a gostar, cheirar, tatear de formas várias. Como ensina Manoel de Barros, em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer nascimentos, o verbo tem que pegar delírio.
A literatura infantil e juvenil tem como essência, pelas palavras e pelas imagens, pôr em evidência as fantasias, indagações, mistérios que povoam e produzem infâncias e crianças, sonhos dormidos e acordados. Esse é seu delírio.
Assim como tudo, ela tem histórias. Tem sua história e as histórias daqueles que fizeram suas histórias de história. Um mundo de narrativas que se fazem e se contam e se recontam.
Fosse o querer registrar a história da literatura infantil e juvenil desde sempre, seria impositivo voltar séculos atrás e indagar como, em cada época, os homens e mulheres perceberam a criança e a embalaram com suas vozes. Ou tomar como marco as primeiras histórias intencionalmente escritas para os pequenos, algo que, como apontam os especialistas, terá passado entre o final do século XVIII e início do século XIX. Limitando-nos ao Brasil, podia-se, reconhecendo em Lobato seu símbolo maior, buscar a história desde então. São opções que faz o historiador conforme a finalidade do que se quer iluminar.
Então, reconhecendo um movimento original de recriação da arte literária para crianças e jovens iniciado no final dos anos sessenta e que, deste então, expandiu-se, cresceu, modificou-se, enraizou-se na história social e cultura brasileira, a opção foi buscar a história oral daqueles que vêm fazendo esse movimento. Escritores, ilustradores, livreiros, críticos, líderes. Mas não a “história oficial”, e sim a história feita da muitas histórias de vida dessa gente.
Assim há que reconhecer que sequer se trata de fazer aparecer a história da literatura infantil e juvenil deste período, curto e intenso. Seria mais preciso dizer que o que se põem em evidência neste espaço são umas muitas trajetórias de umas tantas pessoas que fizeram esta história e as histórias que a compõem.
Tampouco seria apropriado dizer que são as biografias ou as autobiografias dos escritores da época destacada. São fragmentos de memória, que, reunidos, compõem um mosaico vivo e dinâmico. Aqui, a Ruth, a Ângela, o Ziraldo, a Tatiana, a Ana Maria, e outros tantos, aparecem não como escritores ou ilustradores ou editores ou promotores de cultura, que são, mas como pessoas do mundo que narram, como a gente toda narra, um pouco do que viveram, de sua infância e descoberta, de suas alegrias e dores de viver e fazer. Aparecem-nos neste espaço como pessoas quaisquer, em suas singularidades, oferecendo ao leitor a palavra que diz suas vidas, suas memórias antigas e recentes, seus fazeres e sonhares.
Mais e mas: o que se pôde registrar não é nem de todas as pessoas envolvidas nessa grande aventura nem o registro definitivamente e acabado. Houve aqueles que não puderam ser ouvidos, porque já não estavam aqui para contar sua história (e esse é um projeto de história oral). E houve os limites do fazer, que não permitiram, desde logo e do início, a presença de vozes e faces de tantos escritores, ilustradores, editores, críticos, pessoas intensas e de muita presença.
Por isso, como a história mesma da Literatura Infantil e Juvenil (e toda a História), este projeto projeta-se em aberto, e o processo de busca de novos depoimentos, outras narrativas, sua gravação, edição, publicação, tem de continuar, vivamente, intensamente. Esta história que seguirá a acontecer e, acontecendo, reparará as injustiças que os limites impuseram, mesmo que sempre fique a falta. Assim, irá se completando o que será sempre incompleto, com a participação e o envolvimento dos criadores que não puderam, por vários motivos, estar presentes, até agora, neste registro.
Então, por agora é isso o que há: um mundo de histórias de gente grande, que foi criança e que faz arte para criança – narrativas em que se delineiam experiências e fantasias que os fazedores de histórias infantis e juvenis tiveram e têm para dizer, suas memórias queridas, felizes e doloridas.
VI
No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá, Onde a criança diz:
Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
Funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta,
Que é a voz
De fazer nascimentos –
O verbo tem que pegar delírio.
Manoel de Barros
Uma Didática da Invenção (do O Livro das Ignorãnças)
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