

Maria Mello Barbosa
Nascimento: 09/12/1933, Correntes
Profissão: Costureira
Entrevistadores:
2º ciclo inicial, professora: Dirce Eugenio Gonçalves Gomes - EMEIEF Darcy Ribeiro - Santo André
Na primavera de 1933, no dia nove de dezembro, em Correntes, uma pequena cidade de Pernambuco, Elisa Machado Mello deu à luz uma menina, que há muito era aguardada. Ela seria a caçulinha em meio aos cinco irmãos.
”Vamos chamá-la de Maria”, decidiu Cícero Pacheco, o orgulhoso pai da criança.
Então, na pia batismal, ela recebeu o nome de Maria Mello Barbosa. A menina alegremente cresceu embalada no carinho da família, e junto a eles ensaiou seus primeiros passos no grande palco da vida. Um sítio se fazia de cenário para as primeiras traquinagens da menina, sempre na companhia dos irmãos.
Com a mãe, que a seu ver era “entendida nessas coisas”, conheceu as primeiras letras. Depois passou a frequentar uma “escola”, na qual havia mais quarenta crianças, todas numa única sala, num espaço sem divisões.
O interessante, como diz dona Maria, era a separação que havia entre eles: as meninas de um lado e os meninos do outro. Esse fato fugia de sua compreensão na época. A professora, dona Dirce, era boa, mas quando as crianças faziam algo de errado levavam a palmatória como castigo, além de serem obrigadas a ficar de costas para os colegas, olhando para a parede. Nesta “escola”, dona Maria começou a aprofundar seus conhecimentos. Foi quando conquistou os primeiros amigos: João, Pedro, Manoel e Alzira. Ao lado deles aprendeu a pular corda, amarelinha e a passar anel - esta última, sua brincadeira favorita.
As bonecas encantavam as meninas da época e foi com emoção que dona Maria nos contou da sua primeira boneca de pano, de cabelos longos e negros, de vestido cor-de-rosa enfeitado com florzinhas. Presente de sua mãe.
O tempo passava e a menina crescia, fortalecida ao sabor do “cozido” (prato típico da região) com carnes e legumes e “um monte de coisas mais, tudo misturado”, que a mãe fazia. Em suas lembranças também se encontram o doce cheiro das flores de laranjeira do pomar repleto de frutas frescas, que as crianças colhiam e degustavam ali mesmo.
“Era um tempo bom!”, reforça. As belezas do lugar, emolduradas com rios e cachoeiras, faziam sua alegria que, em meio aos amigos, se divertia banhando-se nas águas límpidas e frescas que cintilavam ao forte sol da região.
Com anseio em dar uma vida melhor para a sua família, o pai de Maria resolveu tentar a vida em São Paulo. E assim, por volta de 1942, a família partiu (emigrou), atrás desse sonho. Maria contava com mais ou menos nove anos. Ela nos contou que “não vieram de pau-de-arara, não”, pois o pai “estava melhorzinho”. O tio os levou de caminhão até Alagoas e, de lá, viajaram de trem até a Bahia. Da Bahia fizeram a viagem de um dia e uma noite até o Rio de Janeiro, a bordo de um navio. Conta-nos que os irmãos passaram muito mal e ela, mesmo sendo a menorzinha, tivera apenas um pouquinho de enjoo, fato que conta com orgulho. Passou a viagem toda correndo atrás de umas freiras que viajavam com eles, rezando terços e participando de orações junto a elas. Já nessa época demonstrava forte apego a religião, que até hoje pratica.
Do Rio de Janeiro embarcaram novamente num trem e acabaram por chegar a São Paulo, na antiga estação Roosevelt. Ela exclamava com um suspiro:
”Que estação linda!”, era muito grande...
Dali partiram, mais uma vez de trem, rumo à cidade de Marília e lá se estabeleceram por alguns anos, até que um dia um dos irmãos foi convocado para servir o Exército. Outro irmão veio para trabalhar na fábrica da GM. O pai, então, motivado pelos filhos, comprou um terreno em Utinga, que naquela época, era mato para todo lado, construiu um barracão e trouxe toda a família para Santo André. Foi uma época muito difícil para todos, não havia água encanada, ela tinha que ser retirada de um poço aos baldes e também não havia energia elétrica nas casas, eles tinham que usar lampiões a querosene. Ali, a jovem Maria vive o auge de sua adolescência.
As quermesses da igreja Santa Maria Goretti são parte de suas recordações, as brincadeiras, o pau-de-sebo, as comidas e bebidas típicas, enfim, tudo lhe é saudade. Nesta época, também participava ativamente da comunidade da igreja como Filha de Maria e conta com entusiasmo da veste branca com faixa azul sobre o peito e o véu na cabeça que usavam caracterizando as moças dessa ordem religiosa.
Maria conta com entusiasmo deste tempo sobre os bailinhos no salão em Santa Terezinha, ali perto de Utinga, aonde ia costumeiramente sempre em companhia da “mamãe”, muito bem frizado por ela “a mamãe sempre me acompanhava”. Tinha também o cinema, a que iam todos os domingos, e o auge do momento eram os filmes do Mazzaropi.
Ali mesmo em Utinga, reencontrou o amigo Manoel, aquele lá de Pernambuco, e restabeleceram a amizade que se fortaleceu ainda mais, “brotando” neles um sentimento sublime, “o primeiro amor”. A convivência, as brincadeiras e as afinidades trouxeram-lhes este sentimento, mas como ele não se efetivou, mais tarde, na rua Nova York, ali mesmo em Utinga, conheceu Norberto, um português moreno, de bigodes grossos, que com conversa franca o seu coração conquistou... A paixão surgiu e o amor entre os dois desabrochou e seu sonho se realizou: em 28 de setembro de 1957, aos vinte e três anos, com as amigas da ordem da Filhas de Maria, na igreja Santa Maria Goretti, num casamento comunitário, a jovem Maria se casou. Num lindo vestido branco, caprichosamente bordado, com decote princesa e saia rodada adentrou a igreja. No altar o amado noivo estava à sua esperava, também muito elegante vestindo um impecável terno azul marinho, estava lindo. “Hé,Hé... ele era lindo!”, exclamou entusiasmada.
Foi uma festa muito boa, com muitas comidas, doces de abóbora, de mamão, e uma bela sopa de entrada, que era o costume da época.
“Lua-de-mel não teve não, passamos a noite abrindo os presentes”.
Assim, dona Maria adquiriu sua independência com o casamento. Na verdade, saiu da dependência do pai e passou para a do marido, como disse ela: “No meu tempo não era assim como hoje, não tinha isso de independência. Nós devíamos obediência e respeito para o papai até casar, só assim ficávamos independentes, casando”.
Com o marido vio morar ano Parque Novo Oratório, num tempo em que era quase tudo mato e lama para todo lado; aqui onde se situa nossa escola hoje era um grande campo de futebol.
“Nos finais de semana tinha jogo e os jogadores se trocavam no campo mesmo, era um escândalo para a época e todo mundo reclamava”.
Segundo ela, era época do prefeito Lincon Grillo e, após uma promessa dele, em troca de alguns votos, conseguiram acabar com a bagunça do campo e foi construída essa escola.
O jovem casal, então, foi trabalhar em uma pensão ao lado do Frigorífico Swift, ali eles serviam cerca de cinqüenta pessoas por dia. Trabalharam muito até que o marido montou um açougue onde batalharam juntos por muitos anos.
Nessa época compraram uma chácara em São Matheus, onde criavam aves e animais para o abate no açougue de Norberto. Ali ficou por volta de vinte anos, local em que viveu muito feliz em meio aos cuidados com seus animais que, conta entusiasmada, eram bem limpinhos.
Entre um serviço e outro, era costume do casal as férias que passavam na praia, seu passeio preferido. Ali recompunham suas forças para continuar a “labuta”.
Porém como nada é eterno, infelizmente a pouco mais de cinco anos atrás seu Norberto adoeceu e veio a falecer, dona Maria perdeu seu grande amor e se entristeceu muito, mas como é uma mulher muito forte que não se deixa abater continua sua vida. Dona Maria não teve filhos, mas adotou os sobrinhos e seus filhos e com eles construiu uma relação de amor recíproco. Hoje vive na companhia deles e se considera uma pessoa feliz, pois está sempre pronta a auxiliar. O que faz com amor a quem necessitar pois, como relatou, “acredita que viemos aqui com uma missão e o que pudermos fazer de melhor em função do outro devemos fazê-lo, isso nos dá força de viver enobrecendo nossa alma”.