A familia Zweg aproveitando um domingo ensolarado na Holanda, 1919

 

 

Mirian no navio que a trouxe para o Brasil, 1948

 

Mirian com seus cachorros e sua empregada na fazenda em Salvador, 1953

 

 

Em viagem no Cairo, 1947

 

 

 

Com amigos em Buenos Aires 1960

 

 

Quarto da infância, década de 20

 

 

 

Mirian Elizabth Zweg Beckmann

Família

Minha família vivia em Viena, quando criança fui para Jerusalém, fiz toda a escola lá. A casa que meus pais construíram era muito bonita, era um pouco afastada da cidade e tinha um jardim todo moderno e bonito, morava com meus pais, irmãos e meus gatos. Sempre vinha alguém de fora nos visitar, era muito interessante, tive muitos amigos famosos. Conheci um pianista chamado Ruberman e os pintores Chagall e Ozan.

Não tive momentos bons nem ruins, vivi cada dia uma coisa bonita.

A relação com a minha família era muito boa, conversava bastante com eles, viajava sempre com minha irmã. Minha irmã fez arquitetura e meu irmão estudou em Londres.

Estudos

Meus estudos em Viena foram muito marcantes, estudei de 1934 à 1938. Sempre gostei de arte, gostava de desenhar, olhar pinturas, ir aos museus, concertos, tudo era muito bonito. Eu estava sozinha, meu pai e minha mãe estavam em Jerusalém, era muito bom, não tinha essa coisa de papai e mamãe, eu podia fazer o que quisesse.

Minha família pagou  os meus estudos e me deram muito apoio, afinal de contas alguém precisava pagar os meus estudos.

Durante a guerra eu fiz um curso de enfermeira, e logo após trabalhei dois anos no hospital militar inglês, gostava muito.

Fiz cursos no qual aprendi desenho de moda, design, e me tornei estilista, depois estudei arquitetura na Itália, mas não cheguei a me formar como arquiteta.

Guerra

Estava em Viena, cursando a escola de artes, por quatro anos, nas férias fui para Jerusalém de novo, mas eu não podia mais voltar por causa do Hitler. Em 1938 começou a guerra, o mundo todo estava sabendo da guerra, Deus me livre, fiquei muito triste quando escutei todas as coisas feitas aos judeus, com todos os parentes e amigos que eu tinha ali e que morreram, ainda bem que eu já estava bem longe.

Neste tempo eu fiz um curso de enfermeira, trabalhei dois anos no hospital militar inglês, gostava muito de trabalhar, eu era jovem e, naquele tempo trabalhar era outra coisa.

Marido

Conheci Moisés durante a guerra, eu trabalhava no hospital como enfermeira, um amigo que trabalhava no hospital havia me dito que um senhor de Praga estava muito mal no hospital, eu achei isso muito interessante pois o hospital era muito grande e eu não tinha percebido que ele estava internado lá.

Quando os guardas, que faziam a guarda no quarto dele, saíram, eu fui até ele levar um pouco de café, foi assim que o conheci.

Viagens

Sempre gostei muito de viajar, voltei algumas vezes para visitar a minha família, fui para Jerusalém, depois trabalhei e juntei dinheiro para poder fazer viagens em grupos para Lãs Vegas, Suíça, Itália, França, Japão, Tailândia, China e Filipinas. Viajei o mundo inteiro, todos me falavam : "- Você é louca, junta dinheiro para poder viajar", mas era muito bom, nunca tive problemas de adaptação nos países, eu falava inglês, alemão e inglês.

Todos os países possuem coisas maravilhosas, mas fiquei encantada com a cultura oriental, eles possuem coisas maravilhosas, a China já estava na frente do mundo no tempo de Marco Pólo.

Quando viajava nunca ia para as cidades grandes, ia sempre para o interior, as viagens não tinham muitos conforto, mas eu não ligava, desde que eu pudesse me lavar estava ótimo, era muito aventureira, nessa época meu marido já havia morrido.

Vinda para o Brasil

Os estrangeiros que moravam no Cairo precisavam deixar o país, era uma ordem do governo egípcio, não tínhamos para onde ir, então viemos para o Brasil, pois meu marido tinha parentes aqui.

Eu não conhecia muito sobre o Brasil, eu só fui conhecer depois que mudamos para cá.

A viagem não foi muito agradável, dormi com 150 mulheres, nem cadeira eu tive para sentar, a viagem demorou dois anos, faço amizades muito rápido, durante a viagem conheci uma francesa que foi para Buenos Aires, cheguei aqui em 1948, não muito alegre mas cheguei. Dinheiro eu não tinha, mas estava bom demais.

Primeira Impressão

Eu nunca vou esquecer quando o navio entrou no Rio de Janeiro, era madrugada e tinha uma vista que eu nunca tinha visto na minha vida, era uma coisa linda, fui até a proa do navio e disse " - Olha que coisa linda o Pão de Açúcar".

O sol ainda não tinha saído, tudo estava lindo, depois que cheguei no Rio, fui até a praia e lá vi como as mulheres brasileiras eram lindas.

O meu marido olhou, olhou e olhou e também concordou, mas os homens eram horríveis, pequenos, magros, um horror!. Como pode ter mulheres tão bonitas e homens tão horríveis.

Eu não senti diferença quando cheguei porque estava casada, mas eu estranhei que as mulheres eram todas submissas. Na Europa nunca teve diferença nenhuma  era tudo absolutamente normal, não era como aqui, mulher nem podia abrir a boca.

Vida no Brasil

Morei em São Paulo por pouco tempo, depois fui para o Recife, lá era lindo, eu gosto de qualquer cidade com praia.

Lembro da primeira vez que fui para o Recife, fazia muito calor, abri a porta e disse: "- Aqui não posso morrer!", estava um calor terrível, entrou cada barata enorme, eu fiquei desesperada.

Não tive muitos problemas de adaptação, o calor não era problema, Israel era quente e o Cairo mais  do que em Recife. O povo brasileiro é muito agradável, depois que você vive no Brasil não se acostuma com nenhum outro lugar. Meu marido sempre saia comigo, no Recife eu vivi como grã-fina, era muito bom, tinha animais e muitos amigos. Depois que vim para o Brasil, não tive tempo para estudar ou exercer minha profissão, nós começamos muito humildes, era dona de casa, não tive mais dinheiro para fazer Arquitetura.

Em 1955 meu marido faleceu em Recife. Fiquei casada muito pouco, só dez anos, fiquei viúva aos 38 anos. Não tive dinheiro nenhum, uma mulher sozinha em Recife era duro arranjar trabalho. Precisei deixar a casa de Recife porque não podia mais pagar, vendi meu carro e vim para São Paulo procurando trabalho.

Tive problemas para arrumar trabalho, era difícil porque nunca trabalhei para ganhar dinheiro, então eu aceitei qualquer coisa para poder pagar a comida, era muito duro. Não tive mais rotina, só trabalho. Trabalhei no EIAM como gerente, depois em outra loja também como gerente. Morava em um quartinho.

Casar de novo eu não queria, tinha muitos que queriam casar comigo, noivos ricos, mas eu não queria. Preferi trabalhar, ficar sozinha, apesar de meu casamento ter sido maravilhoso.

Lar

Tinha alugado um quarto bem bonito, no começo eu pensei "E se me acontece alguma coisa, todos os amigos já são idosos, quem vai me ajudar?" Então minha única saída foi o Lar. O Lar é bom, foi muito duro sair da minha casa e vir para cá porque você sabe que quando entra aqui já está na última estação.

Eu saio algumas vezes com algumas amigas, vou a concerto de cultura artística, teatro, ver amigos, jogar cartas. Saio com a bengala, mas saio.