Belo
Horizonte, 1945
Mesa
de trabalho em 1945. As fichas empilhadas registram as contas de
cada cliente. No fundo as fotos dos familiares
Furgão de 1949 com o nome de sua
loja (que tinha 3m de frente por 5m de fundo)
Bernardo com a família na porta
da sinagoga em 1989, quando seu neto, Marcelo, fez Bar-Mitzva (maioridade
judaica)
Sr. Bernardo, "cantor oficial" das festas
do Lar Golda Meir.
Festa de Pessach (Páscoa Judaica)
em abril de 2000. Sr. Bernardo fez os cantos litúrgicos
da cerimônia
Sr Bernardo fantasiado de "mercador
de peixes" ,com crianças da escola I.L. Peretz, numa festa
do Lar
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Familiares
Quando eu tinha um ano e meio perdi minha mãe. Fui morar
com minha avó, a mãe do meu pai, na Polônia,
pois meu pai viajou para o Brasil, em 1924. Depois que ela faleceu,
fiquei com meu tio, o irmão de meu pai até vir para
o Brasil. Só conheci meu pai quando ele veio para o meu Bar
Mitsvah, quando eu tinha treze anos. Ficou por um ano mas não
se acostumou, resolveu então voltar para o Brasil. Só
vim para este país em 1939.
As festas na Polônia não são como aqui. Dentro
de casa, na Sinagoga se fazia uma festinha e rezava. Me ensinaram
a rezar desde pequeno. Já nos casamentos não há
esses bolos de cinco andares, se fazia mais comida. Minha tia era
quem fazia as comidas. Estas festas começavam na quarta-feira
e iam até domingo, dependendo da família.
Casei-me no dia quinze de dezembro de 1946. Quando a conheci, foi
amor a primeira vista. Ela tinha o cabelo bonito, loiro e era baixinha.
Encontrei-a em Belo Horizonte. Aí eu falei: quer saber de
uma coisa, vou namorar pra casar, se eu não vou casar com
essa moça, então eu não caso mais. Quer saber,
aconteceu. Um dia encontrei o pai dela em Belo Horizonte pois naquela
época ainda existia o fato do pai tratar do casamento no
lugar da filha ou do filho. Deu certo, graças a Deus, fui
pra lá, conversamos e ela me aceitou. Eu não perguntei
se ela gostava de mim,pois ela poderia dizer que não. Depois
contou que também gostava de mim. Nosso noivado e casamento
não levou nem dois meses, porque ela levava trinta horas
de viagem de Belo Horizonte à Montes Claros e não
tínhamos como sustentar viagens a toda hora já que
eu não tinha carro. Andava a pé, de bonde ou de ônibus.
Após treze meses nasceu nosso primeiro filho.
Sou
viúvo há vinte e quatro anos,tenho dois netos morando no Canadá,
dois em Brasília e dois aqui em São Paulo.
Terra
Natal
Judeu
não podia estudar junto dos outros, mas eu estudava e eu
tinha uma professora que ensinava polonês. Estudei dos sete
aos dezoito anos e na verdade eu estudava a noite e trabalhava de
dia. Comecei a trabalhar com nove anos, numa perfumaria. Como meu
avô disse que eu não podia trabalhar aos sábados,
eu trabalhava aos domingos. Meu patrão era muito bom. Ele
me ensinou a ser um bom empregado e a ser um bom patrão.
Eu fui um bom patrão para os meus empregados e um bom empregado.
Graças a Deus! Porque quem faz um bom patrão é
o próprio empregado.
A cidade era pequena, tudo era perto. Não tinha ônibus,
trem nem bonde. Tinha sim um trem que passava de uma cidade para
a outra.
Na
Polônia a vida era diferente do Brasil, o clima era frio e
as pessoas andavam sempre agasalhadas e quase nunca saiam de casa.
Mas no verão a gente brincava nas dunas de areia que existiam
atrás da minha casa. Nós rolávamos de cima
até em embaixo.
Vinda
para o Brasil
Nós
viemos para o Brasil de navio, assim que telefonaram para meu pai
e todos os outros imigrantes. Parte dos imigrantes foram para o
Brasil e outra parte para Argentina e Chile. Paramos quinze dias
na França para trocar de navio. Estava demorando a chegar
e meu pai telefonava para saber se tinha acontecido alguma coisa.
Mas nos últimos três, como não
tinha notícia nenhuma, a minha madrasta sonhou que chegou
uma senhora com duas malas, entrou e minha madrasta assustada perguntou:
quem é a Senhora, quem é você? E a mulher disse:
Olha para o menino mais novo e vai saber quem eu sou. Porque eu
parecia muito com ela. Então, ela virou e saiu de costas.
Minha madrasta acordou, chamou meu pai, Michel, e disse: Eu não
sei quem é essa senhora, uma senhora assim, assim e assim,
trouxe duas malas e disse que nós, eu e meu irmão,
íamos chegar dentro de alguns dias. Ela descreveu a mulher
e meu pai disse que era a minha mãe. Após uns três
dias nós chegamos. Foi um sonho maravilhoso!!
Meu emprego
Comecei a trabalhar vendendo gravatas no Rio de Janeiro, quando
cheguei, em 1939. Gostava. Depois vendi balas na praia de Copacabana.
Vestia calça e camisa branca .Não sabia falar português
mas me ensinaram a gritar "Alô baleiro". Eu vendia horrores,
naquela época existia a moeda Réis, quatrocentos Réis,
quinhentos Réis, eu chegava em casa ao meio-dia, pra me trocar
e pra almoçar pois já tinha vendido tudo e o bolso
estava cheio de dinheiro. Com um Réis, você podia almoçar
e tomar seis dúzias de cerveja. Nunca passei fome, mas tive
dificuldades em alguns momentos. O meu trabalho sempre foi de comerciante
ambulante, mas uma vez tive uma loja que era dentro de um quarto
da minha casa, era mais um depósito. Haviam quatro ou cinco
vendedores. E continuei vendendo de porta em porta.
Vendia o que os judeus vendiam; tecidos e roupas. Apesar de não
falar português, as freguesas escreviam o nome delas certinho.
Dava tudo certo e nunca ninguém me enganou e o patrão
recebia o dinheiro e elas sempre estavam no lugar certo. Este era
tão bom quanto aquele que tive na Polônia.
Trabalhei
até o ano de 1985 quando, então, me aposentei.
Viagens
Inesquecíveis
Em
Mogi Mirim, Brasil, morei vinte anos. Logo após o falecimento
da minha senhora ainda fiquei dois anos mas depois fui para Israel,
onde fiquei do mês de abril até novembro. Em seguida
fui para os Estados Unidos permaneci apenas um mês.
Não gostei de lá, não gosto de americano. Em
Israel, descobri uma prima que se salvou da guerra e estava morando
nos Estados Unidos e fui visita-la. Faziam mais de 40 anos que não
a via.. Fiquei um mês com ela e voltei para o Brasil, em dezembro
de 1978.
Depois fui para Poços de Caldas, também no Brasil,
onde fiquei mais vinte anos. Estou aqui no Lar, vai fazer no mês
que vem, no dia vinte e quatro de junho, três anos.
Naquela época existia avião, o Pan Am do Brasil, que
fazia Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Poços de Caldas e São
Paulo, ida e volta. Eram mais ou menos vinte e oito passageiros.
Era muito bom, muito bom. O avião tinha aeromoça e
era confortável. Fazia Montes Claros e Belo Horizonte em
uma hora e meia. Na 1ª viagem que fiz pra Montes Claros fiquei
com medo porque no caminho tem uma cidade chamada Diamantina, onde
Juscelino Kubstcheck nasceu.Lá é muito frio, então
tinha umas nuvens no céu e o avião subia e descia.
Eu ainda estava com uma revista da Guerra, aí pensei: se
eu não morri na Guerra, acho que vou morrer aqui. Mas graças
a Deus demorou cinco minutos o susto todo.
Pátria
Amada Brasil
No
Brasil continuei uma vida de solteiro, não era ruim, mas
não era grande coisa, já que eu não sabia falar
português. Mas eu me saia bem, muitas pessoas me ensinaram
e me ajudaram a falar, principalmente os próprios brasileiros.
E uma coisa eu digo: eu nasci de novo no Brasil. Eu tive dois nascimentos,
um na Polônia e outro no Brasil. O brasileiro é um
povo muito bom e aqui fui vivendo a minha vida, trabalhando e me
divertindo. No Rio de Janeiro tive muitos amigos assim como em Belo
Horizonte, mas eu sempre achava que eu vivia sozinho. Mas nós
judeus, Graças a Deus, aqui não somos mau vistos.
A
gente escutava o futebol no rádio, mas eu não gostava
de jogar. No Rio meu time é o América e em Belo Horizonte
também. Em Vitória era o Vitória. Em Mogi Mirim
eu era São paulino. Quando joga o Palmeiras eu torço
para ele ganhar. Mas quando ele joga com o São Paulo, não
interessa, eu quero o empate.
Na hora do lazer
Na verdade eu não gostava de cinema. Eu gostava mais de dançar
do que de cinema. E quem gosta de dançar acha sempre um lugar
para a gafieira. Aliás, sou fã de todas as músicas
brasileiras, o samba, o bolero, o rock, nossos tangos... eu gosto
muito é de dançar não importa a música.
Me lembro como hoje, uma vez que dancei na Polônia. Tinha
dezessete anos e eu e meus amigos fomos numa festa e eu dancei a
valsa com uma menina. Mas na valsa não dançávamos
como aqui tudo juntinho, dançávamos longe. No Brasil,
naquela época haviam também bailes familiares, chique,
onde a gente tinha que entrar usando terno e gravata.
Eu nunca gostei de jogo, fumo, que parei fazem vinte e quatro anos,
ou bebida, porém gosto de beber socialmente.
Tecnologia
Foi em Poços de Caldas, antes de mudar para Mogi Mirim que tive o primeiro contato com a televisão. Lá
tinha montanhas enormes cheias de pedra e o gerente da Pan Am Brasil
arranjou uma televisão, mas não tinha o carro de praça
e não podia subir. E eu tinha um carro "A Caçula"
(carro americano 49) e nós experimentamos esse carro e subiu
o morro. Levaram uma antena e a instalaram. Apareceu alguma coisa,
mas imagem não, só barulho. E depois a televisão
veio de vez quando eu morava em Mogi Mirim.
Já a calculadora, ela chegou mas eu fazia mais rápido
de cabeça. É muito boa a máquina, mas é
muito fácil fazer conta, então, porque não
funcionar a cabeça. Não sou contra porque muita gente
ganha muito dinheiro com isso. Mas como eu nunca trabalhei para
ficar milionário e continuo achando que precisa funcionar
a cabeça, como ler tem que funcionar a cabeça, fazer
conta também.
Ando
de metrô e ônibus, tenho passe, não pago nada,
mas quando posso prefiro ir a pé.
Quanto
ao computador, acho que não tenho mais cabeça para
aprender. Se ainda fosse uns dez ou quinze anos atrás eu
arriscaria.
Antigamente
não existia rádio pequeno como tem hoje. Mas a gente
escutava naquele grandão mesmo.
Eu
penso
Eu
não posso dizer que tenho qualidade, as qualidades que tenho
só os outros podem julgar. Eu não me julgo.
Eu não tenho mais idade para querer realizar coisas. Eu vivi
no meio de pessoas de bem, aprendi muitas coisas e estou
aprendendo até hoje.
O mundo não é mais o mesmo. Tudo mudou, e o meu maior
desejo é viver em paz, tranqüilo, me divertir, dançar
e cuidar dos meus amigos para que eles possam também cuidar
de mim. Tenho muita coisa para dar e em troca não quero nada.
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