Bernardo Mejlachowicz

Bernardo carregando toalhas de mesa e cortes de camisa, que vendia de porta em porta

Bernardo Mejlachowicz, nasceu na Polônia, em setembro de 1920. Filho de pais poloneses. Seu pai Maurício era pintor artístico e sua mãe, Chuma, tinha uma pequena fábrica de roupas de homens. Seu único irmão veio com ele para o Brasil. Sua mãe faleceu quando era criança. Veio para o Brasil, ao encontro de seu pai, em 1939. Morou em vários lugares, como o Rio de Janeiro, Vitória, Belo Horizonte, Poços de Caldas, Mogi Mirim e São Paulo. Trabalhou sempre como comerciante, primeiro ambulante depois em sua loja. Casou-se em 1946 e teve quatro filhos. Viúvo há 24 anos, tem seis netos. Vive no Lar Golda Meir desde 1997. Gosta muito de conversar, dançar e cantar nas festas do Lar.

Belo Horizonte, 1945

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mesa de trabalho em 1945. As fichas empilhadas registram as contas de cada cliente. No fundo as fotos dos familiares

 

 

 

 

 

 

 

Furgão de 1949 com o nome de sua loja (que tinha 3m de frente por 5m de fundo)

 

 

 

 

 

 

Bernardo com a família na porta da sinagoga em 1989, quando seu neto, Marcelo, fez Bar-Mitzva (maioridade judaica)

 

 

 

 

 

 

Sr. Bernardo, "cantor oficial" das festas do Lar Golda Meir.

 

 

 

 

 

Festa de Pessach (Páscoa Judaica) em abril de 2000. Sr. Bernardo fez os cantos litúrgicos da cerimônia 

 

 

 

 

 

 

Sr Bernardo fantasiado de "mercador de peixes" ,com crianças da escola I.L. Peretz, numa festa do Lar

 

 

 

Familiares

Quando eu tinha um ano e meio perdi minha mãe. Fui morar com minha avó, a mãe do meu pai, na Polônia, pois meu pai viajou para o Brasil, em 1924. Depois que ela faleceu, fiquei com meu tio, o irmão de meu pai até vir para o Brasil. Só conheci meu pai quando ele veio para o meu Bar Mitsvah, quando eu tinha treze anos. Ficou por um ano mas não se acostumou, resolveu então voltar para o Brasil. Só vim para este país em 1939.

As festas na Polônia não são como aqui. Dentro de casa, na Sinagoga se fazia uma festinha e rezava. Me ensinaram a rezar desde pequeno. Já nos casamentos não há esses bolos de cinco andares, se fazia mais comida. Minha tia era quem fazia as comidas. Estas festas começavam na quarta-feira e iam até domingo, dependendo da família.

Casei-me no dia quinze de dezembro de 1946. Quando a conheci, foi amor a primeira vista. Ela tinha o cabelo bonito, loiro e era baixinha. Encontrei-a em Belo Horizonte. Aí eu falei: quer saber de uma coisa, vou namorar pra casar, se eu não vou casar com essa moça, então eu não caso mais. Quer saber, aconteceu. Um dia encontrei o pai dela em Belo Horizonte pois naquela época ainda existia o fato do pai tratar do casamento no lugar da filha ou do filho. Deu certo, graças a Deus, fui pra lá, conversamos e ela me aceitou. Eu não perguntei se ela gostava de mim,pois ela poderia dizer que não. Depois contou que também gostava de mim. Nosso noivado e casamento não levou nem dois meses, porque ela levava trinta horas de viagem de Belo Horizonte à Montes Claros e não tínhamos como sustentar viagens a toda hora já que eu não tinha carro. Andava a pé, de bonde ou de ônibus. Após treze meses nasceu nosso primeiro filho.

Sou viúvo há vinte e quatro anos,tenho dois netos morando no Canadá, dois em Brasília e dois aqui em São Paulo.

Terra Natal

Judeu não podia estudar junto dos outros, mas eu estudava e eu tinha uma professora que ensinava polonês. Estudei dos sete aos dezoito anos e na verdade eu estudava a noite e trabalhava de dia. Comecei a trabalhar com nove anos, numa perfumaria. Como meu avô disse que eu não podia trabalhar aos sábados, eu trabalhava aos domingos. Meu patrão era muito bom. Ele me ensinou a ser um bom empregado e a ser um bom patrão. Eu fui um bom patrão para os meus empregados e um bom empregado. Graças a Deus! Porque quem faz um bom patrão é o próprio empregado.

A cidade era pequena, tudo era perto. Não tinha ônibus, trem nem bonde. Tinha sim um trem que passava de uma cidade para a outra.

Na Polônia a vida era diferente do Brasil, o clima era frio e as pessoas andavam sempre agasalhadas e quase nunca saiam de casa. Mas no verão a gente brincava nas dunas de areia que existiam atrás da minha casa. Nós rolávamos de cima até em embaixo.

Vinda para o Brasil

Nós viemos para o Brasil de navio, assim que telefonaram para meu pai e todos os outros imigrantes. Parte dos imigrantes foram para o Brasil e outra parte para Argentina e Chile. Paramos quinze dias na França para trocar de navio. Estava demorando a chegar e meu pai telefonava para saber se tinha acontecido alguma coisa. Mas nos últimos três, como não tinha notícia nenhuma, a minha madrasta sonhou que chegou uma senhora com duas malas, entrou e minha madrasta assustada perguntou: quem é a Senhora, quem é você? E a mulher disse: Olha para o menino mais novo e vai saber quem eu sou. Porque eu parecia muito com ela. Então, ela virou e saiu de costas. Minha madrasta acordou, chamou meu pai, Michel, e disse: Eu não sei quem é essa senhora, uma senhora assim, assim e assim, trouxe duas malas e disse que nós, eu e meu irmão, íamos chegar dentro de alguns dias. Ela descreveu a mulher e meu pai disse que era a minha mãe. Após uns três dias nós chegamos. Foi um sonho maravilhoso!!

Meu emprego

Comecei a trabalhar vendendo gravatas no Rio de Janeiro, quando cheguei, em 1939. Gostava. Depois vendi balas na praia de Copacabana. Vestia calça e camisa branca .Não sabia falar português mas me ensinaram a gritar "Alô baleiro". Eu vendia horrores, naquela época existia a moeda Réis, quatrocentos Réis, quinhentos Réis, eu chegava em casa ao meio-dia, pra me trocar e pra almoçar pois já tinha vendido tudo e o bolso estava cheio de dinheiro. Com um Réis, você podia almoçar e tomar seis dúzias de cerveja. Nunca passei fome, mas tive dificuldades em alguns momentos. O meu trabalho sempre foi de comerciante ambulante, mas uma vez tive uma loja que era dentro de um quarto da minha casa, era mais um depósito. Haviam quatro ou cinco vendedores. E continuei vendendo de porta em porta.

Vendia o que os judeus vendiam; tecidos e roupas. Apesar de não falar português, as freguesas escreviam o nome delas certinho. Dava tudo certo e nunca ninguém me enganou e o patrão recebia o dinheiro e elas sempre estavam no lugar certo. Este era tão bom quanto aquele que tive na Polônia.

Trabalhei até o ano de 1985 quando, então, me aposentei.

Viagens Inesquecíveis

Em Mogi Mirim, Brasil, morei vinte anos. Logo após o falecimento da minha senhora ainda fiquei dois anos mas depois fui para Israel, onde fiquei do mês de abril até novembro. Em seguida fui para os Estados Unidos permaneci apenas um mês. Não gostei de lá, não gosto de americano. Em Israel, descobri uma prima que se salvou da guerra e estava morando nos Estados Unidos e fui visita-la. Faziam mais de 40 anos que não a via.. Fiquei um mês com ela e voltei para o Brasil, em dezembro de 1978.

Depois fui para Poços de Caldas, também no Brasil, onde fiquei mais vinte anos. Estou aqui no Lar, vai fazer no mês que vem, no dia vinte e quatro de junho, três anos.

Naquela época existia avião, o Pan Am do Brasil, que fazia Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Poços de Caldas e São Paulo, ida e volta. Eram mais ou menos vinte e oito passageiros. Era muito bom, muito bom. O avião tinha aeromoça e era confortável. Fazia Montes Claros e Belo Horizonte em uma hora e meia. Na 1ª viagem que fiz pra Montes Claros fiquei com medo porque no caminho tem uma cidade chamada Diamantina, onde Juscelino Kubstcheck nasceu.Lá é muito frio, então tinha umas nuvens no céu e o avião subia e descia. Eu ainda estava com uma revista da Guerra, aí pensei: se eu não morri na Guerra, acho que vou morrer aqui. Mas graças a Deus demorou cinco minutos o susto todo.

Pátria Amada Brasil

No Brasil continuei uma vida de solteiro, não era ruim, mas não era grande coisa, já que eu não sabia falar português. Mas eu me saia bem, muitas pessoas me ensinaram e me ajudaram a falar, principalmente os próprios brasileiros. E uma coisa eu digo: eu nasci de novo no Brasil. Eu tive dois nascimentos, um na Polônia e outro no Brasil. O brasileiro é um povo muito bom e aqui fui vivendo a minha vida, trabalhando e me divertindo. No Rio de Janeiro tive muitos amigos assim como em Belo Horizonte, mas eu sempre achava que eu vivia sozinho. Mas nós judeus, Graças a Deus, aqui não somos mau vistos.

A gente escutava o futebol no rádio, mas eu não gostava de jogar. No Rio meu time é o América e em Belo Horizonte também. Em Vitória era o Vitória. Em Mogi Mirim eu era São paulino. Quando joga o Palmeiras eu torço para ele ganhar. Mas quando ele joga com o São Paulo, não interessa, eu quero o empate.

Na hora do lazer

Na verdade eu não gostava de cinema. Eu gostava mais de dançar do que de cinema. E quem gosta de dançar acha sempre um lugar para a gafieira. Aliás, sou fã de todas as músicas brasileiras, o samba, o bolero, o rock, nossos tangos... eu gosto muito é de dançar não importa a música. Me lembro como hoje, uma vez que dancei na Polônia. Tinha dezessete anos e eu e meus amigos fomos numa festa e eu dancei a valsa com uma menina. Mas na valsa não dançávamos como aqui tudo juntinho, dançávamos longe. No Brasil, naquela época haviam também bailes familiares, chique, onde a gente tinha que entrar usando terno e gravata.

Eu nunca gostei de jogo, fumo, que parei fazem vinte e quatro anos, ou bebida, porém gosto de beber socialmente.

Tecnologia

Foi em Poços de Caldas, antes de mudar para Mogi Mirim que tive o primeiro contato com a televisão. Lá tinha montanhas enormes cheias de pedra e o gerente da Pan Am Brasil arranjou uma televisão, mas não tinha o carro de praça e não podia subir. E eu tinha um carro "A Caçula" (carro americano 49) e nós experimentamos esse carro e subiu o morro. Levaram uma antena e a instalaram. Apareceu alguma coisa, mas imagem não, só barulho. E depois a televisão veio de vez quando eu morava em Mogi Mirim.

Já a calculadora, ela chegou mas eu fazia mais rápido de cabeça. É muito boa a máquina, mas é muito fácil fazer conta, então, porque não funcionar a cabeça. Não sou contra porque muita gente ganha muito dinheiro com isso. Mas como eu nunca trabalhei para ficar milionário e continuo achando que precisa funcionar a cabeça, como ler tem que funcionar a cabeça, fazer conta também.

Ando de metrô e ônibus, tenho passe, não pago nada, mas quando posso prefiro ir a pé.

Quanto ao computador, acho que não tenho mais cabeça para aprender. Se ainda fosse uns dez ou quinze anos atrás eu arriscaria.

Antigamente não existia rádio pequeno como tem hoje. Mas a gente escutava naquele grandão mesmo.

Eu penso

Eu não posso dizer que tenho qualidade, as qualidades que tenho só os outros podem julgar. Eu não me julgo.

Eu não tenho mais idade para querer realizar coisas. Eu vivi no meio de pessoas de bem, aprendi muitas coisas e estou aprendendo até hoje.

O mundo não é mais o mesmo. Tudo mudou, e o meu maior desejo é viver em paz, tranqüilo, me divertir, dançar e cuidar dos meus amigos para que eles possam também cuidar de mim. Tenho muita coisa para dar e em troca não quero nada.