Sra Hariette

 

 

Dona Harriete

D. Harriete tem 87 anos e 2 filhos. É muito religiosa e vem de uma família também muito religiosa. Quando chegou no lar, não aceitava o uso da energia elétrica, elevador, etc. Teve uma educação muito rígida e repressora. Gosta muito de brincar, e odeia brigas, nunca brigou na vida, acha que não vale a pena.

Nacionalidade e Religiosidade

Nasceu no Egito, é judia assim como todos da família, mas é considerada iraniana pois só era considerado egípcio quem tinha família egípcia e seu bisavô era iraniano. Não pode voltar para o Irã hoje por causa dos conflitos que existem naquela região à cerca de causas religiosas; mas tem um primo, que é professor de Hebraico, que ainda mora lá. O pai e a mãe eram bastante religiosos. Certa vez o filho de uma das irmãs encontrara um famoso rabino durante uma viagem para os Estados Unidos e nesse encontro o rabino intimara-o a seguir ortodoxamente a religião. Depois desse encontro o filho se tornara tão religioso que se negava a usar elevador tendo que subir 7 andares usando a escada, se negava a jogar cartas por dinheiro como fazia antes, entre outros hábitos.

Ela também é muito religiosa. Quando ainda era jovem e chegou no Lar negava-se a usar luz elétrica, elevador, etc. Hoje em dia usa mas com consciência de que Deus sabe que ela não pode mais subir 7 andares de escada ou entrar num quarto escuro sem enxergar por onde anda. Não tem medo de morrer pois sabe que Deus gosta dela

A casa no Egito e a Família

Tinha duas casas no Egito, uma no Cairo, para o inverno, e uma em Alexandria, para o verão. Como as quatro estações no Egito eram bem equilibradas, ao contrário do Brasil, ela fazia uma viagem de 3 horas pelo deserto. O inverno era sempre frio; em Alexandria durante a noite era mais frio do que no Cairo pois no verão era realmente quente durante o dia e agradável durante a noite. Mas não só ela como a família inteira morava com o pai. A casa em Alexandria era grande e o pai adorava dar festas com a família. Ela gostava de fazer tricô, crochê, pinturas, mas agora, infelizmente, como não enxerga bem, não faz mais. Teve 9 irmãos. Um de seus irmãos, com onze meses, passou um dia chorando muito. Chamaram um médico, e ele disse que o bebê não tinha nada. No dia seguinte o bebê amanheceu morto.

A Escola

Quando jovem, queria ser advogada, mas não se formou em nenhuma faculdade pois o pai não deixou. No Egito nenhuma mulher trabalhava, não era permitido a mulheres freqüentar uma faculdade e acima de tudo era uma ofensa ao homem da família se uma mulher trabalha-se. Ia na escola nossa senhora dos apóstolos, um colégio de freiras. Para ir para escola no Egito tinha de atravessar o Nilo a remo todo dia. Quando tinha uns 11 anos, 12 anos, ela e sua irmã alugaram uma barca e remaram até longe. Acabaram contando para seus pais, e foram proibidas de andar de barca. Ela ia para o colégio de barca, em no máximo 10 pessoas. Era muito boa aluna, tinha muito boa memória, não precisava estudar muito. A escola era de período integral: entrava às 8 horas da manhã e saia às 5 horas da tarde. Aprendia na escola: francês, inglês e árabe. Mais francês do que inglês ou árabe, isso porque essas duas últimas eram opcionais.

A Vinda para o Brasil

Seu filho tinha sido vítima de uma bala perdida e ela não quis mais ficar no Egito. Seu marido então mandou uma carta para irem para outro pais. Por acaso, e não por escolha, ela acabou vindo para o Brasil. Ainda na Itália souberam que não podiam descer em Santos e foram mandados aportar no Rio de Janeiro. Mandaram um telegrama para familiares no Rio, avisando da sua chegada. Chegando no Rio ninguém estava lá para recebê-los. O telegrama chegaria apenas dez dias depois. Isso havia sido há 48 anos atrás.
Quando foi para Recife a cidade estava suja, mal conservada e era pouco civilizada. Ao chegar no Brasil o marido dela se sentiu chocado ao ver meninos e meninas andando juntos na rua. Nesse tempo a sua cidade natal era muito mais civilizada do que aqui. Morou no Ipiranga durante 32 anos.

Amizades e o Marido

Tinha uma amiga muito morena, e como ela era muito branca, as pessoas falavam que ela era preta. Sua amiga morava numa aldeia pequena e ia para a escola de burro. Às vezes ela ia com a irmã na casa dessa amiga de burro. A amiga era um amor de pessoa. Ela casou com um médico. Essa amiga brigara muito com ela insistindo que se casasse com seu irmão. Ela gosta muito de fazer amigos.

Ela diz que seus filhos são muito lindos e que seu marido é bonito até hoje, e ela não tem medo de mau olhado. Diz que gosta de brincar. Brigou uma vez só na vida: um dia ela estava chegando do trabalho e sua vizinha começou a reclamar que ela deixava as folhas jogadas e seu marido quase caiu, e elas discutiram.Então ela explicou o que tinha acontecido e ela pediu desculpas. Ficaram amigas, e são amigas até hoje.

Seu marido foi muito bom pra ela. Sempre que pediu dinheiro, nunca perguntou quanto ela pegou ou no que ela gastou. Quando ela queria alguma coisa, ele sempre dava, sem ela nem precisar pedir. Ele tinha várias mulheres, o que caísse na rede era peixe. Mas nenhuma era fixa, e ela não ligava, pois a matriz era ela. As amigas, irmãs, perguntavam como ela agüentava, mas ela não estava nem aí. Ela disse que se sentia melhor do que elas. Era jovem, bonita, bem feita, então era melhor do que as outras mulheres que ele arranjava. Ela nunca levou mágoa de nada. Diz que tem que aceitar a vida como ela é. Ela diz que falam que ela tem sangue de barata. Ela acha que não tem razão pra guardar ressentimento.

Tradição

Diz que as coisas hoje são muito diferentes, completamente ao contrário do que eram antigamente. Antigamente uma mulher não podia sair com um homem antes do casamento ser arranjado pelo pai. Uma vez seu marido deixou a irmã e o cunhado em casa e foi com ela sozinha até sua casa. Quando seu pai viu, ficou muito bravo, e falou que sua filha não podia sair com ele enquanto não tivesse casada. A escola separava meninos e meninas desde a infância e eles só poderiam se ver quando fossem se casar. E quando fosse sair com seu pretendente, um irmão mais velho tinha que ir junto. Hoje ela sai quando quer, vai à casa da irmã. Quando seu marido era vivo, ela ia só as sextas. Seu pai não gostava que ela saísse com as amigas. Para ir ao cinema, seu pai ia com ela, ficava do lado de fora para quando ela sair, ele já levá-la embora. Sua educação foi muito dura e rigorosa.

Tirando a Sorte no Café

Quando ainda morava no Egito o pai tinha duas lojas: uma de varejo e outra atacado. Ainda criança vivia a atormentar a vida de um dos lojistas na loja de varejo. Nas fofocas que aconteciam na loja, ela ficou sabendo que ele estava noivo. Perguntou então se ele queria tirar a sorte no café. Como já sabia da moça disse a ele a descrição da moça e disse que ele achava que ia casar com ela. Brincando com ele disse que não ia casar com ela porque o seu pai ia brigar com o pai dela. E então ia se casar não com aquela moça, morena, mas com uma loira. No fim as palavras, que haviam sido brincadeira, acabaram se concretizando; e até hoje ela tira a sorte através do café. Uma outra vez quando chegou aqui no Brasil, a mulher do primo do marido estava grávida e perguntou a ela qual seria o sexo da criança. Mas uma vez acertou quando disse que havia de ser uma menina.

Seu filho trabalhava no banco Novo Mundo, e iam algumas meninas até sua casa para ler a sorte. Uma vez uma menina foi perguntar quando ia casar, e ela disse que ainda ia demorar. As meninas começaram a dar risada. Ela perguntou por que e elas disseram que ela ia casar amanhã.Outra vez uma outra menina foi perguntar quando ia casar e ela disse que ela ia casar logo. No dia seguinte choveu, e um homem ofereceu carona à menina. Ela aceitou, foram conversando e depois de 6 meses eles se casaram.Depois de um tempo ela encontrou a menina novamente, que lhe contou que estava casada e tinha gêmeos! Ela diz que as vezes acerta, as vezes erra.

A Vida Hoje

Dos irmãos tinha mais afinidade com Elias. Todo domingo ela vai à casa dele e joga baralho. Logo depois da morte de seu marido, ela ia à casa dele todas as tardes.Ele e sua mulher são ótimas pessoas. Ano passado ela ia para Israel, um sonho seu. Mas depois ela mandou o dinheiro para o seu filho, ele veio para cá e ficou 3 meses.Ela disse que era porque ela é velha, o que ela ia fazer? E se ela morresse no meio do vôo? Ele é jovem, ele pode vir, pode ir, o que ela ia fazer la? Agora ele quer voltar, gosta daqui, tem muitos amigos, quando ele estava aqui eles quase não o viam, ele é amigo até do rabino daqui.