Merei Zakoum

Merei Zakoum nasceu no sul da Itália em 1927, durante a infância e a adolescência fez dezenas de viagens para Israel, Marrocos e Itália. Casou com apenas vinte anos, e, com vinte nove anos embarcava em um navio rumo ao novo mundo. Na bagagem sonhos, esperanças e acima de tudo força de vontade.


Família

Nasci no norte da Itália em 1927, morava com meus pais e meus irmãos. O relacionamento com meu pai e minha mãe era muito bom, nos tivemos uma educação exemplar, minha mãe era muito severa. Não se fazia o que ela não queria, já meu pai era mais maleável. Minha mãe era dona de casa e meu pai vendedor ambulante, ele vendia amendoim, nozes, e outros doces mais. Nós tínhamos uma vida regular, média, não éramos ricos, mas sabíamos viver.

Infância

Na Itália, cidade que eu nasci e cresci, tinha uma escola israelita, estudei nela do maternal até os onze anos. Tinha bastante amigos, naquele tempo brincávamos nas ruas de amarelinha, de pedrinhas e outras coisas. Não era como hoje, tudo feito pelo computador.
A minha mãe me dava banho, me vestia com uma roupa limpa e me dizia:
- Não vai sujar sua roupa.
Mas de nada adiantava a advertência da minha mãe, eu saía para a rua para brincar e acabava me sujando novamente.

Quando tinha onze anos, fui com a minha família para Marrocos, onde morei durante seis anos e cursei a aliança israelita francesa.
Em 1938, tivemos que deixar Marrocos, porque Mussolini nos expulsou, saímos seis meses antes da Guerra e voltamos para a Itália, graças a Deus a gente se salvou.

Israel

Em 1945 meu pai resolveu levar a família para Israel, era uma tentativa de meu pai melhorar a situação econômica de minha família. Morávamos em quarto e cozinha, o banheiro era do lado de fora da casa, porque era uma casa no subúrbio, todas as casas do subúrbio eram assim, morávamos em um bloco com quatro casas.Quando cheguei em Israel, trabalhei na roça e depois eu consegui arrumar um emprego em uma fábrica de embalagens. Eu gostava muito de trabalhar lá, tinha um bom ambiente, e além do, mas eu ganhava mais que qualquer outro da minha família, e no mesmo tempo que eu trabalhava, ia aprendendo o idioma, porque naquela época eu não sabia falar o hebraico, e não tinha a Ulpam, curso de hebraico, que é onde se ensina o idioma para os estrangeiros.

Boris Zakoum

Conheci meu marido em Israel, ele foi morar na rua que eu morava. A gente se conheceu, e decidimos namorar, namoramos durante um ano antes de casarmos. Ele tinha acabado de vir da Grécia, seus país de origem e não tinha família, por isso quando decidimos nos casar, preferimos fazer uma cerimônia simples e rápida.

O casamento foi simples, mas lindo, pedi emprestado um vestido a minha vizinha, e fomos até a casa do rabino, onde nos casamos. Naquela época tudo era diferente, nós não nos importávamos com dinheiro, tudo que tínhamos, construíamos juntos, não casávamos jamais por interesse. Tenho 53 anos de casada e dois filhos, sou feliz.

Guerra

Quase não se sabia o que estava acontecendo, tinha um rádio aqui e outro lá, e às vezes falavam no jornal. Depois que a guerra acabou, vieram algumas moças na fábrica que contavam o que tinha acontecido e davam noticias sobre os sobreviventes. Eu estava a par do que acontecia somente com os aliados, mas tudo o que acontecia nos campos de concentração, a gente não sabia. Meu marido fez parte da guerrilha grega, três anos contra os alemães. Quando a guerra acabou ele foi para Israel, naquela época eu ainda não o conhecia.

Idiomas

Sempre tive dificuldades para aprender os idiomas, especialmente o hebraico, acho que só aprendi os idiomas quando meus filhos cresceram, na convivência de cada dia.
O hebraico é um idioma muito difícil. Quando eu fui para Israel, eu falava espanhol, francês, italiano e tinha feito um curso de inglês durante três anos e meio. Depois que eu casei, fiz questão de aprender o grego, mesmo porque tínhamos bastante amizades com gregos, e, como eles não falavam outro idioma, tive que aprender a falar.

Brasil

Depois que eu casei, fui morar com meu marido na Grécia, onde tive meus dois filhos, Abrão e Bella. Naquela época não tinha muito trabalho, meu marido estava desempregado, logo procuramos horizontes novos. Então em 1956, resolvemos vir para o Brasil, a viagem durou vinte dias, eu não me dou muito bem em navios, mas como o navio era grande e pesado, e a época boa para navegar, sem ressaca, eu cheguei aqui dia dez de novembro.

Eu já tinha lido livros e tinha conhecidos que moravam aqui há alguns anos, eu sempre me interessei pelo novo, eu sabia por exemplo que a capital do Brasil era Rio de Janeiro e não Buenos Aires. Na Grécia recebemos vistos de entrada e decidimos vir para São Paulo.
Tive chance de morar no Rio de Janeiro, porque no navio tinha uma senhora suíça na primeira classe, que precisava de ajuda para cuidar dos seus dois filhos, uma menina e um bebê. Meu marido veio até mim e perguntou:
- Aqui ninguém fala francês, o que você acha de ajudar aquela senhora?

Então perguntei ao meu marido:
- E quem é que vai cuidar dos meus filhos?

Meu marido rapidamente se comprometeu a cuidar dos meus filhos, e eu aceitei cuidar dos filhos da senhora, duas horas de manhã e duas horas pela tarde. Aquela senhora gostou tanto de mim, que me convidou para morar com ela no Rio de Janeiro, mas eu não aceitei, eu não queria ser empregada de ninguém.

Vida no Brasil

Eu estranhei muito pouco o Brasil, só sentia falta das pessoas conhecidas e da minha família.
Quando eu andava na avenida São João, procurava encontrar algum rosto conhecido mo meio da multidão, mas infelizmente eu nunca achava. Morei no Tatuapé e ia uma vez ou outra para o Centro procurar algum rosto conhecido. Meu marido trabalhou primeiro na feira e depois tivemos uma oficina de costura. Eu ajudava sempre meu marido, eu era meio tapa buracos, tivemos épocas boas e outras ruins, e por causa dessas épocas ruins viemos morar aqui.

Família Hoje

Tenho família em Israel, e um conhecido ou outro, mas faz tempo que eu não vejo ninguém, eu já estive quatro vezes lá, mas já faz vinte anos que não vou para lá. Minha filha casou e foi morar em Israel, já faz vinte e três anos, tenho uma neta que casou ha três anos, e eu já tenho um bisneto de um aninho.

Lar

Conhecia mais ou menos o Lar, eu pedi para entrar, a gente estava muito cansado da vida, aqui é mais sossegado. Trabalhei quarenta anos aqui e doze em Israel, acho que é o suficiente.
Aqui é o meu lar, lar mesmo, eu me dou bem, tenho amizades, o meu marido mora comigo e está tudo bem.

Mensagem Final

Para meus amigos, conhecidos, e parentes ou simplesmente para aqueles que me procurarem, eu deixo um abraço e muitos beijos.