Sr. Aron, Renata, Camila e Danilo - entrevistadores e entrevistado no Lar 2000

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sr Aron no Lar, 2000

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aron Schuchmann

Sr. Aron Schuchmann nasceu no Rio Grande do Sul onde passou sua infância e adolescência. De origem humilde sua família enfrentou barreiras como a perda de sua casa num incêndio, e vivenciou momentos ternos na construção de uma represa para lazer dos filhos. Comerciante na 25 de março, conheceu sua esposa e casou na cidade de São Paulo. Influências de Rita Pavoni, Dalva de Oliveira e Agnaldo Rayol marcaram a época. Todo seu esforço e dedicação ao trabalho trazem orgulho e lembranças ao jovem espírito de Seu Aron.

Família

Nasci no município de Getúlio Vargas, no Rio Grande do Sul, em 14 de abril de 1928. Meu pai era David Schuchmann , e minha mãe Sofia. Não me lembro dos meus avós porque não conheci avô nenhum. Meus pais vieram da Rússia Branca. Tenho mais um irmão vivo. Já faleceram todos, éramos em 10 homens e 4 mulheres, uma família grande. Sou o décimo segundo filho. Minha mãe trabalhava em serviços domésticos e meu pai era sapateiro, consertava sapatos... era uma relação muito boa entre a gente, e de muito respeito antigamente. Minha mãe nasceu na Polônia, meu pai nasceu na Rússia Branca.. minha mãe era muito muito carinhosa, muito cuidadosa com a gente...assim como meu pai... minha mãe era preocupada demais, se eu saísse e demorasse ela já ficava preocupada, assim como todas as mães. Perdi meus pais há muito tempo... com 22 anos perdi meu pai, e minha mãe em 196 e pouco. Eu estava aqui em São Paulo e eles lá no Rio Grande do Sul.

Lar doce lar

Morava num chalé de madeira, era rua do interior, não tinha nem nome a rua. Tinha vizinhos próximos, como moradias do interior hoje. Morava eu, Meus pais, minha irmã e meu irmão mais novo, o resto tinha tudo casado e ido embora. O lugar que ficava a casa era como uma planície, e depois tinha um rio que corria lá de dentro, não podia nadar no rio porque o rio era muito raso, então nós fizemos uma represa e ia nadar na represa com os amigos. Me lembro muito deles... eram legais, colegas de escola.

A terra da garoa

Cheguei em são Paulo em 54, com 26 anos...queria conhecer são Paulo para fazer negócios...tinha um irmão...esse irmão queria e eu vim para cá. Que nem nortista...vem um ai traz um primo que traz um outro primo e vem tudo p cá. Quando cheguei aqui em São Paulo fui trabalhar com meu irmão numa fabrica de confecção. Eu ajudava e fazia de tudo. Naquela época tinha o trem internacional porque tinha leito e restaurante, vim do trem que saia de Uruguaiana ate são Paulo. A viagem durou 48 horas...vim sozinho, deixei o pai, a mãe, dois irmãos...a namorada... namorava desde a época da escola.

Minha primeira impressão quando cheguei na cidade foi de estranhar muito. Tinha muito movimento, eu andava nas ruas perdido... fui até a casa do meu irmão e depois sai com ele pra conhecer um pouco a cidade. Ai eu achei a cidade muito confusa...o trânsito. Era inverno...vim para cá em agosto. Um dia tive que tomar um ônibus pra 25 e tomei errado, fui parar no Campos Elísios, ai depois tive q pegar um táxi até a 25 de março pra trabalhar no 1.108, depois 878, trabalhava com armarinhos. Fui morar no Bom Retiro. Eu não tinha muito horário aqui, 8 h acordava ia pra 25 de março depois quando era meio dia, voltava e almoçava em casa e ia 1:30 pro serviço e ficava até às seis...e assim diariamente.

"meus oito anos"...

Depois que fecharam as escolas eu fui trabalhar na roça com uns 11 anos para ajudar a família, eu plantava melancia, feijão, arroz, batata... minha família era muito religiosa, todo sábado ia na sinagoga. Agora no fim do mês eu vou comemorar o Ano Novo judaico (rosh hashana) aqui na sinagoga do Lar. A educação que eu recebi foi muito útil, serviu muito.

De manhã cedo levantava, para tirar leite das vacas umas 5 horas da manhã... depois ia embora para a escola...ficava lá até terminar a aula..eu lembro dos meus professores e amigos, tinha um professor muito bom, muito inteligente, até um lecionou aqui, acho que no Bialik inclusive tem família dele que minha filha encontrou a neta desse professor. Morava em frente a escola, depois que eu voltava da escola fazia as lições, ficava estudando, ajudava minha mãe. Não tinha nenhum problema quando criança... talvez, só tive um problema: não tinha nenhuma bola de futebol. Só tinha uma bola de meia que enchia de palhinha e jogava. Gosto muito de futebol, mas não jogava bem. Dos momentos bons eu não lembro, mas momentos péssimos eu lembro...em 10 de julho de 1940, nossa casa pegou fogo e queimou tudo a casa... tudo tudo. Olha não deu tempo de tirar nem um balde de água. Ninguém sabe da onde pegou fogo, era uma casa de madeira coberta com tabuinhas...quando tem q acontecer , acontece.

Não era um bom nadador, nadava como uma pedra. Eu saí de casa com 26 anos, sai e fui morar em Erechim.

Sua realidade na guerra

Fiz só até a primeira série, sabe por que?? Entrei na escola em 35, e em 39 eclodiu a II Guerra Mundial, aí fecharam todas as escolas porque alegavam que as escolas eram todas quinta coluna , era uma ditadura e acabaram fechando muitas escolas e a minha esta no meio. Sinto não poder ter estudado mais.

A gente escutava pela notícia do radio: "Foi invadido tal lugar, tal lugar, os alemães estão em tal lugar..."Tinha um rádio em casa e quando não era hora de tirar o leite da vaca podia escutar...

Política dos políticos

Fui embora porque não tava dando nada naquela época, houve crise. Por parte do governo... naquela época o candidato era Getulio Vargas e meu pai não conversava sobre política com a gente. Nunca fui político e nunca gostei, nem agora porque você não sabe quem é o bom, e quem é o ruim. Não tem em quem confiar mais, eles prometem, ás vezes até assisto horário político.

Amor, meu grande amor

Me casei aqui em São Paulo, ela era conhecida de um primo meu. Meu irmão era amigo do cunhado dela, um dia fomos lá passear e eu conheci ela. Seu nome é Joana. Naquela época tinha o IV Centenário da cidade de São Paulo, no Ibirapuera, naquele pavilhão de exposição, aí nos fomos na exposição e começamos a namorar. A família gostou muito dela. Ela é muito boa para minha família. Foi dia 31 de julho de 1954 a data do meu casamento com ela. Aí fui embora pro Rio Grande do Sul, mas minha esposa não gostou, tive que voltar. Ela tinha saudades da mãe dela e eu casei pra sustentar ela em qualquer lugar. Voltei pra cá. Tive um filho e duas filhas com ela.

Sonhos...e amizades

Eu sempre tive vontade de fazer medicina...cirurgia. De todos os meus colegas que foram embora do sul, e tinham família aqui foram estudar medicina, e o q não é médico, é engenheiro, advogado... as vezes tenho contato com alguns deles em festas, encontros...

Trilha sonora

Ouvia noticias e música no rádio, gostava de músicas alegres...tango, samba... hoje eu não danço mas costumava dançar muito nos bailes, nunca faltei em baile. Nelson Gonçalves, Vicente Celestino foram nomes que marcaram minha época. No final de semana eu já estava namorando, aí não ia pros bailes...era mais sério. Eu tinha acesso ao rádio na casa do meu irmão, onde fiquei até casar.

Desde pequeno mantenho contato com a musica, mas contato com cantores ou eu mesmo cantar nunca cantei. Aqui em São Paulo escutava o que tocava naquela época. Era todo tipo de música, tinha o Chacrinha, o Bolinha... na época tinha um programa japonês...se canta bem porque não vou gostar. Depende das músicas de hoje, eu gosto..porque agora eles mudaram pra pagodeiro. Meu estilo de música favorito é de música clássica. Anita Barroso. Das música atuais acho algumas muito boas. Gostava muito da Bandeira Branca , era muito boa quem cantava, Ângela Maria, de quem eu gostava muito. Antigamente ouvia a maioria das músicas no rádio, hoje ouço quase tudo na televisão. Não gosto de política. Não tem programa de música hoje na televisão. No Raul Gil que às vezes tem algum cantor ou alguma coisa. Agnaldo Rayol é um cantor que me impressiona.

Atualmente...

Bom, aqui no Lar eu acorda às 5 da manhã e tomo um banho depois eu volto pra cama até às 7 e pouco, então 7 horas eu levanto e vou tomar café. 8 horas eu vou pra reza e volto às 11/ 11:30 aí eu ligo pra casa, depois eu vou pro jardim, é muito bonito o jardim aqui... fico até a hora do almoço...umas 15 pro

meio dia, agora às 4, 15 pras 5 é a janta. Gosto de assistir o Cidade Alerta. Não coleciono nada aqui, meu hobby sempre foi trabalhar, estudar e ir pra natação..nadava na represa que a gente tinha lá. Sou são Paulino aqui e internacional no sul.

Seu pensamento...

Durante minha vida a atividade mais importante que eu tive foi o trabalho. Hoje eu estou aqui, me deu um problema no coração e eu tenho 3 safenas, 1 mamária e depois parou o lado esquerdo, tenho que andar numa cadeira de rodas... Eu tenho muita saudade de casa, da minha família que com os filhos e netos tornou-se grande. Nunca tive nenhuma decepção na vida.
Não tenho envolvimento nenhum com a religião. Acredito em Deus e peço todos os dias saúde pra mim, pros meus próximos e peço que seja cada dia um dia feliz.
A única coisa que espero na vida agora é ficar bom pra voltar pra casa. Estou aqui há uns dois anos.
Lutei muito, trabalhei muito e não consegui nada.

Quem não tem sonho?

Gosto do trabalho e essa é uma qualidade minha. Não sou preguiçoso. (problema em acordar cedo) chegou pra mim falou vamos ta na hora eu levanto sem problemas.

Opinião

Gostei muito da entrevista.
E se posso ajudar vocês com ela, por que não ajudar?

Depoimento feito por Renata e Danilo no segundo semestre de 2000