Santos na década de 50

Paulina Spiner

D. Flora Rachel

Apresentação

Meu nome é Paulina Spiner, tenho 76 anos, nasci na Argentina, em Buenos Aires e não sei a origem do nome da minha família, era muito pobre e não tinha origem. Somos quatro irmãos, contando comigo, um mora na Argentina e os outros dois moram aqui.

Minha infância

Quando eu era criança, eu morava numa casa normal, era alugada, viviam mais duas pessoas nela, um padeiro e sua mulher, alem de mim e meus pais. Eu era muito criança, não sei se gostava de onde morava. Depois dessa casa, morei numa lojinha que minha mãe abriu e depois vim morar no Brasil. Não me lembro do cotidiano da minha casa eu era apenas uma criança. Eu brincava muito. Em frente à minha casa tinha uma pracinha, íamos eu e mais três meninas e ficávamos brincando na gangorra.

A família onde fui criada

Meu pai trabalhava como carpinteiro, saía de manhã e voltava à tarde, ele era muito doente, tinha úlcera no estômago. Quando trabalhava, trabalhava, mas as vezes, as dores eram muito fortes e ele não podia ir trabalhar. Minha relação com meus pais, irmãos e família era muito boa, todos nós nos respeitávamos. Porém, quando meus pais morreram, estava um filho cá, outro lá. Quando eles eram vivos, os filhos eram muito unidos... mas quando os pais morrem, a família desmancha. É verdade, ou não é?

Meu trabalho e estudos

Eu não tinha muitos amigos. Trabalhava quando tinha 15 anos, em uma fábrica de sapatos. Não gostava de estudar, por isso trabalhava. Não pensava no que fazer no futuro. Não escolhi trabalhar por conta própria. Meu pai era muito pobre e eu tinha que ajudar. Hoje em dia, a criança já se pensa o que vai fazer. Na época, não, não pensávamos no futuro.

Eu fui à escola e estudei até o 6º grau, era o último que tinha, depois era pra estudar o que eu não queira mais fazer. Eu não gostava de estudar. Lá era diferente daqui. Mas, como, mais tarde, virei dona de casa, não precisei de um estudo avançado.

Chegada no Brasil  e vida em São Paulo

Meu filho tinha dois anos quando saí de Buenos Aires, faz uns 47 anos. Morei em Santos e em São Paulo, em três casa diferentes. Morava com meu marido, minha cunhada e minha irmã. Alugamos um apartamento na Rua dos Bandeirantes e depois fomos para a Albuquerque Lins (em São Paulo). Em seguida fomos pra Santos, gostei e fiquei lá com meu marido e meus filhos.

Aqui no Brasil, nunca votei, porque eu era estrangeira, na Argentina sim. Eu cheguei no mesmo dia em que o Getúlio Vargas morreu.

Minha vida sempre foi muito alegre e boa. Tinha de tudo na minha casa da Albuquerque, incluindo três empregadas. Eu era riquíssima, mas a minha cabeça e a do meu marido não deram pra segurar o dinheiro, tivemos sorte, mas depois perdemos, eu no jogo e meu marido com a mulher que ele conheceu, mas vai fazer o quê?

Minha vida em Santos

Comparar a cidade, a praça que tinha em frente à minha casa e o clima de São Paulo é o mesmo que comparar uma moça de 15 anos com uma velha de 100. Ou seja, lá é outra vida. Eu morava na casa de minha irmã , tinha um quarto grande, 4mx4m, uma sala grande, uma cozinha e um quintal enorme pra pendurar as roupas e um banheiro. Era bom demais!

Chegada ao Lar

Mesmo já estando separados, meu marido me ligava. Mas quando ele e meus filhos morreram e fiquei sozinha, resolvi morar em São Paulo. Estou aqui no Lar há uns quatro meses. Não tinha quase ninguém da família, então me trouxeram para cá. Antes de vir, minha irmã dizia pra eu deixar o apartamento vazio, mas eu não me sentia muito bem. Por isso pedi à senhora que limpava a casa para levar todas as coisas: churrasqueira, pratos, minhas fotos, mas não me arrependo. Quando morremos não levamos nada, nem uma agulha.

Atualmente eu moro no Lar Golda Meir, com minha companheira Rebeca, que é uma excelente pessoa. Não tenho tantas amigas aqui, mas minha amiga mais intima é ela. Ela é como uma irmã. Eu não tenho família e os poucos que tinha morrerão ou moram na Argentina, e minha irmã que mora aqui, não fala comigo.

Quem paga as minhas despesas daqui é minha sobrinha que mora na América do Norte, e é casada com  um marido médico, mas não sei o valor... não sei nada da minha vida. Esta sobrinha é filha da minha irmã e é a coisa mais linda deste mundo. Se não fosse por ela, que triste seria minha vida... Ela fez aniversario esses dias, 15 de maio, tem uns quarenta e poucos anos. Eu falo bastante com ela, temos muita amizade. Ela é boa pra mim, é a  única da família que sempre me ajudou.

 

Minha rotina atual

Hoje o  que faço de mais importante é comer e  dormir, nada mais. Acordo às 7:00 ou 7:30, eu e minha companheira, então vamos tomar um leite e voltamos para o quarto para tomar banho.no frio, ficamos no quarto e ligamos a televisão. Às  quartas feiras, vamos ao bingo. É bom, por que a turma toda fica reunida, ganhamos alguns prêmios, uma pasta de dentes ou outra “porcaria”, mas vamos ganhando, eu gosto. Nos  distrai. Também vou no  cabeleireiro, que é de graça, lavo sempre  o cabelo.

 

Minha religião

Eu não pratico a religião judaica, sou descendente de israelita, mas não pratico. Eu gosto muito da religião evangélica, porque parece muito com a judaica. Jesus era iídiche (judaico), não cristão. O evangélico fala muito disso e não são contra os judeus, é uma religião muito boa. Mas eu não me converto, gosto muito  da religião judaica. 

Meus programas favoritos na televisão

Quando assisto televisão, gosto de assistir José Luiz Datena, eu assisto para ver como esta o dia lá fora, porque há muita matança, essas coisas. Depois assisto à novela Serafin, mas a minha preferida é Café Com Sabor De Mulher, na rede do Silvio Santos. É muito boa essa novela. Depois vejo o Ratinho, o show do Milhão, o qual eu não perco, nem Rebeca nem eu. Adoro esse tipo de programa, de perguntas e respostas. Meu neto já tentou se inscrever, mas não conseguiu nada nesse show do Milhão. Às vezes tem umas perguntas muito difíceis que eu não consigo adivinhar, mas é legal.

A família que gerei

Hoje tenho três netos do meu primeiro filho, uma está em Israel, e os outros dois em São Paulo. Meu neto tem 28 anos e minha neta 30, e mora aqui do outro lado do quarteirão. Mas eu não vejo minhas netas, só meu neto. Gosto de conversar com ele, que me chama ao telefone. Para mim o único neto que tenho, pois nem a minha neta que mora em São Paulo vem me ver. Ela tem uma filha de 4 anos, mas não vem me ver. Mesmo ela não tendo pai nem mãe, e isso quer dizer muita coisa, ela não vem.

Mas eu não ligo, pensa que eu fico nervosa porque ela não vem? Eu não fico, não estou nem aí. Quando eu cheguei aqui, ficava nervosa, mas agora não ligo mesmo. Se ela não gosta de mim não tem como eu gostar dela. Tenho mais uma neta no Mato Grosso do meu outro filho, ela tem uns 10 anos.

Meus sonhos e desejos

Meu maior desejo é comprar um carro para meu neto, se eu fosse no Show do Milhão e ganhasse, daria um carro para meu neto. À minha neta sabe o que eu daria? Desgosto. Ela nunca vem me ver, achei que no dia das mães ela viria, mas não veio. Meu neto veio. Mas ele mora longe, mora em Interlagos, então ele vem a cada 15 dias ou mais. O pai deles era um milionário, mas os três filhos não sabiam o que fazer com o dinheiro, compraram... Sei lá! Não me consultaram, consultaram a minha irmã.

Se nascesse novamente, não faria o que fiz na vida, faria tanta coisa diferente... Porque eu fiz muita burrada na vida, eu gostava de jogar, perdi muito dinheiro. Descuidava de minha casa para ir ao jogo. Eu não faria nada de novo, ficaria com meu marido e meus filhos, porque os filhos que tinha, morreram - um com 47 e o outro com 42, um de doença, câncer na cabeça, e o outro foi trabalhar, caiu e não levantou mais, no Mato Grosso. Primeiro morreu meu filho mais velho, depois meu marido, e por último meu mais novo.

Minha entrevista

Decidi dar a entrevista porque a Joana (residente do Lar), me disse pra fazer, que era lindo. Sei lá, queria ajudar vocês. Se gostei da entrevista? Claro que gostei, afinal, mal não faz. Minha vida já está marcada. Se eu não fizer, e aí? É bom para desabafar, e já que não tenho nada mais o que fazer, é bom ajudar os meninos dando a entrevista.

Entrevistadores: Tomas e Cecília