Towa Kesselmam

Nasceu em 1916 em Odessa. Teve um problema na vista quando pequena e por isso quase não freqüentou a escola. Teve dois irmãos, os dois morreram na guerra, junto com seus pais. Conheceu seu marido quando pequena, se casaram e tiveram dois filhos. Adotaram uma. Veio para o Brasil em 1954, morou em São Paulo e em Águas de São Pedro. Trabalhou quase toda sua vida como doméstica. Se considera uma mulher muito corajosa, por amor a sua família é capaz de fazer qualquer coisa.

Infância

Nasci em Odessa na Rússia, no ano de 1916, minha família sempre foi muito pobre, eu e meus irmãos nunca tivemos sequer um brinquedo para poder brincar, quando queria brincar, eu pegava panos e colocava dentro de uma meia, marcava os olhos e criava minha boneca de pano.

Família

Meu pai era sapateiro, um dos melhores que já vi, minha mãe era dona de casa, ela estava doente e por isso quem cuidava da casa era eu. Tinha dois irmãos, um cinco anos mais velho que eu e o outro quatro anos mais novo.

Nós éramos pobres, muito pobre, mas nem por isso deixamos de ser o que éramos, uma família unida, e na medida do possível feliz.

Odessa

Odessa é uma cidade muito grande, muito bonita, tinha um teatro de primeiro mundo, depois da guerra demoliram e construíram um muito melhor.

No de 1917 teve a primeira guerra. Depois da guerra foi um tempo muito ruim para a Rússia. A situação lá estava muito difícil, as pessoas andavam nas ruas e caiam mortas de fome, ninguém naquele tempo tinha dinheiro para, éramos um bando de miseráveis. Com os pedaços de madeiras que meus pais encontravam nas ruas é que fazíamos os moveis da nossa casa.

Quando tinha cinco anos me mudei com minha família para uma cidade pequena próxima da minha antiga cidade. Estávamos no ano de 1921, essa cidade era realmente muito bonita, lá eu encontrei o Moshe, meu futuro marido, ele estudava e trabalhava com meu pai, ele gostava muito de mim.

Responsabilidades

A Rússia estava vivendo um dos seus piores momentos, pessoas morrendo aos milhares de fome, um verdadeiro caos, o governo dava 400g de pão para as famílias, mas para isso elas precisavam ficar noites inteiras nas filas, eu já tinha dez anos, minha mãe estava sempre doente e não podia fazer nada, então eu tornei-me a dona da casa, pra tudo naquela época tinha fila, acabei me tornando mãe e irmã dos meus dois irmãos, eu desde pequena fazia tudo em casa, minha mãe apenas cozinhava, o resto era eu..

Escola

Quando eu tinha um ano, eu fiquei doente, tinha umas feridas na cabeça, elas se espalharam e atingiram as minhas vista, o médico falou para a minha mãe que eu não podia estudar, pois eu não poderia forçar a vista para não ficar cega, minha mãe nunca falou isto para mim.

Eu já tinha onze anos e não sabia ler nem escrever. Eu queria aprender, mas não podia resolvi ir até a escola sozinha e me matricular, os funcionários da escola me perguntaram por que meus pais não estavam junto comigo, falei que minha mãe estava doente e que meu pai estava trabalhando.

Cheguei em casa toda contente e falei para minha mãe:
- Mamãe, amanhã eu vou para a escola.
Ela ficou muito brava e brigou comigo, disse:
- Você quer ficar cega? Você não pode estudar!

Quando me falou aquilo achei que ela estava mentindo, que eu não tinha problema de vista, achava que ela não queria que eu estudasse porque eu fazia tudo na casa, se eu estudasse não poderia ajudar tanto. Eu já tinha onze anos, não escutei minha mãe, ela falou para eu não ir mas eu fui estudar. Estava fazendo uma escola para quem não estudou quando criança, era mais rápida para quem tinha boas notas, em quatro anos eu fiz em dois. Depois que eu entrei para a escola eu arrumei um emprego em uma fabrica de doces, eu estudava quatro horas e trabalhava também quatro horas. Trabalhei na fabrica dois anos, na escola só fiz até a quarta série.

Moshe Berladski

Conheci meu marido ainda criança, quando me mudei para uma cidade pequena, ele era oito anos mais velho do que eu, eu tinha cinco anos e ele treze anos, ele trabalhava junto com meu pai, meu pai o ensinava a profissão de sapateiro.

Nos combinávamos em quase tudo, ele sempre me dizia essa frase: "Eu sem você, sou como um trinco sem porta". Depois de três anos meus pais resolveram voltar para Odessa, depois de um certo tempo o Moshe se mudou também para Odessa, ele não morava comigo, mas vinha sempre me visitava, ele estava sozinho sem ninguém, por isso meu pai resolveu ajuda-lo, tudo o que ele aprendeu foi o meu pai que ensinou.

Guerra

É incrível o poder que a guerra tem de destruir o futuro de tantas famílias. No tempo da guerra homens ate 60 anos eram obrigados a servir, na minha família não foi diferente. Meus irmãos foram convocados, um irmão era piloto e o outro tinha se formado a apenas dois meses e mesmo assim teve que ir. Pouco depois meu pai também foi convocado, para fazer os buracos que os soldados ficavam, as trincheiras, ele tinha 58 anos, meu Deus! Minha mãe não queria ficar em Odessa, ela tinha certeza que não voltaria a ver meus irmãos, e eu já estava casada, já podia me virar, então ela decidiu ir junto com meu papai.

Naquele tempo quem quisesse ajudar eles deixavam ir junto, mandaram meu pai em minha mãe para uma outra cidade, o alemães pensaram que naquele navio tinha soldados, então o navio foi bombardeado, afundaram o navio, meu pai e minha mãe morreram juntos, afogados.

Minha prima me contou tudo o que até então havia acontecido, meu mundo desabou, eu estava sozinha, nem irmãos, nem pais, completamente sozinha. Eles haviam me ensinado para ter força e coragem mas naquele momento eu não tinha nada.

Filha

No tempo da guerra eu fiquei sendo a única integrante da minha família, todos morreram, eu não queria ficar sozinha na Rússia, então me casei com Moshe e tivemos um filho. Depois que os alemães foram embora, eles deixaram uma legião de órfãos, o governo estava arrasado, não tinha condições de cuidar daquelas crianças, então eles pediram para algumas família cuidarem delas por uns dois meses, até o governo encontrar um lugar para elas. Eu peguei uma menina no dia 1° de janeiro de 1943, mas eu não queira pegar a criança só por um tempo, eu queria adotar e foi o que fiz, adotei uma menina.

Falaram que ela não tinha nome, essa menina estava muito doente, ela tinha uma fratura dupla em uma das pernas, tuberculose bronquia, estava muito doente. Logo que adotei eu a levei até o médico, naquela época eram todos públicos, estavam em janeiro, em pleno feriado, o médico olhou a criança e ficou bravo comigo, foi logo me perguntando:

- O que a senhora fez com essa criança? Por que não veio antes?

Disseram que se ela vivesse duas semanas era muito. Contei que havia adotado, que não tinha documentos, não sabia quem era. A perna que estava machucada eles disseram que precisavam serrar porque os ossos estavam em pedacinhos, dois médicos me falaram isso mas eu não concordava, não queria deixar.

Soube por um amigo que tinha um casal de grande ortopedistas, ela dava assistência as crianças e ele para os adultos, descobri o endereço deles, eu queria que a médica examinasse minha filha, só que a médica não queria examinar porque médico particular não podia atender de jeito nenhum na Rússia, só os do governo.

Eu fui até o apartamento dela desesperada, pedi que apenas desse uma olhada na minha filha, mas ela irredutível dizia: "Não vou ser presa por causa da senhora". Disse que não iria presa, que só queria que olhasse, se ela falasse que teria que cortar a perna de minha filha eu autorizava. Ela novamente disse que não iria olhar, bateu a porta na minha cara, e me deixou do lado de fora com uma criança nos braços. Eu me sentei na escada com minha filha e fiquei. Mais ou menos meia noite ela abriu a porta e começou a gritar comigo, ameaçou chamar a polícia, mas eu não me intimidei, respondi-lhe apenas que iria ficar ali até que ela examinasse. Ela brigou, brigou, mas concordou em dar uma olhada em minha filha no dia seguinte, as sete horas, disse que se ela estivesse mentindo voltaria para porta e ficaria até ela me atender. No dia seguinte ela me atendeu, naquele tempo um médico ganhava pouco, eu coloquei um pouco de dinheiro debaixo de alguns papéis da mesa, era proibido pagar mas eu achei que ela merecia, ela viu eu colocando, não viu quando, apenas viu.

Ela examinou minha filha e disse que não era necessário cortar a perna porque ela era recém nascida, seus ossos eram muito moles ainda. "Você vai fazer um tratamento como eu falar, se fizer direito não vai precisar nem operar". Eu fiquei tão contente que sai dançando com a minha filha no meio da rua. Fiz o tratamento durante três meses, eu dava banho nela duas vezes ao dia, depois fazia uma massagem na perninha dela. Só que tive dificuldade para encontrar algumas vitaminas e comida para ela, eu andava 25 km a pé até a outra cidade para trocar coisas que eu tinha por comida.Ela vive até hoje. Tem cinco filho e onze netos e vive, os médicos falaram que iria morrer logo, eles erraram.

Saída da Rússia

Eu estava casada, tinha meus dois filhos e ainda morava em Odessa, mas eu não queria mais ficar na Rússia, falei para meu marido que iria viajar, com ele ou sem ele. Meu marido tinha um pouco de família ainda, três irmãs, eles não queria sair da Rússia, antes de ir falei para ele: "Você não quer ir comigo tudo bem, você tem família, não tem problema, eu vou sozinha". Ele achou que eu estava brincando, mas eu não brincava, eu deixei a minha filha de quatro anos na escola interna, e meu filho não queria deixar com meu marido, não tinha certeza que ele poderia cuidar, ele iria sair da escola e ficar na rua e eu não queria, por isso ele veio comigo. Sai da Rússia com ajuda de um homem que conheci, durante a guerra ele tinha vindo para a Rússia, era da Romênia, ele tinha esposa e um filho, mais ou menos da mesma idade do meu, sua família estava na Romênia e todos os documentos estavam com ele. Então ele me ajudou a sair da Rússia, fingimos que éramos uma família.

Com medo de ser descoberta por alguém eu peguei todas as minhas fotos e documentos e coloquei fogo neles, eu sai com outro nome, se descobrissem que eu era outra pessoa eu seria morta, traição ao país era um crime muito grave e meu filho iria para um orfanato. Eu fui para Israel, e trabalhei como empregada doméstica, fiquei dois anos lá.

França

Sai de Israel rumo a França com apenas 20 dólares na bolsa, eu não sabia falar sequer nem uma palavra em francês, não tinha nenhum conhecido, apenas meu filho. Fiquei três meses na França, durante esse tempo trabalhei em um restaurante, foi muito difícil, mas o principal era que eu tinha coragem para enfrentar o mundo. Nunca vou me esquecer quando ganhei meu primeiro salário, eu não tinha muito roupa e meu filho menos ainda, lá era muito frio, eu queria comprar uma calça quente e um pijama para meu filho, comprei a calça e quando fui comprar o pijama ele falou: "Mamãe, você comprou uma calça, tudo bem, mas não precisa comprar o pijama, você esqueceu que até pouco tempo você não tinha dinheiro nem para comprar pão? Você comprou a calça, no mês que vem a senhora compra o pijama". Eu fiquei emocionada, nunca imaginei que uma criança de sete anos fosse me dar conselho.

Alemanha

Da França eu fui para a Alemanha, quando estava passando na rua eu ouvi um jornaleiro comentando com outro homem que uma tal de Katia estava precisando de uma empregada. Eu perguntei o endereço para o jornaleiro e ele me deu, eu precisava trabalhar, tinha acabado de chegar na Alemanha e precisava me sustentar. Eu era jovem, tinha 38 anos, conversei com a Katia e consegui o emprego de doméstica.

Naquela casa nunca ninguém tinha trabalhado mais do que duas semanas porque a patroa era muito chata, mais eu não ligava, sempre fui paciente com tudo e com todos, trabalhei lá cinco anos.

Quando me firmei na Alemanha senti uma saudade muito grande de minha filha e de meu marido, mandei uma carta para meu marido e pedi para ele que vendesse todas as coisas que tínhamos e viesse para a Alemanha com nossa filha. Eu falei para ele avisar na escola que iria fazer um passeio com ela, e viesse para a Alemanha, mais a escola não deixou, sabiam que gente pobre não tinha dinheiro para passear. Eles só iriam liberam seis meses depois, nas férias.

Eu queria ir para os Estados Unidos procurar minha família, mais o governo americano não iria dar o visto para o meu marido depois, por isso eu tinha que esperar ele chegar para poder partir. Meu marido me escreveu dizendo que sabia o quanto eu estava sofrendo, e que ele iria fazer tudo para pagar minha passagem de volta para ir para Israel, mais eu não queria voltar para lá, irritada eu escrevi uma carta para ele dizendo que iria para os Estados Unidos com meu filho e que se ele não viesse para a Alemanha eu iria viajar sem ele. Eu só queria assusta-lo, ele achou que eu iria com outro homem, como meu marido era muito ciumento, ele vendeu tudo, nem me falou nada e veiou para a Alemanha. Um dia as 8 horas da noite, bateram na minha porta. Eu estranhei muito, porque nunca recebia visitas tão tarde, quando abro a porta vejo meu marido com minha filha no colo e com uma mala. Meu marido tinha chegado e não tinha me avisado. A primeira coisa que falei para ele foi: "Se você veio por causa do seu ciúmes pode ir embora, nem vai dormir aqui". Ele então me prometeu que nunca mais iria ter ciúmes de mim.

Viagem para o Brasil

Pouco tempo depois que meu marido chegou, eu fiquei grávida e não queria ter o meu filho na Alemanha, tinha uma cidade perto de Berlim que pagava todas as despesas para quem quisesse vir para o Brasil, nós aceitamos. Pegamos um trem para a Itália, a viagem durou doze horas. Da Itália pegamos um navio. Era um navio de carga, não muito comfortável, eu estava grávida, todos acharam que eu iria perder a criança pois não nos alimentávamos bem, comemos enlatados a viagem inteiro, nada puro, nenhuma fruto nem café.

O navio foi direto para Santos, em 1954 chegamos ao Brasil. Fomos para São Paulo, nove meses depois nascia meu filho, brasileiro

Vida no Brasil

Cheguei com 26 dólares e troquei, comprei cama, berço e os móveis de um casal que foi para os Estados Unidos. Aluguei um apartamento com dois quartos e um para empregada. Os dois quarto eu aluguei para dois irmãos, eles pagavam o aluguel, a luz e a água, e eu limpava. Eles não eram pobres, vieram da França e estavam esperando sua mãe para comprarem uma casa.

Meu marido ficou doente, ficou quatro meses internado no hospital, e eu precisava cuidar dele e de meus filhos. Eu trabalhava fora o dia inteiro, para sustentar a família, ia dormir meia noite e acordava cedo.

No Brasil quando eu cheguei vivi vinte e cinco anos aqui em São Paulo

Aprendendo o Português

Me casei só no civil, quando eu cheguei queria naturalizar brasileira. Como meu filho mais novo nasceu aqui depois de cinco anos podia naturalizar, só que eu precisava saber ler e escrever.

Quando eu cheguei no Brasil eu não sabia falar nem escreve em português, o russo é bem diferente, as letras são diferentes, eu não sabia nada, meus filhos estavam pequenos não podiam me ajudar. Não podia pagar professor particular então comecei a comprar livros velhos e todo lugar que eu ia eu os carregava. Começaram a me chamar de mulher com livros porque eu sempre tinha um comigo, lia em todos os lugares, no ônibus, na fila, tudo que é lado.

Reencontro com familiares

Quando fui fazer vinte e cinco anos de casado meu marido queria comprar uma aliança de brilhante, eu não queria, queria mesmo ir para os Estado Unidos. Não conheci a minha família, tinham todos fugidos da guerra, não sabia nem o nome deles. Não sabia como iria, conhecia duas pessoas que moravam em Nova York, eram amigos, um conheci em Israel, o outro era de uma família do Brasil.

Tinha uma outra família, uma mãe e filho. Quando ela ficou internada o menino de doze anos foi morar comigo. Eu sempre fui boa para os outros, sempre quis ajudar. A mãe morreu e ele quis estudar nos Estados Unidos, acabou se casando lá. Ele quis me ajudar também, então em todas as cidades que ele visitava ele checava na lista telefônica se tinha alguém com o mesmo sobrenome que eu. Ele achou uma tia minha que morava no interior.

Eu sem falar inglês eu peguei um trem, viajei três horas e fui procurando onde ela morava. Eu a encontrei, ela tinha oitenta e oito anos, mas eles não sabia se eu falava a verdade, eu tinha uma foto grande de meu pai e eu mostrei para ela. No momento que viu a foto o reconheceu na hora pois meu pai era o mais novo, ela ficou tão feliz e falou: "Aí meu Pepe!"

Fiquei na casa dela uma semana, me trataram muito bem. Fui passear em Nova York, estava fora do Brasil já a dois meses, antes de voltar quis visita-la mais uma vez. Quando fui vê-la ela não estava bem, teve um derrame, tive sorte que fui antes, ela já não reconhecia mais ninguém. Logo depois ela faleceu.

Águas de São Pedro

Vivi vinte e cinco anos em São Paulo. Fui para Águas de São Pedro e gostei muito desse lugar, pequeno mas muito bonito, o ar era gostoso. Eu queria ficar lá, fazer alguma coisa, comprei um terreno e mandei fazer uma casas, pequena, com apenas dois quarto pequenos, sala, cozinha, mas o meu marido não queria, ela gostava de São Paulo e queria voltar, então vendemos nossa casa. Foi ai que percebi que podia ganhar direito com isso. Comecei a comprar terreno, fui sozinha atrás do material, contratei empregados e mandei construir mais casas. Construí no total oito casas em Águas de São Pedro. Fiz uma casa para mim, muito bonita. Vivemos quatro anos, mas meu marido não conseguiu se acostumar e queria voltar para São Paulo, como meu marido era diabético eu não queria que ele ficasse nervoso, acabei vendendo minha casa para o primeiro que apareceu. Fomos para São Paulo. Não deu nem três anos que estávamos vivendo em São Paulo e meu marido foi atropelado, ele morreu na hora, acho que era o destino dele.

Voltei para Águas de São Pedro, vivi lá mais quatro anos. Uma neta estava casada e iria ter um filho, estava grávida, e não tinha casa própria, eu queria ajudar, mas não tinha dinheiro. Vendi minha casa e comprei um apartamento em Santos.

Vista

Quando cheguei no Brasil de dois em dois anos ia para Israel , agora não enxergo. Fiz um exame de vista e deu glaucoma, eu precisava operar. Operei quatro vezes a vista, e mesmo assim não enxergava. Depois da última operação fui fazer um exame, consegui acertar duas letras, meu filho ficou muito feliz, ele dizia: "Minha mãe está enxergando!"

Um de meus netos iria casar, meu filho falou:

- Mamãe, quer ir para Israel?

Eu falei:

- Claro que quero ir.

O oculista surpreso virou e me perguntou:

- Mas com quem a senhora vai?

- Eu vou com Deus! respondi.

Ele falou:

- Eu nunca vi uma loucura dessa, com essa vista a senhora não enxerga nada.

- Eu vou, respondi decidida.

-

Tenho muita coragem. Fui para Israel sozinha. Eles ficaram muito felizes, sabiam que eu não era a avó legitima e mesmo assim tinha ido em seu casamento. Estava fazendo oitenta anos, comemorei meu aniversário lá. Eles fizeram uma festa surpresa para mim, nunca tive uma festa surpresa, fiquei muito feliz, foi um aniversário inacreditável, nunca vou me esquecer. Agora enxergo pouco e não posso sair na rua sozinha, tenho que ir sempre com alguém junto.

Lar

Eu já conhecia alguém que morava aqui, já a conheço há 43 anos e ela me chamou, minha vista já não estava mais boa e aceitei. Um de meus filhos aceitou, assinou e por ele se era uma coisa que eu queria ele apoiava, mas o outro não gostou muito da idéia, não queria autorizar, chegou até a me convidar a morar com ele, ele falou: "Mãe, a gente da um quarto só para senhora, com televisão, compra um telefone com outro número só para a senhora.". Eu fales "Mas para que? Eu vou para o Lar dos Velhos porque você tem empregada e se eu pego um copo ele logo vai lavar e eu não posso viver assim, tenho que fazer alguma coisa, trabalhar". Meu outro filho falou "Você não conhece a nossa mãe, quando ela põem alguma coisa na cabeça ela faz, não adianta ir contra, ela faz do mesmo jeito, ela sempre foi, o que pensava fazer sempre fazia, não tinha nada que pudesse impedir".

Eu vendi meu apartamento, dei aqui a parcela que precisava dar antes de mudar e vim.