A CONSTRUÇÃO COLETIVA
DA "CULTURA DE RUA"
O Instituto VOZ é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, que tem como missão agir e incentivar aqueles que atuem para a manifestação do pensamento, da criação, da expressão e da informação, sob qualquer forma, processo e veículo.
O iVoz é uma rede interdisciplinar de produtores artísticos, culturais e educadores que se organizam coletivamente a fim de atuarem suprindo a falta de acesso à informação e à cultura que aflige a sociedade brasileira, sobretudo os que vivem em situação de vulnerabilidade social, entendendo tratar-se de um direito inalienável do indivíduo, sendo também indispensável à compreensão e ao exercício da cidadania.
Seu principal objetivo é a troca de conhecimentos, a produção cultural independente, a formação de Redes e atividades voltadas à geração de trabalho e renda. Fomentando ações coletivas pautadas pelos princípios norteadores da Economia Solidária.
Ao longo de cinco anos completados em Maio de 2008, o Instituto Voz buscou através da construção e valorização de redes artísticas, fomentar a produção cultural urbana aliada a atividades de formação e articulação entre os cidadãos.
A cabine iVoz foi a primeira colaboração junto ao Museu da Pessoa quando foram coletadas 17 histórias de vida no dia 26 de julho de 2008, comemorativo dos 5 anos do iVoz, em que ocorreram também os lançamentos do DVD Graffiti com Pipoca 2 e a final do Harmônicas Batalhas.
O projeto Graffiti com Pipoca trata do desenvolvimento de vídeo-animações em que a arte agrega uma camada tecnológica e possibilita o desenvolvimento de narrativas em desenho animado baseado em projetos desenvolvidos durante oficinas. Neste ano a produção foi voltada ao desenvolvimento de um vídeo clipe para o grupo musical "O Teatro Mágico" que contou com mais de 1MM de acessos no MTV Overdrive.
O projeto Harmônicas Batalhas fortalece o vínculo voltado ao desenvolvimento de redes de relações através da construção coletiva, com a ocupação do espaço público e a troca de conhecimento entre seus participantes. É a disputa entre trios de dançarinos Bboys e Bgirls que contou com etapas nas quatro regiões de São Paulo, além da cidade de Osasco, e cujos vencedores se encontraram em 26 de julho para a Batalha Final.
Após esta fagulha lançada na parceria entre o Museu da Pessoa e o iVoz um largo horizonte de possibilidades e sinergias começaram a se apresentar, visto que o cerne do trabalho das instituições concentra-se na valorização das pessoas e na sua capacidade de, a partir de construções simbólicas individuais, criar identificação coletiva e confrontar pontos de vistas históricos e geográficos que causam uma resiginificação de valores. Esta memória social, apoiada em uma base tecnológica, torna-se símbolo à medida que é difundida e apropriada por outras pessoas, constituindo uma rede humana inesgotável em sabedoria e aprendizado contínuo.
Por sua vez, o Museu da Pessoa é um museu virtual de histórias de vida, construído em rede, aberto à participação de todos através de suas próprias histórias. É como dizer: toda a rede compartilha histórias de vida, através das pessoas que dela participam. O público é criador de seu acervo. Dentro desta perspectiva, o Ponto de Cultura do Museu da Pessoa atua como um grande coletor aberto de histórias, destinadas aos mais diversos usos, envolvendo um processo contínuo e cotidiano que retrabalha as histórias, em ações e projetos diversos. A cabine de gravação instalada durante o evento do Ivoz no Tendal da Lapa foi uma das ações do Ponto em sua mobilidade.
A proposta da cabine é ser uma como uma "antena" que capta pequenas histórias, lembranças despertadas pela situação na qual atua, trazendo à tona suas potencialidades. No evento do Instituto Voz, que reuniu produtores de diversas áreas e suportes relacionados à cultura do Hip Hop, nossa intenção foi coletar relatos sobre as experiências que ligavam cada um a este movimento maior. Procuramos escutar os relatos de como um Bboy descobre o breakdance; como um desenhista se torna grafiteiro; como um olhar atento à realidade se transforma em letra de rap. A cabine, portanto, registra uma impressão imediata do evento (de uma experiência em comum), através de experiências passadas, individuais e diversas. Aquilo que une as impressões (a imediata e a passada, a coletiva e a individual) é justamente o ponto cego entre as esferas, pois as histórias de vida só se relacionam em rede, como a própria história em si. E esta relação é sempre fugidia, sempre transborda a tentativa de racionalização.
A cabine, no entanto, não procura ser transparente e invisível: de fato é chamativa e desperta a curiosidade. É uma "intervenção urbana" tentando captar o "potencial de multidão": as infinitas histórias da cidade, aquilo que está latente mas que a qualquer momento pode se tornar manifesto diante de si e aos olhos – e corpo - do mundo. Ela registra impressões, bem como a reação de cada um à ela mesma, à câmera, à proposta de um relato, à uma pergunta. Assim, ao mesmo tempo em que intervém, é em si o próprio registro do efêmero.
Evoca uma experiência passada fazendo com que ela se afirme no presente. Isso que é evocado pode mudar o olhar sobre a situação vivida, como fazem sempre os artistas envolvidos no Hip Hop, verdadeiros construtores de uma memória que atua no presente, em busca de reconhecimento e inscrição política e social.
Os criadores do Hip Hop, em todas as suas vertentes, reinventam sua experiência cotidiana. A música relata as agruras do dia-a-dia; o grafite cobre os muros cinzas da cidade; o breakdance norte-americano, aqui misturado com a capoeira, rola em qualquer chão, qualquer canto da quebrada. Não seriam peças de um museu desconectado da cultura contemporânea, circulam e são sempre recontextualizados dentro da cidade. Música de rua, arte de rua, dança de rua. Por outro lado, mas não contraditoriamente, aflora também uma procura de enraizamento, que encontra chão nas tradições africanas e no movimento negro, integrando-se à atualidade em uma causa que, há muito, também luta por seu reconhecimento.
Daí a necessidade do registro destas experiências, marcadas pela informalidade e transmissão oral. O rap trabalha com essa preocupação do registro e do relato como denúncia: nas canções, os rappers contam suas histórias. O Hip Hop constrói sua identidade como movimento por esta troca, esta rede de histórias e realidades em comum, bem como pela expectativa de superá-las.
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