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Uma vida de entrega



Chegou a hora de tomar coragem e responder à pergunta que tem me assombrado há alguns meses, desde aquele dia em que acordei sem me lembrar de nada: quem sou eu? A busca é interna mas as leituras ajudam. Os depoimentos que o Museu da Pessoa colheu ao longo dos últimos 25 anos precisavam me dar uma pista para encontrar a resposta.

Vamos então ao que tenho certeza.

Parei durante dois dias entre a linha de cima e esta linha. Não tenho muitas certezas. É uma busca complicada. Quem sou eu? Se sou o Zé, quem é o Zé? Do que é que eu gosto? Quem é que define as nossas paixões quando não sabemos mais quais elas são? Lembrei da história da Ady Addor, uma senhora nascida em 1935 no Rio de Janeiro, que viveu para a dança. Ela teve a sorte de descobrir cedo a sua paixão. Ou teriam descoberto por ela?

Ady Lucia Addor Gilioli é o nome completo dela. Começou a estudar balé ainda cedo: ela tinha só 10 anos! Aos 16, deixou os estudos para seguir carreira como bailarina. Aos 18, um crítico de dança pediu aos pais autorização para ela se mudar para São Paulo. Foi quando ela passou a integrar o corpo de baile do Balé do IV Centenário.

"Eu passei para o corpo de baile e comecei a fazer aula todo dia. Passei a estudar à noite pra terminar o ginasial, mas quando tinha espetáculo eu faltava à aula. Então resolvi parar de estudar". Quanta entrega! Tomadas de decisão tão importantes em tão tenra idade! Ela teve destaque no Balé do IV Centenário, dançou em Cuba, nos EUA, em vários lugares. Quando isso acontece, é difícil imaginar outro caminho. Estou em busca dos meus caminhos e os da Ady são sem dúvida inspiradores.

"Faltar a ensaio não ocorria a ninguém, só se estivesse morto ou proibido de ir, como foi o caso da rubéola que eu tive. Uma vez meu pai ficou doente e minha mãe foi para o Rio, meu irmão ligou: 'Papai está muito mal. É bom você vir'. Eu não peguei a malinha e saí, não. Fui falar com eles: 'Olha, recebi um telefonema que meu pai não está bem e eu preciso ir pro Rio'. Me falaram: 'De jeito nenhum, seu pai não deve estar tão mal e se for mais grave, eles vão te avisar'. Quer dizer, se ele morrer, porque grave já tinham me dito que estava. Me pergunta se eu fui? Não fui! Era de uma dedicação louca".

A Ady dançou até os 24 anos. Parou no auge, como conta. "Quando eu parei de dançar, me deu uma culpa porque eu parei muito cedo, bem no auge mesmo. Eu pensei: 'Será que eu vou ser castigada? Será que papai do céu vai ficar bravo comigo porque eu vou parar?'. Pesou".

Seria eu capaz de algo assim? De uma entrega tão grande? De olhar para a minha vida e imaginar onde estaria em cada passo dela, a ponto de sentir culpa se um dia eu largasse tudo? Será que eu vivi isso? Escrevo porque escrever me mantém vivo - e de certa forma, lúcido, sereno. Vai ver é na escrita que eu encontro a minha entrega...




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