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História de: Jack London
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/01/2008

História completa

A empresa de guarda-chuvas ficava embaixo da cama Meu nome é Jack London. Eu nasci em Nilópolis, 16 de Fevereiro de 1949. Meu pai chamava-se Moicha London, já falecido, e minha mãe, Estera Étera London. Convivi muito com os avós maternos; fraternos, não, já tinham morrido quando eu nasci. Minha avó paterna chamava-se Toba e meu avô chamava-se Manuel, em português. Ele era um artesão, coisa típica do final do século passado. Ele era produtor de guarda-chuvas. A empresa dele - o estoque, a distribuição, o setor financeiro-comercial - ficava todo debaixo da cama dele e da minha avó. Os dois acordavam às quatro horas da manhã - algumas vezes eu dormia lá com eles -, puxavam de debaixo da cama caixas com o material e produziam ali o guarda-chuva completo. Dominavam todo o ciclo tecnológico de produção do guarda-chuva. Ele produzia dois, três, quatro guarda-chuvas por noite. Quando eram mais ou menos sete horas da manhã, ele botava a produção debaixo do braço e saía para vender os guarda-chuvas. Viveram a vida inteira disso, e viveram muito bem, criaram os filhos. Eu guardei um dos tachos deles, que era o tacho onde ficavam as ponteiras dos guarda-chuvas. Eram tachos de cobre, cada um tinha um elemento da produção: um tinha as varetas, o outro tinha aquela ponta do guarda-chuva, o outro tinha os cabos. E aquilo ficava tudo debaixo da cama, a unidade produtiva era o quarto deles O avô era o link Meu avô imigrou da Polônia no comecinho dos anos 30. Chegando aqui, a família se dedicou ao comércio. A vida inteira ele foi o chamado mascate, prestamista; na época era uma profissão muito encontrada na colônia. Outro dia até brinquei que o que acabei fazendo na vida não é nada mais do que o que ele fazia, mas ele era o link entre a mercadoria e o consumidor e eu utilizo o link eletrônico. Meu avô buscava as mercadorias e produtos no centro urbano: na atual Saara, Rua da Alfândega, Rua Senhor dos Passos, onde havia atacadistas que municiavam essas pessoas de mercadoria. E ele ia vender a mercadoria num local inteiramente afastado do centro urbano, onde as pessoas não tinham acesso nem à compra, nem a produtos - não havia estrutura de shopping, supermercados ou de lojas, como temos hoje. O pai vendia tecidos Meu pai trabalhava em Nova Iguaçú. A rotina dele era todo dia sair de casa, pegar o trem, ir até Nova Iguaçu; lá ele visitava um conjunto de clientes para vender. Todo o sistema de administração dele eram umas pequenas fichinhas onde ele anotava o nome do cliente e aquilo que o cliente devia. Ele era o crédito, o link, e era o catálogo também, porque ele sabia a mercadoria - enfim, era uma unidade também de trabalho completa. Meu pai lidava basicamente com tecidos – eram roupas, tecidos coloridos. Ele gostava muito de trabalhar com tecidos para senhoras, sempre achou que esse era um mercado melhor. Tenho uma recordação muito forte de ele chegando em casa com três galinhas, dois patos, sacos de laranja, porque as pessoas não tinham dinheiro para pagar, já estavam muito atrasadas com o pagamento, e ele aceitava isso de pagamento. A minha mãe ficava furiosa. A mãe, sempre estudiosa Minha mãe tem uma experiência completamente diferente. Ela também veio da Polônia. Estudou lá, era muito aplicada na escola, e saiu de lá adolescente. Eu me lembro um episódio que ela conta: era ela muito boa aluna, tirava notas muito boas, estava sempre os primeiros da turma; mas isso já era época de uma perseguição muito grande aos judeus, e ela não aparecia nos boletins entre os melhores da turma porque não podia aparecer um judeu entre os melhores colocados na turma. Ela nunca esqueceu isso. Ela veio para o Brasil e casou-se muito jovem com meu pai. Conheceu meu pai um pouco antes de casar e casou-se com ele, muito jovem. Dedicou-se à uma vida de dona-de-casa daí para frente. Era o destino de todas as mulheres naquele período. Ela teve quatro filhos; dos quatro estamos vivos eu e meu irmão mais velho. Ela perdeu uma filha com sete para oito anos, e um irmão eu perdi também com 21, 22 anos, já adulto. Quando meu pai fez 65 anos, ele sofreu um acidente dentro de casa, que de certa maneira o invalidou: ele caiu em cima de um armário, quebrou o omoplata e a perna. Aí ele parou de trabalhar e, a partir daí, ele começou a ter problemas nos ossos por causa da doença. Ele morreu de câncer. Quando ele parou de trabalhar, minha mãe disse para ele: “Agora eu já criei os seus filhos, sua família está criada, eu vou cuidar da minha vida” Ela fez o artigo 99, fez o supletivo e vestibular, passando para a Faculdade de Direito com 64 anos - fez Faculdade de Direito na UERJ, se formou. Quando terminou o curso ela não satisfeita, disse: “Não, eu quero aprender, eu quero conhecer um pouco, eu quero fazer Ciências Sociais.” Fez vestibular para o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, entrou com 60 e tantos anos e saiu com 70. Eu lembro da formatura dela de Direito, foi tradicional, com aquela beca, chapeuzinho. Infância em Nilópolis A minha memória de Nilópolis é muito mais de referências posteriores do que exatamente vividas, porque eu saí de lá muito novo, com três anos. A memória forte de infância que eu tenho mesmo é no Méier, onde nós viemos a morar em 1952. Em Nilópolis nós morávamos em uma rua chamada Mena Barreto, que era a rua principal de penetração do lado direito de Nilópolis, de quem está descendo em direção à cidade. A casa onde nós morávamos tinha duas frentes, dava frente para essa rua e para uma nos fundos. Depois que nós mudamos para o Méier, meu pai derrubou essa casa, construiu um conjunto de lojas, de sobrados, que estão lá até hoje. Portanto nós ainda temos um pezinho lá em Nilópolis. A família tinha uma presença muito forte lá porque era uma família muito grande - na geração de meu pai eram cinco irmãos e uma irmã, e meus tios muito atuantes na cidade, com presença no Rotary, nas entidades associativas locais, no comércio local. Eles ficaram lá durante muito tempo, até alguns anos atrás ainda havia lojas de móveis com o nome da família. Tinha uma vida judaica muito intensa lá. Havia uma Sinagoga que reunia ao mesmo tempo Sinagoga e Colégio; ela era o centro de organização da cidade. Havia um cemitério de Nilópolis, que ainda existe - não é hoje o cemitério principal, que é o de Vila Rosali, mas é o mais antigo. O curioso é que a família que deixou mais traços na história da cidade é uma família chamada Bercovits; nome de ruas em Nilópolis tem nome como Júlio Bercovits. E é a família da minha mulher, que eu só fui conhecer depois, na zona sul. Então o meu casamento foi na verdade uma junção de duas famílias que tiveram uma presença muito forte lá em Nilópolis. Mudança da colônia judaica Todos os processos pessoais, você, a tua vida, são um microcosmo num processo social que se desenvolve e às vezes você nem percebe. A colônia judaica em Nilópolis vicejou de 1925 até o começo dos anos 1950. E de repente houve um processo, já na segunda geração - a geração dos meus pais foi a geração que foi para lá; a minha geração, da qual eu sou o mais novo, é a segunda. Essa geração empurrou a família para a segunda parada, vamos dizer assim, que na época era Méier e Madureira. Houve uma enorme migração de família judaica para esses dois bairros nos anos 50. Em um certo momento, Madureira foi a maior arrecadação de impostos do Rio de Janeiro na área comercial, com um comércio muito forte devido à presença muito intensa e ativa da colônia lá. Um primo meu, o Filipe Morren Stern, foi presidente da Associação Comercial de Madureira nos anos 1980 - já é uma outra geração. Essa migração significou uma mudança substancial, já era o segundo momento dessa história. A primeira geração que veio para cá veio muito pobre na sua grande maioria. Fugindo não apenas da pobreza, mas também da perseguição - portanto, o objetivo dela era sobreviver com a dignidade que fosse possível. A maioria não tinha educação formal, e o sonho era, portanto, que os filhos tivessem uma educação formal. E isso aconteceu, porque havia escolas e um esforço grande para isso. Esta geração queria que seus filhos fosse uma geração de doutores, médicos, advogados, engenheiros; o projeto era formar sucessores para os seus negócios. De fato, foi um pouco isso que aconteceu. Ascensão social Evidentemente a mudança para o Méier complicou demais a vida do meu pai, porque ele morava em Nilópolis e trabalhava em Nova Iguaçu, e passou a ir do Méier. Mas continuou, e acho curioso porque isto demonstra também a riqueza dos anos 1950 na história do Brasil. Foram anos de transição econômica e de crescimento econômico fascinante, nunca vimos igual. Em 1949 minha família estava em Nilópolis; em 1961, na Tijuca. Esta passagem foi feita por milhares de pessoas, imigrantes dos mais diversos- eu conheço muitas pessoas da colônia libanesa no Rio e as histórias são semelhantes. O primeiro momento foi com o Getúlio; depois especialmente com Juscelino. São anos de euforia econômica, perspectiva de crescimento, confiança em que as coisas vão dar certo, e isso se manifesta nesse processo de ascensão social. Nós mudamos para o Méier em 1952 e eu fui morar numa rua chamada Castro Alves. É uma rua também do lado direito do Méier de quem vai para lá. Eu costumo brincar com meu pai que ele sempre acertava no bilhete de loteria que não ganhava, porque em Nilópolis o lado que cresceu foi o lado esquerdo, que é o lado onde mora o Anísio Abraão. Quando ele foi para Méier, também tinha dois lados: um que era o lado da rua Dias da Cruz, que foi o lado que se desenvolveu e hoje é o coração do Méier. As lembranças mais fortes As minhas primeiras lembranças são duas, muito fortes, que me marcam muito e até hoje sonho com elas e elas tem um papel na minha vida. A primeira delas é a imagem mais antiga que eu tenho na minha memória e não me foi contatada por terceiros. Eu devia ter entre três e quatro anos. Foi o dia em que entrou a televisão na minha casa, poucos meses depois de mudarmos. Era uma televisão Zênite, de madeira. Eu me lembro daquelas pessoas entrando na minha casa, trazendo uma caixa enorme, tirando da caixa e de repente abrindo aquele objeto, e daquele objeto sai uma imagem de um índio, que era uma efígie do Caramuru. Quando a TV Tupi entrava no ar, tinha uma imagem que era um índio e um tracejado em volta, e ficava tocando “O Guarani” de Carlos Gomes. A televisão só ia ao ar, se não me engano, das duas às oito ou das duas às dez, não era mais do que isso; eu ficava a manhã inteira sentado em frente da televisão vendo o Caramuru e ouvindo o Guarani, aquela música até hoje toca na minha cabeça. Hoje vocês chamam de bartola, que é aquela barra, não tinha barra de cores. A segunda imagem que eu tenho é de logo depois da entrada da televisão. Nós morávamos na Rua Castro Alves em um prédio de quatro andares com umas varandinhas. As varandas eram ressaltadas no prédio. Um dia eu estava na varanda e cai um balão enorme, ma-ra-vi-lho-so, colorido, lindo E esse balão encosta no prédio, e lentamente vem descendo pela parede, o vento empurrou e encostou. Se juntaram na rua centenas de pessoas aos pulos, dançando, dizendo: “Olha que lindo” Uma imagem de festa. O balão vai descendo, vai descendo; quando ele encosta no chão, os que estão mais perto correm para agarrar o balão e aí começa um tumulto e as pessoas destroem o balão Isto acontece com todo balão que cai. Aí o balão é destruído e começa um tumulto, uma briga no meio da rua, e as pessoas saem aborrecidas, irritadas, vem a polícia. Aquilo me impressionou muito; me impressionou como uma festa se transforma num momento de tristeza, depressão e de angústia rapidamente. Como é que balão, aquela coisa maravilhosa, vira lixo Duas turmas na infância O colégio onde eu estudei no Méier chamava-se Colégio Bialik. O prédio ainda está lá até hoje, é muito bonito, grande, hoje é uma repartição pública, acho que uma agência do INSS. Eu estudei o primário nesse colégio. Embora fosse um colégio judaico, o idioma lá era o português, mas eu conseguia entender o idish - entendia e entendo até hoje, não falo habitualmente porque eu não tenho o hábito e porque não tenho com quem falar. Eu tinha duas turmas. Tinha a turma da escola, só com alunos judeus, e você tinha um envolvimento com aquelas pessoas. Todos praticamente moravam ali, porque a escola era no final da rua onde nós morávamos. O meu caminho para a escola era seguir a minha rua até o colégio e voltar. Acho que em um raio de um quilômetro moravam todos os alunos. Mas eu tinha um outro ambiente, que era a casa da minha avó. A minha avó morava nesta mesma rua, em uma vila, uma casa minúscula. Era a uns 100, 150 metros depois da casa da minha mãe. Eu até costumo visitar. Hoje, olhando para ela, eu fico impressionado, ela vivia muito bem. Nessa vila, ela era a única judia. E essa vila era de soltadores de pipa, jogadores de bola de gude e de peladeiros. E tinha uma turma ali, a integração era absoluta. Foi uma infância de menino de subúrbio mesmo: soltar pipa o dia inteiro, correr atrás de pipa, fazer cerol, jogar bola no final do dia. Era uma vida muito saudável, muito sadia. No verão meu avô no verão dormia na vila, do lado de fora, numa cadeira de balanço, com a porta aberta. Amigo do jornaleiro Eu era o único neto que morava tão perto da cara da minha avó. No sábado toda a família ia almoçar na casa da minha avó, todos os filhos, netos, todo mundo. Ela começava a cozinhar o almoço na sexta-feira à tarde. Mas ela não podia apagar o fogo depois de cinco horas da tarde, depois que aparecesse a primeira estrela no céu, nem podia acender a luz. Meus avós eram muito religiosos. Segundo a tradição judaica, você só se torna efetivamente temente a Deus e obrigado a seguir os Mitzvot depois dos 13 anos, depois do Bar Mitzvá, a cerimônia religiosa; até aí você está liberado das restrições. Então eu saía de casa, ia na casa da minha avó para apagar o fogo e para acender a luz da casa, e aí voltava para casa. No outro dia de manhã, eu voltava cedinho para acender o fogo para esquentar a comida e para apagar as luzes da casa. Eu era uma espécie de apêndice da casa da minha avó. A impressão que eu tenho é que esse comércio de bairro tinha duas entidades fundamentais, uma era o armarinho e a outra era a padaria. São as duas entidades que eu lembro de ter muitos clientes. Nesse armarinho tinha uma senhora já muito velhinha, a dona Lica, que era muito amiga da minha avó. Em frente à padaria tinha um jornaleiro, que ainda era daqueles que usavam uniforme e carregavam rede, e numa certa hora do dia ele fechava a banca e saía com os jornais e as revistas nas costas entregando, vendendo de porta em porta. Eu me lembro inclusive que o material dele ficava dentro da calandra, uma chapa das gráficas, no começo de metal e depois de material plástico. Ele botava tudo nas costas e saía carregando um peso brutal. Eu rapidamente estabeleci relações de extrema amizade e cordialidade com a Dona Lica e com o seu Manoel, o jornaleiro. Eu tinha um acordo com ele: eu podia ler tantas revistas em quadrinho que eu pudesse, desde que não arranhasse, dobrasse, nem rasurasse nenhuma revista. Como eu tinha que chegar na casa da minha avó às sete horas da manhã para desligar a luz e o resto da família só chegava na hora do almoço, eu passava a manhã inteira lendo. Eu li todas as histórias do Bolinha, da Luluzinha, do Pato Donald, da Disney, do começo e meio dos anos 1950. Não me escapava nenhuma, porque eu começava às sete, terminava e voltava correndo, entregava para o seu Manoel, ele me dava outra e eu lia. Quando terminava de ler as revistas, a dona Lica me dava uma pipa e dizia: “Se você não estragar a pipa, você pode me devolver depois. Se estragar, vai ter que pagar, vou cobrar da sua avó.” Soltava pipa com um cuidado danado. Dos meus fornecedores de diversão que eu nunca esqueci. Comércio do Méier Eu tenho algumas lembranças do comércio no Méier dessa época. Tinha uma loja com um nome me impressionava muito: Sedofeita. Era uma cadeia grande que vendia coisas feitas de seda. Não sei o que houve com ela. Tinha a José Silva, uma loja muito conhecida, que vendia roupas de homem. Também já não existe mais. Meu pai gostava muito de comprar coisas lá. E tinha o comércio da rua. O carvoeiro era um comércio vital. Era um personagem da rua e todos compravam carvão dele. Havia também o leiteiro, ainda com um burro com o tonel atrás - isso por volta da década de 50, sendo que isso perdurou até mais ou menos 1954, aí logo depois veio o caminhão. As pessoas levavam aquele vidro, ele abria a torneira e as pessoas compravam o litro de leite e levavam para casa. Sorvete, cinema e praia Nós permanecemos no Méier até mais ou menos 1961. Então nós mudamos para a Tijuca e meu pai construiu as lojas, os sobrados em Nilópolis na antiga casa. Dos anos 1960 para cá veio o processo de envelhecimento dele e também um corte na economia. É quando começamos a ouvir falar em crise na economia brasileira de tempos em tempos. De lá para cá, ele não acrescentou nada ao patrimônio ou aquilo que ele tinha feito. Meu pai andava de terno e gravata o tempo todo, mesmo para ir para Nova Iguaçu, nos anos 1960 e 70. Eu me lembro, devo ter as fotos até hoje: a família se engalanava, pegava o bonde, saltávamos na Senador Dantas, íamos ao cinema e depois íamos comer coalhada, sorvete, em uma leiteria na Rua Senador Dantas que eu acho que existe até hoje, é um hotel chamado Flórida - não me lembro se era Flórida ou Ambassador. O primeiro filme que eu me lembro de ter visto foi “Marcelino, pão e vinho”. Ele marcou minha vida, era a história de um menino pobrinho. Eu ia muito à praia nessa época. A minha mãe tinha duas irmãs: uma já morreu e a outra ainda está viva. E nós éramos oito primos, só de parte de mãe. As duas, todo o verão, se juntavam com a minha avó e alugavam um táxi de um motorista. O táxi era um Ford 1939, que eles chamavam de jardineira, porque era um carro que tinha atrás um banco para frente e um banco para trás. O motorista chamava-se seu Alaor. Nós íamos à praia na Ilha do Governador. Se você olhar hoje o que era o lugar, você não acredita a degeneração ecológica da cidade. Quando você pega o viaduto que leva para a Ilha, passa no aeroporto, ali embaixo tinha uma praia, onde hoje é um lodo, um charco. É completamente deteriorado. Ali tinha uma praia e milhares de pessoas; na areia tinha tatuí, caranguejo, sinal de vida marinha muito intensa. Nós íamos até a Ilha do Governador, passávamos o dia lá e voltávamos: a família toda ensanduichado ali dentro e cantando, invariavelmente. Tinha uma música de carnaval muito famosa: Alalaôo Ôôô Ôôô, mas que calor ôôô ôôô. Entrada no Pedro II A maior preocupação da família sempre era estar em um ponto próximo de um colégio judaico, e geralmente os colégios eram Sinagogas, ali era o ponto de reunião. Então foi criado um colégio na Tijuca chamado Colégio Hebreu Brasileiro, na rua Desembargador Isidro, que sai da Praça Sanes Pena. Meu pai comprou um apartamento no prédio ao lado do colégio, para que eu fosse estudar lá, o objetivo fundamental era esse. Eu saí de férias, fui para uma colônia de férias. Quando voltei, eu estava fazendo a Admissão, antiga quinta série, o último ano do hoje 1º Grau do primário. Minha mãe disse assim para mim: “Resolvi te inscrever para o concurso para o Colégio Pedro II, e o exame é na semana que vem.” “Como é que você fez isso? Eu não estudei, eu não me preparei.” Havia outras pessoas nessa escola que estavam se preparando para isso, eu falei que não ia passar. O Pedro II naquele momento era uma instituição. Ela disse: “Não faz mal, faz a prova” Tinha uma menina, a Sheila, que era de uma família conhecida, que se preparou, estudou, era a melhor aluna da turma, muito aplicada. Eu fui, a primeira prova era Português. Eu tinha muita facilidade, eu passei a minha infância lendo - além do episódio dos gibis, dos cinco aos nove anos, todo dia que eu voltava da escola, a minha mãe parava numa Biblioteca que tinha no Méier e eu lia duas horas por dia. Li todos os livros que tinha naquela Biblioteca. Mas a gramática eu não tinha. Eu era um aluno mediano, muito agitado, com uma liderança forte na turma; era sempre o que estava à frente das agitações na turma. Era um menino muito grande e isso me permitia uma certa ascendência sobre o restante. Mas era um aluno médio, sem muito interesse para as aplicações dos estudos. Eu peguei com essa moça, a Sheila, um livro de Português, Nova Gramática Portuguesa. Cheguei em casa com aquele livro – um calhamaço – “O que é que eu vou fazer? Não tem como estudar isso tudo”Fiz o seguinte: peguei o livro e abri numa página. Estes livros eram assim: tinha um texto e sobre esse texto tinha todos os exercícios gramaticais. Eu abri num texto chamado A Arte e a Instrução, e passei dois ou três dias só estudando esse texto. Eu já sabia de cor Outra coisa outra característica em mim é que eu fazia as coisas muito rápido, e isso incomodava muito a minha mãe. Na hora em que eu entrei para fazer a prova, ela me deu um lápis onde ela escreveu com gilete a seguinte frase: “A pressa é inimiga da perfeição”. Quando ela me entregou o lápis, botou assim par eu ver: “Lê”. Eu peguei o lápis, coloquei no bolso e entrei. Sentei na prova. Vem o inspetor, põe as provas de cabeça para baixo e diz: “Podem começar”. Quando eu viro a folha, qual é o texto? A Arte e a Instrução. Peguei a prova, olhei, balancei a cabeça, disse: “Não é possível A Arte e a Instrução?”. Eu entreguei a prova em quinze minutos, o inspetor disse: “Tem certeza, menino? Que é, você não sabe nada?” “Não, eu sei tudo” Entreguei a prova. Quando saí, aquelas mães todas esperando, e a minha só faltava me matar. “E o lápis que eu te dei?” E eu dizia: “Mãe eu tirei dez” “Não pode ser Você está sempre inventando história”. Tirei dez Pedro II O sonho da minha mãe era, até um certo momento, que eu fosse diplomata. Ela achava que eu tinha vocação para isso, e o sonho da vida dela era ter um filho diplomata. Ela achava que no Pedro II isso ia acontecer. Depois no meio do caminho ela já começou a achar que o bom mesmo era ser advogado, então ela queria muito que eu fosse advogado. O Pedro II era certamente naquele momento, junto com os colégios católicos como o São Vicente, um dos melhores colégios da cidade. Os professores eram excepcionais. Alguns que me marcaram foram um poeta chamado J. G. de Araújo Jorge, muito famoso, que tinha livro - os livros dele não eram grande coisa, mas era um excelente professor; também havia um professor de inglês, chamado Nillans, que marcou época no ensino de inglês aqui no Rio de Janeiro. Era um figura: um senhor de barba, sempre com um cachimbo na mão. Se vestia impecavelmente como inglês e tinha dores nas costas terríveis, ele gemia durante as aulas. Era um professor implacável. O colégio tinha uma professora de história que se chamava Vera, que também marcou muito. A escola foi um marco na minha vida. Eu estudei no Pedro II na Tijuca de 1961 até terminar o Ginásio. Tinha os Pedro II regionais, um na Zona Norte, o Tijuca, depois teve um na Zona Sul onde só tinham o Ginásio. Depois fiz o 2º Grau no centro. Optei por fazer Clássico ao invés de fazer Científico - na época você tinha essa opção, quem queria seguir humanas fazia Clássico e quem queria seguir a área de ciências fazia o Científico. Independência desde cedo A influência dos meus pais sobre a minha vida é uma coisa muito curiosa. Havia uma distância geracional. Estamos falando de anos 1960, revolução cultural dos anos de 1960. Eu gostava muito do meu pai, tinha carinho por ele, tive a vida inteira, mas tínhamos uma distância muito grande. Com a minha mãe já era um pouco diferente, dado esse interesse dela pela cultura. Eu me tornei independente, autônomo, muito cedo, muito rápido mesmo. Com 14 anos para 15 anos eu já tinha uma autonomia pessoal, e isso também aconteceu um pouco pela participação na política. No Pedro II na Tijuca a turma mais velha era a quarta série do Ginasial e naquele momento os grêmios estudantis tinham uma presença muito forte e muito ativa, e o grêmio do Pedro II da Cidade era fortíssimo. Certamente gerações e gerações de liderança política do Rio de Janeiro vieram do Pedro II. Depois teve outros colégios, como o de Aplicação, que também participaram dessa história. Na quarta série eu fui presidente do grêmio da Tijuca e fui da comissão de formatura. Fui orador da turma daquele ano - talvez eu ainda tenha até o convite, que era um documento interessante, tem algumas fotos. Eu tinha 14 para 15 anos, mas você começa a conviver com os mais velhos, com o grêmio da cidade, havia toda uma junção de todas essas coisas e aí isso deslanchou numa participação política desde essa adolescência, desde os 15 anos. Estamos falando de 1964, portanto do começo do regime militar; estamos falando de uma resistência na área dos estudantes. Eu me lembro perfeitamente de quando houve o Golpe de 1964; eu era presidente do grêmio do Pedro II, menino, tinha compreensão daquilo. Eu estava no antigo Calabouço, que foi aquele restaurante que depois foi destruído. Aguardava ordens para resistir ao Golpe Militar. Meia hora depois não havia ordens para resistir ao Golpe Militar, e fui para casa soltar pipa, que era o que me restava. Depois fui para a cidade, e era outra vida. Era uma vida cultural muito intensa no Pedro II da cidade, uma participação política muito forte. Eu estudei grego e latim - hoje parece coisa do século, sei lá, XII, XIII. Foram matérias regulares do meu curso de Clássico. Eu fazia movimento estudantil e estudava. E era um bom aluno, porque reduzia as minhas diferenças e divergências com a matemática, com a química, com a física próximo de zero. O meu forte eram português, literatura, filosofia, sociologia, grego, latim, geografia, história, matérias pelas quais eu tinha muito interesse e muita atração. O Pedro II na cidade foi uma época muito boa, eu gostava muito da escola. Dois grupos de teatro Eu fui militante de partido por muitos anos. Comecei muito cedo, com 15 anos. O Pedro II foi uma escola de aprendizado político e depois continuei na Universidade. Minha mãe tinha pânico daquilo. Meu pai, coitadinho, sofreu muito com isso. Quando eu tinha 16 anos, estava no Pedro II, me encantei muito com o gosto pela arte, pela cultura, especialmente pelo teatro. Então montei um grupo de teatro - aliás, montei dois, um dentro do Pedro II e um fora, na colônia. A primeira peça que nós montamos se chamava “Pedro, pedreiro” - era a música do Chico que tinha acabado de sair e nós fizemos uma montagem da música. Eu morava do lado do Hebreu Brasileiro. Alguns acham até hoje que eu estudava no Hebreu, porque eu ia lá jogar bola, as pessoas da minha idade do Hebreu eram meus amigos. E a minha casa era uma espécie de caverna para se esconder, o pessoal matava aula, saía, pegava o elevador e ia para minha casa bater papo, conversar. E minha mãe deu aula no Hebreu, de idish, durante uns três, enquanto existiu a cadeira. Com essa turma do Hebreu, nós montamos um espetáculo que era musical. Era só um conjunto de músicas que aos poucos foi se desenvolvendo para textos com música, e isso depois desembocou em um grupo de teatro chamado Grupo dos Nove. Começamos trabalhando no Monte Sinai, que era o clube da Tijuca, mas num certo momento nós sentimos que não havia espaço para isso e acabamos indo fazer teatro na ASA, um clube que existe até hoje em Botafogo. Era um clube da esquerda judaica do Rio de Janeiro. Eu cheguei na ASA com 16 anos, o diretor cultural era tio da minha mulher. Não conhecia ninguém, fui lá com mais um amigo que era meu parceiro nessas coisas, disse: “Nós queremos montar uma peça aqui, assim, assim, assado.” Ele disse: “Está bem, pode fazer.” E criamos raízes lá - para mim, até raízes familiares, porque conheci minha mulher lá, começamos a namorar ali e depois casamos. Universidade Prestei vestibular em 1967 e, atendendo ao desejo da senhora minha mãe, fiz o vestibular em Direito. O sonho da vida dela era ter um advogado na família - como ela não conseguiu que eu fosse, ela mesma foi à cata do diploma. Naquele momento eu já estava militando na política fortemente. Depois de um mês e meio do vestibular de Direito eu cheguei à conclusão de que eu não salvaria o mundo me formando em Direito, mas salvaria o mundo sendo Economista, que a Economia tinha muito mais razão de ser como ferramenta para transformar o mundo do que o Direito. Então comuniquei a ela que não seria mais advogado, que ia estudar Economia. Uma nova crise doméstica, evidentemente. Mas ela compreendeu e eu mudei no meio do caminho, mudei de um vestibular para outro. Em dois meses de vestibular eu passei para Economia, fiz prova para Economia e fui estudar na Faculdade Cândido Mendes, ali no centro, no prédio antigo da dona Maria a Louca. Nessa época já com uma militância bastante intensa. O primeiro ano da Faculdade foi logo 1968. Em 68 ou 69 me elejo Presidente do Diretório da Economia da Cândido Mendes, depois fui Presidente do Diretório Central das Escolas Independentes. Jovem dos anos 60 Cada momento da minha vida me permitiu ampliar horizontes em áreas diferentes. Na minha passagem pelo teatro, logo adolescente, eu conheci vários críticos de teatro, pessoas do meio teatral que até hoje fazem parte um pouco do meu universo. A política universitária era um passaporte para conexões e para conhecimentos em todas as áreas. Na área da Economia, na área cultural, você tinha uma militância que se juntava. Foram anos muito intensos. Houve duas prisões curtas, coitado do meu pai. Uma vez foram me procurar na casa dele, e a minha sorte é que eu já tinha casado há um mês. Tentaram seqüestrá-lo e ameaçaram-no de morte. Uma coisa horrorosa, ele sofreu muito com isso, a vida toda. Eu levava uma vida de um jovem dos anos 1960 estudando Economia, com a cabeça dividida pela contracultura dos anos 60, a política de esquerda. Eu fui um jovem típico daquela época. Tinha uma barba que vinha aqui, um cabelo que vinha aqui. Sorte A sorte na minha vida é uma coisa muito estranha. Eu estava no Grêmio, sentado em cima de um balcão, e era tarde da noite - eu estudava à noite. Estava conversando com algumas pessoas de dentro do diretório. Entrou um cidadão - você identificava claramente os alunos mais velhos e os mais novos: os mais novos iam de sandália, tênis, sapato – e entrou uma pessoa de terno, gravata e tal. Era já um estudante da quarta série, já estava se formando. Um sujeito chamado Sérgio Stephan, aquele soldado a vida toda, não tenho a menor idéia do que ele faz na vida. Entrou no diretório, olhou e disse: “Você esteve na minha turma falando?” Eu digo: “Devo ter estado” - passava o dia inteiro fazendo agitação, então devia ter entrado na turma dele. Ele disse: “Quer um emprego? Mas não é um emprego qualquer não Eu estou deixando meu emprego porque eu estou me formando e vou partir para outra coisa. Sou subgerente de uma área da General Electric e eu quero dar esse emprego para você” Ele me levou no outro dia. Botei uma roupinha mais arrumadinha, fui na General Electric, fiz um teste, passei. Na semana seguinte estava trabalhando na General Electric, ganhando um salário inacreditável para os padrões da época e até para os padrões de hoje. De office-boy a diretor O emprego da General Eletric me permitiu tomar a decisão de casar e me tornar independente muito rapidamente. Quando eu resolvi estudar Economia e não Direito, aconteceu uma crise familiar. Minha mãe me fez algumas ameaças: “Eu não vou te dar mais mesada, você vai ter que...” Eu digo: “Está bem, não tem problema, não precisa dar mesada, eu vou trabalhar.” Com 17 anos peguei o jornal, tinha um anúncio: “Precisa-se de office-boy” Cheguei lá, me apresentei; tinha meia dúzia de pessoas. Preenchi a ficha, tinha que saber bater à máquina, e eu nunca tinha visto uma máquina de escrever antes. “Você sabe escrever à máquina?” “Sei.” O Gerente do pessoal, que é um sujeito que eu nunca mais vou esquecer: “Escreve à máquina aí, guri Em que escola você aprendeu?” “Não me lembro bem.” Ele começou a rir: “Tá bom, vai” Me escolheu para a vaga. Fui office-boy da José Olympio Editora com 17 anos. Meu primeiro emprego foi esse na José Olympio. Depois tive alguns empregos como estagiário de Economia, trabalhei na antiga Telerj, trabalhei na CAPEME, que era uma empresa de pecúlio, montepios. Isso foi em 1969. Olha que história engraçada: ganhei um salário. Fiquei na editora três ou quatro meses, tempo suficiente para a minha mãe perceber que eu podia ter um emprego, que eu podia me sustentar e que eu queria era ser Economista. Eu ficava distribuindo caneta, tomava conta do almoxarifado. Ficava no buraco, lá embaixo, no subsolo. O telefone tocava: “Tem que levar um bloco para o doutor Fulano”, eu levava. Sete anos depois disso eu volto para a José Olympio como Diretor da Empresa. Então muitas vezes eu brincava lá: “Eu comecei aqui como boy”. Sandália emblemática Nessa época, o Cândido Mendes era muito jovem e eu infernizei a vida dele enlouquecidamente. Ele tem um irmão chamado Luiz Antônio Mendes de Almeida, que é Diretor da Escola de Comércio – antigamente, nos anos 1920, 1930, era muito forte. Era um Ensino Médio forte que formava Contadores. Havia um certo conflito entre o Cândido e o irmão: o Cândido com uma posição política mais avançada, o irmão bem mais conservador. Então a escola tinha uma tensão interna, até onde o Cândido ia, e uma certa repressão interna e até na estrutura da instituição que o Antônio Luiz capitaneava. Há dez, quinze anos ele escreveu um livro de memórias. O Antonio Mendes agora é escritor, tem vários livros publicados. Nós nos damos bem, depois a anistia veio para todos. Nesse livro ele cria um personagem que sou eu mesmo, e ele tem quatro páginas do livro falando sobre a minha sandália: que ele não dormia porque aquele cidadão entrava de sandália no prédio onde morou a Dona Maria a Louca, e que ele tinha vontade de me prender porque eu estava de sandália - era uma coisa tão emblemática a sandália. O casamento aconteceu duas vezes Eu casei duas vezes: no religioso e em uma festa. Fizemos dois casamentos distintos e absolutamente divergentes. Fiz um casamento tradicional na Sinagoga. Casei em Botafogo com o rabino Lemle. Foi uma pressão muito grande da minha mãe porque tinha que fazer o casamento e eu não queria ir de terno, ela quase morreu porque eu não ia ao casamento de terno. Eu comprei o terno, não, usei um terno velho do meu irmão para casar - enfim, a saia de noiva da minha mulher era minissaia. Casamos no casamento religioso direitinho. Eu lembro até hoje a fala do Lemmer, eu lembro até hoje. No dia seguinte nós fizemos um outro casamento, para os nossos amigos. Foi no terraço do prédio onde moravam os meus sogros em Copacabana, onde morava a minha mulher. Eu não sei porque as pessoas fizeram um cartazinho dizendo que ia ter uma festa no meu casamento, e na época eu era Presidente de Diretório, conhecia gente nas faculdades todas do Rio. Isso foi pregado pelas faculdades do Rio, estiveram lá mais de 600 pessoas. Foi uma confusão, começou a voar prato para cima... Foi uma festa antológica, durou até as seis horas da manhã. Então eu casei duas vezes: no religioso e nessa festa. Nosso convite de casamento eu também tenho, é uma coisa fantástica. Eu não fiz aquele convite, eu fiz um convite completamente diferente, que até hoje é motivo de espanto das pessoas. Era um convite num papel marrom, não tinha nada escrito a não ser dois anúncios classificados, criados, com textos inventados. Era um texto sobre a minha mulher, ela procurando um marido porque já estava ficando muito passada - ela tinha 17 anos - e um texto meu. Eram dois blocos de texto, um convite muito original, muito interessante. Casamos e um mês depois, eu saí da G&E. Fui morar em Botafogo - engraçado, sempre morei por aqui. É uma síndrome curiosa. Fui morar na Rua General Severiano, em um apartamento que tinha meia sala, um quarto e uma janela. Morei ali durante um ano, foi o período mais difícil de repressão política. Militância Eu fui preso em 1968, logo depois do AI-5, e depois em 1969 de novo. Uma vez fiquei preso um dia, e outra vez fiquei dois dias. Esse foi um ano muito duro. Eu abandonei a G&E, a política era muito intensa. Naquele momento muitas pessoas estavam optando pela guerrilha, pela luta armada – não era o meu caso, apesar de eu ter permanecido ligado ao partido comunista, PCB. Mas tinha outros amigos, então inevitavelmente de alguma maneira você está envolvido por ajudar alguém, por fazer um favor. A Valéria também era ligada a isso, ela e os primos dela todos, eles eram militantes desses outros grupos. Quando chegou no meio dos anos 70, começou efetivamente a minha carreira profissional e o envolvimento que eu mantenho até hoje. Apesar de haver várias histórias na minha vida, ela tem um fio condutor daí para frente. A Internet de mimeógrafo Havia um jornalista dos anos 1950 chamado Gentil Noronha. Ele era muito nacionalista, participou da Campanha do Petróleo ativamente, criação da Petrobrás. Ele tinha um sonho, que era nada mais, nada menos do que o sonho moderno da Bloomberg, do GNT ou da Globo-News. Ele começou uma empresa em 1966, ou até um pouco antes, que era o seguinte: ele e a mulher acordavam meia-noite, corriam as redações dos jornais, pegavam ainda as matérias às vezes sendo redigidas, nem prontas, recolhiam tudo, iam para um escritoriozinho e faziam um boletim chamado Índice Banco de Dados, que trazia o resumo das principais matérias dos principais jornais do Rio de Janeiro e às vezes de até jornais de fora do Rio de Janeiro. Esse boletim era impresso em mimeógrafo. Às sete horas da manhã saia uma equipe de boys entregando esse jornal na mesa de executivos, políticos, empresários, de pessoas que faziam a assinatura daquele boletim. Era a internet Era comunicação moderníssima com os meios que existiam naquele momento. A empresa recebe em 1970 um forte apoio de um grupo de pessoas do Rio de Janeiro, de um empresário chamado Eurico Amado, da área têxtil - a indústria têxtil era uma indústria fortemente nacionalista e com tradição - e de um jornalista, Artur da Távola, nosso ex-senador, e de mais um ex-deputado de 1966 chamado Ciro Curtis, que foi cassado. O Eurico, o Ciro e o Paulo Alberto entraram para sócios dessa empresa e passaram a dividir a direção da empresa com o Gentil, que era bem mais velho. A empresa começou a crescer muito, muito, e em um certo momento eles resolveram chamaram duas pessoas mais jovens para tocar o dia-a-dia da empresa. Era um jornalista chamado Marcos Alencar, um excelente jornalista que já morreu, do coração. Ele foi cuidar do boletim de publicações especiais. E me chamaram Eu tinha 21 anos, e eles me deram a direção de um setor novo na empresa. Eu cheguei à empresa graças às relações políticas, porque eram pessoas que eu já conhecia e que já me conheciam da Faculdade. O Artur da Távola nessa época era Deputado Estadual. Ele era Paulo Alberto, virou Artur da Távola, crítico de televisão, depois fez o retorno e voltou à política. Nesse período, ele era um jornalista que escrevia sobre televisão e era dono dessa empresa. Então eu fui trabalhar lá e o projeto que nós criamos era muito interessante, internet pura É a Bloomberg completa, que era o seguinte: eu propus a eles utilizar na empresa um bicho chamado computador, que ninguém conhecia, não sabiam o que era. Isto foi em 1970. Eu propus a eles que criássemos uma coisa chamada Matriz Econômica Brasileira - existia na época uma coisa chamada Matriz Econômica, que são os insumos básicos da economia. Seria uma série de 300 índices sobre a economia, e manter esse índices atualizados permanentemente. Isso cria um segundo produto para a empresa: primeiro o Boletim com a notícia do dia e o segundo era um serviço que os usuários iam receber folhas de computador - naquele tempo era folha de formulário contínuo, com aqueles buraquinhos com 400 folhas - com número de quilômetros de estradas asfaltadas no Brasil, inflação, exportação de produtos, o café, produção siderúrgica. Era uma matriz econômica Só tinha isso a Fundação Getúlio Vargas, assim mesmo fechada e mais índices econômicos; nós íamos por dentro da produção. Foi um sucesso Eu tinha uma equipe grande de jovens que trabalhavam comigo. Fiz isso durante três. quatro anos. Era na verdade um serviço de informação econômica baseado em informática. Nós usávamos o único bureau do Rio da Datamec, que foi uma empresa criada em 1966 pelo filho do Carlos Lacerda, Sérgio Lacerda. Todo dia que tinha alteração de índices eu ia para lá e ficava o dia inteiro esperando perfurarem os cartões, eram milhares de cartões Voltava para o escritório com um cacho de folhas de computador e aquilo era então encartado e mandado para as pessoas. Foi a primeira experiência eletrônica de divulgação de informação no Brasil. As empresas mais variadas, economistas, bancos contratavam nossos serviços. Começaram a aparecer solicitações de pesquisas mais aprofundadas, por exemplo de empresas, e isso virou um departamento de pesquisa de economia. Um belo dia apareceu lá um grupo de japoneses que queriam instalar uma fábrica de giz no Brasil e queriam saber o tamanho do mercado de giz no Brasil. Ele tem dois mercados básicos: as escolas e as sinucas. Emprego para economistas exilados Nós vivíamos um momento dos primeiros rudimentos de abertura, mas com muita dificuldade. A maioria dos economistas estava exilada no Chile, alguns nos Estados Unidos, começando a tentar voltar para o Brasil. Mas eles não tinham onde trabalhar, porque estavam completamente fora do ramo. Todos os economistas que voltaram para o Rio de Janeiro foram trabalhar no Índice, porque era o único lugar que tinha alguma coisa para se fazer, e tinha algum salário para receber. Um sem número deles trabalhou comigo: o Carlos Lessa, o presidente do BNDES [Carlos Lessa foi presidente do BNDES até 2004]; Inácio Rangel, que foi diretor do BNDES nos anos 1960, foi ministro também, muito famoso. E veio ser meu assessor um economista brasileiro chamado Jesus Soares Pereira, que é outro para quem a memória brasileira está devendo muito - foi o brasileiro vivo que mais me emocionou. O Jesus é um pouco meu pai emocional e um economista, uma pessoa fantástica Um cearense autodidata, foi ele quem escreveu a Lei 2004 que criou a Petrobrás. A história deixou ele de lado, eu acho isto uma coisa tão absurda O Jesus era uma pessoa de uma carga de humanidade, de generosidade com as pessoas inacreditável. Ele foi chefe da Assessoria Econômica do Getúlio. A história dele vale um livro, um filme, é uma história que precisa ser resgatada Era muito engraçado, porque durante três anos eu fui o chefe do setor, o Jesus era o meu assessor e um bando de meninos que faziam aquele trabalho. O Jesus me chamava de chefe - ele entrava, me cumprimentava, dizia “Bom dia, chefe”. E dizia assim para mim: “Não faz assim não, isto está errado Depois eu te conto no almoço como é isso”, e eu passei três anos ouvindo lições de economia. Era o sujeito que mais conhecia o Brasil, ele sabia a posição de cada usina, de cada linha de transmissão do Brasil de energia de cabeça. Ele pegava o guardanapo no almoço e desenhava. Uma história fabulosa Eu convivi com essas pessoas todas no Índice, Maria da Conceição Tavares, um sem número de economistas que fizeram trabalhos ali no Índice. Assim como em São Paulo tinha o CEBRAP, para onde o Fernando Henrique e o Serra foram, no Rio teve o Índice. Áudio-visual Quando o meu filho nasceu, em 1973, recebi um convite para ir trabalhar na José Olympio. A José Olympio tinha criado duas novas empresas: uma chamada Didacta Sistemas Educacionais e outra chamada Ensine Audiovisual. Eram empresas voltadas à produção de bens culturais e informação não escrita - ou seja, novamente a internet com os meios da época. A Didacta tinha uma coisa chamada Museu de Arte Didacta. Foi a única experiência existente no Brasil, maravilhosa O Vladimir Alves de Souza, que foi embaixador brasileiro na França por muitos anos, ligado à família José Olympio, que montou esse Museu. Era um kit com 60 reproduções das principais obras, pintura e 20 esculturas, brasileiros inclusive. Com manuais, o suporte eram três livros, com slides sobre a história da cultura ocidental, a história da arte ocidental. Uma qualidade fantástica Eram produzidas em papel. Nós fazíamos uma montagem de painéis, isso era vendido para as escolas, que passavam a ter um museu lá dentro. Além disso, os kits representavam o que na época era a tecnologia mais sofisticada de comunicação, o super oito. Então nós tínhamos representados (tínhamos representado ou tínhamos representantes?) no Brasil uma empresa chamada Tecnicolor, a de cinema que tinha uma maquininha de super oito - ao invés de ser aquele aparelho clássico projetor, era um aparelho pequenino. Já era um avanço tecnológico, tinha um cartridge que encaixava e o filme passava em looping. Tinha inclusive uma pastinha que parecia do James Bond, era uma pastinha que você botava em cima da mesa, abria; quando abria, corria uma tela para frente e encaixava, e atrás tinha um espelho. Você encaixava o cartridge, o cartucho e o filme aparecia na tela. A base do sistema era um projetor em uma malinha. Chama-se show case. Nós passamos a fazer cinema educativo, treinamento, treinamento de vendas, treinamentos dos mais variados. A Cine era a produtora dos meios audiovisuais. Eu passei vários anos da minha vida cuidando dessas duas empresas. Era uma coisa deliciosa - eu tinha a desagradável missão de ir duas vezes por ano à Paris, ficar uma semana no hotelzinho de frente ao Louvre para selecionar as gravuras e as estatuetas e esperar a produção do material, analisar com uma senhora que era a responsável. Isso era feito no Louvre Na Ensine passei a fazer projetos. Eu montei uma equipe muito interessante; por exemplo, o redator-chefe era um rapaz chamado Ney Lopes, que é compositor. A produtora era a Maria Carmem Barbosa, que hoje é escritora da Globo e faz texto junto com o Falabella. Era uma equipe ótima. Biografias de grandes escritores Mais ou menos em 1974 foi criada a primeira instituição a cuidar de informática no Brasil, chama CAPRI – Comissão de Aperfeiçoamento Profissional. Eu tinha alguns amigos lá, e ela contratou a Ensine para fazer um pacote de filmes, audiovisuais, textos, animações, para treinar pessoas na área de tecnologia no Brasil inteiro. Esse pacote foi usado durante 15 anos, até pouco tempo atrás algumas escolas de informática ainda usavam esse pacote. Eu conduzi, junto com a equipe da CAPRI, a construção desse conjunto enorme de textos, e daí veio a minha relação com a informática. Toda a turma ficou na história da tecnologia no Brasil - agora, por exemplo, no Governo Lula, quem está responsável pela política de informática do Governo é um dos integrantes dessa equipe da CAPRI. Outro projeto que fiz com muito carinho foi o de biografias de grandes escritores brasileiros. Isso tinha tudo haver com a José Olympio. A maioria das pessoas eram autores da José Olympio que produziam filmes, versões livres da vida desses autores feitas por grandes cineastas. Eu chamei Nelson Pereira, Cacá, Joaquim Pedro, para dirigirem esses documentários. A empresa corria atrás de dinheiro. O Sérgio Lacerda foi um dos que financiou, chegamos a produzir quatro filmes, nem sei onde estão. Nunca foram comercializados porque logo depois a José Olympio entrou em dificuldades; o BNDES interveio na empresa e todo esse processo se interrompeu. Esses dois projetos me abriram uma ponte para o setor de cinema e para a área de informática de uma maneira muito sólida, com amizades que ficaram pela vida inteira. Assim que a José Olympio entrou em dificuldades e o BNDES encampou, foi uma confusão. Uma atuação desastrada do Governo obrigou a José Olympio a comprar uma editora em São Paulo, depois não agüentaram. O BNDS se desinteressou por essas duas empresas, eu fiz uma proposta para comprá-las. Passei de executivo para dono da Ensine, e fiquei com ela alguns anos dando continuidade a esse mesmo trabalho de que eu falei. Em 1976, mais ou menos, é criada a Embrafilme. No Governo Geisel há uma articulação dos cineastas brasileiros que indicam o diretor da Embrafilme - foi a única gestão de um cineasta mesmo, que foi o Roberto Farias. Eles foram me fazer uma visita lá na Ensine e me convidaram para ir para a Embrafilme. Passei a empresa para o meu sócio e fui para lá como Diretor Comercial da empresa. Fiquei alguns anos lá, nunca me dei muito bem com o serviço público lato senso. Cooperativa de Cinema Essa foi a grande época do cinema no Brasil. Glauber vivíssimo - o Glauber Rocha invadiu um dia a minha sala na José Olympio, sentou em cima da mesa, e a empresa toda olhando, porque a minha sala tinha uma janela de vidro, e ele ficou ali sentado em cima da mesa fazendo discurso sobre o guarani. O problema do cinema é sempre a exibição. Nós sempre tivemos um sistema ativo de produção, de distribuição também, mas a exibição sempre foi parca. Num golpe de sorte, um conjunto de cineastas se reúne, cria uma entidade chamada Cooperativa Brasileira de Cinema, cujo presidente era Nelson Pereira dos Santos; eram 50 cineastas, praticamente todos, e eu fui para lá como Diretor Executivo. Na verdade era uma continuidade do trabalho na Embrafilme. Essa empresa comprou uma cadeia de cinemas - uma empresa mexicana chamada Telmex que trazia os filmes do Cantinflas. Ela tinha uma cadeia de cinemas no Brasil e nós conseguimos comprar. Da noite para o dia o cinema brasileiro ganhou 12, 13 salas de cinema administradas pelos cineastas. Quando acabou a gestão do Roberto, o governo indicou para Diretor Geral da Embrafilme o Celso Amorim, que é agora Ministro das Relações Exteriores. O Samuel Pinheiro Guimarães, que é o Secretário Geral do Ministério, era o diretor Administrativo. Eu disse para eles que ia sair, e fui para a Cooperativa, fiquei lá durante muitos anos. O poder da José Olympio Na José Olympio, apesar de eu não estar na produção de livros, o meu contato com editores era muito intenso. No mesmo dia em que eu entrei lá, entrou o Paulo Rocco, que é hoje o presidente do sindicato. Ele era Gerente de uma empresa chamada Editora Sabiá, que foi criada pelo Fernando Sabino e pelo Rubem Braga no começo dos anos 1960; essa editora teve um momento de muito prestígio, depois não se agüentou e a José Olympio absorveu. Uma coisa que as pessoas não compreendem é que o peso político que tem hoje a Rede Globo, naquele tempo quem tinha era a José Olympio. Eu vivi muito essa história e conheço vários depoimentos muito interessantes. O livro era o principal veículo de comunicação, a televisão não tinha a expressão que tem hoje. Da sala do seu José, como nós o chamávamos, não saía o Golbery, ele vivia lá dentro. Todos os livros do Golbery foram editados lá dentro. E eu vi várias vezes, durante anos difíceis da política, a esquerda dentro da sala da José Olympio: Graciliano Ramos, José Lins do Rego. A José Olympio editava todos os autores brasileiros que você possa imaginar menos Jorge Amado: Drummons, Guimarães Rosa, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Cassiano Ricardo, Clarice Lispector, Rachel de Queiroz, Lygia Fagundes Telles, todos os autores brasileiros eram da José Olympio, sem exceção A sala do seu José era uma sala enorme com portas abertas. Ele ficava sentado num enorme sofá escuro, vermelho. Era um senhor baixinho, muito gordo, muito educado. As pessoas iam entrando na sala e conversando com ele. Eu me cansei de ver lá dois, três generais conversando, ou expressões da esquerda: Ferreira Gullar, que era o grande líder da esquerda, da cultura. Era uma casa fantástica Eu aprendi muito lá, tive muito contato com os editores, e aprendi muito com o seu José também, com o Geraldo, o filho dele, que até hoje continua editando. Secretário de Cultura Saí da José Olympio e fui para a Ensine, para a Embrafilme, para a Cooperativa. Em 1982 foi eleito para prefeito de Petrópolis um político chamado Paulo Rates, que eu conhecia de passar férias lá. Um belo dia ele liga na minha casa e diz: “Vem para cá ser Secretário de Cultura.” Falei com minha mulher e fomos. Vendi o apartamento que eu tinha aqui e comprei uma casa lá, em dois meses estava morando em Petrópolis. Fui secretário de Cultura lá da prefeitura, foi outra experiência maravilhosa. No começo foi muito difícil, porque é uma cidade de muita tradição, tem um lado muito conservador da sociedade da cidade. No começo eu sofri uma rejeição muito grande, política também. Mas o Paulo não se preocupou muito com isso e fizemos um trabalho lá muito bom Eu fiquei lá de três para quatro anos com várias atividades na área cultural, tivemos vários movimentos na cidade. O Betinho vivia lá; nós criamos um conselho, o Conselho da Utopia, e todo ano tinha um Ciclo da Utopia que o Betinho coordenava. CEBRAD Num certo momento começa a se criar um movimento de prefeitos progressistas com a idéia de orçamento participativo, que acabaram dando num pedaço do programa do PT hoje. Minha experiência de prefeitura com orçamento participativo foi em Joinville, com Luiz Henrique, que agora é governador de Santa Catarina. A prefeitura de Petrópolis se envolveu nisso. Havia um organismo no Rio chamado CEBRAD (Centro Brasil Democrático) que era presidido por Oscar Niemeyer. Era um organismo de luta pela democracia. O conselho do CEBRAD era o Oscar, o Moacir Félix, Nelson Werneck Sodré, Chico Buarque, Betinho, Ferreira Gullar. Era um conjunto de pessoas, eu não me lembro mais dos outros. Todos envolvidos com o projeto daquele show, o Show do 1º de Maio. Eu passei a fazer parte desse conselho do CEBRAD e eles me pediram para coordenar esse trabalho nos Municípios. Criamos lá um organismo que fez três, quatro, cinco congressos de Municípios discutindo um novo olhar sobre a cidade, novas práticas. Esse trabalho eu fiz em paralelo enquanto estava na prefeitura de Petrópolis. Criei grandes amizades ali. O Secretário Executivo do CEBRAD era um jornalista chamado Renato Guimarães, que eu já conhecia porque o irmão dele trabalhou comigo no Índice - era um jornalista que morreu muito jovem, chamado Fausto Cupertino. Quando foi terminando o mandato em Petrópolis, eu já estava cansado: eu descia muito para o Rio, porque o resto da família estava aqui, meus filhos não se adaptaram muito. Então eu quis voltar para o Rio. Quando voltei, o Saturnino Braga tinha acabado de ser eleito prefeito e o Jó Resende era o vice dele, e o Jó estava muito ligado a esse trabalho das prefeituras. Ele me convidou para ir para o Governo. Eu disse: “Mas o meu negócio era cultural, que é o que eu quero.” Nessa área não tinha espaço, mas ele queria que eu ficasse ali próximo e eu acabei presidente da Rio Urbe, empresa de urbanização da cidade, que tinha acabado de ser criada. Passei um ano e pouco lá, mas de novo não era exatamente a minha praia, eu estava sempre querendo voltar para a coisa do livro. Publicou um romance O Renato Guimarães, esse que era do CEBRAD, criou uma editora chamada Revan, que era uma abreviação para Renato e Vanda. Fui trabalhar com ele de uma maneira muito informal, como uma espécie de consultor, assessor. Eu fazia contato com autores. Eu opinava sobre os livros, para imprimir ou não, fazia leitura de livros, adaptação final para o português das traduções. E eu tenho um romance editado chamado “O Grande Pã Morreu”; é um romance que tem a tecnologia, o computador como papel principal. A editora continua até hoje, é boa, tem um catálogo muito bom. Mercado Editorial A José Olympio foi a grande editora do mercado nos anos 1950, 60 e 70. O Rio de Janeiro teve quatro grandes editoras que são reverenciadas. O primeiro deles é o José Olympio, incontestável. E sem similar porque publicou o primeiro livro de uma editora regular no Brasil em 1932, livro com idéia de reproduzir, de multiplicar. O segundo grande editor foi Alfredo Machado, pai de Sérgio Machado, criador da Record. A Record era uma pequena editora que tinha basicamente no seu catálogo dois grandes trunfos: o Jorge Amado, que era deles e continua sendo, e best-sellers americanos. É indubitavelmente a maior editora brasileira, mais expressiva, mais profissional, com um catálogo excepcional, e que vem cumprindo um papel histórico muito importante. Outra editora com papel muito forte em termos de edição é a Editora Civilização Brasileira, com o Ênio Silveira. No momento da ebulição política dos anos 1960, 70, o Ênio tem o seu grande momento. Depois começa a cair com o final do Governo militar, a editora começa a ter um catálogo que já não está mais tão atualizado. Ela era muito vinculada ao marxismo. O Sérgio Machado, dono da Record, é também dono da José Olympio, da Civilização Brasileira e da Bertrand, uma outra editora que era da Civilização - a Bertrand Brasil é um selo que foi aberto pelo Ênio. A Record recolheu o catálogo dessas editoras, ele é hoje todo da Record. O Renato (quem é?) é um homem de esquerda, um marxista; a aspiração dele até hoje é uma editora que publicasse livros de qualidade, de discussão política, mas ao mesmo tempo romances. Publicou muitos romances de jovens autores. CD ROM e internet No ano de 1994 eu lancei meu livro. Em 1995 começa a aparecer no mercado um objeto chamado CD-ROM. Nós recebemos na Revan alguns CD-ROMs que empresas americanas mandaram, eram livros infantis ma-ra-vi-lho-sos. Começamos a discutir se esse CD-ROM era uma coisa importante, se valia à pena entrar naquilo. Fui aos Estados Unidos avaliar um pouco essa história de CD-ROM, conversar com as editoras. Fiz um pouco por mim e um pouco pela Revan, mas foi uma atitude minha de investigar esse mercado. Evidentemente que, se houvesse coisas boas para serem feitas, eu ia recomendar à Revan ou a outra editora, porque eu tinha muitos amigos desses anos todos que eu fiz na área. Quando cheguei lá, fui em uma editora para ver um desses CD-ROM. Um rapaz estava sentado em uma mesa, me mostrou o CD-ROM e disse: “Esse CD-ROM nós já estamos vendendo pela Internet.” No dia seguinte voltei lá e, ao invés de conversar com o gerente, chamei o rapaz: “O que é vender CD-ROM pela internet?” Ela tinha um mês de fundada, eu olhei aquilo e fiquei fascinado. Eu conhecia as dificuldades da indústria do livro no Brasil, ser livreiro no Brasil é um ato de heroísmo: tem a dimensão continental, a dificuldade de distribuição, muita coisa. Venda pela internet A Internet era mais ou menos como se você imaginasse hoje uma redução tecnológica. Era um clube de pessoas que tinham acesso fechado, não era como a internet aberta: você tinha que estar inscrito num determinado Bulletin Board System (BBS) e aí você tinha acesso a um determinado conjunto de informações. O BBS era uma coisa não gráfica, só linguagem, texto. Já tinha duas ou três pessoas vendendo livros em BBS. Alguém botava uma lista de livros na tela e dizia: “Eu tenho aqui esses livros, vocês não querem comprar?” Quem fazia parte daquele BBS podia entrar ali e dizer: “Eu quero esse livro” Então o sujeito mandava - tanto que o maior que vendia acabou vindo trabalhar comigo na Book Net. A Amazon, por sua vez, era um galpão gigantesco com umas 100 pessoas. Quem me atendeu foi uma mulher que me mostrou tudo. Parecia um galpão do cais do porto, com livros espalhados por tudo quanto é canto, mesas, e pessoas pegando livros, embrulhando, empacotando, botando em caixas e mandando embora. Ela me explicou todo o sistema, que era basicamente a idéia de não ter estoque; ter a maior empresa do mundo sem ter estoque. Foi isso o que me levou a criar a Book Net. Eu vivia o drama como editor, eu via o que os livreiros sofriam. Quando voltei, a Revan lançou o livro de um rapaz que tinha 18 anos na época, um jornalista chamado Pedro Dória. O Pedro tinha ido estudar nos Estados Unidos, acho que na UCLA, uma universidade americana de ponta. Lá teve contato com a internet, ainda nos seus rudimentos, no comecinho mesmo Ele escreveu um livro que era uma espécie de diário dele nos Estados Unidos e ao mesmo tempo sobre o contato dele com a tecnologia. O livro chamado “Eu e a Internet”, foi o primeiro livro publicado no Brasil sobre o assunto. Hoje o Pedro continua escrevendo sobre tecnologias no No Mínimo. O livro acabou na Revan. O Renato disse: “Não tenho a menor idéia do que é isso, faz esse lançamento.” Não sei nem quem me passou essa questão do livro do Pedro Dória, ele caiu na minha mão e eu fiquei responsável por lançar. Eu pensei: deixa eu ver o que tem já de internet no Brasil: nada Só tinha um provedor, no Rio de Janeiro, e por coincidência era do Betinho, olha como a história dá voltas fantásticas O Base tinha um provedor chamado Alternex, o primeiro provedor de internet no Rio de Janeiro. Eu procurei a Alternex e disse: “Nós vamos lançar um livro sobre internet. Vamos lançar isso juntos fazendo noite de autógrafos aqui, divulgando entre os clientes de vocês?” - esse era o meu trabalho, de articulação, marketing, abertura de mercado. Surgimento da Book Net Fizemos o lançamento do livro do Pedro Dória na Alternex, em Botafogo. Esse contato se ampliou em contatos pessoais e conversas com as pessoas que estavam à frente da Alternex naquela época. O principal executivo era um sujeito chamado Carlos Afonso, que agora está no PT e é o responsável pela internet desse Governo, que é uma pessoa ótima, muito capaz. Um rapaz chamado Nepomuceno era o executivo dele; eu me aproximei muito dele. Chamei-o para almoçar e disse: “Eu acho que esse negócio tem futuro no Brasil enorme; somos um país continental, temos 5.900 Municípios, dos quais só 300 têm livraria. Os livros não chegam, as livrarias não têm capacidade de absorver o número de livros editados, pelo problema que nós temos: mais editores do que livreiros no Brasil”. Ele disse: “Vamos fazer” Falei com o Renato, perguntei se ele queria ser meu sócio. “Não, não quero Não vejo futuro nisso, não vai acontecer” Falei com mais duas ou três pessoas da área, por exemplo um amigo meu analista que eu tinha trazido lá detrás na história da CAPRI - porque eu conhecia o mercado livreiro, mas na área de tecnologia eu tinha muitas dúvidas. Não quiseram. Aí chamei o Nepomuceno e ofereci sociedade para ele; ele não quis, quis fazer recebendo pelo trabalho dele. Insisti, insisti, e ele não quis Começamos a construir o site. Entrou um terceiro parceiro, o provedor, chamado ISM. Ele tinha acabado de abrir, em janeiro de 1995, foi também um dos primeiros daqui do Rio. Com um mês desse provedor de existência, eu conversei com eles, eles toparam o projeto. Então a Book Net foi uma concepção minha, executada do ponto de vista de sistemas pelo Nepomuceno e hospedada, abrigada e desenvolvida fisicamente pela ISM. Resolvi jogar todas as fichas Quando o projeto começou, eu me entusiasmei muito por aquilo, resolvi jogar todas as fichas e todos os recursos que eu tinha naquela história. Fiz uma primeira reunião com dez editores, eu me lembro bem como se fosse hoje Eles vieram porque eram meus amigos. Sentaram à mesa e eu expliquei a idéia. Dos dez, um só já conhecia bem internet, era familiar com a história da internet, que era o Eduardo Salomão, que é da Imago, uma editora aqui do Rio. Do resto, ninguém - o Alternex no Rio de Janeiro tinha ao todo 25.000 usuários de internet. Eu disse para eles: “Só preciso de uma coisa de vocês.” Eu expliquei: “O livreiro compra do editor livros em bloco, sai um livro e você compra 20, 30, 40 para o estoque da livraria. Eu não vou comprar assim. Eu vou chegar na tua editora e vou pedir um livro desse, um daquele. Isso é uma coisa complicada para o editor; então eu quero a ajuda de vocês para aceitar os meus pedidos, porque as editoras tem pedido mínimo. A única coisa que eu peço a vocês é isso, mais nada. E eu vou ser uma nova livraria para vocês. O investimento é meu e vocês vão ter um novo canal de distribuição que eu vou montar para vocês”. Todos toparam e assinamos contratos de distribuição desses livros. Eu comecei com 18 editores, com seis ou sete mil livros. Fizemos um lançamento antológico, uma coisa maravilhosa na Biblioteca Nacional – na época o presidente era Afonso Romano de Santana. Foi em maio, junho, já não me lembro mais. Fiz o seguinte: instalei na Biblioteca Nacional seis computadores - uma complicação, linha, cabo, não era o que é hoje -, convidei os editores todos, sendo que a cada editor eu pedi que levasse dois autores, e lançamos uma coisa chamada Autógrafo Virtual. Eram mesinhas no foyer da Biblioteca Nacional e em cada mesinha, autores de uma editora. Então estavam lá João Ubaldo, Rubem Fonseca, todo mundo. Nós botamos o site no ar e durante aquele período da festa, que foi de cinco horas da tarde até às dez horas da noite, se você comprasse um livro daqueles autores você o recebia autografado em qualquer lugar do Brasil. Um sucesso Ninguém nunca tinha visto aquilo. E nós divulgamos isso, teve matérias em jornal - era um outro momento, era a única empresa que tinha, então qualquer coisa que nós fazíamos, eram páginas e páginas no jornal. Tinha um sujeito do Amapá que comprou um livro de cada autor. Tinha os livros ali, cada editora levou um pacote; lembro do João Ubaldo rindo: “Eu estou autografando para alguém no Amapá?” “Está, esse cara é do Amapá.”Ele fez uma dedicatória engraçadíssima e nós embrulhamos o livro. Tinha um posto de correio instalado ali - que eu quis mostrar como funcionava esse sistema todo – e os livros eram expedidos ali. Botei os meninos com motocicleta para fazer o delivery da entrega. Aquilo foi um sucesso Foi uma coisa que teve uma repercussão muito grande. Nós começamos em um galpão, que era a memória que eu tinha do Amazon. Havia uma empresa de entrega chamada Carto Service, existe até hoje. Nós fizemos um acordo: eu usei o prédio deles e eles fariam as entregas, parecia um casamento perfeito. Só que a Carto Service é uma empresa que entrega um produto para muitos; meu produto, então, era muitos para um Era o contrário. Foi um erro de concepção minha e deles. Respondia todos os e-mails O primeiro cliente da Book Net foi o empresário do Chico Buarque, o Vinícius França. Ele entrou, fez o pedido, depois mandou um e-mail dizendo o seguinte: “Eu fiz o pedido para experimentar. Não acredito que funcione” Nós mandamos o livro e eu mandei um e-mail para ele. Durante dois anos eu respondi todos os e-mails que a Book Net recebia. Essa era a minha tarefa. Teve dia de responder 500, 800, mil e-mails Eu respondia com uma linguagem de um livreiro interessado em conquistar aquele cliente, então não era resposta automática - ainda não existia Spam. Vinha uma reclamação ou uma sugestão e imediatamente eu respondia. Eu ficava de seis 15 da manhã até às dez horas respondendo e-mail. Isso foi criando um relacionamento com os usuários, as pessoas do outro lado. Foi criando confiança. No terceiro mês começou a dar certo Nos primeiros dois meses os clientes foram muito poucos. Eu fiquei um pouco assustado, disse: “Será que o Renato tinha razão? Será que esse negócio não vai funcionar?” Fiquei apreensivo com o investimento feito. No terceiro mês a curva fez assim. Eu tive rapidamente de correr atrás de contratar mais gente, botar uma pessoa nova à frente da expedição. Teve um momento de gargalo ali. Depois nós já aprendemos como era, uma coisa modular, a cada X pedidos nós botávamos mais uma pessoa. Os pagamentos eram por depósito bancário. No começo eu esperava pelos depósitos. Mas eu resolvi confiar nas pessoas, quer dizer, o conceito era o seguinte: quem está comprando um livro não vai querer me pagar sem fundo. E a inadimplência que eu tinha era próxima a zero. Teve um momento em que eu tomei a decisão, disse: “Pode mandar os livros”A pessoa responsável pelo financeiro: “Você está louco Nós vamos quebrar.”Mas era menos de meio por cento a inadimplência. E tinha um trabalho difícil de consolidação, de descobrir o depósito. Depois de um ano e meio, os cartões de crédito entraram no mercado e as vendas começaram a ser feitas por cartão, ficou mais fácil. Publicidade nos jornais e nas palestras Em 1996 nós ainda estávamos lá no Santo Cristo. Recebemos uma jornalista de economia da Folha de São Paulo. Não tinha ainda ouvido falar em Internet, nunca na vida dela. Ficou o dia inteiro lá, fascinada, não queria ir embora. E quando nós atendíamos cidade que nunca tinha chegado um livro Já ouviu falar em Iconha? É no Espírito Santo, eu tinha dois clientes em Iconha. Fui mostrando essas coisas para a jornalista e ela ficou fascinada. No domingo seguinte estava na primeira página da Folha de São Paulo que o Fernando Henrique tinha acabado de ser eleito, alguma outra coisa e, na parte de baixo, uma foto com a marca da Book Net. Ela era uma marca muito bonita. Dentro do jornal, as duas páginas centrais de economia da Folha de São Paulo eram só sobre a Book Net e a Amazon. Aquilo repercutiu de uma maneira que você não pode imaginar Uma empresa ganhar duas páginas da Folha de São Paulo, aquilo não existia, e ainda essa comparação imediata com a Amazon, que já estava naquela curva de acesso. Eu tinha uma assessora chamada Jane Duarte, uma jornalista que me ajudou muito nesse projeto. Ela ficava enlouquecida, “Eu nunca vi isso na vida”. Eu tenho isso guardado, são pilhas de matéria de jornal, jornais que eu nunca vi na vida, do Brasil inteiro A centimentragem quadrada que nós ganhávamos de divulgação era uma coisa astro, fazia aquelas curvinhas que assessor de imprensa faz quantos centímetros era uma fortuna Eram milhões de reais abertas pelos jornais. Então era um rastilho de pólvora (como assim?) Paralelo a isso, comecei a ser muito chamado para falar sobre a experiência da Book Net, e logo em seguida para falar de internet. Então por três, quatro anos, depois que a Book Net se consolidou, meu trabalho principal foi falar. Faço hoje palestras, dou aulas. No ano de 2000 eu fiz 90 palestras para os públicos mais diversos, fiz 130 viagens de avião. Fui aprendendo, desenvolvendo todo um arcabouço teórico para isso. Acabou que eu virei um pouco uma referência da área de internet no Brasil, uma espécie de formulador de idéias, conceitos nessa área. Em todos os foros que você imaginar: de empresários, de estudantes, de economistas, de tecnologia. Isso também facilitou muito: quando eu ia falar em Brasília, o pessoal media no dia seguinte quanto aumentava a venda em Brasília. E aumentava barbaramente. Isso é brincadeira, daqui a pouco passa O Rio identificava a empresa como do Rio. A venda lá era muito expressiva; foi líder durante muito tempo e mesmo quando São Paulo passou, não ficava muito atrás. Em terceiro era Brasília, e quarto era Bahia, que tinha também um consumo muito grande. Para o meu conforto e alegria, no primeiro momento todos eram unânimes em dizer que aquilo era uma bobagem, que não tinha futuro, que era apenas uma brincadeira e que o futuro dos livros são as lojas físicas. Eu me lembro de um debate de que eu participei em 1996 na Bienal do Livro com o pessoal da Saraiva. O diretor executivo da Saraiva que é meu amigo falou: “Essa brincadeira do Jack London não serve para nada. Isso é uma brincadeira, daqui a pouco passa” Foi graças a isso que eu fiquei sozinho no mercado três anos E aprendi uma lição: às vezes você tem que ter cuidado e cuidar dos projetos que você está fazendo, é uma coisa que hoje eu faço com muita atenção. Às vezes, divulgar o projeto na sua essência talvez não seja um comportamento adequado num primeiro momento. Então eles não acreditavam. A Siciliano, então, não queria nem ouvir falar A Saraiva é uma empresa de capital aberto, então é obrigada a ter aquelas demonstrações financeiras e demonstrações texto para os acionistas. Você sabe quantos por cento hoje da venda da Saraiva é via internet? 13%. Hoje, com quatro anos de operação, e a Saraiva tem 115 anos de loja. Treze por cento E qual é o lucro que as lojas da Saraiva tiveram no último trimestre? Nenhum, zero, está no prejuízo nos últimos três semestres. A Internet, lucro, geração de caixa. Dilema: ter estoque? A Amazon começou conforme eu descrevi a vocês: estoque zero Era just in time, era exatamente o que eu fiz aqui. Chegou um momento em que eles cresceram tanto que tomaram a decisão de fazer estoque. Em 1999 a Amazon construiu um armazém gigantesco e passou a carregar estoques. Foi aquele momento de risco total, porque um grande investimento foi feito. O grande prejuízo que ela teve foi a construção dessa estrutura de distribuição. Portanto, eles continuaram a ser virtuais na relação com o usuário, mas deixaram de ser virtuais na relação com a produção. A preocupação é funcionar como qualquer outra livraria. Esse dilema começou a se a apresentar um pouco para mim, mais ou menos na mesma época, mas eu continuei insistindo no projeto virtual. Cheguei a ter uma frota de Kombis aqui no Rio. Era um sistema que tinha que funcionar à perfeição, porque tinha seis, oito, dez Kombis com motoristas, que recebiam por radinho os pedidos, tinham os circuitos, passavam nas editoras. Eles nem sabiam os livros que iam tirar; chegavam na editora, diziam: “Book Net”, tinha lá um pacote. Ele metia na Kombi, levava para o centro de distribuição, o centro de distribuição recebia, montava o pedido e o correio levava. Nós estávamos completamente organizados: no Rio, entrega em 24 horas e fora do Rio, em 48 horas. A exceção eram praças muito longes: 72 horas. De vendedor a comprador Em 1997 fui procurado pela primeira vez por uma empresa interessada em se associar ou comprar, que foi uma editora chamada Ediouro, uma das grandes editoras do Rio de Janeiro. O seu principal acionista era o Jorge Carneiro, pessoa de que eu gosto muito - eu tenho amizade com todos os editores e mantenho elas até hoje, é um setor onde eu me sinto muito confortável. O Jorge veio me procurar; e conversa daqui, conversa dali, ele começou a discutir comigo a possibilidade de ser sócio da empresa. A Ediouro tinha uma cadeia de livrarias chamada Curió, eram 20 e tantas lojas no Rio, São Paulo, Belo Horizonte. A coisa estava andando, ele ia ser meu sócio. De repente o Jorge me liga um dia e diz: “Jack, infelizmente nós contratamos uma auditoria nova, americana, que chegou à conclusão de que a empresa tem que ter foco. E o nosso foco é a edição, então nós vamos sair do mercado livreiro. Não posso mais ser seu sócio.” Fui dormir pensando naquilo. No outro dia de manhã, peguei o telefone e liguei para o Jorge: “Vou dar um pulo aí e conversar com você” Era em Bonsucesso, perto da Nova Holanda, em um lugar complicado. Ele já conhecia toda a economia, e eu também já conhecia a economia das lojas dele para saber o quanto ele faturava - ele teve que abrir a informação para negociar. Eu falei: “Então vamos fazer o seguinte: vamos inverter. Eu compro as tuas lojas. Não vou comprar todas mas eu quero prioridade para comprar aquelas que eu quiser, e compro já” Ele tinha uma decisão de vender imediatamente, para sair do mercado. Livrarias físicas De vendedor de uma empresa passei a comprador. Em um prazo de um mês de negociação eu comprei sete lojas do Jorge Carneiro. A única coisa que eu não quis era o nome, porque eu tinha o meu nome. Foi uma compra extremamente vantajosa porque eles queriam se ver livres daquele negócio muito rapidamente, e foi uma decisão acertada porque de lá para cá eles melhoraram muito Então da noite para o dia eu passei a ser um livreiro físico, já com uma cadeia estruturada. Eu não fiz uma lojinha, uma livrariazinha; eu comprei sete lojas importantes, pus o nome Book Net e obedeci a diagramação das lojas: modernas, com outra cara. Primeiro, meu faturamento subiu barbaramente. Segundo, a visibilidade da empresa cresceu também muito. O mais importante é que eu resolvi o problema do estoque sem ter estoque, o meu estoque era o das livrarias. Eu não tinha muita preocupação da livraria vender muito, e vendia. A loja do Plaza Shopping em Niterói era muito boa. Eu passei a ter um estoque, que estava nas condições de contato com o público e não nas condições de almoxarifado. Quando o pedido entrava, eu tinha todo o controle do que tem nas lojas. Eu primeiro pegava livros nas lojas; o que não tivesse lá eu pegava nas editoras. Isso agilizou minha entrega e a empresa se consolidou. Livros importados para universidades O segundo fato que consolidou muito a empresa foi a entrada no mercado que pouca gente conhece de venda de livros para instituições. Em 1998 houve uma enorme concorrência, feita pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo), de compra de livros, só universitários, livros científicos, técnicos. Era para abastecer todas as universidades de São Paulo. Só livros importados, 96 mil, em inglês, francês, alemão. O orçamento total, se não me falha a memória, era de quatro milhões de dólares, uma verba que eles receberam do Governo de São Paulo. Eu vi o edital no jornal, que dizia o seguinte: “Interessado retirar disquete com a lista dos livros e com o ISBM na portaria da Fapesp” Isto é para mim um dos fatos que mais me impressiona na minha vida como empresário. Eu não conheço ninguém na Fapesp, nunca falei com ninguém lá. Mandei uma pessoa a São Paulo, ele pegou o disquete. Me cadastrei na Fapesp como fornecedor pela internet. Peguei o disquete, botei no bolso, fui para o Galeão e peguei um avião fui para Cleveland. A Book Net vendia livros estrangeiros, e muito bem. Eu tinha um acordo, e não era com a Amazon - porque ela não quis fazer acordo conosco -, era com uma empresa chamada Book Stacks. Era uma livraria americana que antecedeu inclusive a Amazon, mas não teve o sucesso comercial que eles tiveram. Ficava em Cleveland. Cheguei lá, bati na porta, o dono me atendeu. Era John Stacks, um rapaz também. Ele tomou um susto. Eu disse: “A questão é essa: tenho aqui 96 mil livros que nós podemos vender para o Brasil. Está aqui o disquete, eu quero que você entre no seu sistema com estes 96 mil ISBM, que é o registro do livro, e vê o que você tem, qual é o preço que você tem para esses livros, e eu vou esperar você me devolver este disquete. Amanhã de manhã eu vou-me embora para o Brasil.” No dia seguinte ele me devolveu aquilo. Dos 96 mil, ele tinha 50 e tantos mil disponíveis. Eu peguei o disquete, botei no bolso e voltei para o Brasil. Peguei aquele preço, botei uma margem, que era a nossa margem para importado, e mandei o mesmo rapaz entregar na Fapesp. Eu ganhei 20 e tantos mil livros, quase um milhão de dólares E foram importados direitinho, porque eu entreguei à Fapesp. É inacreditável; num país onde você fala de Governo, incompetência, corrupção e mal. Aí eu percebi que tinha um nicho, e passei a atender, botei um setor na empresa que só cuidava disso - ver universidades, títulos de pesquisa, logo depois a Fio Cruz fez uma compra grande. Depois fornecemos livros para a Universidade de Brasília também. E este setor era pouco conhecido, a imprensa pouco explorou, e tinha uma rentabilidade fantástica. Eu estabeleci um sistema com a Book Stacks de uma área privada: quando eu tinha necessidade de qualquer cotação, eu entrava, pegava o preço dele e a cotação era feita em dois cliques. Em 1998, três anos depois, a Saraiva resolve fazer um site, a Siciliano resolve fazer um site, e começaram a entrar no mercado. Mas em 1998 eu já estava consolidado no mercado, com uma imagem pública muito simpática, a empresa já estava muito forte. 1998 foi o ano em que eu vendi a empresa. Tecnologia é o transformador do mundo Eu tinha uma preocupação: eu nunca acreditei na idéia, e depois a vida me deu razão, de que o lugar em que a tecnologia ia pousar eram as empresas de ponta. Eu não tenho dúvida nenhuma, acho que a tecnologia é o transformador do mundo. É o que faz o mundo se mover, que faz as transformações sociais, mais do que qualquer outra teoria. Ela inclusive destrói a idéia tradicional de classe. Quando a Saraiva e a Siciliano se lançaram no mercado, eu não tive com eles uma relação de presunção, de dizer: “Já estou no mercado há três anos, eu estou muito na frente deles, eles não vão ter sucesso nisso” Eu nunca achei isso, eu tinha certeza de que em quatro, cinco, seis anos eles iam ter uma presença no mercado importante. Porque são empresas tradicionais, tem gente competente lá, eles só não estão tão atentos à novidade. A tecnologia deixou de ser inovação, passou a ser o centro da sociedade. Os grandes bancos virtuais do Brasil são o Bradesco, Itaú, Unibanco, e nenhum daqueles eu se lançou há cinco, seis anos com a idéia de serem bancos virtuais novos apenas na Internet. Então eu já achava que não ia resistir muito tempo a essa presença deles. Venda da empresa Eu já tinha recebido duas propostas de associação. Não era do meu perfil, nem também achava que naquele momento seria bem sucedido de fundos estrangeiros, o modelo clássico que aconteceu com algumas empresas do Brasil – em que depois os projetos não andaram e essas empresas perderam o dinheiro que haviam investido aqui, acabaram em situações delicadas com relação aos investidores. Foi quando eu recebi uma proposta que era: “Está aqui o dinheiro e amanhã de manhã você vai embora para casa” Eu medi aquilo, pensei, e era uma proposta muito interessante do ponto de vista financeiro. Era um retorno muito significativo para aquilo que eu tinha investido e achei também que, por um outro lado, a empresa ia ter continuidade. Portanto vender a empresa era um ganho para eles e para mim. Eu queria muito que a empresa continuasse, e que continuasse líder no mercado. E o Submarino é hoje líder do mercado, continua sendo; é a maior empresa de comércio virtual do Brasil - ameaçada agora pela operação da Americanas, mas continua, virtual é a maior, disparada E para a história e para a vida, eu sou a pessoa que criou o Submarino. Eu ganhei duas vezes: com a venda e ganhei com o papel que eles fizeram enorme investimento (como assim?). E a empresa continua vivendo. Eu acho que foi no momento certo. Eu lamento muito, porque a minha vida é muito ligada ao livro, eu tenho fascínio pela leitura. Eu leio seis, sete livros por semana É uma coisa normal: eu tenho em casa quase 20.000 livros, não tenho onde botar livro. Eu sou um leitor compulsivo, um comprador de livro compulsivo. Leio tudo sobre tudo, sobre qualquer assunto que me chame a atenção, que eu acho que pode ter uma correlação aqui ou acolá com alguma coisa que me interessa. Mas no contrato de venda da Book Net eu fico impedido de trabalhar, de comercializar livros pela internet ou não durante cinco anos. Isso para mim é como se eu estivesse em Alcatraz. Mais dois sites Logo depois da venda, exatamente um mês depois, eu criei dois sites. Na verdade um deles já estava sendo gestado antes, e outro que começou a ser gestado em seguida. Um deles chamava Valeu. Era um site de leilões, que foi um fracasso absoluto. Foi uma coqueluche. Naquele momento eu estava muito visível; duas semanas depois de vender a Book Net, eu apareci na capa da Exame. Dei uma entrevista para a Exame, que era para ser normal, e na quinta-feira eu saio de casa, olho na banca e vejo lá a capa da Exame, outdoor pela cidade. Eu acho que tudo isso foi naquele momento um impulsionador destes projetos todos. E como ali já dizia que eu estava fazendo um projeto de leilão, de repente apareceram mais de 30 sites de leilão Mas nenhum deles deu certo. Eu atribuo o insucesso em primeiro lugar a uma ausência do histórico cultural do brasileiro de comprar coisas usadas, ao contrário dos americanos. É uma coisa estranha mas faz parte da cultura brasileira. O primeiro acordo que nós fizemos foi com a De Millus, que vendia pontas de estoque de calcinha, sutiã. Não me trazia nenhuma emoção. Havia uma equipe que tomava conta, estava indo equilibrado, mas não me trazia nenhum retorno do ponto de vista pessoal. Isso tudo foi no final de 1999, começo de 2000. Então eu tomei rapidamente a decisão de fechar o site, o que permitiu que o prejuízo fosse pequeno. Eu abortei o projeto muito rapidamente. O segundo site chamava Ticks, era um site de venda de ingressos para espetáculos teatrais que fez um grande sucesso e continua existindo com outro nome - eu vendi também para o meu sócio, uma história que pouca gente sabe. Teve um sucesso enorme também. E tinha um caderno cultural, feito por uma equipe de jornalistas que trabalhou conosco lá. O grande feito do Ticks foi que nós gerenciamos todo o sistema de venda de ingressos do último Rock In Rio. Nenhuma empresa de Internet no Brasil teve tantos funcionários quanto o Ticks; nós montamos 40 stands no Brasil inteiro com gente vendendo ingresso, tudo on-line, com controles: Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Campinas, e não sei mais onde. As bilheterias lá na cidade do Rock eram nossas, toda a estrutura tecnológica nós montamos, tudo via internet, com relatórios on-line... Tudo o que a tecnologia dá de direito Nós chegamos a ter quase mil funcionários nessa operação, e do ponto de vista financeiro foi um sucesso enorme. O resultado para a empresa foi muito bom. Venda por internet A venda via net tem várias vantagens. A facilidade do cinema, por exemplo, é você não entrar em fila; no caso do ingresso on line, você imprime o ingresso em casa, já sai com ele no bolso. A Ticket Master é uma empresa americana que veio para o Brasil, ligada a esse grupo SEE que é dono de vários teatros em São Paulo e aqui no Rio é dono da antiga TL ROL. Ela veio e implantou o sistema aqui, nos seus teatros prioritariamente e em alguns outros. Estão vendendo muito No caso do teatro, é grande vantagem comprar antecipadamente, e ainda por causa do lugar marcado. Isso é precioso No Ticks você entrava, via o mapa do teatro, o que já estava vendido, clicava em cima daquela poltrona e aquele ingresso era seu Não era impresso em casa porque tinha o código de barras; o ingresso era entregue em casa, exatamente como a Book Net fazia. Idéias Net Eu aceitei um convite de uma empresa chamada Idéias Net. Foi criada em final de 1999, começo de 2000, na hora do boom. Um conjunto de empresários do Rio de Janeiro e São Paulo se juntaram, cento e tantos sócios, e conseguiram em um prazo recorde, em três meses, abrir o capital da empresa aqui no Brasil, na Bolsa de São Paulo. A Idéia Net é a única empresa brasileira de tecnologia, de internet com capital aberto. Não é na Nasdaq como é o sonho de todo mundo do final da década. É um fundo que aplica recursos em empresas de tecnologia. Ela começou 18 empresas e em três meses eles comprou algumas participações, algumas majoritárias, outras minoritárias. Então abriram o capital, lançaram-se nas ações e bolsas e se instalaram no mercado. A empresa passou pelas dificuldades naturais de 2000, 2001, e em um certo momento me convidaram para fazer parte do Conselho de Administração como uma espécie de consultor privilegiado. Eu aceitei o convite, acho que podia ajudar um pouquinho reduzindo um pouquinho as nossas expectativas. Minha contribuição foi dizer: “Olha, é outra coisa Vamos abaixar a bola porque o jogo é outro.” E a empresa se consolidou. Hoje ela está com 11 dos 18 projetos, sete foram eliminados, e está indo bem, está começando a equilibrar a grande maioria dos sites, alguns já rentáveis, e nos últimos dois meses a ação dela aumentou 100%. A UOL perdeu o rumo por dois meses, e aquilo foi fatal para eles. Eu procurei ajudar um pouquinho; a Nasdaq tem uma representação aqui no Brasil, e o presidente da Nasdaq era muito meu amigo, ele na época me pediu para ajudar, se eu podia empurrar aquilo. Mas era muito difícil, era uma associação Abril/Folha, havia ali alguns conflitos. E eles perderam tempo. Aulas, palestras, consultoria A minha vida inteira foi de vender informação, cultura e conhecimento. Eu sou um comerciante dessas três coisas; se você olhar, desde lá do início. Chegou o momento que eu achei que o meu perfil como pessoa dentro da Internet estava muito mais ligado a discutir as idéias da tecnologia, de dar aulas. Então esse lado foi me chamando. Eu cheguei à conclusão de que já não era mais hora de eu ter um site, então eu passei as minhas quotas dessa empresa Ticks para os meus sócios, e eles continuam tocando os ticketrônicos. Eu faço parte do Conselho Administrativo da Idéias Net. Também faço parte do Conselho Consultivo da COPIAD, que são sete empresários, ex-alunos da COPIAD e um convidado, que sou eu. O presidente da ESSO, o Henrique Meireles, presidente do Banco Central, por coincidência foi ex-aluno e faz parte do conselho. Tenho ajudado em projetos dentro da COPIAD, de inovação, criar novos cursos. E dou aulas regulares para todas as turmas lá. Dou aula também na Fundação Getúlio Vargas, ano passado fui Paraninfo das turmas de Comércio Eletrônico da Fundação. Faço conferências regulares para o CEBRAE, para diversas entidades. Faço consultorias especialmente para um organismo da ONU encarregado de políticas de tecnologia para o mundo inteiro. Como se fosse a UNESCO, a FAU para a tecnologia. O coordenador disso no Brasil é uma pessoa que eu reputo como a mais importante nessa área no Brasil, o Tadao Takahashi, uma pessoa que criou a estrutura tecnológica da internet no Brasil. Ele é um cientista de Campinas, foi o primeiro Presidente do Comitê Gestor da Internet no Brasil. Na verdade, quem entende desse negócio no Brasil é ele Possivelmente eu esteja criando um projeto novo junto com ele, acho que ano que vem vou lançar esse projeto. É um projeto muito grande, com financiamentos internacionais, projetos para o desenvolvimento de tecnologias de massa, internet, projetos de inclusão social. É um projeto muito ambicioso, com apoios internacionais diversos, da Comunidade Européia. Acho que vai ser um outro projeto interessante. É um movimento natural, eu fiz a vida inteira; se você olhar bem, eu sempre vendi idéias e produtos. Por exemplo o Museu Didacta, lá atrás: ninguém comprava uma reprodução de uma obra do Picasso, do Rambrand, ou do Michelangelo, comprava a idéia de que em uma escola de 2º Grau era muito importante ter um mini museu, e que o contato com aquele tipo de informação era importante para aquela escola e para o desenvolvimento daquele menino. Então poucas vezes na vida, em alguns desvios, eu me dediquei exclusivamente a vender produtos. A idéia é vender conhecimento em primeiro lugar. O que eu fazia passou a ser o paradigma Durante muito tempo na minha vida, eu tinha a sensação de que havia sempre entre os empresários a idéia de que a minha reta era o caminho e de que o produto era o centro da economia. Eu sempre me achei um pouco fora desse processo, um pouco à margem, e sempre lutando muito para impor aqueles projetos nos quais eu estava envolvido. De repente, o tempo me alcançou ou eu alcancei o tempo, não sei qual dos dois, mas de repente a história vira, e o que eu fazia passou a ser o paradigma daquilo que deve ser feito. Antigamente quem ficava 30 anos em uma empresa era o paradigma do profissional adequado; hoje, quem dedica 30 anos de sua vida a um projeto comete um equívoco completo Nem as empresas querem mais quem se dedique assim, porque ali não tem nenhum desejo de inovação, de mudança, de renovação de conceitos. Então o conjunto de coisas que eu fiz hoje me serve muito como referencial, porque acertei, errei, errei, acertei, desde lá de trás, 1970, desde o Índice. Hoje eu faço muito consultoria para empresas. Faz parte do meu trabalho ir para uma reunião de diretoria ou de gerente, ficar sentado ouvindo uma reunião, e em certos momentos dar opiniões, sugestões ou avaliações sobre como aquilo está sendo feito na empresa. E faço isso com muito prazer, tenho procurado ajudar da melhor maneira que posso. Mas estou sempre procurando onde se pode inovar mais ainda. Eu passei do site Ponto Com para a idéia de que a internet tinha que estar no centro da economia, que quem tinha que usar a internet eram os bancos, as indústrias, o setor rural, o setor hoteleiro, as empresa áreas. E isto hoje é uma realidade no Brasil O uso da internet nos bancos no Brasil é uma coisa fantástica, o sistema bancário mais avançado do mundo, mais do que os americanos - vem gente aqui aprender isso. Há missões oficiais de bancos, nesse momento tem uma missão do Banco do Líbano Os bancos do Líbano querendo comprar tecnologias dos bancos brasileiros, querendo aprender como é que se faz para usar tecnologias, usar a internet em bancos. E eu tenho consciência de que eu sei que ajudei muito nisso. O pessoal brinca comigo que eu sou o profeta, que eu fico fazendo catequese. Agora eu tenho mostrado muito esse resultado na área de varejo. Varejo brasileiro hoje depende da internet, e as pessoas não estão falando isso inclusive na imprensa - essa mesma coisa que eu te falei da Saraiva; 15% do que as Lojas Americanas vendem é pela internet. Papel irrefreável da Internet Eu diria que há dois vetores atuando de maneira diferenciada para chegar a um mesmo objetivo. O primeiro deles é o crescimento das compras pela Internet, que é constante, permanente, e o número de instituições de grande porte utilizando a internet no seu sistema de venda cresce a cada dia e com resultados cada vez maiores: Ponto Frio, Magazine Luiza, Lojas Americanas, Saraiva, estas organizações hoje dependem da venda de internet para manter o mercado que têm. Nas empresas de porte médio, conheço pelo menos uns 200, 300 casos de sucesso. Há mais de 300 empresas brasileiras que hoje faturam mais do que no seu comércio de loja. Entre em qualquer loja do prédio na Siqueira Campos, naquele Shopping dos Antiquários, e faça essa pergunta. Em geral para cada real que vendem na loja, vendem três ou quatro pela internet. A internet começa a ter um papel cada vez mais irrefreável. É tão impressionante o número de usos da tecnologia. Duas semanas atrás, eu fiz um Ciclo de Palestras no Paraná, no CEBRAE. Foi em uma cidade chamada Cascavel, e depois fiz outra em uma cidade chamada Pato Branco. Cascavel é uma cidade lá quase no final do Brasil, quase Foz do Iguaçu, centro da produção de soja, de grãos, fortíssima. Eu imaginei que chegaria lá e ia encontrar um público pequeno e sem nenhuma informação. Tinha mais de 300 empresários na sala, em Cascavel, todos eles absolutamente informados e atualizados sobre o uso de tecnologia e todos usando a internet para compra, abastecimento de seus negócios. No final, um empresário com seis ou sete lojas na região veio me fazer uma consulta, veio me mostrar o site dele - ele lançou o site há um ano e agora está percebendo a importância que o site tem para ele. Queria saber o que ele deveria fazer para aumentar mais as vendas que estão crescendo a cada dia. Isso lá em Cascavel. Outro movimento que contribui muito para esse crescimento da internet no Brasil é a compreensão que as instituições públicas no Brasil tiveram da importância da internet. Esse é o movimento de muita catequese, de muita discussão, de muito convencimento. O setor público no Brasil é extremamente importante na nossa economia, tem um peso muito significativo, mesmo depois de todo o processo de privatização. Ele aderiu à internet com tal entusiasmo e força que, sozinho, é capaz de produzir resultados que às vezes as pessoas não percebem. Por exemplo o Imposto de Renda: em quatro anos o papel foi eliminado do processo de imposto de renda no Brasil. Aquilo que alguns imaginavam que ia acontecer no livro não aconteceu Aconteceu com a mais delicada e mais individual informação sigilosa. O uso da internet pela Receita Federal levou os usuários a perceber a importância e a confiabilidade do e-mail. Inclusão digital Quinze dias atrás foi tomada uma decisão que vai ter uma repercussão incalculável sobre o mercado e uso de Internet - maior do que dez campanhas públicas sobre inclusão digital: foi aprovada uma medida provisória chamada Decreto 107, que o Presidente assinou agora, sobre o que eles chamam de novo REFIS, que é o pagamento de impostos atrasados por empresas e agora também por pessoas físicas. Se você deve qualquer imposto, Fundo de Garantia, INSS, Imposto de Renda, PIS, COFINS, todos os impostos, vai ter o direito de pagar esses impostos, por um número longo de meses sem cobrança de juros, com uma correção muito pequena. A idéia disso é primeiro permitir que as empresas voltem à atividade, aqueles que estavam com dificuldade de pagar seus impostos; além disso, é um recolhimento de impostos que supostamente só vai ser cobrado por ações, que vai demorar muito e que podem reforçar o caixa do Tesouro. Há 15 dias o Governo Federal tomou a decisão que você só paga seus impostos atrasados, só vê o seu saldo devedor e só se compromete com o pagamento se for pela internet. Não tem papel O cálculo é o seguinte: há mais ou menos 20 milhões de empresas com débitos e mais de 10 milhões de pessoas físicas, são 30 milhões de pessoas e suas empresas que vão ser instados a utilizar a internet para regularizar a sua vida fiscal. Imagina a repercussão disso na construção mental de empresas e de pessoas O processo de alfabetização que o mundo viveu a partir de Gutenberg, a partir do século XIV, foi feito da mesma maneira Se se observar com atenção, toda a preocupação nossa com as taxas de alfabetização e com a alfabetização como processo social, porque é muito importante, nós perseguimos isso há séculos, possivelmente uma parte grande da população poderia exercer seus ofícios e trabalhar sem o uso da linguagem, certamente 20 a 30% da população absorve a idéia da linguagem escrita da sociedade gráfica mas não a utilizam no seu dia-a-dia. Então é importante que assim seja. (não entendi a parte da população que não usa a linguagem) E esse é um processo socialmente induzido, há uma política do Governo. Eu acho que o Governo da União deveria criar um Programa Nacional de Alfabetização Digital. Podia ser a grande inovação que esse país podia dar na área da educação formal, ensinar a linguagem digital a todos. Diferente da idéia de inclusão digital com a idéia de que cada um tem que ter um computador - ter um computador ou não é um outro assunto, é mais ou menos como confundir ter um lápis e uma borracha com sabedoria de escrever. É uma incompreensão quando se diz assim: “Preciso que você saiba ler e escrever.”; Você ensina a ler e escrever, você não dá a ele um lápis e uma borracha, são conseqüências. Nós precisamos que todos os brasileiros entendam, compreendam e dominem a linguagem digital. Essa é a grande dificuldade do país. Há iniciativa da Câmara Brasileira de comércio Eletrônico, uma entidade criada há dois anos para representar o setor; reúne mais ou menos 250 empresas na área de tecnologia e comércio eletrônico, e eu que ajudei a formar. Fui o primeiro Presidente, fiquei durante o ano e agora eu já passei o bastão para a frente, que é um pouco o meu perfil - eu achei que a entidade está criada, está indo muito bem, então passei à frente o cargo. Ela está procurando criar um projeto chamado Inclusão Digital de Empresas. Ainda há um analfabetismo digital nas empresas no Brasil, e incluir digitalmente empresas seria um processo extremamente interessante e rico para a inclusão digital como um todo. Direitos sociais Essa questão da inclusão digital é muito séria, muito grave, é também fonte de muitos equívocos. Eu tenho muita dúvida com relação a projetos do tipo: “Vamos fazer um computador mais barato para os pobres” ou “Vamos criar centros populares para aqueles que não tem acesso ao computador usem o computador de maneira coletiva.” Isso é coisa de quem tem tecnologia de ponta, tem privacidade, recursos, para quem não tem andar de ônibus Eu acho que a questão da inclusão digital vai se resolver com programas de treinamento e de alfabetização digital e com a disseminação efetiva da compreensão da linguagem digital. Hoje no Brasil existem 25 milhões de usuários de internet e quando eu lancei a Book Net eram 25 mil, em oito anos o crescimento foi espantoso. Ainda assim, há do lado de fora quase 150 milhões. Mas sabe quantos leitores de jornal existem no Brasil? Um milhão e meio Sabe quantos compradores de mais de um livro por ano? Quatro milhões Quantos usuários de TV a cabo? Dois milhões e setecentos mil E você nunca viu alguém fazendo campanha para uma inclusão livral, ou uma inclusão jornal, ou uma inclusão TV cabal. Seria muito importante se cada brasileiro lesse um jornal de manhã cedo, é um aspecto de cidadania e de construção de conhecimento extremamente importante. Não existe não porque seja uma coisa setorial ou localizada, porque é uma falha de quem produz jornal; isso faz parte de um enorme processo de exclusão social e cultural. A internet foi capaz de passar à frente desses setores todos de uma maneira impressionante. E mesmo assim ainda falta muito a fazer. Nós temos muita dificuldade de, ao vivenciar processos, perceber o que já aconteceu. As filas para entrega de Imposto de Renda nos bancos eram uma humilhação do cidadão, uma ausência de cidadania, e deixou de existir Outra coisa de que as pessoas não falam: quando foi a última vez que você ligou a televisão no final de dezembro e começo de janeiro e viu aquela matéria que todo ano se repetia, sobre fila para inscrever aluno em escola pública no Rio de Janeiro? Você reparou que sumiu aquela matéria? Era a mesma anos a fio, mostrava aquelas senhoras sentadas na fila no meio da rua sentadas desde anteontem no caixote. Não tem mais As inscrições são todas pela internet e sobram vagas, são 42 mil vagas sobrando no ensino público estadual do Rio de Janeiro. Para pagar uma multa do DETRAN era uma humilhação social, você tinha que usar um daqueles despachantes zangão, era uma extorsão moral, uma humilhação contra o cidadão. Você entra no site do DETRAN, vê quais são as multas que você tem, imprime; vai no banco se você quiser, se não você paga pela própria internet. Isto são direitos sociais que nós já incorporamos à nossa vida. Isto aconteceu porque a tecnologia é, a despeito de um discurso sobre o que ela pode ser Somos um indivíduo recheado de tecnologia Eu acho que a internet pode propiciar perfeitamente uma nova forma de organização social. Acredito que ela seja um propiciador imediato de justiça social ou de melhores condições de vida. O Edgar Morin que fala muito disso, de estruturas de tessitura social; a linguagem é uma tessitura social. Então se imaginava que o dia em que todo mundo soubesse ler isto traria automaticamente um mundo de justiça social e oportunidade para todos. Melhorou muito o mundo O mundo é muito melhor do que quando ninguém lia. Mas isso não transformou o mundo num mundo ideal, então eu acho que o mesmo vai acontecer com a internet: vai melhorar em muito a vida das pessoas, já melhorou Acho que muda também a cabeça das pessoas. As pautas usuais da política e da organização social estão ficando superadas e isso não vem sendo percebido com clareza pelos partidos políticos e por quem está envolvido na operação política lato senso. As pessoas mudaram. Esse impacto, a influência da tecnologia, é tão forte que ela está recriando nosso processo de vida. Nós hoje somos cada vez mais indivíduos, é um processo inevitável, inexorável, vem da marcha da história: viemos da idéia de caverna, depois de burro, depois de grandes famílias, depois de fazendas, depois de casas onde várias gerações de famílias conviviam, para a família nucleada dos anos 1950 e 60 feita de pai, mãe e filhos para uma estrutura em que, nos Estados Unidos, 26% das casas hoje são ocupadas por uma só pessoa. E isso cresce cada vez mais, no Brasil também. Nós somos cada vez mais um indivíduo e um indivíduo recheado de tecnologia; nós somos um celular, nós somos um impressor, nós somos um gráfico, porque temos a impressora em casa. Acabou a indústria gráfica, ela é hoje um apêndice, um pálido resto do que era nos anos 1950 e 60. Então cada um de nós vai virando uma empresa, um indivíduo que se auto-gere. As relações sociais vão refletindo isso. O projeto individual supera o projeto da família. A idéia de classes sociais como imaginada ou trabalhada por Marx é uma referência histórica para uma determinada época. É o que eu cito dos bancos: o Brasil tinha 780 mil bancários há dez anos, hoje tem 150 mil. Tinha o poder de fazer greve, os sindicatos, e mobilizavam a economia. Não param mais, hoje os bancos podem funcionar com todas as suas agências fechadas. Quem vai sofrer com isso? Os pobres Aqueles que precisam do banco para receber o seu salariozinho. Uma vez eu citei isso no Sindicato dos Bancários em São Paulo e uma pessoa falou: “Mas nós podemos fechar os computadores lá do banco.” Eu disse: “Lamento te informar, mas todos os bancos brasileiros trabalham com uma coisa chamada sistemas redundantes, que no Brasil são dois: um no Rio, em São Paulo, e alguns tem três, tem em Minas. Se você quebrar o computador central lá do Bradesco ele continua funcionando. Aqui no Rio tem uma sede. É automático, em cinco segundos entra em circulação e em funcionamento a redundância. E se você quebrar esse tem outro”. Tecnologia na guerra Hoje em dia eu navego muito menos do que eu fazia no passado. A minha agenda é mais ou menos assim: um dia por semana eu passo na Idéias Net e cumpro meu compromisso com eles, que é em um dia de analisar os problemas da empresa, dar sugestões. Eu não quero mais botar a mão na massa, acho que o meu momento de responder aos e-mails já foi. Um dia por semana eu reservo para aulas e palestras, que são as mais variadas; na semana passada eu fiz um seminário aqui no Rio de Janeiro na Escola de Comando do Estado Maior do Exército, que é o centro de pensamento do Exército. Havia 400 oficiais: generais, coronéis. Eu abri esse seminário e conduzi toda a discussão, foram três dias de seminário. Eu procuro sensibilizar setores como um todo sobre a importância da tecnologia e da sua aplicação, que é o que me interessa hoje na vida. Eu tenho trabalhado profundamente com um conjunto de oficiais que está defendendo a tese de que o Exército precisa se modernizar. Nós temos que ter um Exército tecnológico, informado, em rede, com decisões de cadeia de comando completamente diferente daquelas que são cadeias hierárquicas. O uso de tecnologia como no recente episódio lá no Iraque demonstrou isso, foi uma guerra onde a tecnologia foi fulminante, e liquidou a questão em três semanas. Eu procuro me debruçar sobre dados, e aí vem a questão social: a tecnologia impacta socialmente sem nós percebermos. Nós começamos o século XIX com 900 milhões de seres no mundo. Trinta por cento desses seres foram dizimados em guerra durante o século XIX. Nós começamos o século XX com um bilhão e 900 milhões terráqueos; durante o século XX, 10% da população original do século foi morta em conflitos, combates, revoluções, guerras, foram mortas mais ou menos 190 milhões de pessoas durante o século XX. Mantida essa proporção, ou seja, se no século XXI o resultado fosse o mesmo do século XX, nós começamos o século XXI com seis bilhões e 200 milhões humanos, e 620 milhões de humanos poderiam ser exterminados em guerras. Os três primeiros anos do século estão apontando uma média de 120 mil mortos em conflitos no mundo inteiro. Significa dizer que isso vai chegar no final do século a 12 milhões, que é 0,2% da humanidade. Então, a tecnologia pelo seu simples uso militar, ecológico, vai salvar neste século 600 milhões de vidas, sem nós darmos uma palavra, só pelo seu uso E se o século XX tivesse ficado nos mesmo níveis do XIX, que foi um século muito sangrento, se tivéssemos matado 30% da população original em vez de 190 milhões teriam morrido 570 milhões de pessoas. Ligado aos filhos Eu dedico muito tempo à família. Tenho uma relação com meus filhos muito intensa, muito forte, estou com eles todos os dias. Eu tenho dois filhos. O mais velho, de 30 anos, chama-se Diego. Ele se formou em Filosofia, é um grande Filósofo, uma pessoa que tem uma enorme aproximação com essa área. Depois de formado, eu o atraí para trabalhar comigo, e ele trabalhou comigo na Book Net, foi um dos sustentáculos da razão e do sucesso da empresa. Ele se fascinou também pelo mundo da tecnologia e aí se embrenhou por este mundo, fez vários cursos de aperfeiçoamento, está fazendo Doutorado agora em Tecnologia da Informação na PUC. Hoje ele presta serviço a várias instituições como a Revista de Sistemas, com especialização nessa área. Ele é casado, tenho uma netinha de dois anos e três meses que é uma maravilha. Chama-se Alice, é filha do Diego com a Luzia, que é a mulher dele. Tenho um outro filho de 27 anos, o Bruno. Este ainda está em casa. Há muitos anos trabalha na área de música, ele é músico e agora está abrindo uma carreira na área da produção musical, e está montando um estúdio de som de porte médio para atender determinados mercados. Então está se especializando nessa área. Estudou Economia também e ainda está comigo em casa esperando o momento de ir embora. Eu sou uma pessoa extremamente ligada aos meus filhos, à minha casa, a tudo o que me cerca, e talvez isso seja uma coisa que ocupa uma parte grande do meu tempo. Olhando para trás, talvez eu tenha duas coisas de que eu me arrependo: em primeiro lugar, de não ter percebido a obsolescência de determinadas idéias sociais com um pouco mais de rapidez; eu talvez devesse ter percebido isso e só compreendi isso com muita clareza há uns dez doze anos. A segunda questão é que sempre me perguntam por que eu, uma pessoa que tem idéias que invariavelmente passam pelo social, não me aventuro pela política ou pelo serviço público. Eu tenho muita dificuldade; todas as pequenas vezes em que eu passei próximo disso foram experiências frustrantes. Sou uma pessoa muito irrequieta para me submeter, me subordinar. Eu procuro ajudar, dar idéias, estou sempre procurando uma maneira nova de fazer as coisas, e isso sempre traz inconvenientes. Já me conformei com isso. Erros, cometi muitos, faz parte da vida. E vou continuar cometendo para o resto da vida, e quero. Tenho 54 anos; espero viver mais 20, 30 anos com saúde e procurando ajudar em alguma coisa na construção desse processo. Procuro estar sempre muito atualizado. Tenho um sistema de leitura que parece à máquina, mas não é; eu leio de tudo, sobre todos os temas, procuro fazer conexões entre as coisas, procuro participar de seminários via internet.
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