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História

Acompanhando a mineirada

História de: Cláudio Guimarães
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/09/2007

Sinopse

Cláudio nasceu no Rio de Janeiro, em 1949. Desde pequeno tinha bastante contato com a música, seu amigo de infância era Paulinho Jobim e Cláudio estava sempre na casa de Tom. Além disso, uma de suas maiores influências vem de seu pai, advogado que trabalhava com direitos autorais de músicos e outros artistas. A música foi um elemento, portanto, muito presente na vida de Cláudio. Jovem, foi estudar violão clássico e se apaixonou. Quando conheceu Toninho, Milton, Lô, Fernando e Marcinho, passou a andar com eles, a "mineirada", como chama os amigos. Compôs diversas músicas com esse Clube da Esquina e produziu alguns de seus álbuns. 

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História completa

P/1 – Vamos lá? Cláudio, primeiramente boa noite já, né?

 

R – Boa noite. Eu sou o último aqui.

 

P/1 – Pois é. Agora a gente está ____ de fora e o sol está desabando, não está mais se impondo. Esse tempo de inverno dá isso, né? Então, eu queria começar esse bate-papo nosso perguntando para você seu nome, local e data de nascimento. 

 

R – Bem, o nome é Cláudio Guimarães, nome artístico, e Cláudio Guimarães Ferreira o meu nome. Eu nasci no Rio de Janeiro no dia 30 de maio de 1949. 

 

P/1 – E o nome dos seus pais?

 

R – O meu pai é Pedrilvo Francisco Guimarães Ferreira, que é um advogado que foi ligado à área de direito autoral, um advogado famoso por defender a classe artística, assim, e atores também ligados à parte não só de música, mas artistas em geral. E a minha mãe é Maria Virgínia Ribeiro Ferreira.

 

P/1 – E a sua mãe era dona de casa, trabalhava também?

 

R – Era. Quer dizer, em termos assim de formação musical tinha uma coisa engraçada, porque, desde quando eu me entendi por gente eu vi que tinha um piano dentro de casa, mas o piano era um móvel assim, né, que não tinha muito sentido. Tanto que eu tenho um tio meu, irmão do meu pai, que foi presidente da Hípica de São Paulo muito tempo, que foi um cavalheiro, que ele é do Exército mas conheceu nosso ______, foram olimpíadas e ao (Sim ?) que é essas coisas todas. Um dia mandaram um soldado lá pintar o piano. O cara pintou o piano todo de cinza ratão assim, pintou o banco de cores. Então na verdade ninguém saiu. Assim que eu ia tentar mexer naquele piano, ele: “Não mexe nisso aí não menino” “Tudo bem”. E eu sabia que minha mãe tocava um outro tipo _____ lá, que era aquele Olhos Negros Russos, totitaram, tatataram. O meu pai tocava de ouvido: “Morena boca de ouro”, não sei o quê, aquela coisa assim. 

 

P/1 – Tudo nesse piano?

 

R – Mas não tinha nada de formação musical, nada, era tudo intuição, nesse piano. 

 

P/1 – Você tem mais irmãos?

 

R – Tenho um irmão gêmeo só. 

 

P/1 – Ah, tá. E como que era na sua casa na sua infância, como é que era o cotidiano da sua casa?

 

R – Olha, eu tenho uma formação muito liberal. O meu pai, esse advogado, era muito ligado a uma área assim muito qualificada, do direito, tanto penal, apesar de não fazer direito penal, que tinha Sobral Pinto, Heleno Fragoso, Evaristo de Morais Filho, então essa turma toda. Isso naturalmente levou a um tipo de formação assim muito liberal, eu diria meio racionalista liberal. Então ele é um cara… Era muito amigo dos meus amigos, uma pessoa fácil de se relacionar e é isso. Assim, eu me sentia muito, eu, tanto quanto o meu irmão, muito à vontade na coisa de você ter aquelas costas quentes do ponto de vista da justiça. Nós achávamos que o meu pai era um cara justo, e na verdade ele era, e a gente se sentia assim bem com isso. 

 

P/1 – E o quê que você ouvia assim na sua primeira infância? Quais os tipos de influência, desde criança mesmo assim?

 

R – Eu ouvia desde coisas que rolaram lá, antes de conviver... Porque quem estava na entrevista aqui era o Paulinho Jobim antes, quer dizer, que é meu amigo de adolescência. Antes de conhecer o Paulinho e frequentar a casa do Tom Jobim, que isso é uma coisa que vai marcar, junto com o Danilo Caymmi, e conhecer a mineirada que vai chegar, que eu já conhecia alguns outros, teve essa coisa da família, que apareceram discos assim, cancioneiro italiano. Então o Sérgio Rodrigo para mim é uma coisa super importante nessa minha formação, aquela coisa da melodia, aquele romantismo italiano e tal. E quando rolou também a coisa da dança, de música, twist, quando saiu aquela turma, (Tchubitcheker ?). Tudo isso era assim garotão. Então ouvia aquela lenha toda, achava o máximo. É que nem hoje assim, se botar um rock, né? Então, e eu com dezesseis anos, quando eu viajei, que o meu pai foi estudar na Europa e levou a família, eu fiquei um ano morando na Europa e assisti o The Byrds. Os três guitarristas que passaram por The Byrds foram o Eric Clapton, o Jimmy Page, que foi do Led Zeppelin, e o outro lá, o moreninho que toca na Telecaster lá, acho que todo mundo sabe, que é o Telecaster.

 

P/1 – É o (Leandro ?)

 

R – Guitarrista de mão cheia no rock assim, enfim. Então a gente assistia essas coisas, aí ficava deslumbrado porque a gente tinha quinze, dezesseis anos de idade.

 

P/1 – Você junto com seu irmão. Vocês sempre estavam meio que juntos, né?

 

R – Era irmão gêmeo e tal, e aí a formação da música teve uma coisa engraçada, essa coisa do irmão gêmeo, porque ele meio que, esse sentido do eu, da solidão, ele veio meio que atrasado, assim meio retardado mental. Tem sempre um cara que é a sua cara metade, aí você fica trocando. Então minha mãe passou, viu um negócio assim. Na verdade a gente pegava uma linha de pesca, amarrava na cama, mordia e ficava tocando assim: “Tom-tom-tom-tom-tom-tom-tom-tom”, o outro: “A cabeleira do Zezé, é isso?” “Ganhou ________”. Aí que ela se tocou, isso aí eu devia ter uns catorze anos. Aí eu tive uma prima minha, que é maravilhosa, que conhecia o pessoal de Bossa Nova e tal, e era amiga do Edu Lobo, conheceu todo mundo, e foi dar aula de violão para gente. Nas primeiras aulas a gente não sabia nada, nem do quê que se tratava. E a gente caiu assim, parecia formiga no açúcar. Aquilo ficava com bolha no dedo mas não largava o violão. Tocava o dia inteiro. Era ótimo, nota dez, coisa maravilhosa, mas virou aquela fixação total.

 

P/1 – E quando você começa a se relacionar com a profissão música mesmo?

 

R – Com a profissão música mesmo? Não, aí vem essa coisa. Eu conhecia, comecei a conviver com o Paulinho, na casa do Paulinho, Teresa Jobim.

 

P/1 – Como é que você conheceu eles?

 

R – O Tom vivia nos Estados Unidos, a gente não conhecia o Tom, sabe aquela coisa? A gente ia lá e lanchava. Então eu conheci Nelsinho, o Paulinho. A Rua Goitacás, a casa do Tom era esquina com a casa do Marcos Valle, que morava com os pais. Então, quer dizer, em um ano, dois anos essa convivência, eu já era muito amigo do Danilo Caymmi, que morava com o Dorival na Sá Ferreira, morava na Gomes Carneiro. Então a gente ia ver desenho animado juntos, naquela época. Tanto essa convivência, e mais tarde a mineirada vindo, que, vamos dizer, eu conheci Maurício Maestro, que a gente foi fazer o primeiro trio, a primeira coisa da minha vida, que é Paulo, Cláudio e Maurício. O Maurício já era do momento quatro, já tinha viajado pro México com o Luizinho Eça, encontrou o João Donato, que morava lá. Então já tinha. E Maurício é da minha idade, exatamente. Os dois somos de 1949, ele é alguns dias mais velho, fez no dia dez, até nem dei os parabéns, e eu sou agora. Então ele... Foi assim, rapidamente eu fui conhecendo um monte de gente talentosa que necessariamente me levaram para área da música. Se fossem cineastas, teatrólogos, eu estaria trabalhando na área, porque era impossível você não resistir àquele apelo. Porque eu conheci o cara, o cara: “Não, eu fiz uma música aqui”. Já pum, pegava o violão, botava em ré e tocava uma toada, não sei o que. Você pum, caía no chão, você não aguentava. Eu já cheguei pro meu pai e: “Me arruma um violão”, e vamos nessa. Aí virou, isso me levou a isso. Eu fiquei, conheci logo o Toninho, logo cedo, e o próprio Milton, Fernando, Marcinho. Quer dizer, na verdade eu fui estudar violão clássico. Eu falei: “Bem, por onde começar?” Já tinha aquelas aulinhas de música de Bossa Nova, já sacava um pouquinho de harmonia, muito pouquinho. Eu fui. E nessa coisa, quando você forma aquele grupinho de garagem, eu fui formando assim um grupinho que era um grupo de rock. Nesse processo eu conheci o Maurício, que estava com Naná Vasconcelos fazendo um trabalho no Festival de Guarapari. De lá nós saímos um trio formado, Paulo, Cláudio e Maurício. Essa é que foi a história. 

 

P/1 – Você fez a faculdade também, não fez?

 

R – Eu fiz a Nacional de Filosofia. Quer dizer, fazia Ciências Sociais. Fiz durante… Não chegou a dois anos, que era um período de muita atuação política, na época, e eu estava totalmente envolvido, né? Quando eu cheguei na faculdade os caras já sabiam quem eu era: “Você é o Cláudio”, não sei o que. Eu já era meio, já militava um pouco no pré-vestibular e um pouquinho no movimento secundarista. Mas quando eu cheguei lá o cara já sabia, já me separaram. Já, bom, já estava totalmente dominado, marcado para...

 

P/1 – E como é que foi a sua juventude nessa época de ditadura? Como é que foi?

 

R – Então, aí é essa coisa, quer dizer, eu tinha esse pai liberal que, quando a gente voltou da Europa ele falou assim: “Pô, meu filho, você precisa sair, você está muito fechado, você precisa viver. Vá para rua, vá ver que tem muitas coisas acontecendo, está o maior agito na cidade”. Aí me deu aquela coisa e eu fui. Aí: “Você precisa ir no calabouço, lá está acontecendo várias coisas”. Quando eu cheguei perto do calabouço mataram o Edson Muniz, foi um pouco antes da Passeata dos Cem Mil. Já estavam assim agitadas as coisas, mas eu cansei de encontrar ele em passeata, cruzava com ele de colete, paletó e tal. Enfim, aí, nessa época, houve essa dicotomia assim, um romantismo que levou a esquerda e os estudantes à luta armada, porque era aquele idealismo que não conseguiu mudar essa tristeza que a gente conhece. E aí fui para uma faculdade, que tinha uma coisa engraçada, um ditado que falava: “Essa faculdade tem 99% de comunistas e 1% de vacilantes”. Então ela foi invadida milhares de vezes, não conseguia ter curso nenhum. E o ____ antropólogo o Gilberto ____, que escreve volta e meia no O Globo, foi meu professor de antropologia. Eu não conseguia, _______ não dava conta da coisa. Então a coisa não ia. E aí, quando chegou a repressão ao seu auge eu tive que ______ como todo _________ virava hippie. E nessa de virar hippie eu entrei pro Villa-Lobos. Quando eu entrei pro Villa-Lobos a repressão passou para uma repressão contra a cultura. Antigamente corria atrás da esquerda, depois _____ do live theater. Então jogavam trouxinha de maconha, saiam prendendo, davam porrada. Então isso mudou a minha escola.  Falei: “Bom, para onde eu vou é essa zona, eu não consigo entender”. E nessa eu fazia um curso na Pró-Arte, e eu resolvi estudar assim, fazer umas coisas ______ no Festival de Ouro Preto. O Festival de Inverno, que por sinal é bem clássico _________. Estudei no Instituto Villa-Lobos e na Pró-Arte. Aí tinha, quer dizer, cada lugar é como se você fosse ter aula particular com alguém. Dependendo da qualificação da pessoa você achava o máximo. Na Pró-Arte tinha o Guerra Peixe, que tinha uma assistente maravilhosa, que era nossa professora de vez em quando mas que não tinha aula com ele porque para você ter aula com essas pessoas você tinha que já saber contraponto, um monte de coisas, que na verdade você estava estudando ainda o beabá da Bahia. Então era isso que rolava. Essa repressão toda partiu da coisa política para a repressão de costumes, aí ficou aquela mesmice, algumas coisas foram... Aí, até a queda do muro de Berlim e a mudança da posição das coisas a gente passou um período muito complicado. E é difícil, né, porque uma coisa é você se mobilizar romanticamente para atuar na realidade, outra coisa é você se mobilizar romanticamente e artisticamente para fazer um discurso artístico sobre a vida. Então é essa questão que ficava complicada. Mas, enfim, mas a coisa da música foi fundamental, arrebatou tanto. Eu sou assim um admirador totalmente apaixonado pela música mineira, pela música ____, pelo tom, pelo universo do tom, pela música clássica, por Dorival Caymmi. Eu trabalhei oito anos com a Nana, ou nove anos, acompanhando a Nana. Então vi de perto, tenho a maior admiração pelo Dori. Eu vejo assim o material todo que rola, muito rico, né?

 

P/1 – E o rock’n roll?

 

R – E o rock'n'roll era rock total. Quer dizer, eu, o Paulinho Jobim, Paulo meu irmão, Nelsinho nem tanto, mas nós três principalmente só ouvia Hendrix, Hendrix, só Hendrix, o papo era Hendrix. O negócio era Hendrix e o resto que se exploda, era assim. 

 

P/1 – E o que mais, além de Hendrix?

 

R – Bem, aí, depois rolou Beatles, mas Beatles já rolou antes, né? Eu me lembro que quando estourou o She Loves You  e I Wanna Hold Your Hand eu furei o disco na casa dos meus pais, eu tocava o dia inteiro. E Little Richard, quando saiu também, eu comprei. Eu me lembro, foi o disco mais caro que eu tinha comprado. Pedi para minha mãe. Era coisa de 360 Cruzeiros, sei lá, um negócio absurdo. Era um disco amarelo, que tinha Tutti-fruti, Long Tall Celi, essa coisa toda. Então eu sempre curti o rock  e o rock do (Cream ?), saca, (Jim James Baker ?), Eric Clapton, é claro. Viajava nessa onda. Quer dizer, tinha esse lado todo de formação de música cancioneiro brasileiro, que eu fui depurando depois, mas tinha esse outro lado assim, porque a música é muito difícil você rotular. Eu adorava depois Led Zeppelin, Pink Floyd, tudo isso, essa coisa progressista. Eu viajei nessa praia toda. 

 

P/1 – Você viajou no progressivo também, rock progressivo, Genesis, Yes?

 

R – Gênesis. Quando eu conheci o Fredera, a gente conviveu um tempo, meio que o Fredera fala que eu fui a pessoa que levou ele, abri o olho dele para esse som, e eu abri o meu olho para uma coisa mais, que eu tenho verdadeira paixão pelo Wesley Gomes. Que nem o Juarez Moreira, a gente conversando agora, há pouco tempo atrás, essa coisa de Jim Rol, essa finesse do jazz americano. Então o Fredera meio que me aplicou Barry Cassol, Julie London e Barry Cassol, e eu de Gênesis, também por aí. Então no fundo é tanta informação, tanta coisa que virou uma salada.

 

P/1 – E esse disco que vocês gravaram, esse disco de 1972, você, o Paulo?

 

R – Isso aí foi meio aquela coisa que o (Lênin?) na época, que gostava da gente, falava que a gente fazia um, como é que a gente fazia, um rock de câmera. Na verdade devia ser meio um pouco disso porque na verdade a gente não devia ter ponte para fazer um rock de garganta. Mas a gente fazia, a gente curtia a mágica da música porque música é a arte do ouvido. Então, se você pegar uma pessoa, um artista genial de quinze anos de idade, ele vai se expressar. Obviamente que ele não sabe, ele não conheceu uma sonata de Beethoven nem estudou (Brands ?), nem a primeira, nem a segunda sinfonia, nem a terceira, nem viveu determinadas coisas, mas ele vai se expressar musicalmente, porque a música é a arte do ouvido. Então, através do ouvido que você sente, vivencia e você faz música. Então nessa, isso aí perdoa os jovens de saírem fazendo música. Na verdade, você sai com a cara e a coragem e entra num palco cheio de gente, e você não sabe se o ré maior, se o fá sustenido está em si, nem que fá sustenido é da clave. Se você for parar para mergulhar na teoria musical você entra em curto circuito. Então na verdade você vai no embalo. E nesse embalo, essa coisa do disco de 1972 é esse percurso. E era um percurso bacana, porque a gente não chegou nem a trabalhar um ano assim, intensamente. O Maurício tem uma capacidade de trabalho enorme, é uma pessoa maravilhosa, e o Paulo queria porque queria tocar direito aquela flauta, tanto que ele é um músico que está há vinte anos numa orquestra sinfônica e improvisa, já tocou com o Victor Assis Brasil, tentou até tocar um pouquinho de sax, mas é uma pessoa que consegue se expressar. E a gente, com um ano de Paulo, Cláudio e Maurício, a gente entrou pro show-business. Eu fui tocar com a Maria Bethânia em 1973, eu tinha três anos de música. Então é o maior show-business. Aquilo é uma maluquice total. Então é eu, o meu irmão e o Terra Trio. Então a vida, assim, é uma confusão. Podia pintar uma viagem, você acabar na Austrália, entendeu, e de repente você ser cooptado por um outro filme, que você foi arregimentado para aquele papel naquela hora. 

 

P/1 – E o festival?

 

P/2 – Então, eu estava vendo aquelas fotos lá. Primeiro eu queria duas coisas, que você contasse essa história do fusca e da viagem de Ilhéus e também depois falar do Festival do Paraíso, que tem aquelas fotos fantásticas, onde está o Fernando, todo mundo. 

 

R – Ah, tá. 

 

P/1 – Começa com a do fusca.

 

R – Do que me lembro assim, nós tínhamos vários amigos não músicos. Eu tinha um grande amigo, amicíssimo de infância, que já faleceu, e um outro grande amigo também já falecido, os dois um pouquinho mais moços do que eu, que é o Luiz Afonso Agapito da Veiga e o Marco Antônio Pena Araújo, mineiro. O Luiz Afonso era fotógrafo, o Marco Antônio músico. E eu, o meu irmão, nós quatro alugamos um apartamentinho aqui neste edifício que fica em cima do Túnel Rebouças, esse que parece que vai cair assim. E para nossa surpresa, depois de um ano, ou sei lá, um certo tempo, o Milton Nascimento alugou um apartamento embaixo, que tinha uma portaria no meio. Um prédio de frente para a Lagoa assim, prédio ______, você entra pelo meio, desce de elevador ____, sobe, aquela confusão. E a gente tinha um quartinho. Na verdade quem chegou a morar lá um tempo fui eu e o Marco Antônio e o Luiz Afonso porque a gente, os quatro rachavam mas não ____, e a gente estava querendo sair de casa, aquela coisa, não tinha como bancar. Era aquela coisa mesmo de garoto, dezoito anos e tal. E nessa, com essa coisa do Milton, o Milton ia na casa de meus pais, eu conhecia Fernando Brant. Quando eu fui para Ouro Preto, em 1970, eu fiquei na casa do Fernando Brant, aquela mesa enorme, aquele bando de gente. Fiz o curso, voltei com o (Corroita?), que me deu uma bolsa para Índia, imagina, bolsa de estudo, que eu aceito. Ele falou: “Você quer estudar na Índia?” Eu falei: “Quero”. Nossa, aquilo eu falei: “E agora, o que vai ser?” Mas nessa coisa a gente ficou muito próximo do Milton. Quando o Milton veio morar nesse prédio rolaram as programações. Numa dessas, não sei como, ele vai fazer a música Os deuses e os mortos, do Ruy Guerra, em Ilhéus. Então: “Vamos nessa, vamos lá”, não sei o que. Não sei como fomos de fusca, o fusca do Luiz Afonso, o Luiz Afonso, eu, Milton, Ronaldo Bastos e o Vicente Bastos. Nós levamos vinte e quatro horas para chegar em Ilhéus, um negócio de louco. E eu me lembro perfeitamente que eu fiz escala, porque era uma viagem tão demorada, vinte e quatro horas para chegar lá. E era com Othon Bastos, Dina Sfat, então era gente... E o Ruy Guerra filmando lá e a gente viajando, aquela garotada ali, deslumbrado ali na terra do cacau, e as músicas maravilhosas. Tinha Os deuses e os mortos, que é a música do tema. Tem, se não me engano tem o “Você que é tão avoada...”, Canto Latino, essa época aí. E voltamos em dezenove horas. Quer dizer, já voltei eu e o Luiz só. Ainda passamos por Salvador. A gente parava em cada... Atolamos, passamos o diabo. E foi uma experiência assim que me marcou. Eu me lembro assim de ver a coisa do Milton criando. Ele ali e tal, mas eu vendo que ele estava fazendo, e ele atuou como ator também.

 

P/2 – Você conhecia ele antes do Festival do Paraíso?

 

R – O Milton? Conhecia. O Festival do Paraíso...

 

P/2 – Foi antes dessa viagem?

 

R – Eu acho que foi depois. De repente será que foi antes? Eu já não me lembro direito. Eu me lembro que lá em Três Pontas, até conversando com o Wagner outro dia, eu me lembro desse conjunto, Edinho e seus Brasinhas, na época o Marcinho estava junto, que era um conjunto de bairro chamado Edinho e Seus Brasinhas. Aquela garotada tudo com botinha e os caras... Eu me lembro desse lance que a gente ia lá ver. E que mais? E o Milton, que estava muito próspero. Eu me lembro da época que ele casou, ele casou com uma moça linda. Era uma modelo, uma tijucana. Casou no carro do meu irmão, que era um carro, parecia um Citroën, mas era um (MG?), imagina. E tinha um amigo que gostava de carro, que falava: “Esse carro é maravilhoso”. O carro era uma roubada total. O carro andava um quarteirão, você tinha que ir num bar comprar uma garrafa de água mineral, pedir água para botar, que saía fumaça. Mas o carro era um charme e tal, e o Milton foi nesse carro, casou nesse carro, quando ele foi morar na Travessa Angrense, lá em Copacabana. Mas, enfim, essa coisa toda da música é porque era conviver com essa turma toda. E o Paulo, Cláudio e Maurício, nós fomos contratados pela Odeon numa época muito complicada em que houve uma crise na produção fonográfica, nas grandes companhias, e mal nós entramos nós fizemos um compacto duplo ali meio tentando sondar como era, e houve um expurgo de 80 artistas, e nessa saiu muita gente, só ficou Beto Guedes, Lô e Toninho. Mas saiu Novelli, Nelsinho, Joyce, milhares de artistas, não é? Então houve uma enxugada assim. E nesse disco quem foi o nosso produtor foi o Marcos Valle, e foi uma coisa assim muito mesmo de começo, de você sondar como é que era o mercado, como é que era a indústria. E eles chamaram: “Ah, vamos nessa, vamos fazer, claro”.

 

P/1 – E o Festival do Paraíso, quais que são as lembranças? Tem algum caso?

 

R – Desses do Paraíso?

 

P/1 – É.

 

R – Eu me lembro mais, o caso mais engraçado foi do Festival de Guarapari, que foi onde nós saímos e formamos o Paulo, Cláudio e Maurício, porque na verdade existia um grupo, do qual foi esse primeiro grupo que eu fiz parte, que chamava-se A Primeira Pedra, e nós fomos recebidos a pedradas, exatamente, porque o quê que aconteceu? Era um festival na beira da praia e os artistas mais consagrados estavam na cidade junto com o Chacrinha esperando que a organização do festival cumprisse o acordado de cachê, não sei o que, e o ____ lá, aquele povão esperando e nós assim, bem garotão, não sabia de nada. E conforme a turma foi ficando com aquele ódio mortal, chegaram para gente: “Não, sobe lá e vão tocando”. E a gente bem ingênuo, subimos. Esse quinteto era um quinteto assim bem de rock. E não deu tempo nem de ninguém ligar direito porque as pedras já vinham, batiam. “Agora com vocês A Primeira Pedra”, já veio a primeira pedra de lá.  A pedra assim quicava no palco e furava o amplificador. Até que aí, no meio desse sufoco, lá de cima, apareceu o Chacrinha: “Oh, Terezinha...” Aí metade já batendo palma e a metade vaiando, que de tanto esperar, enfim. E aí esse grupo não se entendeu. Quer dizer, entrou nessa crise. Mas o festival foi um festival interessante. E aí eu vi o Maurício com o Naná, que se apresentaram, e os remanescentes desse grupo viraram esse Paulo, Cláudio e Maurício. Cantava muito com o Robertinho Silva, o Robertinho adorava, falava assim, um dia o Robertinho falou: “Olha, o negócio é o seguinte, vamos. Já está ensaiado”. “Vamos dar uma passadinha”. Ele falava assim: “Já está ensaiado”, de tanto que ele era fã e tal. Então a gente cantava sempre com ele. 

 

P/1 – Legal. É engraçado você falar desse festival porque eu li na Bis, acho que foi no início do ano agora, não sei se você chegou a ver essa reportagem, que era sobre esse festival, considerado o primeiro festival de rock do Brasil.

 

R – O Guarapari?

 

P/1 – É. E a ditadura caiu em cima, né?

 

R – Foi um clima meio bravo ali.

 

P/1 – Interessante, legal. E esse encontro dos músicos, como é que chama, gente? O Primeiro Encontro dos Músicos Brasileiros?

 

R – Primeiro Encontro Nacional dos Músicos. 

 

P/1 – Isso. Como é que foi?

 

R – Ih, cara, como é que você desencavou isso? Isso é o seguinte. Havia uma crise institucional entre os sindicatos e as associações de utilidade pública, associações de atores. Ou seja, já existia o Ecad e estava se formando algumas associações tipo a Sim, da qual eles e o Luizão Maia eram ligados, e a Amar do Maurício Tapajós, que veio da Sombrás, desse movimento da Sombrás. Eu tive uma atuação nesse movimento porque esse movimento, na verdade, era uma boca no trombone sobre a relação direito autoral, e eu fui o Primeiro Secretário da Sombrás quando o Hermínio Bello era Vice-Presidente. E a gente tinha uma diretoria que só tinha nome forte: Paulinho da Viola, Chico Buarque, Sérgio Ricardo, Guarabyra… Então a gente, e o Tom Jobim de Presidente de Honra. Então a gente, assim, nós nos colocamos como a classe qualificada para falar sobre o direito autoral, que na verdade precisava. Na época da Sombrás não existia Ecad ainda, estava no papel. Mas era a tal coisa, ela acelerou um processo que avançou historicamente, mas a solução não foi uma solução para a classe toda. Existia um decreto da ditadura que criava o Ecad, o (CNBA ?). Então acelerou esse processo, entendeu? Você tem hoje em dia questões graves nessas áreas e precisa avançar mil coisas, mas não foram coisas que foram tiradas e discutidas com a cadeia produtiva ou com os interesses. Não, era a coisa imposta. Esse modelo foi imposto e foi o que foi assumido. Então esse Primeiro Encontro Nacional dos Músicos, na verdade, com toda essa briga, essa luta toda, existia um encontro no Rio em que o sindicato estava em litígio com essas sociedades. Então me chamaram. Como eu era uma pessoa que transitava tranquilamente, pois eu não tinha problema pessoal, eu fui chamado por um pessoal aqui do Rio para pegar uma carta do sindicato, que era o Nelson de Macedo o presidente, me autorizando a presidir o encontro porque ele não podia presidir como presidente do sindicato. E aí, nesse encontro, eu me lembro, foi uma semana de encontro, tiveram várias teses, a Joyce teve tese, o Fredera, eles tiveram tese. O Aldir Blanc fez uma, que também foi da Sombrás. Apresentaram vários temas, várias questões, coisas seriíssimas foram conversadas ali, mas coisas tão utópicas, né? E eu me lembro do Lula jovem, apareceu nesse, não jovem. Isso aí foi em 1983, será, 1982, 1983. Quer dizer, já tem algum tempo. Oitenta e três até 2003, dá vinte, vinte e quatro anos. E então foi isso. Quer dizer, na verdade eu fiquei ali, eu só tive esse papel formal. Fiquei ali aprendendo as coisas, vendo, e muita coisa séria foi colocada ali, mas a gente não teve, nem a classe artística, a classe musical, tiveram estrutura para se organizar e poder andar, né, porque esse é o nosso drama. Eu também andei metido agora, nesses últimos três anos, na questão das câmaras setoriais de música, fiz parte da coordenação aqui do Rio e representei o Rio na câmara de produção. E é complicado, né, que é um modelo também, eu não sei o quê que o governo quis com isso. Porque na verdade nós levantamos todos, elencamos, lá eles gostam dessa palavra, elencamos 500 mil coisas. E o outro lado, que são as associações, as multinacionais e associações de empresários e empresas, elas tinham um poder de veto, e elas não propunham nada. Quer dizer, você propunha tudo e dizia exatamente tudo que você queria, o Governo mediava e ela, de repente chegava nesse assunto mais delicado e veto. Pô, então é isso, está tudo vetado aí e a gente não sabe se foi massa de manobra para ficar dando o sangue durante três anos e falando, falando, falando, e a coisa não andou, né? O Gil continua. Quer dizer, enfim, quer dizer, essa coisa.

 

P/1 – Eu vou entrar no Clube da Esquina agora, beleza? Eu quero te perguntar como é que você conheceu, como é que foi o seu primeiro contato com esse pessoal do clube, com essa turma aí desse Clube da Esquina.

 

R – É, o primeiro... Quer dizer, considerando o Ronaldo Bastos como um membro do Clube da Esquina, eu acho que o primeiro que eu conheci foi o Ronaldo, era estudante do Pedro II. Aí conheci Paulinho Jobim, o pessoal aqui do Rio, e os que já moravam aqui, Novelli, Joyce. E aí eu fui conhecendo assim. Acho que a mineirada já andava assim já de bloco, já de repente pom, já conheci uns cinco, Toninho, Fernando, Marcinho, o Lô, o Beto depois um pouco. E aí, nessa convivência que eu comecei essa coisa de ir saindo de Ciências Sociais para a música. Antes eu era só um cara que curtia ali e tal aquele barato. O Ronaldo fazia história, se eu não me engano, era da minha faculdade até, e ele já fazia, já tinha trabalho com o Milton, tinha O Trem, “Gente que partiu pensando em um dia voltar”. E aí essa coisa toda começou assim.

 

P/1 – Você chegou a acompanhar assim as gravações do primeiro Clube da Esquina, você chegou a conviver com esse pessoal nessa época?

 

R – Olha, eu convivi com algumas gravações mas eu estava assim muito mobilizado nesse período em que houve muita atividade. Eu estava muito mobilizado porque eu estava já trabalhando com a Bethânia ou atuando pela Sombrás. E em 1976 eu já vou sair fora do Brasil, e aí eu fico três anos fora. Então esse período todo, esse período assim mais... Mas o meu irmão que ficou, ele ficou tocando no Gerais, quando tinha o quarteto de flauta com Paulo Jobim, Paulo meu irmão, Nivaldo, e quem mais, Helena de repente, não sei. Então foi mais assim, durou, tinha muito tempo, já estava totalmente tomado por compromissos e tal. E aí teve essa coisa toda, a vida que passa e tal, e agora, por coincidência, eu estou trabalhando com finalização de áudio há alguns anos. Eu trabalho a uns... Eu fiz um micro-selo. Eu trabalhei com música instrumental a minha vida inteira. Então, em 1995 eu criei um selinho bem modesto também. Só tem, eu não tenho empregados, então é aquela coisa mesmo do músico autoprodutor. E eu comecei a trabalhar com computador em 1990. Então eu, nesses últimos catorze anos eu fui migrando um pouco para finalização de áudio. Então nessa área eu comecei a me encontrar com a mineirada de novo, que eu fiz o DVD do Wagner Tiso e os dois CDs desse DVD, mais os dois CDs últimos do Toninho e o do Juarez Moreira. Então, de repente, pum, voltou tudo, porque eu convivo mais com o Nivaldo aqui, que mora aqui, e Nelsinho Ângelo, que é muito amigo meu e a gente convive. Então estou muito assim nessa coisa. Tenho uma sala minha, que eu faço mixagem, gravo também. Eu faço mixagem e masterização. E estou afim de voltar a tocar um pouco.

 

P/1 – Você se recorda da primeira vez que você ouviu o Clube da Esquina, As Menininhas, o primeiro disco? Ou de quando você veio a conhecer ________

 

R – O tema, o Clube da Esquina fazia parte assim do cotidiano da gente, ou seja, a música do Milton, os discos Gerais, o Clube da Esquina, o primeiro, aquele, até os discos americanos, faziam parte assim do meu cotidiano. Eu não sei (As Sete Marquesas ?), eu não sei em que disco está, sabe essa coisa? Mas isso faz parte assim do meu universo, como esse rico universo também deu lugar a outros ricos universos como é, vamos dizer, o caso do universo jobiniano, que é uma coisa assim, incrível. Como você pode ter, hoje em dia, acesso, e está legal, o site do Instituto Jobim, de você ter acesso àquelas partituras todas. Eu trabalhei, eu fiz, eu digitalizei partituras para a obra do Tom e trabalhei pro Cancioneiro da Mata Atlântica, que eu fiz uma redução de piano para violão. Então isso é um mundo de riqueza sem fim, é meio presente de grego. O cara te fala: “Faz isso aqui” e pum, te empurra um negócio que você vai ficar totalmente tomado por aquilo, porque é um gênio de um compositor, um cara com uma sensibilidade incrível, um bom gosto total e com uma obra maravilhosa, que você se identifica. Então essa coisa é o que acontece comigo com a mineirada. Eu tenho o maior apreço, a maior identificação, porque é uma coisa que veio da formação, minha formação musical. Então é uma coisa assim bem natural. O Milton, eu estive até com ele agora há pouco tempo por causa desse DVD do Wagner. Esse meu irmão trabalhou no Tambores de Minas e no Crooner, emendou assim duas temporadas com o Milton, e eu fui. Me chamava para assistir, eu fui assistir os dois shows assim. É um negócio assim que você vê, faz parte da sua vida, faz parte assim da sua identidade. São grandes artistas. É tipo cachorro grande, campeonato brasileiro de elite. 

 

P/1 – E para a MPB, que tipo de inovação que você enxerga que o Clube da Esquina veio trazer para a MPB, essa mineirada, igual você fala?

 

R – Olha, trouxe, veio trazer assim uma abordagem muito rica da harmonia, porque a coisa da harmonia mineira não é só o cantochão, a igreja, o barroco não. Você tem o congada, você tem um samba. No swing do samba, que o carioca saca bem, você tem um swing mineiro e o jeito de harmonizar, que você só vê isso nesse padrão de nível. Se você pega assim o tom, você vê que é... Você pega a harmonia do Dori Caymmi tocando Aquarela do Brasil, o Milton vai assinar embaixo, vai dar um beijo no Dori, e o Tom também, entendeu? E tem uma hora que a coisa, não é que vire universal assim, ela se encontra num grande depositário da alma brasileira, qualificada. Ali a coisa meio que se mistura. Vai cair no colo do Villa-Lobos, de onde ninguém escapa, que é o pai de todos.

 

P/1 – E agora, ao contrário de vários movimentos, como a Tropicália, que aconteceram no Brasil nessa época também, vários discursos sobre música, ou pessoas que falam sobre música, que musicólogo é uma palavra muito pesada, pessoas que fazem discurso sobre música, não consideram o Clube da Esquina como um movimento musical. Como é que você vê isso?

 

P/1 – Eu acho, quer dizer, eu acho que é uma hora em que a Escola Mineira, que sempre se manifestou como as outras, ela se manifesta de uma forma mais intensa graças a essa coisa dos festivais que rolaram, e vem Maria, Minha Fé, Travessia, Morro Velho, essas músicas todas já bem qualificadas nesse nível, já com os arranjos do Luizinho Eça, com essa afinidade, vamos dizer, das coisas do Milton com (Tamba Trio ?), das coisas que o Wagner Tiso já começava a ouvir e curtir. Então, na verdade são... A boa música, ela começa a se relacionar e ter acesso a uma divulgação maior. Então o Milton já pôde conhecer a Elis, Elis já gravou Vera Cruz. E a coisa natural, um cantor maravilhoso. Então o negócio não era só o Milton compositor, então o Milton cantor. Então é o carro-chefe do Clube da Esquina, do chamado, se é um movimento. Então, cheio de pessoas talentosas gravitando, de ótimos músicos. Então eu não sei, eu nunca parei assim para analisar assim como movimento nem pra, tipo, saber que parâmetros, o quê que define um movimento, o quê que é isso. Eu sei que existe assim Guimarães Rosa, existe o Nordeste, o Sul, aquela coisa. Então eu sempre vi coisa boa por aí, né? Agora, se isto está vindo através de um movimento, alienígena ou não, eu não tenho a menor idéia.

 

P/1 – Você tem filhos?

 

R – Tenho dois.

 

P/1 – Você falou aquela hora, né?

 

R – É. Eu tenho um menino e uma menina.

 

P/1 – Como é que é o nome deles?

 

R – Antônio tem 22 e Júlia tem 13.

 

P/1 – E o Antônio, a Júlia, estão indo para carreira musical também?

 

R – Santo de casa não faz milagre. O Antônio até que tocou um piano assim, estudou um pouquinho e tal, violão, ele curte, mas a Júlia assim... Eu me fiz de morto. Ela desenha muito bem, é até musical mas não...

 

P/1 – E parceria, você tem parceria com o pessoal, com a mineirada?

 

R – Olha, o meu primeiro parceiro, é uma coisa assim, que ninguém nos ouça, meu primeiro parceiro foi Fernando Brant, e nós entramos com uma música por um festival universitário, mas a música devia ser tão ruim... Porque era proibido aparecer o nome, e o Fernando já era conhecido assim, acho que já estava assim. Mas eu me lembro que eu fiz assim uma das minhas primeiras músicas, eu nem me lembro direito, era uma toada e tal. Mas enfim, então a música não se classificou. E tenho esse compacto duplo do Paulo, Cláudio e Maurício, e são três músicas minhas e uma música coletiva. Essa música que é cantada, que o resto, olha que maluquice, um compacto duplo feito em 1972, no qual três músicas são instrumentais e uma é cantada. Quer dizer, já é uma maluqueira total. E essa letra é do Marcinho Borges, que é o início do Paulo, Cláudio e Maurício. O Paulo, Cláudio e Maurício, na verdade ele virou um conjunto instrumental. Que apesar de o Maurício ter ido depois pro Boca Livre, já foi no momento quatro, que era com o Zé Rodrigues, Ricardo ______ Ricardo e o (Davi Tílio?). Então, assim de parceria autoral não. Fora essa coisa assim do início, que rolou outros tipos de parceria, mais com o Nelsinho Ângelo, uma coisa assim mais de produzir trabalho. Mas nunca é tarde, né? De repente...

 

P/1 – Com certeza. Então, você tem consciência que o seu depoimento agora vai ser exposto como uma peça de um outro museu, né?

 

R – Com certeza. 

 

P/1 – E o quê que você acha dessa iniciativa do Marcinho de criar esse Museu do Clube da Esquina?

 

R – Eu acho isso maravilhoso, porque eu acho o seguinte, eu fico boquiaberto quando eu me deparo assim com a cultura americana e vejo o que é registrado lá. Então, por exemplo, eu gosto do Ozzy Osbourne. De repente aparecem aqueles disc laser com shows, que nem existe mais disc laser, virou DVD. Show do (Es ?), depoimento do (Es ?), coisas especiais do (Es ?). O Vitinho Bigliani, guitarrista, me convidou: “Não, você tem que ir lá em casa, eu tenho não sei quantos mil DVDs. Você gosta de fulano, pois eu tenho tudo”. Então, na verdade, alguém pegou uma câmera, alguém fez um roteiro, alguém fez uma iluminação, alguém se coçou para registrar as coisas. Aqui a gente tem uma dificuldade imensa, ainda mais uma coisa importante como essa que diz respeito a toda uma época muito rica, que envolve muita gente. Eu acho fundamental ter. Quer dizer, a gente tem o Museu da Imagem e do Som mas eu não sei a quantas anda porque essa coisa da memória brasileira, se for deixar pro (Link ?) resolver isso ele está frito, entendeu, ele tem que se antecipar e fazer as coisas. Quer dizer, a sociedade civil tem que viabilizar esse país, porque se for ficar esperando papai e mamãe não dá, não é isso?

 

P/1 – Então, Cláudio, você queria falar mais alguma coisa, deixar registrado aqui no nosso museu mais alguma coisa?

 

R – Não, só desejar boa sorte pros mineiros todos, que eles merecem. Tem tudo, literatura, pintura, música, escultura. Quer dizer, é quase a auto-suficiência mineira, que trabalha em silêncio. De desejar sorte para esse projeto inteiro, para vocês e tal, e que isso se traduza assim numa maior atividade cultural no país, na maior troca, uma coisa melhor para gente, porque está tudo meio, eu estou achando tudo muito esquisito. 

 

P/2 – Obrigada, Cláudio.

 

P/1 – Em nome do Museu Clube da Esquina, do Márcio Borges, Claudinha, agradeço demais a sua presença.

 

R – Obrigado, eu que agradeço o meu velho parceiro.

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