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Seu João: a vida começa no amor que é dado por uma família

História de: João Fernandes Pessoa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/06/2017

Sinopse

O potiguar João Fernandes Pessoa, às vésperas de completar 73 anos de idade - 14 de maio de 1944, São Miguel (RN) - faz, neste depoimento, uma reflexão sobre sua trajetória de vida e encontra no companheirismo, na amizade e no carinho da família que constituiu - mulher e filhos - a explicação para a extraordinária mudança por que passou nessas décadas em São Paulo, onde chegou, no distante ano de 1965, segundo afirma, “com uma mão na frente e outra atrás”. Relembra a infância na roça, sem estudo, sem orientação, sem nada, criado à base de gritos e pancada, sem afeto e sem cuidados. Considera que o casamento foi um divisor de águas em sua vida, trazendo-lhe sustentação para o crescimento pessoal e profissional. Por isso, não hesita em proclamar, alto e bom som, que casaria de novo, quantas vezes fosse necessário, com a mesma companheira, ademais sempre presente, participativa, amparo e estímulo. Evoluiu profissionalmente graças aos cursos que fez, aos empregos que teve, à especialização que adquiriu. E, paralelamente, conquistou noções civilizatórias que lhe permitiram conviver em sociedade, tornar-se um ser social, um ser no mundo, deixando para trás o que ele próprio denomina “um zé-ruela à esquerda”, condição em que se via quando chegou do Nordeste. Sente-se hoje integrado num mundo de participação, de compreensão, de conquistas diárias. Como por exemplo, os estudos que retomou, a escola a que voltou depois de tantos anos. Com o apoio da família e com o mesmo entusiasmo com que ontem participava de memoráveis churrascos à beira da arena corintiana, hoje dedica-se a aprender, a saber mais, com o intuito de consolidar sua transformação.

História completa

Nasci numa cidade chamada São Miguel, no Rio Grande do Norte, em 14 de maio de 1944. Portanto, estou prestes a fazer 73 anos de vida. Meu pai trabalhava na lavoura, na fazenda de um cunhado. Éramos, no total, 16 irmãos. Meu pai, às vezes, não tinha dinheiro para comprar um quilo de farinha e o cunhado e patrão dele, para quem ele trabalhava quase de graça, não sabia mais onde por tanto dinheiro. Isso me deixava muito, muito revoltado e, então, ia falar com o meu pai que aquela situação era injusta e não podia continuar. A reação dele era me bater.

 

O meu pai nunca chegou para conversar com a gente, chegava gritando e batendo. No dia em que ele não me dava uma surra, ele ficava contrariado. Quando o meu pai me pegava para bater, que largava, minha mãe dizia: “Bata mais, velho, bata mais”. Não tive infância, aos cinco anos fui para a lavoura. Eu, a rigor, não tinha nada, não tinha nem um chinelo para por nos pés, não tinha estudo, ninguém me orientava, ninguém conversava comigo. Em 1965, com 21 anos de idade, eu vim para São Paulo com um primo que havia estado em Brasília. Vim muito revoltado com tudo aquilo. Fiquei dez anos sem dar notícia.Porém, depois de dez anos, escrevi, fui encontrar com meus pais no Rio Grande do Norte.

 

Nunca tinha dado um beijo no meu pai. Cheguei lá e dei um beijo nele!

 

Sair de casa, eu sempre quis sair, foi algo que sempre desejei. Quando começaram a construir Brasília, pensei em ir para lá. Muitos colegas meus estavam indo. Mas eu não tinha estudo, não conhecia nada, e tinha medo. Só que, em 1965, eu finalmente tomei coragem e vim com um primo. Vim só com o dinheiro da passagem. Logo arrumei um emprego - na época era fácil - de ajudante. Consegui uma vaga numa pensão e, quando mudei de emprego, aluguei um quartinho.

 

Minha vida começou depois que eu vim para cá, que eu conheci minha companheira; mudou um milhão de vezes.

 

Quando cheguei em São Paulo, eu não sabia de nada, nada. Era um zero à esquerda. Por exemplo, recebi o primeiro salário e saí comprando roupa, que eu não tinha. Tudo roupa amarela, de babado, aquele negócio de ziguezague. Quando chegou a hora de pagar a pensão, cadê o dinheiro? Tive que deixar minhas camisas empenhadas com a dona da pensão até o próximo salário. Sentia fome, comprava uma bengala, fazia um sanduíche e ia para a pracinha comer. O autêntico baiano.

 

Depois de um ano, eu já estava adaptado: namorava, ia a bailinhos, jogava bola. E aí, conheci a minha esposa, com quem namorei cinco anos e casei. Fomos morar com meu sogro e minha sogra, moramos 23 anos com eles, nos fundos da casa deles, onde antes morava um filho, meu cunhado, que foi morto, com vinte e sete anos, pelo Lamarca. Covardemente. A sangue frio.

 

Mas antes, antes de casar tive duas oportunidades perdidas, das quais não me arrependo ter deixado escapar. Era pegar essa oportunidades e perder o casamento. Então optei por ela, pelo casamento, e lhes digo: casaria com ela, novamente, quatro, cinco vezes se fosse preciso.

 

Uma oportunidade:

 

Eu trabalhava na Camargo Corrêa, quando começou o Minhocão, não é? [...] E aí surgiu uma oportunidade de ir embora para o Iraque. [...] a maioria dos meus colegas que foram para lá, ficaram lá - morreram na guerra; outros se perderam no deserto lá…

 

Outra oportunidade:

 

Um primo meu [...] tinha uma carreta. Ele falou: “Fernandes, você vai trabalhar comigo dois anos, vou comprar uma carreta para você, você vai trabalhar três meses comigo, vou lhe ensinar toda a malandragem [...]. Depois de dois anos, o carro é seu”. Marli, minha noiva falou: “Escolhe: ou eu ou o caminhão!”.

 

Mas aí eu já estava fazendo cursos, a maioria no Senai - serralheria, soldador, caldeiraria, funilaria. Fui trabalhando nessas áreas, uma após a outra, o salário foi aumentado, casamos. Com três anos de casados, compramos a casa onde moramos até hoje, no Parque do Carmo. Tivemos dois filhos maravilhosos, temos um neto, enfim, uma família abençoada.

 

Houve uma época em que não consegui mais encontrar emprego nas minhas áreas. Uma época de crise. E minha mulher, coitada, teve que arregaçar as mangas e ir trabalhar. E eu dentro de casa, desempregado, sem ocupação.

 

Foi quando eu dei uma de doido: “Executa serviço de pedreiro”. Nunca tinha trabalhado nem de ajudante, nada! [...] Fiz o banheiro da mulher em três dias, bicho! [...] Não é que o trabalho deu certo? Eu trabalhei quase 25 anos.

 

E hoje a minha rotina de vida está tomada pela minha decisão de voltar a estudar. Das sete às onze e meia, pela manhã. Aí almoço lá mesmo, e mais quatro horas à tarde. Tenho cinco professores. Quando chego em casa, ainda vou fazer algumas matérias e um ou outro servicinho que sempre tem para fazer dentro de casa.

 

Mas eu estou indo bem, estou indo bem. O que dá para fazer eu faço; se não der, eu boto uma bala na boca e fico de lado.

 

Editado por Paulo Rodrigues Ferreira


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