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Estradas trilhadas

História de: Ildeu de Novais Pinto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/08/2017

Sinopse

Mesmo sem aquele apego às coisas materiais, Ildeu desde menino trabalhou de sol a sol e narra como e quais foram os trabalhos que desenvolveu: como garimpeiro; como vendedor de areia para a construção das casas de sua cidade, Paracatu; como caixeiro em dois dos comércios locais; como caminhoneiro – nas estradas para Belo Horizonte e para a nova capital nacional Brasília –; e como agente de saúde, lutando a favor da erradicação da malária. Ildeu conta, orgulhoso, como era esse trabalho contra a doença e seu mosquito transmissor. Acostumado com a lida diária, mantém, com seus mais de 90 anos, uma rotina de trabalho: acorda cedo, serve o café para sua filha, vai à lotérica tentar a sorte e ajuda o filho com as atividades da fazenda. E ainda, Ildeu presta homenagem a São Benedito e, durante a novena – de 20 a 29 de junho –, toca duas vezes ao dia o sino da Igreja do Rosário que emociona a todos os que passam com suas badaladas.

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História completa

Meu pai veio pra cá com 5 anos. Vieram dois irmãos, meu avô, minha avó. Vieram pra cá e por aqui se criaram e criaram família. O meu pai casou com a minha mãe, que era daqui de Paracatu, e constituiu a família. Aqui residimos, éramos cinco irmãos. Minha infância se deu unicamente e exclusiva ao trabalho. Eu era menino e já fazia as obrigações de casa. E aí fui crescendo, entrei pra escola com 7 anos, frequentava o Grupo Escolar Afonso Arinos.

Eu não tive infância, minha vida foi toda de trabalho. Como minha mãe era uma pessoa muito exigente, ela não deixava a gente ter folga de nada. Quando não estava limpando o chão pra ela, fazendo as coisas, eu tinha que estar fazendo alguma outra coisa. Assim foi minha infância, eu não tive carrinho pra brincar e não tinha brincadeira não.

Meu pai tinha um caminhãozinho velho, um caminhão que transportava as cargas, fazia frete. O meu pai adquiriu esse caminhão, era um caminhão 28, era um chevroletezinho velho. No decorrer do tempo, eu já com 7 anos aprendi a dirigir caminhão que era velho, pegava 30 sacos de sal, o sal pesava 20 quilos nessa época. Seiscentos quilos, quando máximo, pegava esse caminhãozinho. Meu pai tinha esse caminhão e fazia frete, foi dono do Porto Buriti, onde nós recebíamos as mercadorias.

Antes disso, meu pai tinha uma barca, onde eu ajudei e viajava com o meu pai nessa barca, era uma canoa grande, metade coberta com couro de gado e metade livre. Essa barca existia: duas tábuas paralelas, uma de um lado, outra de outro, pra o sujeito, barqueiro, caminhar em cima com um varejão pra empurrar. Varejão significa uma vara grande, onde alcançava o fundo do rio pra empurrar essa barca. Com essa barca, meu pai viajava, ia pra Pirapora, descia o [rio] Paracatu e subia o [rio] São Francisco pra Pirapora, onde ia buscar mercadoria pra aqui: sal, querosene e tudo. Depois, no decorrer dos tempos, veio a navegação e os vapores que vinham de Pirapora pra aqui e traziam toda a mercadoria, mas isso antes. Paracatu recebia uma quantidade de sal muito grande, porque daqui distribuía sal pra esse Urucuia todinho aí, é Buriti, Jari, Formoso, Unaí... Ali onde hoje é o Museu Histórico, era um mercado, onde vinha o pessoal do Urucuia, carregar os animais, todos carregados com toicinho, rapadura, tudo.

[A viagem] De vapor era uma beleza, porque você não tinha que fazer força, você entrava lá dentro e ia embora, ou descia ou voltava de Pirapora embarcado. Tinha o vapor Paracatuzinho, tinha o Mauá, tinha o Afonso Arino e, inclusive, chegou a vir aqui um vapor de duas classes, que era o Benjamin Constant. Esse vinha na ocasião da cheia, muita água, mas, no mais, no decorrer do ano, vinham esses vaporzinhos pequenos, que traziam mercadoria para o sustento do comércio de Paracatu. Os comerciantes de Paracatu, que eram poucos que recebiam, compravam essa mercadoria, traziam, armazenavam, distribuíam e vendiam, sabe? Vinha sal, querosene, gasolina e arame. Tudo vinha pelo rio e chegava no porto. Cada comerciante fazia o pedido e recebia a mercadoria em casa. Quando o sujeito pedia um volume grande, eles armazenavam ali, a gente já trazia aos poucos, né? Trazia aos poucos e armazenava, tinha comerciante que comprava aí 20 vagões de sal pra distribuir por aí, nessa época, era o comércio que tinha.

Meu pai tinha comprado um terreno, ligado à casa, um terreno alto, a gente punha dois empregados pra cavar, tirar a terra. Eu ia na garagem cedo, tirava o caminhão pra fora (...) e punha os peões pra carregar o caminhão de terra, aí eu ia pra escola. Depois, terminava as aulas, vinha pra casa, almoçava, pegava o caminhão carregado de terra, com 7 anos, e ia pra praia tirar ouro. Levava à praia, à tarde, depois que terminasse o serviço de tirar, lavar a terra, eu carregava o caminhão com areia pra vender e aí vendia areia. Assim foi minha vida uns tempos, né?

Chegava da escola e ia, ninguém me acompanhava. Eu ia com o caminhão, ia sozinho, de caminhão. Chegava lá, abria a grade do caminhão, descia a terra, ia pra bateia, bateiar o ouro, tirar o ouro, ou então no caixote, aqui tinha um caixote que a gente punha a terra em cima, punha a água pra lavar e tinha uma parte assim que botava saco de linhagem pra segurar o ouro ou o esmeril. E quando terminava de fazer esse serviço, eu carregava o caminhão de areia e trazia. Essas casas todas aqui são feitas com essa areia de praia (...), não tinha areia fina nem cimento, não tinha nada, era areia e cal.

Aqui, de primeiro, as praias todas eram cheias de elementos tirando ouro, então, você via, observava e fazia o que eles estavam fazendo, tirava o ouro, né? Isso era a lógica. O ouro que adquiria, geralmente, a gente vendia pros ourives que tinham aqui, existiam muitos ourives, então você vendia aquela pitadinha de ouro que você tirava na praia. Você vendia pra  eles pra fazerem bijuterias, né, faziam brinco, brincos, anéis, aliança...

Quando eu aproximei mais à idade de 15 anos, eu já comecei a deixar o caminhão, fui empregar no comércio, trabalhei no comércio. Aqui tinha uma casa, chama Casa de Crioulo, eu trabalhei nessa casa, casa de comércio, depois mudei pra outra casa, que chamava Casa de Pinduca.

Eu trabalhei na Casa de Crioulo. Eu era o que antigamente chamava-se de caixeiro, hoje eles falam balconista. Eu era caixeiro, vendedor, chegava o freguês, a gente ia oferecer mercadoria, via o que o freguês estava precisando, se era tecido pra camisa, pra calça, ou sapato, botina... A gente atendia os fregueses, isso era o que o caixeiro fazia.

Nessa época, já foi aumentando a idade, meus irmãos sempre gostaram de mexer com caminhão, também foram “caminhãozeiros”. Eu consegui comprar um caminhão, aí fui pra estrada, fui ser “caminhãozeiro”, viajava daqui pra Belo Horizonte, pro Rio [de Janeiro], São Paulo. Levava daqui manteiga, que era o que se produzia em Paracatu na época, levei muita carga de manteiga pro Rio de Janeiro... Eu saía daqui cedo, atravessava aí o rio, não podia sair muito cedo, porque o rio tinha que atravessar no barco, não adiantava chegar muito cedo. Atravessava, ia pra Presidente Olegário, Patos de Minas, esse era o transporte. Em Patos de Minas, às vezes, ainda carregava com milho, feijão, alguma coisa. Daí ia, saía daqui, dormia em São Gotardo, de São Gotardo você levantava cedo para traçar a Serra da Saudade. A Serra da Saudade é 60 quilômetros de serra e sai lá em Melo Viana. De Melo Viana saía em Araújo, Araújo saía em São Gonçalo do Pará, Araújo e Pará de Minas, saía daqui e dormia em Pará de Minas. No outro dia, chegava em Belo Horizonte cedo, descarregava o caminhão e começava a carregar pra voltar pra Paracatu, onde trazia consignações, são tecidos, armarinhos, é o que vinha de Belo Horizonte pra aqui. A gente trazia essas apanhas, sabe? E, com isso, fui até em 1962, lutando com o caminhão, trabalhei essa época como “caminhãozeiro”.

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