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Magia e gingado

História de: Cacau (Darley Ferreira Gomes)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/08/2017

Sinopse

Cacau é o apelido de Darley Ferreira Gomes depois que ele se encantou com a magia da capoeira. Nesse seu depoimento, Cacau percorre suas lembranças de menino que se assustava com as máscaras da Caretagem, do galinho que ganhou de uma tia. Além delas, tem a passagem pelo hip hop e os treinos e grupos de dança e como dela migrou para a capoeira. Quando sua mãe morreu, a despeito da vontade do pai, seguiu seu coração e foi morar na academia do seu mestre capoeirista, em Cristalina (GO). Depois de alguns anos, voltou para Paracatu e conseguiu, passado um tempo, permanecer trabalhando com capoeira e danças afro. Cacau narra também algumas passagens do movimento negro, como a grande quebra de paradigmas, ao realizar uma Missa Afro na Igreja Matriz de Paracatu.

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História completa

Meu nome é Darley Ferreira Gomes, conhecido como Cacau. Quando eu cheguei na capoeira havia vários apelidos, né? E eu gostei do apelido Cacau, tem a ver com o lance do chocolate, né?

Quando eu vi a capoeira e vi a energia que estava rolando na capoeira: o pessoal batendo palma, a música... Aquilo me tocou e eu falei: “Eu quero ser capoeirista. Eu quero estar na capoeira, quero fazer isso”. Quando eu cheguei mais perto, é que eu fui entender que dali o pessoal começou a viajar o mundo. A capoeira levava, já naquela época, vários mestres pra vários lugares do Brasil. Eu tenho vários primos e parentes aqui que nunca saíram de Paracatu, nunca foram a Brasília, nunca foram a Cristalina. Tenho tios que falam assim: “Você é corajoso demais, esse negócio de você ir pra São Paulo, não sei o quê”. Eu gosto muito de viajar, e acho que essa história toda da capoeira e de vencer fazendo uma coisa que nos traz felicidade, acho que eu estou na capoeira hoje pra fazer uma coisa que eu gosto.

Eu trabalho com capoeira: “Gente, não é qualquer um que tem um escritório igual a esse meu aqui! Não é qualquer um que trabalha descalço, com a mão no chão, brincando com criança, tocando berimbau, cantando música”. Eu acho que é toda essa energia e essa magia da capoeira que me fez chegar mais perto, que me fez encantar assim por ela.

Eu dançava hip hop e tinha visto algumas capoeiras aqui. Naquela época, estava começando um processo de misturar o hip hop e a capoeira. Ele era dançarino... O apelido dele é Bill, Antônio Carlos o nome dele, mas todo mundo chama ele de Bill, Bill da Capoeira. Então ele chegou aqui e era ídolo de todo mundo de Paracatu. Ele fazia os movimentos, os saltos, os negócios e tal e todo mundo ficou assim: “Gente, que cara é esse? Fenômeno na capoeira!”. E ele abriu uma academia aqui, mas a academia não tinha alunos pra mantê-lo aqui. E ele foi embora e deixou mais dois alunos aqui de Cristalina cuidando. E ele falou assim: “Vamos passear lá em Cristalina”, e eu fui. Eu fiquei um tempo lá, um mês mais ou menos, com meu pai contrariado e aí voltei pra pegar algumas coisas: “Pai, eu preciso voltar, eu vou morar lá, o mestre deixou eu morar na academia”. “Não vai”, chorou no dia e tal. Eu falei: “Vou, não vou”. Meu coração pediu pra ir.

Eu morava na academia e tinha a responsabilidade de limpar a academia, de fazer a comida, participar de alguns treinos. (...) Ele ia dar aula pra criança e eu estava lá ajudando, as aulas dos adultos também, eu participava e treinava.

Ah, eu voltei por voltar pra minha cidade natal, pelos meus irmãos que estavam aqui, pelo meu próprio pai que estava aqui também.  Tinha quatro anos, cinco anos de capoeira, e eu cheguei aqui com toda a ânsia e toda a vontade de ensinar o que eu tinha aprendido lá, então voltei justamente pra isso. E aconteceu! Nessa época eu cheguei e assinei minha carteira como monitor de capoeira (risos).

Eu cheguei e, de primeiro momento, eu não tinha feito esses contatos ainda de trabalhar nos locais, mas eu voltei capoeirista e fui trabalhar um dia com meu tio, um dia não, um tempo, com meu tio, de servente de pedreiro. Eu trabalhando com ele ia nos lugares pra dar aula de capoeira, até fui numa academia aqui que era muito famosa, na época, eles estavam anunciando que precisavam de capoeirista. A dona da academia era dona do local onde eu trabalhava de servente e eu não sabia, ela era esposa do dono onde estava sendo construído o edifício que eu trabalhava. E ela: “Você é capoeirista?”. “Sou”, eu contei pra ela a história. “Legal, mas você não trabalha lá no prédio?”. “Trabalho.” Ela: “Então tá, beleza”. Eu voltei magoado um pouco da entrevista e contei pro meu tio, né? Aí meu tio falou assim: “Você vai ter que definir: ou você vai ser capoeirista ou você vai ser servente de pedreiro, pedreiro e tal. Porque se você for as duas”, eu nunca esqueço disso, “as pessoas não vão entender que você pode ser as duas coisas”. Depois disso eu falei: “É, verdade”. Eu fiquei mais um tempo com ele e comecei a ir nas instituições, fui contratado pra trabalhar na Fundação Conscienciarte pra trabalhar com capoeira lá. Abriram uma entrevista pra três monitores de capoeira, na época eles precisavam de três, foram várias pessoas, selecionaram os três.

A parte da cultura negra foi na minha fase do hip hop, eu já estava envolvido. [Primeiro] A ideia do grupo de hip hop era viajar: “Vamos viajar, vamos ser conhecidos e tal”. E depois a gente entendeu que o processo não era esse, que o processo era mesmo trabalhar na militância contra o racismo e a favor da igualdade. E a gente começou a se aprofundar mais. Depois que a gente saiu daqui [Paracatu], chegamos em Unaí (MG) e levantamos o movimento de Unaí que também fazia parte e movimentava. Eu fiquei presidente lá por dois anos do movimento negro de Unaí. E a gente buscando atividades culturais, correndo atrás de trabalhar a favor da igualdade. Por ser negro e ser descendente de escravo e conhecer toda a história, a gente está sempre envolvido pra que tenha um futuro melhor não só pra minha filha, mas pros meus netos, tal. A gente briga e é a favor das cotas, a gente tem outras situações que sempre estão acontecendo no mundo e a gente está aí. Acho que a gente tem que fazer um diferencial.

Eu penso que essa luta minha com a capoeira, com o jovem, com o adolescente, com os movimentos é um pouco imortalizar a pessoa do Cacau no lugar em que eu moro, acho que é deixar um pedacinho. “O Cacau esteve aqui”, acho que um pouquinho só, uma sementinha só, deixar assim.

E uma das coisas que eu sempre quero é imortalizar a pessoa do Cacau. Com a música é a mesma coisa, tipo assim, Paranauê (canta): “Paranauê, Paraná”. Quem nunca fez capoeira sabe que essa música é uma música de capoeira. Então, o que vocês estão fazendo aqui também é imortalizando um pouquinho da minha pessoa e do meu pai que já se foi, da minha mãe que não teve a oportunidade de me ver; meu pai teve, mas minha mãe não teve a oportunidade de me ver vencedor. Porque eu me vejo como vencedor. Eu tento ser o melhor possível por causa do meu pai e da minha mãe, pra eles terem orgulho, minhas filhas terem orgulho, minha esposa, pessoas que estão a nossa volta. Acho que é isso.

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