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História

A música que chega

História de: Didi (Adailton Silva)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/08/2017

Sinopse

Adailton Silva, mais conhecido como Didi, tem um sorriso fácil e uma voz poética em que vai narrando e puxando os fios da memória entre as histórias de suas duas famílias, de sua cidade, de suas atividades... Trazendo o ritmo da música que sempre esteve presente desde que comprou seu primeiro violão. Quando jovem, foi a Belo Horizonte estudar no conservatório da Universidade Federal de Minas Gerais, mas a vida o trouxe de volta a Paracatu para ajudar o pai com as atividades do Cartório. Mesmo com o trabalho diário, Didi continua com a música e conta como é o processo de compor canções e como foi gravar seu disco, Quintal de Memórias, que traz as cores, as histórias e os movimentos de sua terra.

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História completa

Meu pai era tabelião, Honório José da Silva, e Lúcia da Costa Silva, que era de casa, doméstica, das lides domésticas, que ainda está viva, está aqui comigo, completa 100 anos esse ano, um privilégio. Ela é um repositório de memórias que eu tenho aqui dentro de casa, né? Todos de Paracatu, todos nascidos aqui em Paracatu, lá no bairro do Santana. Eu sou filho adotivo, eu fui adotado com três, quatro meses de idade, por aí e tenho grandes laços de afetividade com a minha família [biológica], que é lá do Santana, mora no Santana, são todos meus amigos. O Dario Alegria, aquele jogador, é meu primo primeiro, e todos os irmãos deles, tenho bom relacionamento. A vertente musical é muito maior daquele lado lá ainda porque o pai dele, Luís Dario, era um sanfoneiro renomado aqui. Não tinha onde escapar muito [da música]. Meu pai também cantava em coral, tocava violão, cantava com mamãe, os dois, eu lembro dos dois cantando, fazendo dueto, sentados no fogão, na casinha simples, eles cantando. Eu não tinha muito como sair fora da música por causa dessa ancestralidade musical, quer de um lado, quer de outro.

Seu Honório e dona Lúcia me adotaram, foram legitimamente meus pais, eles que se dobraram sobre meu berço e fizeram mamadeiras nas madrugadas, então esses que acabaram sendo realmente meus pais. Isso nunca foi segredo, nunca teve melindre e, por isso, nenhum choque, nenhum trauma, nenhuma esquisitice na estrutura psicológica minha, nada que me molestasse. Aliás, soma, eu tenho duas famílias, eu tenho mais lucro do que muita gente.

A gente morava no Santana, que foi onde nasceu a cidade, onde começou a cidade. Todas as tradições daquela vida interiorana, singela, simples, a gente viveu tudo ali. E além disso eu morava no Beco da Bitesga, que só depois de adulto eu fui descobrir que bitesga significa beco sem saída e, realmente, não tinha saída. No final tinha um matagal que interrompia o beco. O Santana já era pequeno, a cidade não era tão grande, e o beco era um excerto, um apêndice, como se fosse uma peninsulazinha negra ali dentro do Santana, né, naquele universo negro. E ali a gente brincava de roda, cantava, tinha todas as brincadeiras. Toda tarde tinha uma mulher que chama Lídia que cantava, contava histórias pra gente. Isso tudo foi alimentando esse imaginário meu da música, da escrita, dos contos.

Eu lembro assim, os momentos das refeições era uma festa. Tem uma cafeteira que eu menciono, eu fiz uma música, chama Cheiro pra voar, que eu rememorei esse cheiro do café que mamãe fazia todo dia de manhã, aí dava aquele cheiro do café, e você sabia: o café estava pronto. Todo mundo ia correndo, e essa cafeteira está ali no quiosque ainda, ela existe, eu guardo com carinho, e a gente encostava com as costas da mão na cafeteira pra ver se estava quente. Se estivesse quente, tinha café novo. E fazia a fila. Porque, no Santana, era a casa dos meus pais, ao lado a casa da minha irmã, mais embaixo a casa do meu irmão e mais embaixo, em frente até o final do beco todos os parentes, todo mundo parente (risos). Todos os sobrinhos faziam fila pra tomar café, transitavam por ali, sabe, é um vai e vem de meninos felizes andando pra todo lado.

O músico é alguém que é meio malandro mesmo porque enquanto alguns estão trabalhando com coisas, a gente está compondo, cantando, isso não deixa de ser uma malandragem, né? (risos). Meu pai ouvia muito muita coisa, então radiola ligada com muitos discos. E meu irmão também. Meu irmão ouvia, imagina, naquele tempo, Frank Sinatra, Nat King Cole, sabe? Essa era a música que a gente ouvia em casa. E um dia eu me deparei com um disco, Abismo de Rosa, capa amarela, de Dilermando Reis. E coloquei aquilo na vitrola pra rodar, e aquilo bateu assim no coração de uma vez por todas. E aí eu queria comprar um violão: “Pai, me dá um violão”. Ele falou: “Não dou violão, não. Você vai trabalhar e você compra o seu violão”. Aí eu fui pro cartório trabalhar, ajudá-lo. E aí fui pra escola da datilografia, ele me mandou pra lá e era bom porque até hoje eu digito mais rápido do que os meus companheiros de serviço (risos), esse negócio deu certo, datilografia deu certo, e com todos os dedos. E aí eu fui, comecei a trabalhar. Quando recebi o primeiro salário fui comprar o violão. Cheguei na loja, Casa Diogo, a única loja que vendia aqui instrumento musical, e só dava pra pagar metade (risos). Eu voltei triste e falei: “Pai, não dá”. Ele falou: “Pode pegar lá o violão que eu pago a outra parte”. E daí foi, comecei a tocar. E tentava tirar aquilo de ouvido, né? E voltando o disco toda hora, voltando a agulha toda hora tentando acertar no lugar e não acertava, tentando tirar aquelas coisas de ouvido, uma tremenda dificuldade. E obviamente não conseguia, tinha coisas que eu não consegui fazer. Mas consegui tocar algumas coisas. E fui trabalhando, trabalhando, juntei um dinheiro pra comprar um violão. E aí fui a Belo Horizonte, na Rua dos Tupis com Espírito Santo, na Musical Strambi. Eu cheguei lá e o moço falou: “Tem um violão espanhol aí pra comprar”. O povo quase me matou aqui no Santana porque era quase o preço de um fusquinha naquele tempo (risos). “Você é louco, irresponsável! Como é que junta dinheiro mais de um ano e em vez de comprar um carro vai comprar um violão.”

E aí, na loja, eu peguei o violão, sentei debaixo de uma escada, longe do balcão mesmo pra não perturbar e fiquei tocando aquelas coisas que eu sabia no violão, maravilhado porque o violão era um sonho. Nisso entrou um velho de terno, fumando com uma piteira, chapéu de lebre, uma pasta de couro de jacaré, entrou elegante e passou pra dentro do balcão da loja. Eu tremi e falei: “É o dono, vai achar ruim porque eu estou tocando aqui no violão” (risos). Que bobagem, era loja de vender instrumento, mas o matuto aqui da roça: “Vai brigar”. E piorou porque em vez dele ir cuidar dos afazeres, ele ficou do outro lado parado, do outro lado do balcão, em frente a mim, uma distância de uns 10 metros, quieto, lá parado. Abriu uma pasta, eu percebi que ele estava fingindo que estava mexendo em alguma coisa e me observando, observando, observando. Depois de uns 10 minutos piorou porque ele falou pra mim: “Menino, vem cá”. Eu levantei todo sem jeito. Ele falou: “Me dá esse violão aqui”. Entreguei o violão pra ele, ele pegou o violão assim, apoiou o violão no balcão e fez uma escala, saiu da última casa e foi lá na outra casa numa velocidade incrível. E pôs o violão na mesa e falou assim: “Eu sou o maestro Nelson Piló. Eu sou professor de violão aqui em Belo Horizonte, aqui na Musical, eu dou aula aqui em cima. Eu estava te observando aqui há uns 15 minutos. Tem muita coisa errada que você está fazendo, muita coisa errada, mas eu quero dar aula pra você porque você tem a cancha do concertista, você tem o som, você tem a mão do concertista de violão. Eu quero dar aula pra você”. Eu falei: “Mas não tem jeito, eu não moro aqui, eu moro em Paracatu, vou ficar aqui só uma semana”. Ele falou: “É, então não tem jeito”. E deu as costas pra subir uma escadinha assim pra onde ele lecionava. E eu falei: “Maestro, o que dá pra aprender em uma semana?”. Ele falou: “Quase nada, depende de você”. Eu falei: “O senhor me dá aula uma semana?”. Ele falou: “Dou. Pode vir amanhã”. Eu falei: “Eu não posso ir agora, não? O senhor está indo dar aula”. Ele falou: “Pode”. Eu subi a escada com ele e fiquei aluno por uns três anos do maestro Nelson Piló. Naquela semana, a minha tia mandou um recado pra papai aqui: “Manda buscar Didi porque ele vai adoecer. Ele não dormiu um minuto essa semana, só tocando violão e lendo em cima de partitura”. A grande verdade é que eu aprendi a ler música em uma semana com ele, tanta vontade de aprender. E quando eu vim embora daquela semana ele me deu um pacote de partituras. Eu vim e me debrucei em cima daquilo e dali um ano, nas férias novamente, eu voltei lá e eu já estava tocando melhor do que os alunos que tinham ficado com ele durante o ano todo. E aí eu fui ficando muito tempo. Tem um choro que ele dedicou a mim, um chorinho.

Eu sou falador, eu sou um contador de histórias. E a gente só pode ser contador de história se a gente for observador das coisas, e eu sou extremamente observador de gente, eu amo observar gente. E a vida, natureza, as coisas, o ritmo das coisas. E aí eu pego o violão, vou tocar e começam a vir umas palavras, começam a ficar brigando pra entrar. E aí elas vão brigando, umas saem, outras ficam, e acaba a gente fazendo e quando vê está pronta a música.

Eu canto a minha história. Eu acho que eu não conseguiria viver sem escrever, sem escrever os contos com esses personagens. Porque minha vida foi cheia de gente, menino correndo pra cá, bebendo café, apanhando biscoito, correndo praqui, adultos, brincadeira de roda, batuque, samba, aquelas cantigas lá do beco da Bitesga.

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