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Com o coração na roça

História de: Lourinho (Lourival Araújo Caldas Filho)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/08/2017

Sinopse

Seu Lourinho, como é conhecido Lourival Araújo Caldas Filho, nasceu em Paracatu e conta como era a relação entre a cidade e a roça de seu pai que ficava a 30 quilômetros da cidade. Seu Lourinho narra como eram as travessias a pé ou a cavalo para ir à missa ou ao cinema na sua juventude. Como ele era namorador, precisava dos conselhos de uma prima de segundo grau e acabou seguindo um desses conselhos à risca e casou-se com aquela que o aconselhava. Quando casado, passou a morar na cidade e, por isso, ingressou no comércio. Lourinho conta como foi implantar o sistema de gôndolas em seu mercado e qual foi a resposta do público. Além de comerciante, seu Lourinho chegou a produzir e fabricar fubá e canjica para vender também na cidade vizinha, Cristalina (GO), graças a uma estratégia brilhante! Atualmente, seu Lourinho segue como produtor rural, plantando cabaças, e com elas fazendo seus artesanatos que são sempre apresentados nas feiras da região.

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História completa

Desde quando se falava em Paracatu já se falava na família Caldas. Todos eram fazendeiros, agricultores, viviam da roça mesmo, como a gente viveu da fazenda. Falava roça porque todo mundo plantava de tudo pra sobreviver. O que alimentava era aquilo que você produzia, dificilmente você vinha na cidade. Quando a gente vinha, era para comprar o querosene e o sal praticamente, porque o resto a gente produzia lá mesmo, produzia tudo. Inclusive a iluminação era feita naquela época por azeite de mamona, produzia mamona, fazia o azeite pra iluminar, chamava candeia, onde colocava o cordão imbuído no azeite pra iluminar. Quando não tinha o querosene, né, porque às vezes usava querosene também.

Naquela época nossa, não tinha brinquedo, você tinha que inventar. Tem uma fruta que dá no mato, chama marmelada, você pegava ela, colocava o pezinho de madeira ou de cipó e pauzinho seco e fazia os bois, pra você fazer um carrinho ali com essas frutas do mato e durava, conseguia durar ali seis meses, até um ano. E ai de quem pegasse aquilo ali e destruísse, era briga certa.

O sítio do meu pai estava a 30 quilômetros daqui. Pra vir para a cidade era a pé ou a cavalo, não tinha outra condução. Uma vez, eu vim a cavalo, e a gente não tinha costume com calçar botina, por exemplo. E eu peguei a botina, coloquei na capanga e pus na cabeça do arreio e vim. Quando chegava perto da cidade, a gente tinha o ponto de chegar lá que era essa praia, e a gente parava pra lavar os pés e calçar a botina. Quando eu me lembrei da botina, que fui olhar na cabeça do arreio, cadê? Perdeu, caiu! Você vê a dificuldade. Voltei seguramente uns 2 quilômetros ou mais e não achei. O que aconteceu? Cheguei descalço aqui. A gente foi providenciar, comprar uma outra botina, com a dificuldade de encontrar naquela época, mas a gente mandava fazer. Tinha o sapateiro que fazia. Mas dei sorte que eu consegui pra poder calçar, senão ficava descalço na rua.

Essa história de namoro foi muito engraçada, viu? Eu tinha na época, várias namoradas e ela, a Eleusa, como parente, prima de segundo grau, era minha conselheira. A gente conversava e tal e um dia ela falou pra mim assim: “Ô Lourinho, você fica com esse negócio de um dia está com uma namorada, outro dia está com outra, escolhe uma e fica com ela, é melhor procê”. Aí eu pensei: “Quem sabe é ela?” (risos). E no outro dia, ou passados uns dias, eu convidei ela pra ir no cinema, e ela aceitou. Aí estamos lá assistindo o filme, podia até recordar qual era o filme, seria bom, né? Mas aí, no banco, eu peguei na mão dela e ela falou: “Primeiro namorado que pega na minha mão!”. Eu não tinha falado que era namorado. Eu falei: “Opa, é isso que eu queria”. E aí começamos a namorar. E namoramos em torno de um ano, ela perdeu o pai, queria casar logo... Pra pedir casamento, a gente não pedia diretamente, eu tive que arrumar, eu tinha um primo muito meu amigo que foi lá e pediu o casamento. No outro dia, eu não fui saber da resposta, ele não me veio trazer também a resposta, né? E eu corri pra roça. Na hora que eu voltei, perguntei pra ela, ela falou: “Ela aceitou sim. Ela falou pode, pode. Ainda bem que é filho da comadre Conceição e tal”. Aí, então nós pudemos fazer a aliança. Mas a vergonha era tanta de colocar a aliança que eu coloquei ela no carro e fomos pra roça. Colocamos essa aliança na estrada. Aí eu nem cheguei a parar o carro, tirei a aliança do bolso, mostrei pra ela e falei: “Toma a sua, põe no seu dedo aí”, eu pus no meu. Chegamos em casa de aliança. Isso foi uma passagem que a gente não esquece, né?

Quando eu casei, minha esposa era professora, então ela tinha que ficar aqui na cidade, e eu passei a ficar aqui, a morar aqui. Moramos dois anos numa casa que eu tinha no bairro Bela Vista, não tinha água, não tinha luz, não tinha asfalto, não tinha nada, moramos lá dois anos. Depois meu pai me deu esse lote da casa em 1968, eu iniciei a casa e já tinha financiamento da Caixa Federal, eu fiz o financiamento, demorei dois anos construindo, mas consegui. Mudei aqui pra esse endereço em 1970 e estamos aqui até hoje. É uma vida, né?

Com o negócio de eu estar morando aqui, eu fui para o comércio. Montei um armazém e fiquei bem uns 15 anos no comércio. Eu implantei aqui em Paracatu gôndola de supermercado, a pessoa chegava, ela mesmo pegava a mercadoria e acertava no caixa. Nesse tempo, eu tinha uma área dentro desse meu estabelecimento que vendia tudo no quilo, o arroz, feijão, macarrão, ração, tudo eu vendia no quilo. E o pessoal habitual falava: “Vou comprar meio saco porque fica mais barato do que eu comprar de pacote”. E era a mesma mercadoria que eu tinha empacotada, eu ensacava e vendia no quilo, pra impressionar a pessoa achar que está bom. Muitas vezes eu despejava o macarrão do pacote, botava pra vender no quilo porque ele era mais procurado. Mas a minha cabeça voltava outra vez pro sítio, pra ir trabalhar na roça.

Quando eu vi que não era a minha praia, eu gostava era da roça mesmo. Abandonei o comércio, vendi e voltei pra roça de novo, pra uma fazenda que meu pai me deu para explorar. Dessa fazenda, ficamos lá bastante tempo ainda. Saí de lá, meu pai faleceu, eu perdi a fazenda, tive que vender a parte. Aí voltei, voltei a morar na cidade outra vez, foi nessa época que eu fabricava farinha. Montei uma industriazinha de fubá, de canjica, depois vim a fabricar o Rolito da Vaquita, que era um doce, até fez um sucesso. Mas como a cabeça é voltada pra roça, pra fazenda, eu fiquei sem nada mais, só tinha aqui. Aí voltei, foi a salvação da qualidade de vida: você ter um pedaço de terra e poder trabalhar, né? E foi quando apareceu o artesanato na minha vida, o artesanato na cabaça.

Fui plantar cabaça. Plantei umas lá e produziu umas cabaças muito boas e aí eu já era feirante, comecei a trazer as cabaças pra vender na feira, com muita vergonha porque vender cabaça, né? E muita gente me chateava: “O que o senhor quer vender cabaça? Ninguém vai comprar isso não”. Olha, pegou direitinho.

A cabaça, a cultura, é normal, é uma abóbora, você tem que cuidar, preparar a terra direitinho, adubação. Hoje já precisa de combate às pragas porque dá praga também e até inibe muito a produção. Até a qualidade da cabaça, se não for uma terra boa, bem adubada, ela não vai dar um produto bom. O comprador é exigente, as artesãs e os artesãos em cabaça conhecem mesmo, pegam na cabaça e já sabem: “Essa não serve”, já vai descartando. E se é boa: “Opa, essa aqui é boa”.

Há infinidades de modelos, pode dar maior, menor. Você só colhe ela depois que ela está seca. Antes ela era uma abóbora, quando está verde você pode comer também. Antes é uma abóbora, depois que seca, é uma cabaça, na hora que você parte ela no meio, vira cuia. Então tem essas diferenças.

Existe centenas de milhares de coisas que se faz com a cabaça. A pessoa pega uma cabaça dessa aqui, tem uma pessoa que imagina aqui o quê? Vou fazer uma boneca. Então ele vai desenhar a carinha dela aqui, colocar um chapéu, uma coisa, as pernas, a roupinha. O outro já fala: “Ah não, vou fazer uma galinha”, já cria aqui uma galinha. “Vou fazer um oratório”, vai abrir ela aqui e colocar uma imagem lá dentro, vira um oratório. O que seria a outra coisa? Olha, pode fazer um bicho, é criação de cada artesão. Essa pequena eu estou usando mais hoje pra fazer o terço. Você vai enfiar ela numa corda aqui e montar um terço. Isso é bom demais e o tanto de coisa que se faz com uma cabacinha dessa aqui, fazer galinhinha, fazer um pintinho, uma bonequinha que se faz muito.

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