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História

Antes e depois da Fundação

História de: Alan Carlos Miranda Gonçalves
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/08/2017

Sinopse

Alan Carlos Miranda Gonçalves nasceu em Paracatu e ao longo de sua jornada foi vendo a família crescendo, irmãos, mães e pais. Isso começou quando seus pais se separaram, e o pai casou-se com uma "boadrasta" que já tinha filhas. Outra mãe é a responsável por convidá-lo a participar de uma oficina na Fundação Conscienciarte, aquele lugar em que, primeiramente, passava para vender doces. Foi na Fundação em que conheceu e começou a trabalhar com audiovisual, sua paixão. Pela Fundação, ouviu falar e começou a praticar e incentivar o protagonismo juvenil, além de promover e refletir sobre o preconceito. Alan conta como foi feito seu primeiro documentário, graças a um edital que ganhou em que concorreram roteiros de todo o país. Além disso, Alan narra todo o processo de abrir a produtora e as correrias dos primeiros trabalhos. 

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História completa

Desde pequeno, ali com os meus sei lá, 12 pra 13 anos, eu comecei a entender como que as coisas funcionavam, a minha ideia sempre foi de ter uma empresa. (...) Teve uma vez, eu tinha uns 12 pra 13 anos, e a gente vendia cartucho – minha madrasta fazia, e a gente vendia doce, meu tio começou a mexer com melancia. Aí, o meu tio sempre vinha da roça e deixava duas, três melancias lá na casa pra gente, eu falei: “Tio, como é que eu faço? Eu vendo as melancias pro sacolão, como é?”. “Não, nós entrega só quantidade grande.” “E o povo que vende? Como é que faz?” Aí acho que o meu tio percebeu: “Você quer vender?”. “Quero, quanto que é cada melancia?” “Vou vender por 50 centavos.” Aí ele deixou cinco ou seis melancias, eu comprei dele. Vendia cada melancia a um real, saía no carretãozinho, nas ruas perto e vendia as melancias. De dia, eu vendia cartucho; no final do dia, eu pegava o carretão, vendia as melancias. “Tio, quero dez melancias agora”, aí ele trouxe dez melancias, aí eu vendi, aí juntei com a grana que eu tinha e liguei para o meu tio: “Tio, pode trazer pra mim agora umas 30 melancias”, aí o meu tio: “Não, não posso levar melancia”. “Não, tio, eu vou comprar.” “Não posso vender, você só pode levar pouquinho, não posso levar muito, não”, aí acabou o meu negócio de melancia. Mas eu sempre tive a ideia assim, eu queria abrir uma empresa, não sabia de quê, mas eu queria vender alguma coisa, eu queria ter a minha empresa.

Quando a gente começou a vender cartucho, o meu pai sempre falava: “O homem tem que começar a trabalhar, o homem tem que aprender a trabalhar desde cedo”. E tinha uma loja aqui em Paracatu que vendia com 100 dias direto no cheque e meu pai levava a gente pra comprar a sua própria roupa, aí o que o meu pai fazia? Ele dava um cheque e falava: “Você tem 100 dias para pagar”, aí antes de ir na loja, eu sentava, distribuía os 100 dias, contando os finais de semana e tal, mais ou menos, uma média de quanto eu ganhava por dia, ganhava um real e pouquinho, aí colocava pra eu saber quanto que eu podia gastar trabalhando 100 dias. E aí, o pai dava o cheque, a gente comprava as roupas, a gente comprava já pensando: eu tenho 100 dias para pagar e juntar “x” de grana. Ali, foi a primeira vez que eu comprei as minhas roupas, nunca mais meu pai me deu roupa, a gente sempre comprou as nossas roupas, os calçados, tudo.

Com 16 anos, eu entrei no Conscienciarte e aí, mudou tudo, inverteu tudo. Eu entrei no Conscienciarte para um projeto primeiro que chamava Meu Jardim, era um curso de jardinagem, horticultura que a gente ficou um ano nesse curso, e esse curso é engraçado porque, quando eu entrei, eu comecei a vender cartucho com 11 e já tinha 14, né? Quase 15. Era uma época em que eu vendia cartucho, e a gente tirava, mais ou menos, 70, 80 reais no máximo, por mês vendendo cartucho. E eu vendia cartucho aqui na Conscienciarte, e a galera sempre me chamava: “Vamos fazer um projeto, vamos participar disso e tal”, e eu nunca entrava porque eu tinha que trabalhar, tinha que ganhar dinheiro e quando a Bethânia falou: “Vou colocar você num projeto chamado Meu Jardim”, eu pensei comigo: o que eu vou fazer com jardinagem e horticultura? “E tem uma bolsa de 100 reais.” “Eu topo entrar, vamos entrar”, que eu pensei: ganhava 70, 80, a bolsa dava 100, vamos fazer isso daí. E entrei. E lá que começou todo esse processo de mudança, porque a gente fazia o curso de jardinagem e horticultura, meu professor chamava Haroldo, e o Haroldo começou a dar para a gente atribuições: “Estuda sobre coleta seletiva que você vai apresentar para os seus colegas”, “Estuda sobre, sei lá, poluição ambiental, poluição da água, que você vai dar uma palestra para os meninos adolescentes aprendiz”, que era um outro projeto. Foi ali que eu comecei, partindo da Conscienciarte, a apresentar os trabalhos da escola. Ali, eu vi que eu gostava de falar na frente, que foi divertido, não só pela nota depois. E depois, as palestras no Meu Jardim, eu também achava legal, e ali, eu comecei a escrever e aí, você vira meio que referência: “Se tiver que apresentar, o Alan vai lá e apresenta”, e eu comecei a me divertir com aquilo de apresentar, de falar na frente e tal e depois, o Meu Jardim encerrou, eu entrei para um projeto chamado Adolescente Aprendiz que acontece aqui na Fundação Conscienciarte, que é iniciação ao primeiro emprego. Fui trabalhar numa concessionaria. Trabalhei lá como office-boy. Fiquei um ano e dois meses, mais ou menos trabalhando como office-boy, e encerrou o meu contrato, e o gerente me chamou pra trabalhar lá. E paralelo a isso, tava tendo um negócio de consciência negra na Conscienciarte, que todo ano eles fazem, até hoje, e os alunos do Adolescente Aprendiz tinham que escrever um texto falando sobre esse tema de consciência negra. E eu sentei de frente para o computador, escrevi um texto rapidinho, digitei rapidão e imprimi lá, levei para a professora e esse texto sobre a consciência negra que fez o Lucivaldo, que era o superintendente na época, despertar a atenção para mim. Ele já tinha me visto um momento ou outro, e aí, esse texto que eu fiz sobre consciência negra, minha professora gostou, que passou para a coordenadora, que gostou demais, que passou para uma outra coordenadora que falou que era para eu ler esse texto num evento maior que eles faziam na porta da prefeitura. E aí, eu fui para ler esse texto na porta da prefeitura, e depois, o Lucivaldo me falou que foi naquele momento que ele despertou a atenção: “Nós precisamos trazer esse menino para perto”. Lucivaldo é uma pessoa extremamente persuasiva, é a pessoa mais persuasiva que eu conheço, e ele falou muito sobre os projetos e sobre as possibilidades e tal e uma coisa fez eu me decidir vim pra cá, porque ele falou assim: “Pensa o quê que você quer ser daqui cinco anos”, e aí, eu pensei e decidi que vendedor de peças não era [o que eu queria].

Eu vim para o Conscienciarte, e eu falei: “Eu não quero ser vendedor de peças, então eu vou para a Fundação”, e vim. Quando eu cheguei aqui, o Lucivaldo falou: “Alan, nós temos duas vagas que eu posso te oferecer, uma delas é no financeiro e uma delas é na comunicação que é onde eu tô precisando mesmo”. Aí eu falei assim: “Posso te responder amanhã?”. “Pode.” Fui pra casa e comecei a pensar: o financeiro eu me ambientava mais, ele falou que tava precisando muito, era na comunicação, se eu for para o financeiro, esse cara vai me mandar embora. Eu vou para comunicação, sem saber nada do quê que era, não fazia ideia. Voltei, falei: “Lucivaldo, vou para a comunicação”, e aí, foi onde todos os meus planos foram mudados.

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