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Uma vida, muitos gols

História de: Dário Alegria (Jurandir Dário Gouveia Damasceno)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/08/2017

Sinopse

Conhecido como Dário Alegria, Jurandir Dário Gouveia Damasceno, narra a origem de sua família, dos quilombos de Paracatu. Seu pai, um sanfoneiro muito conhecido, fazia de tudo pela cidade – era artesão, tinha um armazém –, além de lutar pela manutenção das tradições de seu povo, com a criação de um clube. Desde pequeno, Dário aprendeu a tocar para acompanhar o pai. Aos 14 anos, por conta de uma promessa feita ao pai, no leito de morte, cuidou da família – de sua mãe e seus oito irmãos. De um jogo na cidade, Dário ingressou no futebol de Brasília, onde chegou a trabalhar como servente de pedreiro na construção da nova capital. De lá, partiu para novos desafios no futebol profissional. Com muitos gols, títulos e parcerias importante, Dário se aposentou do esporte com um pouco mais de 30 anos e regressou para sua cidade natal. Lá, em Paracatu, mobilizou o movimento negro para o reconhecimento dos quilombos de Minas Gerais. Além disso, como seu pai, tem exercido diversas atividades.

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História completa

O nome completo é meio grande: Jurandir Dário Gouveia Damasceno, esse nome nunca foi nem ventilado no futebol, ficou Dário Alegria, e eu nasci em Paracatu.

Minha mãe nasceu no São Domingos, meu pai nasceu numa outra comunidade quilombola, que chama Buriti do Costa, é lá do outro lado da cidade. Eles vieram pra aqui, pra beira, logo que, segundo eles, houve a libertação dos escravos. Os avós saíram de onde que eles estavam lá no Buriti do Costa e vieram pra beira do Córrego Rico, aqui no Santana, pra tirar ouro pra manutenção das famílias, né?

Paracatu, até hoje, tem 73% de afrodescendentes. Esses afrodescendentes, esses negros vieram há muitos anos, eles vieram, claro, da África. Vinham pra Paracatu por meio de vapores, de navios que subiam o São Francisco, entravam no Rio Paracatu, pegavam os vapores e os vapores traziam até Paracatu e aqui tinha a necessidade dos negros. Logo na fundação de Paracatu, vieram os bandeirantes, um aportou no São Domingos, José Rodrigues Froes, e o que aportou no Santana, no sul da cidade, era Felisberto Caldeira Brant. Eles ficaram por aqui muito tempo, mas tinha a necessidade dos negros. Então trouxeram os negros pra cá. Tinha até, tem, um lugar aqui que chama Arraial dos Angolas que era onde os negros ficavam pra serem vendidos, negociados. Nessa vinda pelo Rio São Francisco, que cai no Rio Paracatu, formaram-se dois quilombos, um chama, ainda hoje, Quilombo do Pontal, o outro chama, se não me falha a memória, Cercado, Quilombo do Cercado, todos os dois na beira do Rio Paracatu. A povoação de afrodescendentes que vieram pra Paracatu, toda ela africana, veio por meio dessas embarcações que navegavam os rios.

Meu pai era artesão, ele fazia cadeirinha, meu pai fazia propaganda no megafone, em cima de umas pernas de pau, ele tocava pro circo... Ele só não fazia chover aqui, mas o resto era ele que fazia. Tocou com Luiz Gonzaga, tocou pra Juscelino, tocou em Goiás, com a Cora Coralina, fazia as primeiras festas do milho, em Patos de Minas...

O meu pai tocava acordeão e consertava acordeão em casa, consertava: “Seu Luís, ó, tem uma sanfoninha pro senhor afinar”, aí afinava e ele tinha um clube, ele montou um clube chamado Sociedade Operária Paracatuense e nesse clube tinha baile sábado e domingo: sábado, o baile; domingo, hora dançante. Eu tive que aprender tocar alguma coisa, mas está no sangue, e logo cedo comecei a entrar nesse conjunto do meu pai. Aí tinha a escola, depois tinha os ensaios. No clube, tinha o bar, as mesas etc. e tal. E naquele tempo, aqui por perto não tinha cerveja, guaraná, essas coisas. Vinham de longe, mas, quando vinha, não vinha em caixas como a gente vê hoje caixa de cerveja. Latinha, não, não tinha. Era cerveja grande em sacos, era um saco com 48 cervejas, vinha amarrado, vinha lá de Ribeirão Preto, daquelas partes de São Paulo, e eu também já ajudava a fazer o retorno. Ajudava a limpar o salão, ajudava, ensaiava etc. e tal, mas eu vivia muito bem, eu gostava muito do meu pai. Quando ele morreu, eu tinha 14 anos e era um companheiro dele das tocatas. Senti muita falta, mas fazer o quê? É coisa de Deus, Deus é que resolve essas paradas.

Eu fico até acanhado de falar que tocava perto do meu pai, que meu pai tocava muito. Ele tocava sanfona pequena e acordeão, ele tocava o hino francês na sanfona como ninguém, deve ter pessoas em Paracatu que se lembram disso. Ele tocava o hino nacional, o hino brasileiro, na sanfona pé de bode, nas costas, virado, com as costas pra o microfone. Ele era autodidata mesmo, e a escola dele era muito pouca... Naquele tempo, não tinha escola, o máximo que acontecia era o terceiro ano primário. Meu pai era tão bom que meu avô, Darilo, quando veio pra cidade, (...) começou a fazer alguns serviços e conseguiu comprar uma sanfona pé de bode, meu pai era pequeno, era garoto. E meu avô, o Darilo, amarrava a sanfona dentro de um saco lá da cumeeira da casa, que era pra ninguém mexer e falava com o minha avó: “Não deixe ninguém mexer, isso aí é o mais precioso do mundo, é a primeira sanfona que eu consegui comprar” e tal. Aí o que que aconteceu? Um belo dia, o meu pai convenceu minha avó, a mãe dele, a tirar a sanfona. Com muita dificuldade subiu lá, tirou a sanfona e ele começou a tocar, começou a tocar, minha avó falou: “Onde é que você aprendeu?”, “Não, peguei aqui, agora, agora que eu peguei pra tocar sanfona” e continuou tocando. Minha avó entusiasmou, ele tocando lá sentado no tamborete, pequeno, era garotinho mesmo e meu avô voltou do serviço e eles não viram ele chegando, quando ele chegou lá na rua, disse: “Olha, não é possível que Benedita deixou alguém tocar essa sanfona minha, eu falei que não era pra ninguém tocar, não sei que que tem” e foi reclamando. Quando chegou lá, viu o meu pai, pequeno, tocando essa sanfona melhor do que ele, o meu avô, o que aconteceu? Desse tempo em diante, o meu pai tocava fazendo os bailes, sentava em cima da mesa pra ficar à altura do pessoal que estava dançando e fazia os bailes pro meu avô, tocava bem melhor, daí esse tempo eles começaram a fazer os conjuntos.

Eu surgi jogando, eu joguei em Brasília, no princípio de Brasília. Fomos pra lá no falecimento do meu pai, aí começou uma carreira. Joguei em Brasília, eu fui pra Belo Horizonte, profissional, com 16 anos de idade e andei rodando. Rodei, de lá fui vendido pro Palmeiras, Sociedade Esportiva Palmeiras, de São Paulo, do Palmeiras fui pro México, Monterrey, no México, divisa com os Estados Unidos. Quando eu voltei pra Belo Horizonte, já tinha o Dário Peito de Aço, que é o meu xará, aí tinha mais Dário, um Dário uruguaio, tinha o Dário do Vasco. Então, quando voltei a Belo Horizonte, o Osvaldo Faria, era um radialista, como eu sempre fui falastrão, tocava um pandeiro, tocava cavaco, sanfoninha, aí ele falou: “Ó, você vai chamar Dário Alegria, pra não confundir”, aí começou o Dário Alegria.

Eu jogava na frente, atacante, sempre fui atacante. No Palmeiras, joguei de sete, de oito, de nove, não jogava de dez, porque o Ademir da Guia não deixava, né? Jogava de nove, no América Mineiro jogava de dez; Fluminense, jogava de nove, sempre atacante, era muito veloz. Na época, eu era muito veloz, eu fazia 100 metros em 11 segundos, 11 segundos e pouco. Eu era veloz pra época, hoje tá todo mundo fazendo quase isso, evoluiu muito a questão de preparação física, alimentação, essa coisa melhorou muito, evoluiu muito, é por isso que os caras estão hoje voando baixo, eles correm o tempo todo.

[Um gol marcante] Foi num jogo que acho que deve ter marcado as outras pessoas também, teve uma final de um campeonato que ficou Palmeiras e Botafogo, era em São Paulo. O Botafogo, se empatasse, era campeão, naquele tempo era Roberto Gomes Pedrosa, o campeonato Rio-São Paulo, que depois virou Robertão que era Rio, São Paulo, Minas e Porto Alegre. Então, era o jogo Botafogo e Palmeiras. Eu entrei nessa partida, no segundo tempo, e nós precisávamos da vitória. Na entrada da área, eu peguei uma bola, levei pro Ademir, ele enfiou o pé debaixo, levantou e eu chutei no ângulo de Manga. Manga era um goleiro enorme, a mão dele era desse tamanho, se chutasse mal, ele pegava com uma mão só, então no ângulo! Aí desceu a arquibancada toda, aquele pessoal todo, já estava terminando o jogo, foi um gol, um dos gols mais importantes! Inclusive, o Ademir da Guia, perguntaram a ele qual seria o gol mais bonito que ele tinha visto na vida, eu vi isso numa reportagem com ele, ele falou: “Foi o gol que o mineiro Dário fez contra o Botafogo”, então ele também achou. Eu achei muito importante!

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