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História

Mudança de direção ao ponto certo

História de: Neusa Imaculada de Faria Pereira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/08/2017

Sinopse

Para Neusa Imaculada de Faria Pereira, o caminhão e o bordado sempre estiveram presentes em sua vida. Sobre o caminhão, Neusa se lembra de quando o pai, caminhoneiro, voltava das grandes viagens com um brinquedo novo ou frutas ou novidades da região e também dos passeios de caminhão nas lagoas, próximo a Abaeté, cidade em que cresceu. Neusa aprendeu a dirigir o caminhão com o pai e, quando podia, o acompanhava nas viagens. Já casada, Neusa pegava o caminhão, aos poucos, para ajudar o marido e, finalmente, quando a família se mudou para Paracatu, ela tirou a carteira e passou a fazer viagens com o caminhão carregado, o que era surpresa para muitos homens que a viam na rodovia BR040. Ao lado do caminhão, o bordado, ofício que aprendeu com uma prima, aos 8 anos de idade, com um pedaço de arame e barbante do novelo feito a partir dos sacos de arroz. Com o tempo, foi treinando, treinando... Quando, já em Paracatu, ela e o marido já tinham montado um depósito de material de construções, para não ficar sem fazer nada, voltou a praticar alguns pontos, as pessoas começaram a se interessar e, a partir daí, Neusa começou a dar aulas de bordado. Isso já faz mais de 20 anos!

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História completa

A primeira vez que eu pus a mão em um volante foi em um [caminhão] FeNeMê, daqueles grandões. O meu pai me levou lá para um lugar que eles falavam campo de aviação em Abaeté [GO], era onde todo mundo treinava, aí ele me pôs pra dirigir esse FeNeMê. Fomos algumas vezes lá, eu fui treinando nele lá, depois que meu pai casou, ele parou de me ensinar. Aí, eu parei também de aprender. [Já casada] Quando eu morava na carvoeira, eu pegava carro pequeno, caminhão de puxar lenha daqui pra ali, só, muito pouco. Depois que eu mudei pra Abaeté mesmo, de vez que eu aprendi a dirigir mesmo, da carvoeira, aí eu passei a dirigir um caminhãozinho que o meu marido tinha, era um [Mercedes-Benz] 608. Comecei a aprender nele e, depois que eu aprendi, ele comprou um caminhão só para ele que eu passei a pegar mais no caminhão grande. Aí, puxava carvão daqui, de Cristalina [GO] para Sete Lagoas [MG]. Eu mudei para Paracatu [MG], porque ficava mais fácil pra mim. Aí, eu tirei carteira pra caminhão, comecei a viajar com ele. A gente ia carregado de carvão e voltava carregado de tijolo. Teve época que eu ficava um mês dentro do caminhão com ele e os meninos. Na época das férias, a gente ficava o mês inteiro aproveitando. Meu pai também puxava carvão daqui, iam os dois caminhões juntos. Chegava em Sete Lagoas, descarregava e a empresa de carvão dava o vale-alimentação. E com esse vale-refeição, tinha um restaurante onde a gente almoçava, o que a gente fazia? Pegava o vale do meu marido e o do meu pai, sentava todo mundo e almoçava, dava pra todo mundo almoçar! E aí, ficou desse jeito. Às vezes, trazia tijolo pra Paracatu e, muitas vezes, eu dirigindo. Eu vinha dirigindo de lá, carregado de tijolo. Na subida, sobe devagar. Uma vez, passou um ônibus cheio de homem, de pescador, mas não ficou um sem pôr a cabeça pra fora. Naquela época, era novidade mulher dirigindo caminhão ainda mais aqui na [rodovia BR]040.

Na época, Paracatu era tranquila, eu andava de caminhão dentro da cidade, por todo lado. Eu lembro que eu ia na farmácia lá embaixo, no centro, na Rua Goiás, tomava uma injeção que eu tinha que tomar toda semana, eu ia de caminhão, chegava lá, parava o caminhão de boa, lá, tomava a injeção, eles já sabiam: “A mulher caminhoneira”.

Eu achava melhor dirigir o caminhão do que um carro pequeno, porque eu baixinha, no caminhão, a visibilidade era outra; no carro pequeno, a visibilidade não era a mesma do caminhão. Aquilo eu achava o máximo, que eu sou pequenininha. Aí, eu lembro que uma vez, nós paramos num posto tico-tico, há muitos anos, tava vindo de Sete Lagoas, carregado de tijolo, parei lá. Na hora que eu desci do caminhão, o pessoal, até amigo do meu marido, falou: “Tá doido, sô, a hora que chegou, achei que era um mulherão; a hora que desceu, uma mulherzinha, pequenininha” (risos). Então, para o caminhão, eu era bem pequena, né?

A minha vida artesanal começou lá na infância. A minha prima, a gente chamava ela de Lita, fazia crochê e eu, ali, com uns 8, 9 anos, vi aquilo e apaixonei, né? Aí, eu falei que eu queria fazer, minha mãe não quis comprar agulha pra mim. A Lita falou assim: “Pode deixar”, foi lá no quintal, pegou um pedaço de arame, entortou a pontinha do arame e pegou aqueles novelos de barbante que a minha mãe tirava dos sacos de açúcar e novelava, fazia novelos, falou: “Você vai aprender com isso aqui”, e os primeiros pontos de crochê eu fiz com pedaço de arame e um barbante. E eu comecei a fazer aí. Fui fazendo aos pouquinhos, também, né? Depois na adolescência, eu comecei a aprender o tricô, aí, a minha mãe morreu, eu tive que estudar, trabalhar e não deu tempo de fazer muita coisa. Aí depois de casada que eu fui aprofundando no tricô, fui aprendendo sozinha, olhando em revista e fazendo tricô, fazendo crochê, ponto cruz.

Aí, a gente tinha o depósito de material de construção e eu ficava lá para atender e pra não ficar parada, eu comecei a fazer sapatinho de bebê de tricô. E fui pondo lá na mesa do escritório, passava uma pessoa, comprava, passava outra, encomendava e aí, as pessoas foram vendo aquilo e gostando. Aí, eu falei: “Você sabe que eu vou abrir um armarinho aqui, junto com o depósito para aproveitar o espaço”, e aí, isso que eu fiz, abri o armarinho, vendendo linhas, lã. Eu fui em Belo Horizonte, fiz as compras e comecei por aí e coloquei material escolar: caderno, lápis e tudo. Só que eu vi que aquilo eu não gostava muito, foi uma vez só, cortei e investi mais em linhas e tecido, que era o que eu gostava. E aí, comecei a fazer os bordados. E as pessoas começaram a gostar demais dos bordados e foi com o vagonite que eu comecei, o vagonite eu não conhecia, vim conhecer aqui em Paracatu. (...) Bordei vários, pus na vitrine, o pessoal: “Dá curso, dá curso”, aí eu falei: “Nossa, sabe, eu vou dar curso”, comecei a dar o curso lá em casa, final de 93, aí eu comecei a dar os cursos lá e cobrando das alunas.

O meu filho do meio, o Tiago, tinha 11, 12, ele falou: “A senhora quer ver que eu faço essa amostra toda sem a senhora me ensinar?”. “Olha, Tiago.” “Me dá ela pra senhora ver”, pois ele fez ela sozinho, e ele fez e eu contei isso para a menina da Corrente [fábrica de linhas], ela começou a encomendar pra ele amostras de vagonite, ele fazia as amostras num pedacinho de tecido e ela comprava dele para passar para as outras professoras, porque era de um catálogo muito antigo. Até ele entrou no ramo do bordado, na época, com 12 anos (risos). E aí foi, assim, desenvolvendo essa parte do vagonite aqui em Paracatu.

Como eu gosto muito de história, gosto muito de coisas, de tudo assim, que preserva as raízes da história, eu quero preservar o bordado também. E é necessário, porque o bordado vem lá dos tempos que narra na Bíblia, lá fala que as roupas de Abrahão seriam bordadas com fios de ouro. O bordado é mencionado na Bíblia, então, é um bordado milenar e é uma cultura que tem em todos os lugares do Brasil e até fora existe essa cultura do bordado, é um trabalho que a gente nunca deve deixar morrer. Eu me sinto um pouco até responsável por manter isso enquanto eu der conta. Eu quero manter essa cultura do bordado.

É gratificante, prazeroso, significa que eu tô ajudando a conservar uma tradição, significa caridade, paz, saúde. Eu acho que ser artesã tem muito significado, muitos. Assim, ele traz uma tranquilidade tão grande, a parte artesanal, você trabalhar ali com as mãos, você estar ali vendo que as suas mãos são capazes de fazer coisas maravilhosas para que os olhos possam ver é muito bom.

O que eu mais gosto depois é a combinação de cores, eu amo pegar todas aquelas coisas e pôr ali em cima daquele tecido e ver qual cor que vai dar certo naquela flor ou naquela outra, que cor que eu vou usar aqui, o que eu vou repetir, qual ponto que eu vou usar, aquilo pra mim é um prazer imenso, pegar aquele tecido branquinho e pegar as cores e transformar ele numa peça colorida, alegre, boa de se ver ali.

O bordado tá sempre presente em tudo, a minha casa é toda bordada, sempre eu bordo. Agora mesmo, na minha vida particular, eu comprei um fusca, vou reformar ele todo, vou pintar ele com a cor que eu gosto e vou personalizar ele todinho por dentro com crochê e bordado também. O meu neto já falou, o Davi, que não vai andar no fusca de jeito nenhum! Aí, eu falei: “Gente, mas a hora que eu apontar lá na rua, todo mundo vai falar: ‘Olha a mulher do bordado’!”.

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