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Os dois Brasis

História de: Davi Brasil (Davi Luiz Ribeiro)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/08/2017

Sinopse

Com uma voz imponente, Davi Luiz Ribeiro narra sua trajetória, desde as brincadeiras de infância com bonecos que inventava com os irmãos até os dias atuais em que trabalha no projeto Rádio Feira. Davi aprendeu a marcenaria quando se mudou de Unaí, sua cidade natal, para Paracatu. Sua paixão foi o torno, máquina que ele, com sua técnica adquirida pela necessidade e boa vontade, implementou com elementos mecânicos. Sua inventividade também está em sua outra faceta de trabalho: a comunicação. Convidado para participar de uma eleição, sabendo que teria que enfrentar o público em palanques com o microfone, fez um curso de rádio em Belo Horizonte. Não foi eleito mas passou a utilizar a voz como um trabalho também. De outro convite, para divulgar produtos na feira, acabou voltando com um projeto instituído e há mais de 10 anos, Davi Brasil, como é conhecido na cidade, entretém o público aos sábados pela manhã, com o seu: Bom dia, Brasil!, com músicas, divulgação de produtos – da feira e do comércio local – e eventos na cidade.

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História completa

Um fato que nunca saiu da minha mente, como era aquele tanto de menino [14 irmãos] e, o velho [o pai], a condição dele não era de trazer todo mundo na ordem, na íntegra, então, pra facilitar nas roupas, como era minha mãe que fazia, ele ia na cidade, na loja, os armazéns antigamente, comprava o fardo fechado, pra adiantar o lado dela, em vez de fazer tudo caracterizado, a camisinha com o shortezinho, ela abreviava. Até uns 3 anos de idade, a gente usava uns jalecozinhos, tipo um vestidinho, pra gente ficar à vontade. Aí, quando eu estava nessa idade, uns 3 anos, eu já tinha vergonha de usar essa encrenca do jalequinho, né? Tinha uma vizinha lá que me paparicava e me bajulava, levava pra casa dela. Isso no dia que ela chegava lá e eu estava de shortezinho, estava bem composto. Mas no dia que eu estava com jalequinho, que eu via que ela estava lá na estrada, eu corria pro quarto e trancava. Aí ela chegava: “Cadê Davi?”. “Está trancado no quarto.” “Ah, mas por quê?” “Está com vergonha da senhora.”. Aí ela fazia mil propostas pra eu abrir a porta, mas quem disse que eu abria? Abria não! Não esqueço disso.

Eu entendo que a vida da gente é uma sequência de fases. Tem a fase da sua geração: tem a fase do seu nascimento, tem a fase do seu crescimento, tem a fase do seu amadurecimento, eu penso assim e creio. A exemplo da calvície, nunca me preocupou porque, quando eu tinha cabelo, eu tinha um cabelo que até os homens admiravam. Hoje já estou carequinha, já estou barrigudinho, mas já tive um corpinho de manequim que deixava as molequinhas com o olho aceso, né? Então eu entendo que tudo isso são as fases.

Em 1993, eu registrei minha empresa, Davi Luiz Ribeiro M.E.[microempresa], eu sempre tive essa paixão nacional com o Brasil, então, achei por bem Brasil Móveis que é o nome fantasia da minha empresa.

Tem coisas que eu faço, as pessoas perguntam qual é o segredo pra conseguir fazer. Eu falo: “A necessidade faz a capacidade, e a boa vontade também faz a capacidade”. Porque não adianta você ter um recurso de última geração na mão, se você não tem boa vontade de querer fazer a coisa acontecer. É o mesmo que você usar uma máquina já desatualizada, sem muito recurso, mas se você tem boa vontade você faz ela acontecer.

Eu fui especializado na boa vontade e na prática, não tenho nenhuma especialização teórica, é especialização na prática. Agora, passando pra parte Davi Brasil locutor, desde moleque sempre as pessoas observavam meu jeito de falar, minha voz e tal: “Ah, você tem que fazer rádio, tem que fazer televisão”, e não sei o quê, mas não me despertava essa curiosidade. Cantar sim, sempre gostei de cantar, sempre me chamou a atenção.

Eu fui convidado pra ir lá na feira pra cantar, pra chamar atenção, até promoção, que o pessoal que desenvolve uma oficina pedagógica com pessoas que têm deficiência física, oficina pedagógica próximo à rodoviária. Eles já tinham muito produto, muita coisa confeccionada e queriam vender esses produtos pra arrumar dinheiro pro caixa. Aí ligou se eu ia lá, a título de contribuição, pra cantar pra chamar a atenção do público e divulgar e vender esse material. Eu não pensei duas vezes e convidei mais dois colegas, levamos uma caixinha lá, ligou uns dois violões no gramado lá e fizemos um modão, realmente chamou a atenção, sabe? No final da brincadeira os feirantes, uns vieram verbalmente parabenizar, agradecer e convidar pra voltar, outros escreveram bilhetinhos, também parabenizando, agradecendo e colocando pra voltar. Achei interessante, só que em vez de voltar na informalidade, passei pro papel, fiz um projeto, aí corri atrás de documentar. Quando eu retornei, já voltei com tudo esquematizado. E graças a Deus a brincadeira deu certo, a brincadeira agora, no dia 26 de novembro próximo [2017], faz 13 anos

O ponto de atração pro pessoal ver o produto era realmente a música. Quer dizer, quem gosta quer despertar, quer aproximar pra ver o que está acontecendo. Então realmente o ponto x foi a música pra pessoa chegar até o produto, vir até a gente pra chegar até o produto. E realmente foi uma ideia muito positiva, o resultado realmente positivo. As pessoas prestigiaram, e prestigiaram os dois lados, né? O lado musical e o lado do pessoal da oficina pedagógica que realmente expôs e vendeu o produto. Ficou muito interessante, muito bacana.

A feira livre acontece ali atrás da prefeitura, na Rua Romualdo Ulhôa Tomba, a partir das 4 horas, 4 e pouquinho. Pra quando chegar na feira e comer um pão de queijo saindo fumaça já tem, um pastel frito na hora também, frito ou fritado, você decide (risos)! Também tem caldo de cana fresquinho, passado na hora, sucos naturais, já tem esse movimento lá na feira e os produtos expostos já. E essa movimentação vai até meio-dia, 1 hora.

Eu tenho um palco coberto com a tenda, aí pra ganhar tempo na sexta-feira à tardezinha e à noitezinha eu vou e monto a estrutura, monto o palco e a tenda, aí já dorme montado. No outro dia, no sabadão, eu levanto 4h30, 5h eu estou saindo de casa, 5 e pouquinho eu estou chegando lá. O palco já está montado e eu vou instalar o som, eu trabalho com duas caixas no palco e de 15 em 15 metros a sonorização em linha, num raio de 600 metros, aí eu falo, a feira toda me ouve ao vivo. Aí termino de instalar o som e vou passar nas bancas pra ver quem vai divulgar e quem não vai porque tem alguns que desde que eu comecei nunca falhou, outros intercalam sábado sim, sábado não, e outros nunca fizeram e nem interesse tem. Também eu agradeço, obrigado, mas cordialmente passo na banca de todo mundo, brinco: “Bom dia!”. São dois lados, ida e vinda. Eu vou de um lado, fecho lá, volto, aí a hora que eu fecho o círculo, 7h, 7 e pouquinho, eu já começo a falar. Eu subo no palco e dou um: “Bom dia, Brasil” lá, um beijo no coração da galera, e a jiripoca pia. Eu falo das 7 horas até às 11 horas. Divulgo, falo uma banca, falo uma empresa, vou intercalando, passa uma pessoa lá, eu brinco, brinco com a criançada.

Pra começar, a gente faz a abertura dando um: “Bom dia, Brasil” pra galera lá, eu rodo uma música de abertura, (...) oferecendo pra quem está me ouvindo. Em seguida à música vem uma oração muito bonita. E aí, finalizou a oração, eu agradeço, cumprimento os clientes e amigos, desejo um bom dia lá pros colegas de trabalho e começo. Falo dos patrocinadores e começo as bancas: “Banca de Fulano de Tal, onde você vai saborear um delicioso caldo de cana fresquinho, passado na hora e aquele salgado, ó, que dá água na boca”. Aí começo a falar.

Essa caracterização de sertanejo, como eu fui criado no meio do mato, lá era bem mato mesmo, então isso já vem de berço, estar de chapéu, de bota, cinto cowboy, cinto country. Depois que eu entrei pra comunicação é minha caracterização no palco, usar um chapéu. Até o pessoal dá risada, os que ficam me conhecendo de chapéu, né, a primeira vista quando me vê sem o chapéu, tem um até que brinca comigo, quando ele me vê sem o chapéu, ele grita comigo: “Quem é você?”, que ele insiste comigo: “A sua identidade é o chapéu, você tem que andar sempre de chapéu”. “Rapaz, mas não é, eu uso chapéu não é pra poder disfarçar a calvície, é porque eu gosto!”

Ficou a marca do Brasil, né? Por que Brasil? (O Brasil é essa paixão nacional que eu sempre tive com o nosso país).

Eu tenho esse carinho pelo nosso Brasil, pelo verde e amarelo, então quando eu registrei minha empresa, nome fantasia é Brasil Móveis, então é minha identidade antes, Davi da Brasil Móveis. Aí quando eu decidi entrar pra política, participar da campanha, na época o presidente da câmara, ele enviava as correspondências e ficava com preguiça de estender, Davi da Brasil Móveis, abreviava, Davi Brasil. E quando foi pra fazer o santinho ele nem me consultou, ele foi lá e mandou fazer o santinho Davi Brasil. Aí pegou, Davi Brasil. Até não foi legal pra mim na época porque eu fiquei sem identidade, porque antes era Davi da Brasil Móveis, de repente Davi Brasil, só as pessoas que viam que entendiam, outros não. Depois eu fui muito cobrado por isso. Mas pegou, ficou uma marca, agora já é uma marca registrada, né, Davi Brasil. Aí pegou o Brasil, agora se eu tirar aí que perde a identidade, né então é isso aí.

Entre a comunicação e a marcenaria também eu sou muito realizado. Tanto que é até polêmico, as pessoas que me admiram na marcenaria acham que eu devia largar o microfone pro lado. Os que me admiram no microfone: “Não, larga a marcenaria pro lado, vai pro rádio, vai pra televisão”.

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