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História

Herança da avó

História de: Maria Natalícia Mota
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/08/2017

Sinopse

Desde pequena, acompanhando as receitas da avó nas panelinhas, Maria Natalícia aprendeu a cozinhar, e bem. Cresceu na fazenda e traça um pouco de como era o movimento nas terras do avô em Patos de Minas. Ainda nessa cidade, fez o curso de História na faculdade, mas, em seguida, rumou para Paracatu com o marido que estava prestes a assumir a segunda farmácia da cidade. Chegando na cidade, Natalícia trabalhou como auxiliar de saúde, seguiu com as atividades na farmácia até que sua irmã abriu um restaurante em Patos e a incentivou a abrir o dela. Natalícia conta um pouco da culinária da cidade e quais foram os passos para abrir o restaurante e para reformar o casarão histórico no qual ele se encontra atualmente, no centro de Paracatu.

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História completa

É o meu laboro satisfazer a necessidade de alimentos das pessoas, é a minha missão!

Na casa da minha infância, que eu vivi até casar, porque, na realidade, mesmo eu tendo ido para a cidade, para estudar, nas férias, finais de semana, eu passava nessa casa. Eu me lembro desse lugar com uma casa enorme, com muita gente trabalhando, o meu avô era um agricultor de grande porte, e ele mantinha essa casa bem movimentada, tinha dois vaqueiros, tinha duas, três casas nessa fazenda, que naquela época chamava meeiros as pessoas moravam dentro das fazendas e tocavam uma roça de milho, de feijão, colhiam e dividiam com o patrão. E, sim, fui criada com muita fartura, com minha vó fazendo colchas de algodão, tecendo no tear, fiando, cardando, cortando lã de carneiro, matava porco, matava frango, fazia doce, fazia pamonha, então assim, eu sou de fazenda mesmo, eu fui criada em um meio em que a vida era bem movimentada.

Com uns 8, 9 anos de idade, minha vó achou bom ensinar a gente, então, ela me deixava, eu e as minhas irmãs, fazer comidinha. Eu tinha o joguinho, a chapinha com as panelas, e a minha vó proporcionava pra gente esse aprendizado e eu passei a gostar de cozinha, a curtir isso que eu faço hoje com a minha avó. A herança é da minha avó. Inclusive, eu comento que ela é uma presença viva na minha vida. Viva aqui dentro, sabe? Ela é uma força espiritual que eu tenho constantemente, porque ela era muito boa na cozinha, ela gostava muito, fazia tudo com muito carinho, era muito caprichosa e dava a gente liberdade de aprender.

Açafrão, cheiro de açafrão, não tem nada que me faz lembrar dela do que refogar um frango caipira com açafrão. Outra coisa que me faz lembrar dela é fazer pão de queijo, que eu aprendi com ela que era a rainha do pão de queijo: fazia pão de queijo naqueles fornos de barro grandes, de fazenda, e o pão de queijo era assim, do tamanho de uma roda de bolo, não tinha uma explicação. Ou quando eu faço um doce de figo também eu me lembro muito dela, porque ela que me ensinou: colocar o figo no tacho de cobre, cobrir com pano, ferventar, deixar pro outro dia, não deixar que o pano saia do lugar porque senão o vento amarela o figo. Isso aí eu aprendi com ela, ela que me deu as orientações.

Desde o primeiro dia que eu cheguei em Paracatu, eu fui bem recebida e gosto muito de Paracatu, me identifico hoje muito mais com Paracatu do que com a minha cidade natal, sabe?

E Paracatu não tinha muitos restaurantes. Hoje não, hoje, em Paracatu, tá é sobrando restaurante, mas naquela época, não tinha, há dez anos. (...) Todo mundo que me conhecia assim, que sabia dos meu dom, do meu gosto por cozinha, me estimulava,

Minha irmã abriu lá em Patos um restaurante, em janeiro de 2007, e o restaurante dela foi uma coisa estrondosa, ele pegou de uma vez. E como aqui não tinha restaurantes, ela ficava me incentivando: “Abre, abre um restaurante em Paracatu, eu tenho até o nome do seu restaurante”, porque o dela lá chamava Alecrim. Aí ela: “Abre, abre, você vai ver, é muito bom, é uma coisa gostosa e vai chamar Flor de Alecrim”. Inicialmente, o meu restaurante era até uma sociedade, depois, a gente desfez a sociedade. Uma amiga minha chamada Ivani, ela já faleceu, e a gente montou esse restaurante aqui do lado da farmácia, e a cozinha era minúscula e em um ano, o restaurante não tinha espaço para atender a demanda, de forma nenhuma, ele não cabia, não cabia nada e, nisso, o seu Zotti que era o dono desse Casarão, faleceu e a família não quis manter o Casarão, eles preferiram vender e aí, nós compramos, adquirimos essa casa.

O cliente fica satisfeito quando ele chega num ambiente harmonizado, que eu acho que é uma das coisas que mantém o cliente é harmonia, é chegar aqui e o forno não estar sujo, é olhar para o chão e ver que tá limpinho, brilhando, que foi limpo, que foi lavado, olhar que as mesas estão alinhadas, ver que a comida tem aparência, ele ser bem atendido pela garçonete, por quem tá no caixa, por quem tá na balança, pelo churrasqueiro, pelas meninas que circulam na fornalha o tempo todo. As funcionárias circulam consertando a comida, porque uma coisa que eu falo pra elas sempre: o primeiro cliente vê a comida bonita toda maravilhosa, agora, o último vai ver uma comida pouca na fornalha, porque já comeram, mas aquela comida tem que ter a mesma aparência do cliente que chegou primeiro. O cliente não pode chegar lá e o feijão estar virado, a panela suja, a fornalha suja, o chão sujo. Nisso aí eu sou muito exigente com os meus funcionários, eu exijo muito, muito. O atendimento ao cliente, a atenção ao cliente pra mim é prioridade. É o que eu falo para os meus funcionários todo dia, o mantenedor disso aqui é o cliente.

Eu tenho uma senhorinha que ela come aqui todo dia, e ela odeia que entre alguém antes dela, Dona Antônia. Ela não gosta que entre ninguém antes dela, ela tem que ser a primeira. Aí, quando você abre as três portas de lá e não abriu a de cá, você fica enxergando a carinha lá dela, pra você mandar ela entrar. Dona Antônia, cliente VIP.

O dia que eu fiquei mais feliz foi o dia que chegou um casal e disse pra mim assim: “Nós saímos de férias de Brasília, estamos indo para o Rio [de Janeiro] e, na saída, nós compramos o Guia Quatro Rodas e, quando nós nos aproximamos de Paracatu, no horário de almoço, eu disse pra minha mulher: ‘Abra o guia aí, vamos ver um restaurante’. E só tinha o seu indicado pelo guia”, sabe. Aí eu falei: “O quê? Eu, no guia?”. “É, a senhora não viu?” “Não, não vi.” Até porque eu não tinha hábito, né, não tenho hábito de pegar guia. Aí ele falou: “A senhora tá indicada no Guia Quatro Rodas”, e foi lá no carro e buscou o guia. Era o mais novo que tinha. Foi o momento de maior felicidade que eu já tive dentro do restaurante, porque eu pensava que o guia era por indicação ou que era pago, né, alguém pagava pra você estar em destaque lá dentro. Como eu tinha certeza que eu nunca tinha feito nada pra estar lá, nunca paguei pra ninguém, nunca procurei ninguém, nunca fui procurada por ninguém, aquilo foi muito gratificante, muito, muito mesmo! Fiquei feliz demais, tanto é que eu mantenho ali ao lado do caixa a indicação lá do Guia Quatro Rodas.

E receber os clientes todos os dias e ver que os clientes saem satisfeitos, isso é uma coisa que dinheiro nenhum paga, sabe? Hoje mesmo, assim, uns quatro que passaram aqui, que não são daqui, passaram pra almoçar, passaram por mim no caixa e: “Dá parabéns para as meninas da cozinha, pra turma da cozinha, a comida é maravilhosa, o ambiente é lindo…”, e não sei o quê, entendeu? Sabe assim? E isso enche a gente de vaidade, né? 

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