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História

Brincando com ritmos e palavras

História de: Pogó (Rafael Henrique Ferreira Rodrigues)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/08/2017

Sinopse

Rafael Henrique Ferreira Rodrigues desde pequeno envolvido com a dança, recebeu o apelido de Pogó, cuja origem foi nas reuniões de família que, sempre, acabavam com um pagode. Pogó cresceu em Várzea da Palma, cidade onde nasceu e conheceu os movimentos e os ritmos do hip-hop. Aprendeu a dança copiando os amigos e os clipes que assistia na televisão e chegou a fazer uma apresentação de dança na Semana Cultural de sua cidade. Ao entrar na faculdade, mudou-se para Paracatu, onde estudou, se formou e começou a dar aulas, primeiro, na Fundação Conscienciarte, e, depois, na própria faculdade. Além das aulas, Pogó está envolvido no movimento cultural do hip-hop, em Paracatu por meio das Batalhas do Ouro, onde MCs disputam com rimas o prestígio do público e aprendem uma forma de se comunicar.

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História completa

Meu nome é Rafael Henrique Ferreira Rodrigues, eu nasci numa cidadezinha chamada Várzea da Palma. A minha família é muito grande, a minha avó teve 16 filhos e todo mundo sempre foi muito ligado com samba, pagode, essas coisas. Inclusive as festas da minha família, no final da confraternização, têm sempre uma roda de pagode, de samba. Desde pequeno, eu já fui muito ligado à música. Quando tocavam essas rodas de pagode, eu, muito pequeno, ficava dançando no meio da roda, brincando. Aí alguns tios meus começaram a me chamar de Pagodinho por causa do pagode. Só que aí eu fui crescendo e foi diminuindo esse Pagodinho. Foi pra Pagode, aí depois uns primos me zoando me chamaram de Pagodó. Aí, uma hora, meu irmão falou Pogó, e esse Pogó pegou, sabe?

Meu pai é contador e minha mãe é professora de História. Desde pequeno, eu tive muito desse conteúdo das coisas, de vida, então minha mãe sempre conversou muito comigo, meu pai a mesma coisa. É legal ter uma pessoa de exatas e uma de humanas na sua família ao mesmo tempo, eu me sinto muito sortudo por isso. Você acaba vendo os dois lados da coisa durante seu crescimento.

Quando eu tinha de 13 pra 14 anos, eu comecei a dançar break dance (...) e, na escola, na hora do recreio sempre ficava uma musiquinha tocando, aí tinha uns meninos que dançavam já. Vendo eles dançarem, eu fiquei admirado, gostava, e quis aprender. Quando eu aprendi, virei um dos melhores dançarinos da escola. Aí eu comecei a fazer uma amizade com essa galera, todo mundo que dançava. Eu não tinha muita ligação com o rap no geral, mas com um dos elementos do hip hop, que era a dança, o bboy. Fiz break dance durante boa parte da minha vida, ganhei vários torneios de escola. Eu gostava mesmo, só que depois que veio o mundo real, que você tem que fazer faculdade, estudar, aí eu parei de mexer com essas coisas. Mas sempre, quando tem uma festa, alguma apresentação, o pessoal me chama às vezes pra fazer alguma coisa.

Na cidade tem uma festa cultural que chama Forró da Palma, e essa festa é muito boa, vão várias cidades da região pra lá, porque é tudo de graça e só dá show bom. E o sonho de todo mundo que fazia apresentação no decorrer do ano na cidade era apresentar lá. E eu sempre gostei de público, eu era muito hiperativo, aparecido como diz, quando eu era mais novo. Quando eu vim pra faculdade, no meu primeiro ano, eu voltei pra minha cidade nas férias, e nessas férias eu combinei com dois amigos meus: “Gente, vamos apresentar lá?” “Vamos” A gente se juntou e fez uma coreografia superlegal. No dia, deu supercerto, a gente apresentou no palco da cidade, meus familiares estavam lá, as pessoas de outra cidade... Acho que foi o maior palco que eu me apresentei na minha vida! Foi uma parte marcante da minha vida. Acho que foi até nesse ponto que eu vi que eu realmente gostava disso: de me apresentar, de conversar, essas coisas. Isso que me influenciou a dar aulas também. Eu gosto de conversar com as pessoas, de mostrar, apresentar. Você olhar assim: “Pô, estou no palco que um dia eu me imaginei fazendo alguma coisa e hoje eu estou fazendo essa coisa!”, isso é interessante.

Quando eu trabalhava num projeto cultural, que é [a Fundação] Conscienciarte aqui em Paracatu, eu dava aula de Informática, Filosofia e de Hip Hop, eu dava aula de dança e tal. Era bem bacana.

A Conscienciarte é uma das melhores empresas, tanto pra você trabalhar quanto pra você aprender culturalmente e socialmente, sabe? Porque era outra realidade, os alunos da Conscienciarte são realmente alunos carentes, é menino que mora do lado de boca de fumo, onde o tráfico é intenso, onde eles não têm tantas oportunidades. E quando eles entram em um lugar onde eles têm vários cursos de várias coisas, que eles veem que a vida não é só aquele caminho com muitas pessoas do bairro dele seguiam, sabe, nossa. Conscienciarte é foda, é um lugar muito, admiro demais.

Daí, eu comecei a conhecer esse lado mais gostoso de Paracatu. Aqui exala cultura, você chega perto do museu tem imagem que você só vê nos seus livros de História, aí você entra no lugar e tem tudo certinho, igual as fotos que estavam no livro. Você encontra pessoas que contam coisas muito importantes da história do Brasil, desde a época da escravidão, a dos tropeiros, a da mineradora também. Aqui você acha cultura muito fácil, isso é uma coisa que eu gostei muito da cidade, acho que foi o ponto maior que eu gostei da cidade, na verdade. Às vezes, quando não tinha nada pra fazer durante o meu estudo, eu passava no museu, passava na Casa de Cultura, sabe? Ia trocando ideia com essas pessoas que tinham essa parte mais cultural da cidade.

Uma coisa que eu sempre gostei de fazer foi fazer paródias. Eu pegava a letra de algumas músicas, alterava e colocava as rimas no meio. E foi daí que começou a me influenciar essas rimas, entendeu? A querer brincar com palavras em música.

Quando a gente chegou aqui foi a primeira roda que teve, que deu MCs suficiente pra gente fazer um campeonatinho, um torneiozinho pequeno. Aí todo mundo rimou, foi legal! Foi a primeira vez que eu rimei aqui, inclusive. A partir desse momento, eu já falei pros meninos: “Tem potencial, o lugar é bom, vamos juntar todo mundo, vamos fazer isso acontecer”. E eles já tinham essa ideia de chamar Batalha do Ouro por causa dos recursos da cidade, o que mais sustenta a cidade. O pessoal começou a chegar, só está crescendo a roda. A nossa meta é deixar realmente como um ponto cultural da cidade. Não existia Roda Cultural, existia um grupo de amigos que rimava na pista de skate que era fechada, nada era aberto. Na pista, por ser fechada, a gente ficava no canto, todo mundo. Alguém trazia uma caixinha de som, e a gente ficava rimando, brincando, né? Tinha uma galera que vinha pra cá, pra ficar assistindo ou pra descansar. A gente fala de vivências, a gente fala de igualdade, sabe, conscientização, respeito aos pais, tudo o que é cultura da cidade a gente fala.

A gente trabalha justamente esse fator de mostrar que a raiz nossa é de pessoas que precisam de visibilidade, pessoas que precisam mostrar que elas estão ali, e o rap é um meio de mensagem, ele é um transporte pra mostrar às pessoas que essas minorias existem. A galera que vem pra cá, além de curtir (...), eles têm que sair daqui com uma mensagem. Não é só ver que a gente rima. É ver que respeitar a identidade de gênero da pessoa é importante, respeitar a cor da outra pessoa é importante, respeitar o trabalho do outro é importante. A família do outro é importante.

[Uma rima de Pogó] “Vamos lá pessoal, estudar a nossa história, porque assim vamos guardar nossas memórias. Porque aqui nossas partes de vida são nosso tesouro, mantemos assim, junto, o nosso ouro. Porque aqui viemos mostrar pra tu, toda essa história linda de Paracatu. Essa galera que vem de outra cidade, e aqui faz uma ação, vem explicar pra todo o Brasil nossa tradição. Porque aqui é engraçado, nesse improvisado, a gente vai mostrar pra vocês, esse incrível trabalho. Eu agradeço muito a visita de vocês e espero encontrar vocês mais vezes.”

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