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Quem foi que disse?

História de: Gustavo Oliveira da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/08/2017

Sinopse

Gustavo Oliveira da Silva sempre quis brincar com coisas que as outras crianças não tinham. Dispensando os carrinhos e indo para a terra. Sozinho, criava personagens e fazia apresentações. Quando desistiu da natação, resolveu experimentar o teatro, na oficina da Casa de Cultura e, a partir dali, não parou mais de atuar. Desde que levanta treina os movimentos para se aprimorar cada vez mais. Das suas apresentações, Gustavo conta como foi interpretar a peça Beijo no asfalto, primeira apresentação grande. Além dela, ele conta também da peça Mulhercatu que valoriza e dá visibilidade às mulheres da cidade. Com o grupo de teatro, Gustavo já foi para festivais e também já fez apresentações em bairros periféricos. Por adorar o frio na barriga que mobiliza a melhora de sua atuação e também a relação com o público, seu sonho é seguir estudando. O próximo passo: ingressar numa faculdade federal para cursar Artes Cênicas.

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História completa

Meu nome é Gustavo Oliveira da Silva, tenho 17 anos, moro em Paracatu, Minas Gerais, no bairro Paracatuzinho, o maior bairro da Paracatu.

Eu continuo morando na mesma casa porque quando eu nasci, a gente decidiu mudar para essa casa. Ela tem um pé de acerola na porta, tem uma entrada de um portãozinho para entrar, que o meu pai fez, tem uma área bem grande, tem uma sala, tem um corredor imenso, grande, meu quarto logo vem do lado, depois o banheiro e os outros dois quartos, a cozinha e depois o fundo, o quarto do fundo e a área de lavanderia. Meu quarto é pequeno porque eu não convivo muito nele porque passo muito tempo fazendo oficina de teatro, mas tem uma cama, guarda-roupa, uma escrivaninha do lado, uma tomada e uma luzinha assim, que aperta.

Eu tinha muito carrinho, mesmo, só que pra mim, carrinho era normal, todo mundo tinha carrinho. Eu queria inventar uma coisa nova, então pegava uns pedaços de madeira, ou toco, empurrava… Brincava de carrinho com pedra, não queria os bonecos normais como ele é sempre, eu queria uma coisa diferente e nova que as outras pessoas não tivessem, era sempre na terra mesmo, esses brinquedos, toco ou pedaço de coisa que eu pegava para brincar que servia para qualquer coisa.

Quando eu fui ficando mais velho, eu lembro que eu ficava na casa da minha avó e só brincava dentro de casa, eu queria sair pra fora e não podia. Mas era bem legal, era muita comida, porque casa de vó, normalmente, tem muita comida, muito doce... Bolo de domingo, eu lembro que tinha bastante, doce de abóbora e rapadura, melado. O bolo de domingo, a minha família toda gostava. Ele era feito num potinho, ela [a avó] fazia mais quando tinha visita, pegava pote de extrato de tomate, cortava ele bem baixinho, agora eu não me lembro como que é a massa, mas botava no forno e ele crescia bem grandinho, assim, ficava pequenininho. Parecia cupcake, ele cresce e se eu me recordo, ele era bem gordurento, era muito legal, parece um pouco com bolo de mandioca.

Eu sabia já que tinha teatro na Casa de Cultura e eu sempre gostei de falar, fazia programa em casa, brincava de programa, mas na hora que eu entrei, era totalmente diferente. Aí, decidi vir para a Casa de Cultura ver como que era e eu entrei: “Queria participar do teatro”, só que eu tava com um pouco de vergonha e tinha muita gente. Tava tendo uns jogos embaixo lá e falei assim: “Será que eu vou ou não vou? Pra conversar? Será que eu vou pedir para entrar?”, e foi eu, e a minha amiga: “Vamos, vai!”, botou firme, eu fui e entrei. Aí, quando eu entrei, não larguei mais, estamos aí. Eu entrei na aula e comecei gostando e fui entendendo e estamos aí até hoje.

Hoje eu tô envolvido com a Arte, então, eu quero estar sempre em movimentos culturais, como eu participo do grupo da Casa de Cultura, eu participo já tem quatro anos, o Grupo Cênicas, que é um grupo que leva a cultura para os bairros periféricos, onde a cultura não chega, nem pra crianças e nem para adultos.

O Grupo Cênicas leva a cultura nas escolas, apresentações, peças, oficinas. E eu fui numa escola, Olindina Loureiro, eu não lembro o bairro onde que é, mas lá eu vi que logo que a gente apresentou, o povo queria mais, queria entender mais… Pensaram que a gente era de outra cidade, que eles não tinham o costume de assistir. Foi uma coisa nova, eles queriam amizade da gente. A gente falou: “Somos de Paracatu, mesmo, somos pessoas normais, somos como vocês, só temos profissões diferentes, mas somos normais”, eles abraçaram, cumprimentaram. Eu senti: isso é muito bom, a gente precisa levar isso para outras pessoas que não conhecem, que acabam conhecendo a gente lá no teatro, a gente tem disciplina, a gente tem que ter compromisso, tem que ter horário. Na hora que eu vi que eles estavam gostando, aí o coração da gente enche assim, a gente quer fazer mais perfeito, mais ainda.

[Fazer apresentação] Na rua é melhor, a emoção é totalmente diferente do que se apresentar no palco. Normalmente, na hora que você vai apresentar, em lugar fechado, normalmente, em lugar fechado é sempre pago ou não cabe todo mundo, tem máximo de pessoas. E na rua, pode ir quem quiser, né, passa e a gente vê bêbado, a gente vê cachorro, a gente vê tudo quanto é tipo de gente passando, gente que para. Aí, na hora que vai enchendo, vai dando mais emoção, mais frio na barriga. Na rua é outro nível, parece que a gente tem mais prazer de fazer, não que a gente não tenha o prazer de fazer em lugar fechado, mas na rua é muito mais emoção. Muito mais frio na barriga.

Eu amo sentir esse frio na barriga. O meu frio na barriga é na hora que tá acontecendo, normalmente todo mundo fala: “O meu frio na barriga é antes”, vamos preparar, tá acontecendo o frio na barriga. E o meu é na hora: eu tô pisando o pé na cena, na hora que pisei, aí o meu frio na barriga é isso. “Nossa esse frio na barriga é muito bom de sentir, eu quero estar lá e fazer de novo, eu quero o frio na barriga de novo”, e cada dia quando a gente vai apresentar, esse frio na barriga é diferente, não é sempre o mesmo. É um melhor que o outro. Entendeu? É muito prazer a gente sentir esse frio na barriga.

“Quem foi o idiota que concluiu que o meu cabelo é ruim?”, era a minha primeira frase, com uma lâmpada na mão, iluminando o meu rosto, e nós descendo a escada que tinha na Casa de Cultura e entrando dentro da caixa. Eu relacionei um pouco comigo, né? Essa frase foi muito relacionada comigo. Eu acho que o meu cabelo é o meu poder, é a minha origem, é mostrar quem eu sou. O meu cabelo me representa. Eu quis mostrar isso: que o meu cabelo é bom, que eu tenho muito poder com o meu cabelo, sabe?

O Brasil inteiro tem pessoas negras, né, gente! Tem muito… Eu tenho convicção que a minha cor existe, que a minha cor é bonita, que eu gosto da minha cor, que eu amo a minha cor, e eu não ligo – entra aqui e sai aqui. Eu tô pouco me lixando o que a pessoa tá falando da minha cor e eu chego lá e mostro que eu sou negro, que eu sou preto, que o meu cabelo é crespo, que eu amo o meu cabelo e a minha cor.

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