Busca avançada



Criar

História

Seu Dedé, referência de saúde

História de: Doutor Dedé (Antonio Olar da Silva Campos)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/08/2017

Sinopse

Com 30 dias, Antonio Olar Alvares da Silva Campos, mais conhecido como Dedé, teve malária e quase morreu. Esse fato marcou sua trajetória porque, ao contrário dos oito irmãos que tem o nome começando com a letra “O”, ele teve que ser batizado com nome de santo, já que o bispo foi a sua casa, às pressas. Numa infância com fartura e muitas atividades, na fazenda, seu Dedé cresceu saudável e, aos 13 anos, em março de 1946, ele sabe precisar, começou a trabalhar na Drogaria Santiago. De lá, seu Dedé conta como foi a trajetória de mais de 70 anos de farmácia, tendo, depois de ter trabalhado sempre com farmácias em outras cidades, retornado a Paracatu e à Drogaria Santiago, que passou a ser sua em em 1967.

Tags

História completa

Meu avô era juiz de direito aqui em Paracatu, doutor Martinho Alvares da Silva Campos Neto. Ele foi juiz de direito aqui muitos anos, faleceu aqui. Deve ser o primeiro juiz que teve em Paracatu. Hoje, o fórum tem o nome dele.

Meus pais foram morar na fazenda que foi construída por ele. Papai criou 14 filhos de pessoas, de vaqueiros, do pessoal que morava na fazenda. A fazenda era grande, tinha muito agregado, e os meninos fugiam pra lá porque nós éramos muitos. Lá, mamãe, uma vez por semana, de duas em duas semanas, fazia biscoito. Tinha um caixotão enorme, enchia ele de biscoito. A meninada tinha fartura, comia à vontade. E latas de doce. Papai só comprava sal, arame e querosene, não comprava mais nada, tudo produzia lá, até roupa. Tudo.

Naquela época, a gente gostava mesmo era de estar no curral, andar, ficar no engenho, ficar junto com o pessoal. Andava a cavalo. Lá na fazenda criava muita cabra. Aos 5 anos, a gente já tocava cavalo no engenho, piava vaca pros vaqueiros, andava a cavalo, campeava com os vaqueiros nas distâncias menores, eu gostava de andar a cavalo.

O rio era perto, a gente ia pescar. Naquele tempo, a gente fazia chiqueiro pra pegar peixe. Todo dia de manhã, praticamente, a gente ia lá buscar o peixe, o peixe estava lá no chiqueiro. Chiqueiro é uma armadilha, fazia uma ceva, colocava o milho ali e eles vinham comer e desarmava. A gente não parava, tinha um movimento sempre.

Era o rio Paracatu, um rio com bastante água. Tinha praia, tinha muita mata. Na margem do rio era só mata.

Eu gostava mesmo era de sair com os vaqueiros. Naquele tempo você saía depois do almoço e voltava à noite, saía a cavalo e ficava o dia todo. Levava umas coisas pra comer. O alimento da gente durante o dia era queijo e rapadura.

Lá dava muita malária. Naquele tempo, a gente tinha malária sempre. O dia que tinha a gente já levantava cedo esperando a febre. Dava a febre, duas horas assim tremia, quatro horas levantava, tava bom, fazia de tudo. E quando buscava remédio aqui [na cidade] era a cavalo. Nós tomávamos remédio todos os dias. Tomamos remédio e ninguém ficou doente, ninguém ficou com falta de saúde. De manhã tinha uns pés daquele limão-galego, a gente chupava, parece que tomava muito quinino e dava vontade de chupar limão. E papai veio em Belo Horizonte (MG) e levou um vidrão de uns comprimidos que chamavam Pilocrisan, a gente tomava aquilo todos os dias. Tomava pra não dar anemia. E tomava também sulfato de sódio composto, que era feito aqui na drogaria Santiago, na farmácia, fórmula do doutor Santiago. Tomava com chá de picão, todos os dias pela manhã, a gente tomava, com um pouquinho de sal de Glauber, sulfato de sódio, todos os dias nós tomávamos. E parece que é isso que nós ficamos com saúde, ninguém ficou doente, todo mundo é disposto, meus irmãos são todos dispostos, trabalham...

Às vezes, fazia chá de fedegoso, que é amargo, que é pra malária, a gente tomava. Que era igual quinino, isso nós tomamos muito, chá de fedegoso, raiz de fedegoso. Isso nós tomávamos muito. Mamãe fazia uns chás lá, o que ela arrumava a gente tomava. Nós criamos todos com saúde, todos escaparam. Eu tive malária com 30 dias de nascido, quase morri. Tanto que por isso lá em casa quase todos [os nomes dos meus irmãos] começam por letra O: Osvaldo, Olivo, Omar, Olívia. E eu eles puseram Antonio porque fui batizado em casa e tinha que pôr nome de um santo.

Eu comecei a trabalhar em Paracatu em 1946, 3 de março de 1946. Eu tinha 13 anos e trabalho em farmácia até hoje.

Ao chegar, eu era muito acanhado, cheguei e eles me deram toda a liberdade. Naquele tempo, a gente começava lavando seringa, fervendo seringa e fazendo limpeza. Mas logo eu desenvolvi, eles me deram todas as condições para eu desenvolver. A farmácia tinha 11 cômodos. Eu limpava ela, ficava limpinha. Todos os dias de manhã, eu lavava ela toda e à tarde passava pano na frente. Arrumava os remédios que Gregório falava assim: “Aquieta Dedé, aquieta. Vai ficar quieto aí”.

Arrumava a farmácia, um vidro em cima do outro, a farmácia ficava um espelho. Por isso que ele se apegou comigo e não queria que eu saísse da farmácia. E eu fui desenvolvendo. Depois de uns três, quatro anos, eu já fazia manipulação, já entregava tudo, manipulava medicamento, fazia pomada, fazia aqueles pós ferruginosos, pílulas, cápsulas, fazia tudo. Media naquelas balancinhas de precisão, fazia tudo. Comecei a trabalhar e não parava, não. E trazia a farmácia arrumadinha, graças a Deus, toda vida eu fui disposto, trabalhei muito. E ele ficava querendo que eu parasse e eu não parava, não, trabalhava. Atendia balcão, aviava receita, manipulava. Doutor Antero, que era médico. Ele atendia a cavalo, ia pra todos os lados na zona rural, qualquer hora da noite que chamasse, ele estava pronto pra atender. Doutor Antero morava ali, eu chamava ele à noite, podia estar chovendo o jeito que fosse, ele ia lá, vestia uma capa, eu pegava um guarda-chuva, a malinha dele, e nós íamos nessas beiras de praia tudo 2, 3 horas da manhã, 4 horas, 5 horas, atender as pessoas. Não tinha preguiça, não. Então, ele atendia essa zona rural a cavalo. Sem cobrar nada, praticamente não cobrava.

[Com o tempo] Os Santiago ficaram velhos, doutor Antero tinha falecido num acidente. Pedro tinha ido pra Belo Horizonte. Gregório, que era o caçula, estava querendo ir embora pra Brasília. Eles tinham que encontrar uma pessoa pra comprar a farmácia. Não queriam acabar com ela. Eu acabei comprando a farmácia em consideração a eles. Eles queriam que deixassem a farmácia tradicional Santiago, farmácia de muitos e muitos anos. Pense bem, eu comecei com eles em 1946, ela já era farmácia antiga. Ela tinha começado na rua do Álvaro [rua Álvaro da Silva Neiva], ficou lá muito tempo. Por isso que lá a farmácia era toda de móveis antigos, muito bonito, tinha até uma registradora daquelas todas desenhadas, de manivela, que eu não soube aproveitar.

A farmácia era na Rua das Flores, antigamente ainda era Rua das Flores, depois que passou a chamar Rua Doutor Sérgio Ulhôa. Era ali onde é o sacolão, no verdureiro ali. Eu comprei ali, depois que eu passei pra cá. Aqui [o prédio atual já] foi uma porção de coisas: cinema, clube de patinação, Banco Hipotecário, depois passou a ser o Banco do Estado [de Minas Gerais].

Cheguei [de volta a Paracatu depois de mais de 10 anos fora] e fui bem acolhido. Aquele povo antigo virou tudo meus fregueses. Aqueles Botelho, aquelas famílias tradicionais, os Adjuto, Cordeiros. Cheguei, tive a maior acolhida possível aqui!

Eu vou fazer 72 anos de farmácia, em março do ano que vem. Vivi dentro da farmácia.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+