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História

Uma vida de luta no São Domingos

História de: Cristina Coutrim dos Reis
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/08/2017

Sinopse

Em seu depoimento, Cristina Coutrim dos Reis narra sua trajetória de muitas lutas: muito trabalho, em diversas atividades, além da luta coletiva em prol da melhoria de condições para a comunidade em que nasceu e em que vive. Dona Cristina conta dos tempos de infância, divididos entre os dias de trabalho, ajudando os pais, e as noites de brincadeiras no terreiro iluminado pela lua clara. A travessia da comunidade, carregada de produtos para a venda na cidade era um desafio. Era pesado, o caminho era longo e tinha que equilibrar os produtos todos. A cidade daquele tempo era diferente e ela vendia de porta em porta. Ao casar, as atividades continuaram mesmo com a chegada de seus oito filhos. Ainda nova, ficou viúva, mas seguiu na luta para criá-los. Conforme eles foram crescendo, passaram a ajudar em casa também e assim, Dona Cristina reformou a casa e foi acumulando equipamentos eletrônicos, depois da chegada da energia, que foi uma luta sua em prol da comunidade. Outra luta em que Dona Cristina se envolve é na pela manutenção das tradições, sendo a responsável pela festa de São João, a caretagem, que acontece, desde os tempos de seus avôs até os dias de hoje.

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História completa

Meu pai era lavrador, o serviço dele era de lavoura: plantar roça; e garimpeiro, vivia do garimpo. Garimpo, plantação da lavoura, pesca… Eram essas as atividades dele. A minha mãe ajudava, minha mãe garimpava, trabalhava na roça e trabalhava também na fábrica de chapéu.

Quando eu entendi por gente, a comunidade, tinha poucos moradores, tinha apenas, no máximo, umas sete casas. Tinham três ranchos de palha e essas casas. Depois foi crescendo, o pessoal foi casando, foi multiplicando as casas. Aqui era uma comunidade, só os parentes. Casava também parente com parente, primo com primo, iam casando, eu sou casada com o meu primo. A minha vó era tia do pai do meu marido, né? Então, a gente casava assim, não entrava pessoas de fora e nem saía daqui pra fora e foi crescendo a comunidade.

Eram muitas as nossas brincadeiras, a gente tinha muita brincadeira: jogar peteca, pular corda, balanço na galha do pau, né? A gente pegava a corda da bananeira e trançava, amarrava na galha dos paus pra gente balangar. A gente nem tinha medo do perigo, pra gente era tudo simples, cada um queria ir mais alto que o outro balançando nessa corda. Hoje, eu fico pensando: e se essa corda arrebenta? Mas graças a Deus, nunca aconteceu, né? E era muita brincadeira de roda, cozinhadinho, juntava as colegas tudo, domingo, ia pra casa da outra e ia fazer cozinhado, cada uma levava um pouquinho de uma coisa, a gente fazia cozinhado debaixo dos paus.

As brincadeiras de roda eram com música, todo mundo dava as mãos, juntava aquela turma, dava a mão. (...) A gente usava lamparina que não tinha energia. Quando era noite de lua clara, o terreiro limpinho, varridinho, ficava clarinho, aí juntava a turma, a gente ia brincar, né? Era “Que pau é esse”, era de pique, de pega, era tanta coisa que a gente brincava, pulava corda de noite, eu lembro que ficava todo mundo lá no terreiro brincando, meu pai e minha mãe sentado lá na calçada olhando a gente brincar.

A escola que [eu] ia era na igreja, funcionava na igreja, tinha uma igrejinha antiga. Eles contam que essa igreja foi construída ainda pelos escravos, uma igreja bem pequena, de adobe. Se estudava de manhã, a gente ia pra escola de manhã e, na hora que a gente chegava da escola, almoçava e ia pra roça trabalhar; se estudava à tarde, a gente ia pra roça cedo, trabalhava até a hora de almoço, vinha, almoçava, arrumava e ia pra escola.

Quando era pra plantar, primeiro, tinha que capinar o terreno todo, a gente falava bater palha, nessa época: “Tá na época de bater palha”, ia todo mundo pra roça, capinar. Depois, plantava e, depois de plantado, tinha que limpar, né? E depois a colheita, ia colher. A gente, às vezes, nem ia todos os dias, não, só quando tava capinando, tirava semana e todo dia ia pra capinar, até limpar a roça.

O arroz, quando o arroz tava desse tamanhozinho; chegava na roça, o vento batia no arroz, nossa, pra mim aquilo era a coisa mais linda ver as folhas balançando. Quando tava maduro também, um cheiro! Às vezes, a gente colhia de cachinho, ia quebrando os cachinhos e jogando na cesta. A gente é que socava, muitas vezes… A gente colhia o arroz de cachinho, esfarelava na peneira, punha lá no sol, às vezes, mamãe dava uma torrada nele, para ficar mais sequinho, eu achava tão gostoso quando torrava o arroz. E a gente socava no pilão, era o serviço de nós criança, era isso, socar arroz, catar feijão, porque feijão era batido no terreiro, na roça e vinha com muita pedra, então, a gente tinha que catar tudo, isso era serviço de criança, né?

A cesta era igual a essas, essas cestas que tinha aqui, só que a gente que fazia de taboca [taquara], de bambu, só que fazia cesta maior, grande, punha alça e aí, a gente ia pra rua, levar as verduras, banana que dava muita banana, banana-prata, principalmente. E a gente levava de tudo que a gente plantava, mandioca, batata, inhame, cará, abóbora, quiabo, tudo a gente levava pra rua, milho-verde, milho seco também, a gente debulhava, vendia o saco de milho seco. A gente criava porco, o restante de abóbora, restante de mandioca que sobrava dava pros porcos, engordava, então a gente quase não comprava nada na cidade, a gente tinha de tudo.

A cidade, eu lembro da cidade ainda pequena e muitos bairros que tem hoje ali não tinham, e a gente ia de porta em porta oferecendo as verduras. As casas eram “tudo aberta”, você chegava, entrava e vendia as suas verduras e tudo: era frango, era ovos... A gente ia com o tabuleiro na cabeça, cesta e a penca de frango, botava no braço, e ia levando as verduras e frango pra vender.

[Sobre o artesanato] Quase tudo o que eu faço é de própria ideia minha, mesmo. Ninguém nunca me ensinou fazer nada; costura, eu costuro, nunca fui em corte e costura, que a minha mãe costurava, mas minha mãe também nunca tinha ido em corte e costura. Minha mãe não sabia ler, mas conhecia dinheiro; conta, ela fazia muito bem, mas ler e escrever, ela não sabia não. E então, a gente foi vendo e foi aprendendo. Igual ao chapéu; a trança, minha vó ensinou trançar, mas costurar o chapéu, eu fui vendo a minha mãe fazendo, fui olhando e tentando e dei conta de fazer, né? Hoje, acho que é só eu que faço.

[O namoro] Era escrevendo carta, né? Escrevia carta, respondia carta, era assim. Os pais da gente eram severos, não deixavam namorar muito não, mas eu casei com 18 anos, comecei a namorar com 17 anos, então foi o primeiro rapaz que eu namorei e casei. Eu não tive outros namorados, não. A gente trabalhava muito aí, plantando, que a gente trabalhava assim, na época de plantar milho, plantar arroz, as pessoas pagavam pra gente plantar, e ele era solteiro, mas mexia com lavoura grande, ele tinha plantio de cana, canaviais, tudo. Então, sempre, a gente trabalhava pra ele. A gente era tudo aqui da comunidade, a gente conhecia, né? Aí, comecei a namorar, aí logo ele pediu casamento por carta também a meu pai, e a resposta pra ele, meu pai mandou eu escrever, foi de tanto ele me escrever.

Ficamos noivos, a minha aliança, foi tirado o ouro daqui, o meu marido garimpou o ouro, levou no ourives, fez as alianças. Logo a gente casou.

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