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De confiança, desde pequeno

História de: Antonio Afonso de Resende
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/08/2017

Sinopse

Antonio Afonso de Resende mudou-se com a família da cidade onde nasceu, Oliveira, para Paracatu num caminhão carregado de café que foi vendido para a compra da fazenda de onde a família tirava seu sustento. Antonio iniciou seus estudos na escola rural, tinha que andar 3 quilômetros todos os dias de aula. Quando mudou para a cidade, a escola ficava mais perto, mas, aos finais de semana, tinha que andar os 16 quilômetros que separavam a cidade da fazenda do pai, onde trabalhou até seus 21 anos. Antonio mudou-se então para a cidade e passou a trabalhar de segurança e foi chamado para trabalhar na RMP (Rio Paracatu Mineração) e participou, no dia do seu aniversário, 1º de dezembro, coincidentemente, do processo de fundição da primeira barra de ouro da empresa.

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História completa

Minha mãe é de Morro do Ferro (MG), é próximo de Oliveira. E meu pai é de Oliveira, cidade de Oliveira. Por incrível que pareça, no ano passado, eu tive a oportunidade de ir lá porque eu não conhecia Oliveira. Sou de lá, vim de lá com 3 anos de idade e fui pedir informação de como foi que eles se conheceram. Aí disseram que meu pai era comprador de gado e, nessa região, tinha muito gado, e eles ficaram se conhecendo.

Meu pai tinha um caminhão, viemos [para Paracatu, MG] de caminhão. Ele produzia muito café, ainda veio trazendo café de lá [Oliveira] pra cá. Aí vendeu esse caminhão e comprou a propriedade, a fazenda Bandeirinha. Casa de adobe, colonial, com um pomar, curral, tinha um curral na frente da fazenda e o que produzia mais era leite.

Olha, falando francamente, eu não lembro de brinquedo. Meus pais nunca deram nenhum brinquedo, era serviço, era a convivência com os animais, o bezerro, por exemplo, laçar. E aí ia levando aquela vida. Não tinha prática de brinquedo. Meu pai me chamava 1 hora da manhã pra trabalhar e, às vezes, ficava até 9 horas da noite ainda para pôr ração para gado. E desde pequeno.

Com 7 anos, eu comecei a ir na escola rural. A minha mãe ia pentear meu cabelo para eu ir pra escola, o cabelo estava duro. Como eu tocava animal no engenho e escondia debaixo, porque o sol estava quente, às vezes, me escondia debaixo do engenho, pingava garapa. Então era aquele problema pra pentear o cabelo porque endurecia. Era o cabelo todo cacheado. Minha mãe penteava e fazia os cachos no cabelo. Eu lembro.

Tinha que andar quase 3 quilômetros pra essa escola. E era tudo numa sala só, uma mesa emendada na outra e era banco. E acho que a professora não tinha condições de estrutura pra ensinar. Eu ganhei palmatória na mão. A palmatória, é como se fosse uma colher, mas é redonda e cheia de buraquinho. Quando ela batia, fazia assim (bate na palma da mão) chegava a puxar, e a mão da gente inchava. Até no caroço de milho eu já ajoelhei. Aí fala assim: “Mas você era pinta demais”. No primário, você tinha que saber da tabuada, poesia senão ia pro castigo mesmo. Era castigo porque às vezes não sabia a tabuada.

O estudo foi mal começado, não teve jeito. E o pai da gente precisava da gente pra a mão de obra pra trabalhar, aí eu tornei a voltar pra roça. Fiquei ajudando ele até 21 anos, depois de 21 anos, que eu tomei: “Não tem jeito, não, vou começar do começo de novo”. Vim pra cá [para a cidade], arrumei serviço e até agora aposentado.

Quando eu era criança, eu achei uma carteira. Eu levantei cedo e minha mãe mandou eu comprar pão. Encontrei uma carteira. Do jeito que eu peguei a carteira lá suja de poeira eu cheguei: “Mamãe, achei!”. “Uai, ocê tá doido? Ninguém perde uma carteira desse jeito, não”. E queria me castigar. Eu falei: “Não, eu achei”. Aí, não sei se eu estava com 9 anos, por aí, eu fui pra escola, e ela foi escarafunchar pra saber de quem era essa carteira, através de uma foto que estava na carteira, ela encontrou pessoa. Quando eu cheguei da escola, ela chamou o moço e falou assim: “Ó, é do senhor a carteira?”. “É." “Faz favor de conferir se está certo.” Ele conferiu, ele falou: “Ó, dona Conceição, aqui tem o dinheiro do valor de uma casa e de um lote”. “Está tudo certinho?” “Está tudo certinho!” Ele tirou 10 mil réis: “Isso aqui é pro menino”. Ela falou: “Não senhor, o senhor perdeu, é do senhor”. Com muito custo, ela deixou eu receber 1 mil réis. Então você tem aquilo, você tem bom princípio, os acontecimentos da vida.

A RPM [antiga Rio Paracatu Mineração, atual Kinross Paracatu] me chamou. pra segurança, serviço especial de guarda, segurança patrimonial. Eu entrei na Portaria [para trabalhar, no dia] 23 de setembro, quando foi em dezembro que teve a inauguração, a primeira barra de ouro, eu era o único segurança que tinha lá na Fundição.

Foi dia 1º de dezembro de 1986. Eu trabalhava de turno e entrei às 16 horas e, quando foi às 18 horas, eles começaram o processo lá. E eles faziam o procedimento lá pra colocar o ouro do cadinho na forma. [mas] não acertavam, derramava tudo no chão, fica parecendo carroço de arroz, tudo espalhado. É até bonito aquilo, amarelinho. E tinha lá mais ou menos uns 19 engenheiros lá dentro. E fazia o processo, tornava a recolher aquele material, punha, não dava certo. E de lá de longe, da entrada, eu [estava] observando. Quando foi uma certa hora, eu chamei o supervisor, que era o Douglas. Eu falei: “Douglas, dessa forma não tem jeito, não vai dar certo, vocês não vão conseguir fazer essa barra de ouro desse jeito. Vão passar a noite toda desse jeito”. “Então como é que faz?”, aí orientei ele, falei: “Você pega uma barra de ferro”, que tinha uma barra de ferro lá, viga, colocou a forma em cima e tombou, virou o cadinho e aí deu certo! Só vi todo mundo aplaudindo e satisfeito. Mas ficou como se fosse o Douglas que deu a sugestão. Os outros não entendiam o que eu estava falando. Aí quando foi mais tarde abrir o champanhe e começaram, aí eu fiquei incomodado, eu falei: “Deve ser champanha importado”. Eu conferi a champanhe, era do mercado aqui de Paracatu!

Eu trabalhei em toda a área da firma. Eu trabalhei na portaria, na usina, na hidro 1, porque não tinha hidro 2. Tinha a fundição, o escritório central, área de rejeito. Eu trabalhei até no paiol, você sabe que é onde guarda as munições, as dinamites que solta lá pra detonar as rochas.

O segurança hoje não passa lá pra dentro, o supervisor, esse que era estrangeiro que estava lá, era um senhor já de idade, e ele não dava conta de pegar as barras de ouro. Tinha barra de ouro de 12, de 15, de 20, 22 quilos, eu fiz muitas vezes pra ele: pegava a barra de ouro, subia uma escada, punha lá na balança, ele pesava, voltava, pra ele lavar, depois que passava a lixa, passava o escovão pra pôr dentro do cofre. Nós tínhamos acesso ao cofre. Então, a gente era considerado super de confiança, e como sou.

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