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História

Sensibilidade e a possibilidade de inventar novas realidades

História de: Maria do Céu Santiago Moreira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/08/2017

Sinopse

Nas telas com cores e linhas suaves, Maria do Céu Santiago Moreira inventa realidades líricas, sempre com a presença de figuras femininas. Essas telas são resultado de lembranças e vivências. Na infância, Maria do Céu ia a praia na beira do rio e gostava de estar na fazenda, livre, em contato com a natureza. Com a mãe aprendeu habilidades manuais. Com o pai, o espírito do trabalho. Com essas características, depois de formada no colégio interno em Belo Horizonte, seguiu por lá, para cursar Belas Artes. Na formatura de sua irmã, conheceu o marido, com quem teve três filhos. Mas um acidente fatal a trouxe de volta para o abraço dos pais. Seu marido faleceu num acidente de carro quando ainda estava grávida de seu filho mais novo e foi no seio da família que Maria do Céu criou os filhos e se debruçou na carreira artística.

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História completa

Papai era comerciante e fazendeiro, um homem que eu poderia caracterizar como o símbolo do trabalho, porque ele era um trabalhador. A vida dele, a vida inteira, foi levantar cedo pra abrir a loja ali na esquina. Trabalhou a vida inteira na loja e sempre com muita disciplina, muito método de trabalho e, a duras penas, conquistou uma situação financeira razoável. E minha mãe, uma pessoa sensível, gostava de escrever poesias e tinha talento pra fazer doces. Os doces dela ficaram inesquecíveis aqui na história de Paracatu, porque ela fazia doces secos, de uma delicadeza, a casquinha nos doces. Perfeito. Deixou saudade também. E era uma mãe muito carinhosa.

[A loja era] Casa Santiago. Ela ficava na Rua das Flores. A loja era como as lojas antigas, tinha de tudo, desde cela, perfume, caderno, tecidos, tudo se encontrava na loja. E papai atendia a todos com aquele jeito peculiar dele, educado e gentil. Todo mundo gostava dele na loja.

Nós éramos fregueses assíduos lá. Na hora que ele vinha pra almoçar, tinha uma passagem aqui pelo beco, a gente entrava e comprava: “Tira esse tecido pra mim, pega esse sapato, não sei o quê”. No final, ele ia ver a conta, tava desse tamanho. Ele falava: “O que tá acontecendo? Essas meninas, essas meninas”. Comprava tudo de novidade que tinha chegado à loja: “O que chegou aqui?”; “Olha, chegou essa seda, chegou isso”; “Três metros”. Vivia fazendo roupa.

Minha mãe tinha apelido de Enfermeira, porque ela era tão carinhosa e prestativa, qualquer problema que acontecesse aqui na rua, chamavam mamãe pra acudir: “Chama Vera, que Vera resolve”. E fazia os bolos de aniversário, ajudava a fazer os bolos, que era muito habilidosa. Talvez seja dela que eu herdei essa sensibilidade pra arte. E também dava aula de pintura, que eu me lembre.

O que eu lembro aqui da minha infância era um tempo num ritmo muito mais lento, muito lento, que dava pra fazer tantas coisas... A gente tinha tempo pra tudo, pra visitar amigos. Eu sou da época que ficávamos todos na porta da rua conversando com os vizinhos. Eu jogava bola, peteca aqui na porta, vôlei. Tinha as praias que a gente ia, que era Lajedo, Vigário, Martim, e todos os dias das férias a gente ia pra praia. Saía uma turma com sacola, com radinho, com laranja, e com a tia que contava causos maravilhosos pra gente, Adelina, Catita, muito inteligente, a gente amava isso aí, os passeios na praia.

Quando chegava o final do ano, mamãe perguntava: “Pra onde vocês querem ir?”. Eu falava: “Eu quero ir pra fazenda da minha tia Cândida”. E ficava lá um tempão na fazenda, porque eu adorava essa coisa de não olhar relógio, ficar mais livre, o contato com a natureza. Lá, tinha uma vereda com barro, que minha mãe fazia umas coisinhas de cerâmica, depois pregava uns decalques, bandejas, bulinho. E a gente naquela de fazer aquelas peças, as bandejinhas com xícara, bule. E assim foi aprendendo a lidar com o barro. Depois, no curso eu fiz cerâmica, aí já não era uma coisa tão estranha pra mim, que de criança eu já fazia essas coisas, fazia até brochinho, essa coisas. Minha mãe, nunca vi tão habilidosa. E ela me incentivou, quando ela fazia os bolos, eu queria ajudar, ela falava: “Não, deixa isso pra lá, o seu departamento é outro”. Quer dizer, aí foi me encaminhando pra pintura.

Quando vinha para as férias [de Belo Horizonte], a gente ficava dividida entre deixar as colegas lá do internato e morrendo de saudade, vinha pra Paracatu, a gente fazia a maior bagunça no ônibus, uma jardineira, um ônibus que parava ali... Agora, a rodoviária mudou. Mas a gente vinha cantando de madrugada, adorando estar pisando na terra, na terra querida que era Paracatu. Todo mundo amava essa Paracatu, a turminha nossa, as horas dançantes, as festas, as festas do Jóquei.

Tinha cinema. A gente frequentava demais, porque não tinha televisão. Três vezes por semana a gente ia para o cinema. Tinha uma prima que ia todos os dias, não perdia nenhum filme, Catita, essa que ia com a turminha pra praia, ela não perdia um dia de cinema. Eu ficava morrendo de inveja, falava: “Catita vai todos os dias para o cinema. Ah, eu também quero ir todo dia”. Não tinha outra coisa.

Tinha o hábito de todo domingo ir à missa, às aulas de catecismo, às procissões da rua, bonitas. Por falar nisso, daqui a alguns dias, tem a de Corpus Christi, que é famosa aqui em Paracatu, todo mundo enfeita as janelas, põem flores na janela. Então essas lembranças, esses significados aí que fazem meu universo, que compõem meu universo e é disso aí que eu tiro toda inspiração pra pintar, que são dos quintais com as jabuticabeiras e mangueiras ensombradas, com os cozinhados que a gente fazia no quintal, as festinhas de criança que a gente fazia no porão da casa, os teatrinhos.

E eu aprendi, através da pintura, a me olhar, a me conhecer, a considerar os meus valores, as coisas que me encantavam, pra eu tirar aquilo como um instrumento pra criar meus quadros, e acaba que a criação é sempre resultado, como é a criação divina também, a gente tá sempre envolvido em muito amor, a criação.

O tema do meu trabalho sempre foi a figura feminina, sempre, sempre. Agora, essa figura é que vai modificando, com o tempo vai mudando de acordo com a minha evolução humana também. A evolução artística e a humana, vêm juntas, porque eu me modifiquei, a pintura também modificou, embora conservasse, o tema fosse o mesmo.

A pintura pra mim é uma coisa maravilhosa, mas eu só comecei a trabalhar com óleo mesmo, telas e óleo, aos 20 anos. Era guache e aquarela, e lápis de cor. Trabalhava muito em aquarela. Eu gosto de transparências. As minhas telas são todas suaves, porque o que busco na minha pintura, uma atmosfera de lirismo e de sonho, isso eu consigo nas cores suaves, nos tons que sobrepõe e vão diluindo, e sumindo. O negócio da linha rígida, ela vai ficando indefinida, e as figuras fragmentam também no fundo da tela.

O meu sonho é deixar uma lembrança boa pra todo mundo. Esse é meu sonho. Que gostem de mim, que tenham uma lembrança boa quando eu não estiver mais aqui. E também que meus quadros que eles iluminem também as pessoas que ficarem com eles. Porque, pra mim, a pintura sempre me iluminou por dentro, que traga luz pra eles, luz por dentro deles. Com as minhas realidades reinventadas, que eu sempre vou modificando pela emoção, espero ter colorido bastante. Ainda há um tempo pra colorir bastante telas aí. Colorir e desenhar essas realidades que eu imagino, que são tão importantes pra mim. Muito importantes.

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