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Travessia de bois e a tradição da cachaça

História de: Tácio Silva Neiva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/08/2017

Sinopse

Tácio Silva Neiva, seu Neiva, é filho de paracatuenses de famílias grandes. O pai trabalhou há 30 anos como condutor de boi e aos 14 anos, seu Neiva o ajudou em algumas viagens e narra como eram esses dias de travessia entre Paracatu e Barretos. Seu Neiva se lembra do primeiro dia de aula e em como foi desapontador ter que dividir a professora que achou que seria só dele. Mais velho, ingressou na escola da FAB, onde se formou como especialista de aeronáutica e trabalhou durante um tempo com os aviões e sobrevoando o país. Ainda apaixonado por aviões, seu Neiva fez o curso de piloto privado, narra como são os voos solo e confessa que seu sonho é ter seu próprio avião. Além disso, depois de ter trabalhado ajudando o pai na fazenda, de ter tido uma madeireira, seu Neiva é produtor de cachaça artesanal e conta como faz para ter um produto bom nas prateleiras das vendas da cidade.

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História completa

É uma família muito grande. Do lado da minha mãe eram 12 irmãos, do lado do meu pai também 12 irmãos, nascidos e criados todos em Paracatu. A maioria era fazendeiro, todos lidavam com fazenda. Depois a família vai crescendo, vai dispersando, vai mudando muita coisa, mas tudo bem, a família continua unida.

Minha mãe era do serviço doméstico, e meu pai trabalhou 30 anos como condutor de boi, ele levava boi daqui de Paracatu pra Barretos (SP). Eu fiz algumas viagens com ele, umas duas ou três. Eram 30 dias de viagem, você ia a cavalo, no caso era montado em burro, e a gente levava de 1.000 até 1.200 bois tocado, todo dia fazendo uma marcha de mais ou menos 30 quilômetros até chegar em Barretos. Era cansativo, mas era divertido. Aqui era o lugar que criava o boi e lá em Barretos tinha o frigorífico que engordava, aqui era só criar, engordava lá.

Os primeiros dias eram os piores porque a boiada está bem descansada, bem fogosa, aí dá mais trabalho. Mas, depois, com 15 dias começava a cansar e aí já pegava aquele ritmo de viagem, já não era tão cansativo assim. Tinha alguns problemas, por exemplo, um estouro de boiada, mas felizmente isso não acontecia com muita frequência e sempre chegava no final tudo bem. A gente ficava doido pra chegar logo para voltar. E na volta vinha um peão trazendo a tropa, e a peãozada vinha de caminhão. Isso durante muitos e muitos anos, tinha muita gente aqui em Paracatu que foi condutor de boiada. Depois o gado começou a ser transportado por carretas, aí acabou com essa profissão, hoje não existe mais.

O que dava mais preocupação era quando você tinha que passar dentro da cidade porque o gado fica muito assustado, o pessoal quer chegar perto e aí pode acontecer o estouro. O estouro de boiada dentro da cidade é um prejuízo tamanho e normalmente pode levar a consequências piores. A gente segurava a boiada e nesse caso aí, quando entra dentro de cidade o gado quer correr pra frente. Então põe mais peões na frente segurando o gado pra não passar. E assim ia bem.

Para 1.000 bois levava em média 14 peões. O condutor, o capataz e mais 12, 14 peões. O que vai na frente chama ponteiro, é o que toca o berrante. Aí vêm dois nas laterais que se chamam despontadores de boiada, que jogam o gado pra fazer uma fila atrás do berranteiro. Depois, vem o pessoal que trabalha na lateral, por último vem o culatreiro e tem despontador de culatra, é o que vai jogando, os bois mais cansados é que ficam na culatra, tá entendendo? Aí o despontador de culatra joga o gado pra dentro e normalmente, no caso do meu pai, ele gostava sempre de levar um culatreiro a pé, ia daqui a lá a pé, acompanhando a boiada. E o que muita gente falava, que realmente era verdade, quando acontecia o estouro do meio da boiada pra trás, os bois mais cansados é que chegavam na frente, os mais cansados iam pra frente. Era um trabalho cansativo, mas interessante. Naquela época chovia demais, às vezes a gente saía daqui e ia até Barretos embaixo de chuva, chegava até a dar lodo nas costas.

Daqui até Uberaba (MG) era mais difícil porque as estradas não tinham arame, que a gente chama de corredor, do lado e do outro. De Uberaba até chegar em Barretos, ficava mais tranquilo, tinha corredor, tinha cerca de arame de um lado e do outro, e a boiada ia mais tranquila no meio. Mas quando chega no final você fica com dó do boi porque começa a ficar cansado, machuca. Mas dá pra chegar.

Meu pai era muito brincalhão, brincava muito, e ele não sabia nadar de jeito nenhum, tinha horror de água. Nós fomos atravessar um ribeirão depois do rio Paranaíba, um ribeirão, ribeirão bem forte, estava cheio. E os peões passaram lá, foram no cavalo, cavalo nadando, o burro nadando, então outros não quiseram passar assim, passaram nadando, e ficou meu pai por último. Aí um sugeriu: “Vamos passar um laço aqui na cintura dele, nós puxamos do outro lado”. E assim foi feito. Mas o peão que ficou do outro lado, na ponta do laço, começou a puxar meu pai, puxar... Quando chegou a certa altura ele falou: “João, você fez aquela safadeza comigo” e afrouxava o laço. Papai: “Pelo amor de Deus, não faz isso, não”. E foi assim até atravessar, mas era brincadeira.

O mais interessante é você fazer a boiada atravessar um rio. Pra atravessar um rio, chega na margem do rio, o gado não quer entrar dentro da água de jeito nenhum, não quer, até que a hora que você colocar uns dois ou três, aí os outros já passam a acompanhar. Aí vai um canoeiro do lado de baixo, boi que cansa ele ajuda o boi a atravessar o rio e, no caso o ponteiro, o que toca berrante, primeiro ele atravessa na canoa e do outro lado ele toca o berrante, aí a hora que o gado começa atravessar aí você vê a boiada toda e só a cabeça de fora. Alguns rodam, mas o canoeiro vai lá, acerta. É bonito, é interessante.

Falando da cachaça de Paracatu, que é essa cachaça de rapadura, ela é regional, é uma coisa de Paracatu. A cachaça que quase todo mundo faz no Norte, no Nordeste, mesmo no norte de Minas [Gerais], que tem muita cachaça boa, aqui em Januária (MG), essa região tem muita cachaça boa, é cachaça da garapa de cana. Aqui em Paracatu, esse pessoal bem mais velho, mais de 100 anos atrás, começou a fabricar cachaça de rapadura, eles fabricaram um produto bem melhor porque, se você pega a cana em si, você pode tirar da cana mais de seis subprodutos, entre esses subprodutos, tem enzimas, tem toxinas, tem acetato. Você pode tirar o metanol, pode tirar o etanol, o álcool etílico, o metílico. Por exemplo, bola de pingue-pongue é feita de bagaço de cana. É uma porção de coisa. Então, quando você está fazendo uma cachaça de garapa, um percentual muito alto de tudo isso continua nela, não sai. Embora tenha sido fermentado, destilado, tal, isso continua. Agora quando você transforma o melado de cana em rapadura você apurou, muita coisa disso aí foi eliminado porque, nesse caso aí, a garapa passou por uma fervura, ferveu até chegar no estado sólido. Muita coisa foi eliminada, muito veneno foi eliminado, mas muita coisa continua também ali, mas a fibra já melhora, e melhora bastante.

Eu coloquei Engenho Neiva [na cachaça que produz], eu peguei a roda-d’água que tinha na Biboca, na fazenda do meu avô, e dela fiz um rótulo.

Botar um produto desse na praça. Você precisa reunir três elementos: tradição, qualidade e preço. Sem isso você não consegue lançar o seu produto. Outro detalhe muito importante é a qualidade da água. Se você não tiver uma água boa você não consegue fazer cachaça boa. Não consegue não. Toda cachaça que eu fabrico aqui passa pela minha mão, eu tenho que fazer análise dela. Eu fico pra analisar essa cachaça, ver se está num padrão só, então por isso que, de certa forma, ganhou nome.

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