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Família e fotografia

História de: Moacir Correia Guimarães
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/08/2017

Sinopse

Foi pelas lentes que Moacir Correia Guimarães acompanhou o desenvolvimento de sua cidade natal e também da evolução tecnológica da fotografia. Moacir se lembra do calçamento de pedras da cidade e das vendas dos bolos de domingo. Moacir, que montou sua empresa em 1975, começou a trabalhar cedo e, ainda novo, com o falecimento do pai, ajudou a mãe com a manutenção da casa e da família. Sua empresa teve que acompanhar os novos tempos digitais e, para isso, Moacir que fotografava em filmes rígidos, passou a trabalhar com o digital e com filmagens também.

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História completa

Nós somos 12 irmãos, eu sou o filho mais velho, fiquei como arrimo de família, porque meu pai morreu com 48 anos. Minha mãe tava gestante do meu irmão caçula, ele nasceu duas semanas depois que meu pai faleceu. Ele não conheceu o meu pai. Eu ajudei a minha mãe a criá-lo. Tem um sentimento comigo desde criança, que eu tinha pressa de crescer, ser homem logo. Eu via as dificuldades do meu pai e queria ajudar a família.

A casa era chão batido, a parede de enchimento. Assim, eles fazem um pau a pique e fazem como se fosse um formato de tela, umas varinhas amarradas assim atravessadas, e aquilo preenchia com barro. Trabalhava, ficava bonitinho, mas era barro, não era tijolo, a proteção da casa. Fazia as portas às vezes com umas peças de buriti, parecido com caibro, mas era buriti. Na casa do meu pai tinha porta de madeira, mas no paiol, onde eles guardavam os mantimentos, milho, essas coisas, já usava porta de buriti, era uma coisa que não precisava muita segurança. E meu pai colhia as batatas, nós ficávamos com muito frio, aí ele fazia um fogo no meio da sala e colocava as batatas pra assar, e nós ficávamos ali, eles contavam causo pra gente, meus tios iam pra lá, contavam aquelas histórias, mula sem cabeça, não sei mais o quê. Eu tive dois tios que eram muito bons pra contar causos,

No meu tempo de menino, essa rua Goiás era calçada de pedra, aquelas pedras redondas, igual lá em Ouro Preto (MG). Eu alcancei esse tempo e lembro quando removeram as pedras. A Rua Do Ávila, que é a rua que passa em frente à Casa de Cultura também era de pedra. E era meu caminho, eu atravessava elas pra ir pra Escola Sérgio Ulhôa.

A área de fotografia... Eu tive uma primeira experiência antes de 1970, coisa de dois meses, mais ou menos, depois aquele moço foi embora de Paracatu. E posteriormente eu conheci um amigo aqui, Augusto João de Souza, era dono do Arte Foto, um dos estúdios mais antigos da cidade e ele me ofereceu oportunidade. Naquela época, era diferente a fotografia, era só preto e branco. Colorido começou a aparecer o monóculo, né? O slide usava monóculo, quando aquilo apareceu em Paracatu foi uma coisa fantástica. Nas primeiras férias que eu tirei, foram só 15 dias, eu fiquei trabalhando, fazendo monóculo por aí, na periferia, pra dar um complemento no ganho, afinal de contas, era eu e minha mãe pra tratarmos de mais 11 irmãos.

Setembro de 1975 foi quando eu abri o meu Foto Guimarães, que tá até hoje com o mesmo nome. Com a evolução, a própria evolução da tecnologia e tudo, acaba empurrando a gente, você tem que buscar outras alternativas. Aí a gente foi avançando aos poucos e tal. No começo da fotografia, fotografava-se tudo. O cara morria enforcado, chamava o fotógrafo, a gente tinha que ir. E eu tinha um colega, ele era muito medroso, quando ele chegava lá, via o cara pendurado, depois ficava três dias sem dormir. Eu já não tinha esse problema.

Quando eu comecei, como eu disse, era só preto e branco, usava-se o filme rígido, era uma chapa, aí você punha um pano aqui assim, porque não dava reflexo no tape da câmera pra você fotografar. Aí fazia a foto do documento: “Que dia eu pego?” “Ah, semana que entra, lá pela segunda-feira. De oito a dez dias”. Você levava uma semana pra completar seis chapas, seis pessoas numa chapa daquela, quando completava. A pessoa chegava: “Vim buscar minha foto” “Oh, moço, você desculpa, você piscou na foto”. Tinha hora que eles queriam bater na gente. Agora hoje, você vê hoje, a evolução foi muito grande, você faz com a máquina, mostra na hora.

Eu fiz o Jornal de Paracatu, ele foi temporário, parece que durou só um ano, aí o moço que o fundou foi embora. Eu fazia as fotos, eu era responsável pelo departamento de fotografia. Até hoje ainda tenho uma parceria com O Movimento, que hoje o dono dele mudou o nome, é Jornal da Cidade, é novo. O Movimento durou mais de 20 anos. Sempre fazia alguma coisa pra eles, foto de Carnaval, desfile de cidade, eventos históricos assim. Toda vida gostei de acompanhar, por exemplo, festival de banda, festival de música, tudo que envolve a cultura, eu sempre gostei de acompanhar, de fazer. Eu já fui trabalhar nesses eventos sem contrato nenhum, só pelo prazer. Por exemplo, teve o Primeiro Encontro Regional de Bandas, de música e foi aqui na praça. Eu fui lá, dei a cobertura tudo. Tem até o DVD aí que eu fiz, foi um evento que marcou. E depois foi tanta gente me procurar, acabei vendendo meu trabalho. Às vezes, você tem que aproveitar uma oportunidade que surge, não é nem tanto pra você ganhar dinheiro, mas você mostrar seu trabalho, você continuar em evidência.

[Uma coisa que eu lembro da cidade é que] Domingo de manhã, os moleques passavam na rua: “Olha, o bolo de domingo”. Esse bolo de domingo só existe em Paracatu, é feito de arroz. Você prepara o arroz, deixa ele da noite para o dia na água ali, ele dá uma amolecida, aí de manhã, faz ele com banha de porco. Ele fica bem gordinho. Mas você só pode comê-lo quentinho também, se deixar esfriar, não fica bom. Bolo de domingo é o nome dele, porque só fazia no domingo. E ainda tem duas famílias aqui que ainda fazem pra vender. De vez em quando dá saudade, eu vou lá e compro.

[Sou casado] Desde 1975. Quarenta e dois anos. Paracatuense. Ela é aposentada, foi professora primária, foi coordenadora. Hoje ela tá aposentada e cuida da mãe, que é idosa. É cuidadora da mãe. Sou casado, mas nós namoramos até hoje.

Nós éramos amigos... Eu ainda trabalhava para o Augusto nessa época, e caminho dela pra escola passava em frente à loja, atravessava a praça seguindo pra escola. E a gente às vezes saía aos domingos, passeando, fazendo visita. Nós éramos um grupinho, eu sou evangélico e nós tínhamos um grupo que a gente saía aos domingos visitando. E eu conheci ela lá na igreja, aí a gente fez amizade. Três anos amigos, somente amigos. Um dia, eu percebi que quando ela não passava, eu sentia falta, o dia não ficava bom pra mim. Vou eu caçar coragem pra falar com ela, que eu tinha interesse de casar com ela. Eu pensava assim: “Meu Deus, eu vou falar com ela, ela vai falar que eu tô confundindo amizade com namoro”. E foi um conflito muito grande, mas até que um dia eu tive coragem. Eu falei: “Apesar da nossa amizade, o que você pensa no futuro aí? Você não pensa em casar? Eu não seria um bom partido?”. Foi naquela conversa de galante. Ela falou: “Eu tava só esperando você falar. O meu sentimento é o mesmo”. Aí nós... Falei com meu sogro, ficamos noivos, um ano e nove meses depois a gente casou. Graças a Deus temos cinco filhas, todas casadas. Tenho sete netos, véspera de mais uma neta. O primeiro neto tá com 20 anos.

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