Busca avançada



Criar

História

Administrando emoções

História de: Getúlio Gomes de Oliveira Júnior
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/08/2017

Sinopse

Getúlio Gomes de Oliveira Júnior narra como foi sua infância ao redor da família, no interior de São Paulo, as brincadeiras com os primos e a fanfarra da escola. Ainda no Ensino Fundamental, fez uma redação para a escola dizendo que queria ser médico quando crescesse e, assim, o pai sempre o estimulou para seguir estudando. Na época do vestibular, mudou de opinião, e o pai propôs que ele fizesse a prova para engenheiro de minas, afinal, viviam numa cidade mineradora. Getúlio fez a prova, ingressou na faculdade e foi se apaixonando pelo curso. Ao terminá-lo, participou do processo seletivo da atual Kinross Paracatu. Com a proposta de trabalho em mãos, sua namorada sugeriu o casamento, e os dois casaram-se e mudaram-se para Paracatu para construir a família. Na cidade, Getúlio desenvolveu-se profissionalmente e acompanhou os processos de mudanças e de crescimento da empresa e da família.

Tags

História completa

Meu pai tem o mesmo nome que o meu, fui homenageado, Getúlio Gomes de Oliveira, ao longo da vida, ele foi motorista de caminhão, caminhão rodoviário, depois passou a ser motorista de caminhão fora de estrada na mineradora que existe na minha cidade. E ele aposentou, mas hoje continua ainda no ramo, tá no trecho, como diz o pessoal da área de mineração, como encarregado, supervisor de obras de mineração. A minha mãe trabalha como pajem na creche municipal da prefeitura lá de Cajati (SP), já trabalha há um bom tempo.

Eu entrei na antiga pré-escola. E depois eu estudei numa escola chamada Victorio Zanon, era uma escola de primeira a oitava só, mas era uma escola muito boa. Eu me lembro de algumas coisas, por exemplo, a minha mãe fez pra mim uma bolsa de calça jeans, porque não tinha dinheiro pra fazer uma mochila. E lembro muito de ir com os colegas a pé pra escola, a gente ia brincando estudar. E tinha a questão da fanfarra: eu amava tocar na fanfarra. Eu entrei muito cedo e fiquei muitos anos na fanfarra tocando. Era uma forma de a gente viajar, a gente tocava em cidades ao redor. A primeira vez que eu fui a São Paulo, foi pela fanfarra.

Eu entrei na fanfarra, [quando] eles abriram uma seleção e eu queria tocar corneta, era doido pra tocar corneta. Mas eu não tinha fôlego, porque eu sempre tive problema de rinite, aí eu não consegui. E na época o instrutor me mandou fazer o teste tocando surdo. Era um instrumento redondo, que você colocava aqui na cintura e tocava aqui com a baqueta, eu comecei ali. Sempre quando a gente tinha as apresentações, usava aquele uniforme bonito. E eu fiz muitas amizades lá também. Quando a gente mudou pra outra escola, a gente teve que sair da fanfarra também, foi muito ruim. A outra escola tinha fanfarra, mas eu não quis participar porque era concorrente. Eu gostava tanto da outra. [O uniforme] inicialmente era feio, meio amarelado. Depois a escola trocou, a prefeitura deu pra gente um uniforme bonito: um uniforme vermelho, tinha aquele chapéu na cabeça, a gente usava aquela sapatilha branca, o cinto aqui amarrado. Aquele chapéu grosso, quadrado, parece daqueles soldados franceses, aquele redondo, que tinha um amarrado aqui na gola. Era muito legal. Usava luvas pra tocar. Passava mal, era quente, cheguei a quase desmaiar na apresentação uma vez. Mas era um uniforme bonitinho sim. E tinha os passinhos pra gente tocar. A gente andava e parava num lugar, fazia aqueles passinhos e tal. Esses dias até encontrei algumas colegas que tocavam. Mandaram os vídeos pra gente, minha mulher morreu de rir, que eu tava até chorando vendo, falava: “Ah, eu to lá, tocando lá!”. Foi muito legal.

Meu pai sempre quis que eu fizesse Medicina. Eu lembro que, na verdade, eu, de certo modo, o incentivei nisso, porque uma vez teve uma redação na escola, eu não lembro quantos anos eu tinha, mas que era pra gente escrever sobre as profissões, o que a gente queria ser, e eu falei que queria ser médico. E a redação até ganhou um prêmio na escola como a melhor redação. Então, eu acho que eu alimentei um pouco esse ego dele de ter um filho médico.

Então, eu tentei realmente vestibular pra Medicina.(...) Mas eu queria fazer História ou Geografia, queria porque queria. Meu pai falou o seguinte: “Quando você tiver 18 anos, você vai ter que pagar as suas despesas aqui em casa, então se quiser fazer História e Geografia, pode fazer, mas eu não vou pagar nada pra você fazer isso. Eu não quero ter filho professor. O salário é baixo, você não vai ter uma vida boa”. Ele viu que eu não passei em Medicina no primeiro semestre e percebeu, realmente viu, que Medicina era difícil mesmo. Eu fui muito mal na prova. Mas fui mal mesmo, eu fiquei desesperado. Na [minha] cidade, cidade de mineração, tem muita gente de Ouro Preto (MG), aí o pessoal sabia que o filho do seu Getúlio tava tentando vestibular, e um cara falou assim: “Olha, você não quer falar para o seu filho fazer Engenharia de Minas?”. Meu pai falou assim: “Mas ele não quer fazer”. Ele falou: “Eu vou lá e faço a inscrição pra ele. A minha família mora lá, eu faço a inscrição pra ele. Ele só vai ter que fazer o vestibular”. Meu pai chegou um dia lá em casa, falou: “Olha, você vai fazer Engenharia de Minas”. Eu falei: “O que é isso?”. Ele falou assim: “Ah, Engenharia de Minas é o engenheiro que trabalha aqui na mineradora”. Tinha aquele Manual do Estudante da revista, acho que Abril, não sei, eu fui procurar saber o que era engenheiro de minas. Eu falei: “Nossa, Deus, o que é isso”. Realmente, falei assim: “Interessante”. Mas como eu já tava desesperado pra passar, que eu tinha 17 anos, meu pai falou que se eu não passasse no vestibular, que ele ia começar a cobrar as despesas lá de casa, e eu vi que pra trabalhar no bananal eu não dava conta, que eu não tinha físico pra isso. (...) Fui pra Ouro Preto, fiz vestibular e eu vi que era assim a escola mais antiga do Brasil, Escola de Minas de Ouro Preto, a precursora na área de mineração, criada por Dom Pedro II. Eu gostava de História, falei: “Não vou fazer História, mas eu vou morar numa cidade histórica”. Aí eu optei por ir pra Ouro Preto. Fui pra uma república, que meu pai escolheu, com base na voz do estudante. Meu pai ligou pra várias. No manual do vestibular da federal de Ouro Preto tinha a lista das repúblicas com os telefones, aí meu pai ligou pra várias pra eu ficar lá pra fazer o vestibular. Meu pai conversou com várias, conversou com uma pessoa em particular, gostou da voz dele, que passou segurança, e meu pai falou assim: “Você vai pra lá”. Aí eu fui pra lá fazer vestibular, passei. E fui pra lá.

Eu lembro que quando eu fui pra lá, eu e meu pai tínhamos uma relação muito distante, distante no sentido que não tinha aquela coisa do carinho, do abraço, meu pai sempre foi mais fechado. Dar presente para o Dia dos Pais era um parto pra mim, porque tinha que dar um abraço nele, aquela coisa meio mecânica. Não era questão de não gostar, mas era porque não existia essa coisa de abraço, beijo. Ele foi me ajudar a levar as coisas pra Ouro Preto. Ele ficou uma semana comigo. Quando ele foi se despedir de mim lá na rodoviária, eu lembro que a gente se abraçou, sabe, e eu chorei muito e ele chorou também, porque acho que a questão da distância, e a gente ia ficar longe, [seria] a primeira vez que a gente ia ficar longe, e ele sabia que a gente só ia se ver nas férias do semestre, porque acho que eram mais de 900 quilômetros. Quebrou um gelo que havia. O sentimento sempre houve de amor, mas era a questão da proximidade mesmo.

E meu pai, ele fez da seguinte forma: como a gente tinha o mesmo nome, ele deu pra mim o cartão dele. O cartão era em conta conjunta com a minha mãe, então, ele ficou com o cartão da minha mãe e falou assim: “Olha, esse cartão aqui é o dinheiro da família. Todo mês você vai ver o saldo, quanto entra, quanto sai, então você tem que, a partir de agora, saber administrar os gastos, porque se você gastar muito aqui, você vai tirar de lá. Eu não vou te dar uma mesada, você vai administrar de tal forma que a família não venha passar dificuldade”. Eu fui morar num alojamento da faculdade, que eram umas quitinetes pra morar duas pessoas, aí eu consegui uma vaga lá. Foi a primeira experiência que eu tive com a questão de gestão de custo, porque quando eu cheguei lá, ele falou assim: “Olha, você já tá chegando e aqui tem uma geladeira, tem um fogão, não tem uma televisão. Então pra você morar aqui, você vai ter que comprar uma televisão”. Eu fui com ele a Belo Horizonte e nós fomos comprar uma televisão. Foi a primeira vez que eu fui a BH. E eu comprei a televisão, uma Mitsubishi de 14 polegadas, paguei 330 reais, dividi em três vezes. Meu pai quase pegou o ônibus pra ir lá atrás de mim. Falou: “Você tá louco? A gente ganha 700 reais por mês, você gastou cem reais com uma televisão, ainda tem mais as suas despesas, mais as nossas despesas”. Foi quando eu vi que realmente o dinheiro que tinha na conta era pra todo mundo, não era só pra mim. Mas eu comprei a televisão lá. Até o ano passado ela tava aqui em casa, de lembrança.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+