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Minerando ouro

História de: Paulo Ferreira Gontijo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/08/2017

Sinopse

Paulo Ferreira Gontijo ouvia do avô histórias da mineração de ouro, Morro Velho, na mina de Nova Lima desde a infância. Paulo sabia que queria ser engenheiro, mas a influência do avô o fez escolher a Engenharia de Minas e fez seu primeiro estágio na Morro Velho. De lá, ainda trabalhou com ouro em outra ocasião, depois seguiu desenvolvendo sua carreira em outras frentes até que ingressou na antiga Rio Tinto Mineração, atual Kinross Paracatu, em 1989. Depois de muitos anos de casa, saiu para outros desafios, mas em 2015 voltou a integrar o time da Kinross e conta como foi o desenvolvimento da empresa, a importância das questões de segurança.

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História completa

[Os avôs] Por parte de mãe, é Sebastião Virgílio Ferreira, o meu avô materno. Ele era engenheiro de minas, formou-se em 1926 em Ouro Preto (MG). E a minha avó era dona de casa, apelido Lica, mas era Maria da Conceição Souza Lima, uma família bastante tradicional de Belo Horizonte. E o meu avô, interessante, se formou engenheiro de minas em 1926 e foi fazer uma pós-graduação na Bélgica, onde ficou por dois anos, retornou. Como naquela época a mineração não era tão desenvolvida ainda, ele mexia muito com a parte de ferrovia e depois teve uma parte da vida dele na mina de Nova Lima (MG). É a mina da Morro Velho, antiga Morro Velho de Nova Lima, eram ingleses os donos da mina de ouro. Até eu fiz estágio lá na minha época de escola, em 1983, no ano que eu me formei. E nessa época que eu fiz estágio lá, a parte mais profunda da mina chegava a quase 2.300 metros de profundidade. E a mina subterrânea, hoje já não opera mais.

[Na escolha da profissão] Teve uma certa influência sim, do meu avô. Eu sempre percebia, a gente ia muito, com uma frequência muito grande na casa dele. Encontrava os primos, a gente reunia a família sempre nos finais de semana lá e ele sempre tinha essas histórias, desde a época dele de engenheiro de minas em Ouro Preto.

Eu nasci na Rua Paracatu, uma coincidência, em Belo Horizonte (MG), me formei e saí de lá pra minha profissão.

Na faculdade, os dois primeiros anos é o famoso ICEX [Instituto de Ciências Exatas], que você vai bem as matérias básicas, não é nada ainda relacionado à sua área específica, né? Eu só comecei na Mineração no quinto período, no terceiro ano. Os dois primeiros anos só pra conhecer a turma, era misturado, tinha Metalúrgica com Arquitetura, era uma coisa só; você não tinha uma vivência da sua área. No quarto período, lá no ICG, Instituto de Geociências, a gente começou a fazer uma mineralogia, um curso mais ligado, que foi ótimo: “Opa, agora é a área que a gente vai começar”. Aí sim, no quinto período, quando a gente passou pra Escola de Engenharia, que o ICEx era na Pampulha, em BH, passou pro centro da cidade, onde existe a escola de Engenharia, até já não é mais hoje. A gente começou a fazer toda a parte especificamente da nossa área. Começou com exatamente a área que eu fiquei e estou até hoje, que é Tratamento de Minérios, seria a parte mais de beneficiamento de minérios, que foi o que marcou, não sei se foi o primeiro contato, mas foi a coisa que eu mais gostei. Apesar de que os estágios que eu fiz, fiz muito em mina, no caso de Nova Lima, lá de Morro Velho foi mina subterrânea, que não tinha nada a ver com tratamento de minérios. Mas o que me influenciou realmente foi o primeiro período na escola, o quinto período que seria o primeiro contato direto com a área específica mesmo, foi o que eu gostei mais, que fazia os ensaios, preparação de análise de amostra e tudo. Eu fazia toda essa parte que hoje a gente tem contato e faz, no meu caso específico, na minha profissão aqui em Paracatu e também nas outras áreas de interesse.

Agora, [o primeiro estágio] em uma empresa mesmo, uma mineração mesmo foi na Morro Velho, meu pai até conseguiu, por questões de que essa empresa lá de Nova Lima comprava veículos na agência do meu pai. E o sócio do meu pai conhecia muito um diretor, meu pai pediu pra ele: “Pede um estágio pra ele, está formando”. Foi quando eu fui no último ano, no nono período. E Nova Lima é pertinho de BH, então, não precisei mudar pra lá, saía cedo de casa e lá na mina era de 7 às 2 da tarde o horário, era só esse horário mesmo porque o horário de mineração de mina subterrânea é restrito a seis horas. A gente tinha de 7 às 14. Você já saía, almoçava e ia embora. Eu saía 6 horas da manhã de casa e na época fria porque julho, agosto, faz um frio, Nova Lima é muito frio. A gente ia cedinho pra lá, você entrava na mina e começava a descer a mina com os elevadores lá que desciam de uma vez 600 metros. E era linha de produção, tinha pessoas e o minério saía embaixo, nos skips, nos vagõezinhos lá. Então era muito rápido, você descia 600 metros, bum, já sentia o calor porque o negócio começava a descer e ia esquentando muito. E a mina chegou até 2 mil e 300 metros. Eu cheguei até lá no fundo uma vez, e as pessoas, os operários lá, eram somente com calção e a lampadinha lá, lunetinha e mais nada. Suando, um calor danado. E muita poeira lá dentro. Tinha o sistema de ventilação, era obrigatório. Não era tão bom quanto hoje, tão desenvolvido quanto hoje, mas tinha um sistema de ventilação.

Já o meu primeiro emprego na Mineração Porto Estrela que chamava, era de ouro, ouro de aluvião. E eu não tinha outra opção, eu queria ir também, tinha vontade de sair, de começar a minha vida profissional, eu tive essa oportunidade que pra mim foi muito boa pra questão de relacionamento. Tecnicamente é uma operação que eu poderia dizer simples, não tem uma parte técnica tão avançada, nem tecnologia, mas que pra mim foi muito interessante na parte de começar a vida profissional com relacionamento com as pessoas também. O primeiro contato com a profissão, foi muito interessante. Os profissionais de lá me acolheram muito bem, e a gente trabalhava numa região remota, que era Amazônia, norte do Mato Grosso, e eu morei num antigo acampamento de garimpeiros, que era um garimpo lá onde a empresa pediu alvará de pesquisa e depois lavra e tirou os garimpeiros de lá.  Nos primeiros seis meses, até ela construir casas, nós moramos nos acampamentos de madeira dos garimpeiros e sem nenhum problema, me adaptei bem.

Lá na Amazônia tem os vários igarapés, são os riozinhos pequenininhos onde está o ouro. A gente faz o plano de tirar aquilo ali com alta pressão, com monitores de alta pressão, você faz um desmonte, a gente chama de desmonte mecânico, com esses monitores com água e esse material que é desmontado vai numa bomba e vai pra plantazinha que tem uma jigagem que é um tipo de equipamento que você usa e usa o mercúrio também. No final do processo, quando você pega o seu concentrado, o mercúrio vai formar a amálgama. E essa amálgama é o produto final. E aí a gente tinha quatro plantinhas dessa lá, que tirava no final do dia, buscava essa amálgama e levava pra fazer a destilação e separar o mercúrio do ouro. No meu caso, eu era responsável por essa área de produção, de pegar esse material no final do dia, e no sábado a gente fazia essa destilação, pegava todo o material que foi recolhido durante a semana e destilava, separava o mercúrio do ouro e ficava a parte de ouro mesmo. E não era puro, você tinha que levar pra São Paulo.

[Já em Pacacatu...] O ouro aqui já tem a diferença, eu diria, no nosso caso seria muito questão do teor, o nosso teor é muito baixo, e isso é o que nos caracteriza ser bem específico no nosso caso, a mina de Paracatu é conhecida por essa, é a mina de mais baixo teor do mundo, de ouro.

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