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História

A morena de amarelo

História de: Coraci da Silva Neiva Batista
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/08/2017

Sinopse

Nascida em Miraí (MG), veio muito criança para Paracatu, cidade que considera sua. Quando criança, o pai a levava para as praias da cidade onde brincava com as filhas das lavadeiras e naquelas águas correntes. Estudou na escola Afonso Arinos, onde foi professora e diretora. Casou-se duas vezes com o mesmo marido. Ele era desquitado, e o primeiro casamento foi na Bolívia, e o segundo, depois que ele ficou viúvo. Muito chegada às artes plásticas, Coraci fez muitas telas e ainda planeja outras tantas. Além disso, ela conta como foi criar e estar a frente da Academia de Letras de Paracatu, cidade que aparece em suas crônicas.

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História completa

O meu nome completo é Coraci da Silva Neiva Batista. Na época em que eu fui registrada e onde nasci era Coracy, com y. Acontece que quando eu fui estudar no curso primário, que veio a reforma ortográfica, a professora tirou o y e botou o i! Eu nunca mais tirei, porque os outros documentos foram sendo escritos com i. Dá raiva, eu queria estar com o y. Eu nasci em Miraí (MG) e eu vim para Paracatu pequenina, nunca mais mudei daqui, amo Paracatu como se fosse a minha terra natal.

A cidade era toda calçada de pedras, pedras enormes. Casas coloniais pregadas uma na outra. E [a casa onde eu morava] era perto do beco, o Beco dos Malcasados, um bequinho que tinha ali. A minha casa era aquelas casas coloniais. E as pessoas sentavam nos degraus pra ficar batendo papo de noite, ou punha cadeira lá em cima para se encontrarem e conversar.

Essa casa ainda existe: [rua] Manoel Caetano, 107. Assoalho de tábuas largas, uma cozinha de cimento e tinha uma sala e três quartos. Depois, um outro cômodo grande, que a gente chamava de varanda, o banheiro e depois a cozinha e a dispensa, que guardava os alimentos. E o quintal, maravilha de quintal. Enorme e até onde abriu a avenida. O quintal era como se fosse um pomar, tinha tantas qualidades de frutas, parreira, laranjeira, mangueira, abacateiro... Uma variedade imensa. E eu, quando criança, em Paracatu, todo ano, vinha de fora um circo. Era a distração do povo, ir ao cinema, aquele prédio enorme que tinha lá perto da igreja do Rosário, ou ao circo. E nós crianças íamos ao circo, acabamos encantadas com os trapezistas. Sabe o que fazia? Eu era um capetinha, viu? Chegava em casa, as crianças iam brincar no meu quintal porque tinha muita fruta, e eu subia nas árvores e fazia tudo o que eu via o trapezista fazer no circo, dava um show de trapezista lá! Nessa casa que era assim, né?

Praia do Macaco, praia do Vigário, meu pai me levava e ficava sentadinho no barranco e eu nadando, brincando nas águas que corriam. Enquanto eu nadava e brincava, as lavadeiras estavam lavando as roupas e punham na areia pra secar, e as filhinhas delas nadavam comigo, eram minhas maiores amigas. Nós nadávamos na praia, não tinha piscina, né? A piscina nossa eram as lindas praias de Paracatu.

Eu frequentei a Escola Afonso Arinos. E mais tarde me tornei diretora dessa escola, fiquei acho que 30 anos lá.

Eu não dei aula muitos anos, eu fiquei como diretora mais tempo. Como diretora, eu fazia uma coisa que hoje ninguém faz: toda segunda-feira, após o recreio, eles ficavam todos no pátio e eu dava aula pra eles, cantávamos o hino nacional, todos tinham que cantar, e nós discutíamos sobre o civismo, a maneira de tratar as pessoas, de respeitar a pátria, era muito bonito. Maneira de respeitar um ao outro, de ser uma pessoa cidadã perfeita.

Na Escola Normal, daqui eu fui aluna de um grande artista, Afonso Roquete. Ele ensinava a gente principalmente a fazer criaturas humanas, nariz, rosto, corpo, é um espetáculo. Então, se a gente tem, dentro de si, aquela intuição de ser uma coisa, você luta por ela. Depois quando eu saí daqui e fui ser aluna no Instituto Educação fazer o curso de Administração Escolar, eu fui aluna de Jeanne Louise Milde, era nossa professora de desenho e pintura, uma grande artista. Quando voltei pra Paracatu, a gente tinha Jaci Rosa e outros que vieram aqui pra dar aula pra gente e depois veio a Cibele, eu me matriculei no curso dela e eu arranjava tempo até pra isso. Será que é por isso que eu estou velha e forte? Pintar é opção. O que eu queria pintar, casas, flores, o que eu gostava e me sentia feliz.

Sou cronista. Tem dois livros meus ali, já lançados, eu mostro pra vocês. E tem um terceiro prontinho que eu ainda não lancei, está faltando o nome que eu não pus ainda (risos) e como vai ser a capa do livro, os detalhes. (...) Por fim, me convidaram pra escrever pro jornal. E comecei a escrever crônicas de momentos vividos, que me emocionaram e aí eu fiquei cronista do jornal Movimento.

Eu tenho uma [crônica] muito engraçada. Uma dessas chama: “Eu vi no Beco dos Malcasados”. O seu Biló me contou um caso que ele vivia no Malcasado, era quase colado na minha casa, e ele era afilhado do seu Periquito. Aí então o seu Periquito arranjou um dinheiro, vendeu qualquer coisa, e resolveu fazer o túmulo pra quando ele morresse, já ter, né? Ele foi no cemitério e pôs no túmulo a fotografia dele e da esposa. E Biló, como era amigo dele, veio de fora visitar Paracatu, mas deu vontade de visitar o cemitério e foi no cemitério ver os parentes, rezar por eles. Quando ele estava voltando pra cá, ele encontrou com o seu Periquito lá nesse beco, mas ele gritou, gritou e correu desesperado achando que era o espírito do seu Periquito apareceu pra ele! Aí ele me contou o caso e falando comigo assim: “Eu vi, Coraci! Eu vi, no Beco dos Malcasados”.

Eu era aquela bonitona ali de 20 anos. Aí teve um evento, (...) nós fizemos uma excursão. Nós fomos a Vitória, no Espírito Santo, conhecer o navio José de Alencar. Lá no navio tinha um jovem num barco, ele tinha 18 anos, era da Marinha. Apaixonou pela Morena de Amarelo, eu devia estar com uma roupa amarela. No dia seguinte, ele descobriu onde a gente ia almoçar e ele foi pra me ver. E no outro dia nós nos despedimos diante de outro prédio famoso. Você acredita, quando eu fui pra Belo Horizonte, eu recebia sempre cartas dele, lembranças? Mas eu tinha um namoradinho em Belo Horizonte e não estava a fim. Por fim, quando eu mudei de endereço eu não mandei pra ele mais. Ele passou 60 anos da vida dele me procurando, sem achar. Diz que casou, viveu nove anos com a mulher, uma enfermeira, mas ela morreu. Tem só um filho com ela, mas ele continuou a procurar a Morena de Amarelo. Um dia ele foi na televisão, e achou Joaquim Barbosa, o ministro de Paracatu. Quando ele achou Joaquim, ele foi procurar Paracatu. Quando foi criada a Academia que eu tomei posse, botou meu retrato e minha biografia e dos outros acadêmicos. Então, ele achou a Morena de Amarelo, com a biografia e o endereço. Aí mandou pra Academia de Letras um pacote com 11 fotografias dele e uma carta de 11 folhas, contou a vida toda e o tempo todo que ele passou. Aí eu fui a Belo Horizonte, ele foi lá e encontrou comigo três vezes. Pois não é que o danado do homem tem dois anos que me telefona todos os dias. Apaixonou pela menina da excursão e nunca esqueceu.

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