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História

Um pouco do processo de "alembrar”

História de: Dona César (César Gonçalves Santana)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/08/2017

Sinopse

De masculino, é só o nome porque César Santana é uma mulher batalhadora que fez de tudo para sobreviver. Aprendeu a ler. Não na escola, quando ia, já estava cansada das tarefas que tinha que realizar antes de chegar a hora de aprender, mas, sim, quando chegou a Brasília que precisava saber os ônibus para circular pela cidade e, agora, utiliza esses conhecimentos para ler a Bíblia. Com seus mais de 70 anos, com um casal de filhos e netos, ainda trabalha, fazendo bolos de domingo e pão de queijo que são feitos com muito amor e vendidos na sua porta, aos domingos.

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História completa

Minha mãe, eu nem conheci. Meu pai eu conheci, que era Paulo Coelho, eles eram do Fundão, Fazenda Roça Fundão, naquele tempo era roça. Meu pai era carpinteiro, mexia com negócio de carro de boi, fazer roda, pôr aqueles pregos, banco, essas mesas, telhado. Agora, minha mãe eu não sei o que ela fazia. Só sei que eles faziam, na roça, farinha.

 

Era aquela pobreza, mas era aquela pobreza, aquela paz. O dia que tinha pra comer, comia, o dia que não tinha, não comia, e o que tinha, a gente ficava satisfeito. A gente brincava de cozinhar, cozinhava planta, esses trem, bordava nas folhas de bananeira, escovava com folha de laranja, folha de andu, brincava de comadre, boneca de sabugo, boi de mandinha. Era muito bom. (...) Aqueles banhos na praia, [a gente] tomava aqueles banhos na praia que a gente vinha cinzenta de tanto banho. Lavando roupa, tomando banho, e a gente pulando, dava salto mortal naqueles poços fundo, não tinha medo. Minha irmã nadava em ciminha da água. Tinha aquelas mulheres tirando o ouro, fazia aquele puxado fundo. E elas não gostavam que a gente tomava banho.

 

Meu pai fazia uma fogueira, que coberta não tinha, né? Ele fazia um fogo no meio da sala e ficava aquele fogo ali a noite inteira aquecendo. E ele falava: “Meus filhos come pedra ou pau, mas é junto comigo”. Separamos quando ele estava ruim, minha irmã mais velha arranjou um emprego pra mim, eu fiquei no meu emprego. Mas era bom, foi bom porque não precisou roubar, não é? Por isso eu sei viver, com pouco e com muito. Na minha casa é assim, o que eu como, qualquer um que chegar, come. O que bate na minha porta pedindo, o que eu tenho, eu dou, se tem pouco, eu reparto.

 

Quando eu entrei na escola, mas não fiquei muito tempo, estudei mais lá em Brasília, que minha patroa ensinava. Eu tinha que deixar o fogo acesso, café pronto, feijão no fogo, água puxada, água buscada na praia pra beber e cozinhar, tinha que encher as latas d´água e aí ia pra escola. Chegava lá também, não aprendia nada.

 

Tudo quanto era serviço que aparecia pra ganhar o pouco ou o muito eu fazia, não é? Porque veio pouco, veio muito: o pouco com Deus é muito. Se vinha uma roupa para eu passar, eu passava. Pra lavar, eu lavava. De domingo, os jogadores jogavam, terminavam lá, traziam as roupas e, de domingo mesmo, eu lavava. Eu tinha esse dinheiro, não é? Eu já fiz geladinho pra vender, até isso eu já fiz. Tudinho. Lavagem eu já busquei nesse Paracatu todinho. Trouxa de roupa, toda vida, eu lavei aqui porque eu tinha meu marido pra comer na hora, tinha meus filhos pra buscar na escola, tinha pra levar, tinha as comida deles, então lavava tudo aqui.

 

[Tirei ouro também e] Era um caixote com uma bica de madeira que pegava o ouro era o saco. (...) Ia apanhando aquele cascalho, fazendo aquele puxado e tirava a prova, né? Se desse o ouro ali, ali ia armar o puxado. Aí ia puxando aquele cascalho, ia puxando, puxando e pondo na beira. Assim ia fazendo. (...) Quando aquele cascalho estava ali, a gente ia apanhar com a pá, tinha um ralo feito de lata, sabe? Ali punha aquele cascalho e ia lavando, “ponhando” na água e lavando o cascalho e aquele que a gente falava gró. O gró ia pegando no saco de linhagem. Você lavava só dois caixotes por dia porque demorava muito pra lavar, apurar o ouro. Aí ocê lavava aquele pano na bateia, tirava aquele pano, lavava o caixote, aquele gró que desceu pro caixote? O fundo do caixote, você ia lavar e ele ia descendo pro pano. Tinha que lavar devagarzinho porque senão o ouro ia embora. (...) Tinha um imã que a gente puxava ele com o imã. Punha num prato, tirava, escorria aquela água todinha, secava no sol, chegava com o imã, o imã pegava só o esmeril. Pegava esmeril, o ouro ficava purinho. Aí a gente punha num vidrinho, quando era fim de semana, dia de sábado, ia pra venda trocar aquele ouro. Ali onde trocava aquele ouro. O dinheiro já ficava ali, fazia as compra e ali já comprava o toucinho, o arroz. Tinha uma balancinha que eles pesavam, os vendeiros, que a gente trocava na venda, trocavam ali, pesavam: vintém. Um vintém, dois vintém. Tinha uns ouros grossos, outros já eram uns ouros fininho. Eu já tirei ouro dentro desse rasgão aí.

 

Amareliiinho. Uma vez uma mulher foi tirar o ouro, ela foi tirando lá, aí ela foi juntando num vidro assim, ó. Já estava por meio e não tampou bem tampado, quando ela passou na água lá, ela escorregou, caiu e foi embora o ouro (risos). Ah, o ouro foi todinho, meio vidrinho. Aquele ouro finiiinho.

 

Era o dia inteirinho na praia tirando ouro, chegava quase oito horas esperando a água esquentar. No tempo do frio, quando a gente pisava na água o seu pé doía. E você tinha que aguentar aquela água ali o tempo todo, o tempo todinho. Aquela enxada grande, com o cabo grande, você puxando o cascalho do fundo, tinha puxado e ficava fundo demais. E ocê via mais era mulher tirar ouro. Os homens tinham mais serviço pesado, e as mulheres iam pro ouro. Tinha homem tirando ouro, mas mais era mulher tirando ouro e coando areia. Tinha o caminhão, tinha os carroceiros buscando areia o dia inteirinho na praia, que a mulher coava. A gente coava aquela areia, vendia. Tinha um monte de carroça e um monte de caminhão, que a gente coava. Hoje eu vou coar um caminhão de areia, era o dia inteiro. Você vinha, ia coando areia, a areia vinha até aqui, ó. Você ia coando, aí quando você arrancava o pé do lado de dentro da areia, ia pra frente, pra ir formando mais, ia “compridando”, “compridando”... Aí o caminhão chegava e comprava aquele caminhão de areia. A areia não dava, fazia o dinheiro na areia, mas era barato, né? O dia inteirinho carroceando na praia, apanhando areia.

 

Eu nunca pensava de ter o que eu tenho, nunca pensava. Porque eu vim da pobreza mesmo. Porque tem gente que vem da pobreza, e eu sou uma pobre que eu nunca sonhei e eu sempre sonhei em crescer. Cresci até assim, tá bom, meus filhos trabalham, eu ainda to trabalhando, to com minha casinha boa ou ruim, mas tô aí. Mas cresci porque do jeito que eu vim, da pobreza que eu vim, e do jeito que meus pais morreram, não tinha nada, a moradia nossa era o emprego, hoje eu tenho a minha casa.

 

Cheguei até agora. Ainda estou pedindo a Deus pra eu ir até os 300 anos; lúcida, né? Porque sem ser lúcida não dá, faço, trabalho, então, eu quero ir até os 300, vendo meus netos, os filhos dos meus netos, tudo aí!

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