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De um tudo

História de: Ana Maria Oliveira Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/08/2017

Sinopse

Ana Maria Oliveira Souza nasceu no interior do Maranhão e lá, desde pequena, aprendeu os benefícios da culinária saudável e aprendeu também a costurar. Essas atividades ela traz consigo até os dias de hoje, sempre às voltas de muita pesquisa, motivada pelo respeito às tradições. Ana mudou-se para São Paulo depois que terminou a escola, ingressou no mercado de trabalho, sem nunca deixar de lado essa sua aptidão para os trabalhos manuais. Depois de cursar Hotelaria, trabalhou em hoteis e com catering até que se mudou para os Estados Unidos para ajudar o irmão que tinha ficado viúvo. Ao voltar para o Brasil, Ana mudou-se para Paracatu, onde mora com sua irmã mais nova e juntas trabalham para valorizar os trabalhos artesanais, tanto com as bonecas e a costura, como com a quitanda.

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História completa

Dom Pedro (MA) é uma cidade muito pequena ainda e, como Paracatu (MG) e muitas outras as cidades do mundo, as pessoas são bairristas e muito tradicionais. Dom Pedro não era diferente. Meu pai era caminhoneiro, cearense e viúvo. Quando ele chegou na cidade, conheceu a minha mãe que tinha 18 anos, e eles começaram a namorar em seguida, e a minha mãe foi deserdada porque não podia casar com um forasteiro. Mas eles viveram 32 anos de casados. Meu pai era caminhoneiro e um grande negociante, um homem muito inteligente que não aprendeu a ler até conhecer a minha mãe, que não ia casar com um analfabeto. Ela era professora primária, formada com 16 anos nas escolas antigas.

Quando eu tinha 4 anos, eu adoeci, eu peguei tifo, febre tifoide, e foi uma doença muito longa com recuperação muito lenta e foi daí que foi reforçado a ideia de que comida é remédio. Eu fui tratada por um enfermeiro que era raizeiro, uma pessoa que entendia muito de alquimia alimentar e cuidava de mim. Muita gente que teve febre tifoide morreu e, nessa época, a mamãe, o papai eram sempre muito presentes, e uma das recomendações era que tudo que fosse feito para mim fosse com água filtrada, e eu só podia tomar água de coco. Então, o papai comprava carradas de coco, e a minha alimentação não podia ser requentada, tinha que ser toda fresca e toda natural, e isso a gente tenta fazer até hoje.

Meu pai estava sempre viajando, e a mamãe que cuidava da gente porque ele estava na estrada direto e ele viajava muito para muitos lugares bons, inclusive o grande mercado de São Paulo. Hoje, as coisas que estão na moda, a gente conhecia desde pequena, porque o papai passava no mercado e levava tudo: nêsperas, ameixa, tâmaras. Eu conheço tâmaras desde que eu era criança porque ele levava para a gente. Então, nunca teve isso de barreira de não poder. E eu viajava muito de caminhão com meu pai e eu levava todas as minhas roupas, uma sacola de sapatos e uma de pão.

A minha avó madrasta se chamava Lurdes, a mãe dela foi pega no laço, ela era bem índia e ela cozinhava muito bem, e eu aprendi uma coisa muito importante com ela: todo dia de manhã, ela saía com um pratinho coberto com um paninho bordado e levava para algum lugar e – eu ficava curiosa, eu era um toquinho e aí um dia eu perguntei a ela – de tarde ela voltava com o pratinho vazio e o paninho dobrado dentro. Um prato fundo de esmalte. Eu sempre achei que perguntar não ofende, você pode perguntar o que quiser para uma pessoa, não é ofensa, ela responde ou não. E naquele tempo, as crianças não falavam, eu aprendi a falar cedo e, um dia, eu falei: “Vovó, o que a senhora leva naquele prato e aonde a senhora vai, que a senhora volta com aquele prato vazio?” Todo dia da vida da minha avó, ela vendia um prato de quitanda no Mercado Central que era em frente a nossa casa. Quarenta e tantos anos depois, (...) quando eles separaram, sabe o que ela fez com o dinheiro desse pratinho de quitanda? Ela comprou o lote do lado da casa dele chamou o engenheiro e falou: “Agora, eu vou fazer a casa que você nunca me deu! ”. Fez a casa que ela queria, aí eu pensei: “É de grão em grão que galinha enche o bico, né? ”. Por isso que eu vendo quitanda, porque todo mundo come, comida boa todo mundo quer.

Eu vim passar um mês em Paracatu. Nem bebi a água, estou aqui até hoje. Eu gosto daqui. A minha mãe morava em uma casa de beco, que aqui tem muitos becos, na [rua] Rubens Bittencourt, uma casa linda com muitos pés de jabuticaba que ela fazia tantas geleias e doces importantes e bons. E ela fazia um monte de coisas tudo, continuou bordando, minha irmã e minha mãe tiveram banca de artesanato na Feira.

Eu abracei a cidade, eu amo esse lugar.

Eu costuro, eu bordo o bordado antigo, o ponto cheio, a bainha aberta, todos as flores feitas com rolotê que é um cadarçinho feito de tecido, eu não pinto, eu não desenho e eu faço todas as coisas de casa, costura reta, cortina, colchas, faço roupas para mim, aumento, roupas de boneca, além de cozinhar as quitandas, eu faço pesquisa de idiomas e eu busco na internet também muitas informações.

[As quitandas] Eu faço e ofereço para os meus amigos, eu tenho umas forminhas número 00 que não dá nem para encher a boca desses meninos porque o cara tem que por quatro na boca, cinco. Eu faço das degustações pequenininhas e levo para a Casa de Cultura, para o Museu, para a Biblioteca. Da minha avó, eu trouxe biscoitos de gengibre, aí eu descobri na pesquisa de culinária que eu faço desde que eu nasci. Eu comecei a cozinhar de verdade com 9 anos, por causa de um surto de gripe que teve, não sei se no mundo, e todo mundo da minha família ficou acamado, menos eu. Eu ia na cama da mamãe, e ela me falava cada pedacinho de cebola, cada porção de comida para eu fazer para a família, porque nós não tínhamos empregados. Aí eu lembro da minha avó com aquele pratinho de comida, você não precisa ganhar 1 milhão de reais você precisa gerenciar 10 reais. E comida é uma coisa que a pessoa precisa tanto quanto o oxigênio, e comida boa é o que todo mundo quer. Eu gosto de pensar em quem vai comer. E tem que cozinhar com coisas simples e sem muito salamaleico.

[Artesanato] Para mim é tradição, nós já nascemos vivendo isso. Já nascemos vendo a minha avó, as minhas tias-avós não sabiam ler, mas elas sabiam todo o tipo de renda do mundo, o acabamento francês que é um acabamento de terno de alfaiate, fazer uma barra invisível, não é todo mundo que sabe fazer uma barra invisível. Então artesanato para mim é parte da vida.

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