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História

Com a mão na massa

História de: Dália Gabriela Ulhôa Bijos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/08/2017

Sinopse

Em seu depoimento, Dália Gabriela Ulhôa Bijos conta as peraltices da infância somadas aos momentos de dedicação a diversas atividades como desenhos, os mais diversos, trabalhos com comida e com cortes de cabelo. Dália morou um tempo em Belo Horizonte para fazer cursos de artes, mas voltou para Paracatu, onde começou a trabalhar com um ateliê de ferro, fazendo esculturas. De Paracatu, passou um tempo em Brasília, de onde saiu para acompanhar de perto a reforma da casa dos pais – uma casa centenária que ainda preserva sua característica colonial, estilo pelo qual Dália se apaixonou. Sabendo das potencialidades da cidade, Dália conta desse processo de trabalho com esse estilo, somado às características naturais e culturais da cidade.

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História completa

Eu desenhava de tudo. No começo, eu desenhava mais flores, daí depois passando pra desenhar super-herói, às vezes, animais. Não tinha uma coisa específica, não. Gostava de fazer também, quando era menor, uns 9 anos, eu acho, tatuagem de nanquim. Aí eu fazia tatuagem e cobrava do povo. Os meninos tudo, os colegas tudo, as colegas, todo mundo fazia. Quando eu fiz uma em mim, todo mundo: “Ah, eu quero, quero”. Foi quando surgiu a tinta e fui fazer. (...) Eu cortava cabelo também quando era pequena. Minha mãe sempre teve salão, né? Aí eu pegava os meninos de cá, os vizinhos, cortava o cabelo deles pra aprender, ficava cortando, aleijava tudo. Pegava o cabelo das meninas que trabalhavam aqui em casa, cortava, pintava também, sempre fui de ficar inventando a moda, procurando o que fazer. Depois mais adolescente, eu cortava cabelo de todo mundo, meus colegas tudo. Tinha amigo meu que já tinha ido estudar em Brasília, sempre cortava comigo, ligava: “Estou chegando aí pra cortar o cabelo”, aí eu cortava o cabelo, todo mundo fiel, vinha quase toda semana, de 15 em 15 dias corta o cabelo, que fica curtinho. Fiquei muitos anos cortando cabelo.

Quando eu era pequena, eu sempre gostava de fazer planta [de casas]. Depois, quando eu cresci começou a aparecer [projetos de] reforma, essas coisas. (...) Tudo o que eu queria fazer era construir, então pra mim foi ótimo.

E, também, desde novinha, adolescente, 15 anos, 14 anos, eu fazia salgadinho. Pra mim foi muito importante, saber cozinhar. Porque eu faço um pouquinho de tudo, tudo eu faço um pouquinho, só não sei muito mexer em escritório, papel, isso eu não dou conta. Mas o resto, o que você falar para fazer, eu faço. Mexo com comida, mexo com evento, mexo com construção de casa, com arte, pinto algumas coisas. E assim vai, vou vivendo, feito doida tem dia. Hoje é isso, amanhã é outra coisa. Mexo com um pouco de tudo.

Eu peguei um pouco da culinária da minha mãe e da tradição dela, eu faço um pouco. Hoje, eu faço um pouco do que ela fazia, que era assar leitões, pernil, essas coisas. Hoje, sou eu que faço essa parte, que ela nem dá conta mais, então eu herdei isso aí de fazer comida, de gostar. Pra mim é satisfatório demais, principalmente pra mim que não formei, então é o meu trabalho, é construir, é mexer com comida, é o que eu vivo,

[Certa feita, quando morava em Brasília] Meu sobrinho falou: “Ah Dália, eu vou reformar aqui, vou fazer isso e isso”. Eu falei: “Não, não vai mexer na minha casa sem eu estar aí não”. Acabou que deu certo porque eu já não estava querendo ficar lá mais, e a gente ia reformar a casa aqui, eu falei: “Minha casa só comigo aí, só eu pondo a minha mão, senão não reforma de jeito nenhum, não vai destruir a minha casa colonial, não!”. Aí eu vim embora, guardei as coisas do ateliê, e a gente já começou na casa. Foi quando eu reformei a casa aqui. Eu fiquei cinco meses reformando, eu junto com os pedreiros. Eu que fiz essas escadas, essas coisas tudo de pedra fui eu que fiz. O banheiro, todo, foi eu que bolei. Limpei as madeiras, tirei as madeiras antigas da casa, limpei uma por uma e voltei pro lugar. Os pedreiros não queriam limpar: “Eu não vou mexer com isso não, madeira velha, põe fogo nisso”. Eu falei: “Não, não é assim, não. Isso aqui presta e vale muito”. Porque se não fosse por mim, eles queriam fazer viga de cimento. Eu falei: “Não, não é assim, não. Nós vamos usar tudo. E não é pra quebrar um tijolo”. Eu brigava com eles. Às vezes um chegava, metia a marreta nas paredes pra cair. Eu falava: “Não é assim não, você vai tirar tijolo por tijolo, aqui é assim, você vai tirar, vai conservar e vai voltar ela pro lugar, não é assim não”. E fomos brigando e fazendo a casa. Mas saiu do jeito que eu queria.

Onde era o quarto do meu pai, que hoje é o meu quarto, estava caindo. A madeira tinha ruído toda, estava só o pó mesmo, e o telhado estava afundando. Aí ele falou: “Dália, tem que arrumar lá”. Eu falei: “Então vamos arrumar, mas vamos arrumar outras coisas também, vamos arrumar o banheiro que está precisando”. Aí começamos, aí ele falou: “Dália, não tenho dinheiro”. Eu falei: “Corre no banco lá e arruma um dinheiro lá, faz um empréstimo”. Aí fizemos um empréstimo e começamos a construir. E fomos fazer. Porque estava caindo, sabe? Aqui estava afundando, aqui na sala o piso já tinha partido no meio. Estava um perigo as paredes caírem, sabe? Porque a casa é muito antiga, essa aqui é a terceira casa construída na rua, aqui na Rua Goiás. Muito antiga. Essa casa tem mais de 200 anos, acho que é mais velha que a emancipação da cidade, então ela é muito antiga.

Logo quando eu comecei a reformar aqui não tinha muita reforma na cidade, não, de restauração tal. Tinha Fábio [Ferrer], o Fábio fez o chafariz. Fábio morava aqui, na época até e antes de eu reformar, ele tinha ido embora pra Brasília, mas ele tinha morado aqui, então aprendi muita coisa colonial com ele, tudo o que eu sei hoje de colonial aprendi com o Fábio. Eu aprendi a gostar mais e falei: “Eu quero a minha casa toda colonial, eu que vou fazer”. Só reformei algumas paredes que estavam caindo, eu voltei o adobe, não tirei; as madeiras eu limpei tudo, voltei tudo pro lugar, só do telhado mesmo que é de caibro teve que trocar porque era muito velho, estava muito ruído já, muito cheio de cupim. E o resto, janela, tudo é original da casa, as portas.

Quando eu fiz a minha casa foi um boom também, veio muita gente aqui visitar, vinha o povo de escola com os alunos, veio prefeito, veio um tanto de gente visitar minha casa, era o dia inteiro gente visitando.

O primeiro [cliente] que me chamou foi a dona do Flor de Alecrim [um restaurante da cidade], pra reformar lá: “Você podia me ajudar aqui, tal, que eu quero colonial também a casa”, que a casa lá era colonial. Aí eu fui, fiz um trabalhosinho para ela, ainda mexia com ferro na época, aí fiz umas coisas de ferro, umas luminárias e tal e fui dando uns toques também de como arrumar. A gente fazia muito imitação de madeira no cimento e lá precisava fazer em algumas partes, aí eu fiz a decoração de lá e começou um chamar, outro chamar. Aí eu larguei o ferro e fui mexer com essa parte de decoração de casa, construção e estou até hoje.

Aprendi a amar o colonial.

Meu sonho é construir mesmo, construir alguma coisa que vai chamar a atenção na cidade, não sei o quê. Eu acho que eu tenho esse sonho, de construir uma coisa bem grande, coisa pra chamar a atenção, nem que fosse pra fazer um restaurante, alguma coisa!

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