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Trazendo novidades para a cidade

História de: Lazy Ulhôa Bijos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/08/2017

Sinopse

Lazy Ulhôa Bijos nasceu em Paracatu, cidade onde cresceu. Ainda muito novinha, apresentou sintomas de asma que preocupou a família e a fez ser bastante paparicada pelos pais e irmãos. Lazy completou seus estudos num colégio interno em Lavras, onde aprendeu a usar calça comprida, de “homem”, e a andar de bicicleta. Quando ela chegou com essas novidades, a cidade ficou espantada. Foi da família também o primeiro carro que circulou nas ruas e o primeiro salão de beleza, que ficava a cargo de Lazy. Além dessa atividade, Lazy sempre gostou muito de cozinhar e falar das comidas e dos preparos ainda a anima – tanto que o presente que recebeu das duas filhas foi um livro com fotografias de suas receitas. Lazy mudou-se para o centro da cidade e até hoje vive na casa que escolheu, uma casa que acompanhou o desenvolvimento da cidade e, depois de reformada, representa um cartão-postal de Paracatu.

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História completa

Lazy Ulhôa Bijos, filha de Paracatu (MG). [Sobre o meu nome] Meu pai leu numa revista. Chegou perto de minha mãe e disse: “Se essa criança for mulher, você vai pôr o nome de Lazy”. “Cruz credo, que nome horroroso.” “Era uma criança muito boa, então minha filha vai ser muito boa.”

Papai foi fazendeiro muitos anos, depois largou, mudou para Ipameri (GO), isso no tempo de rapaz, não tinha casado ainda não, mudou pra lá, foi prefeito em Itumbiara (GO) e quando minha mãe nasceu, meu avô convidou ele a vim tomar champanhe, ele veio. Na hora dele despedir do meu avô, ele falou: “Seu Nelson, eu vou falar uma coisa com o senhor, eu vou, mas eu volto pra me casar com ela”. Voltou e casou, ela com 15 anos. E ele com 25.

A fazenda era de gado. Depois, ele largou a fazenda, vendeu tudo e comprou o Morro do Ouro. Lá mais os meus irmãos bateavam pra tirar ouro. Meus irmãos e a turma de Paracatu bateava com as bateias nas enxurradas da chuva e tirava muito ouro. As bateias eram guardadas na casa do papai, na dispensa que tinha.

Tidas Modim. Ele comprava o ouro. Ele era ourives. Papai ganhou muito dinheiro com o ouro. Sustentava a casa, que não tava trabalhando mais, quem bateava eram os meus irmãos e ele.

O primeiro carro motorizado que entrou aqui foi dele, foi ele quem trouxe do Rio de Janeiro. Ele foi para o Rio de Janeiro, chegou lá e foi aprender a dirigir. Aprendeu, comprou o carro e trouxe, foi até Ipameri na estrada, de Ipameri pra cá. Ele trouxe três peões no carro com ele e fizeram até balsa para passar o rio São Marcos, eles fizeram a estrada e fizeram a balsa para passar no rio. Chegou aqui, tava turvando o dia e teve um velho que morreu apavorado com o barulho do carro, ele sofria do coração, tadinho, ficou muito assustado, e isso ele contava pra nós, né? E logo que ele passou em frente a Matriz, a igreja estava cheia de fiéis assistindo a missa, saiu todo mundo correndo e largaram o padre sozinho. O padre ficou apavorado com o barulho e os faróis ligados, e teve uma senhora que deu à luz fora de tempo do pavor que teve do carro. Que coisa, né, gente?

Todo mundo queria saber o que era aquilo. Foi uma pena que papai não conservou esse carro, podia ter conservado, né? Um Ford Bigode que ele trouxe a primeira vez aqui. Foi um alvoroço na cidade esse carro. A cidade era pequenininha, né?

Eu fui pra Lavras (MG), me internaram no Colégio Nossa Senhora de Lurdes. Quando eu cheguei lá, eu fui com uma prima que era casada com um fazendeiro lá perto, e papai me entregou pra ela, pra ela me internar no colégio, sabe? Então, ela que me levou a primeira vez, que me internou lá e, todas as férias, ela me buscava pra eu passar lá na fazenda, andava muito à cavalo, usava muita calça comprida e quando eu vim de lá que eu tava usando calça comprida, minha vó deu um chilique horroroso com o meu pai que tava deixando eu usar calça de homem.

Todo mundo ficava horrorizado que eu saía na rua, outro dia mesmo, tem um sobrinho do meu marido disse que era pequeno quando eu atravessei a rua pra casa da minha tia de calça comprida, e todo mundo ficou horrorizado eu de calça comprida.

Bicicleta também, primeira moça que andou de bicicleta foi eu.

A gente ficava internada lá e era muito bom e eu gostava muito das irmãs, elas tinham muita história comigo, sabe, muito carinho, muita atenção e com isso, eu prendia, eu cortava o cabelo das minhas colegas, fazia penteado, quer dizer que eu já tinha aquela vocação pra profissão, né?

Fiz curso em Patos [de Minas, MG], com um professor, e ele veio aqui, montou o salão pra mim, e papai e os meus irmãos ficaram horrorizados da quantidade de mulher que ficava sentada o dia inteiro esperando pra pentear, pra cortar, pra fazer permanente. O dia inteirinho na casa da gente, papai ficava horrorizado.

O primeiro salão de beleza que teve aqui, fui eu que montei. A sociedade daqui, todo mundo, toda senhora ia, toda moça ia pro salão. Tinha dia que ficava em casa o dia inteiro. Pintava, lavava, penteava, fazia permanente, fazia tintura, fazia tudo no salão.

A dona dessa casa aqui chamava dona Doia, viúva, tinha muitos filhos e aí, quando começou Brasília, os filhos mudaram pra lá, depois de um certo tempo, vieram buscá-la, e ela pôs a casa à venda, e eu na carreira, cheguei aqui e falei: “Aquela casa é minha. Qual é o preço?”. “Dois contos e 500”. Fui lá no banco, busquei o dinheiro e paguei. Mandei pintar a casa, mudei pra cá e tô aqui há 44 anos.

Quando foi um dia, Dália Gabriela [filha mais nova] falou comigo: “Mãe, eu acho que eu vou dar uma reformada nessa casa da senhora”, “Com que dinheiro, minha filha?” “Da onde, sair eu vou fazer”, aí foi o meu neto que me emprestou 70 mil pra arrumar a casa, que ele já trabalhava fora, né? Então, ele me emprestou o dinheiro. Aí fui pagando ela devagar, mas paguei tudo.

Foi ela mesmo, Gabriela que fez o projeto, que arrumou tudo. E eu mudei daqui pra casa da frente, porque eu não podia com pó, poeira. A casa era toda de adobe, teve que desmanchar paredes, então eu não podia com aquele cheiro de adobe, da terra, né? Aí, eu mudei pra casa da frente e não vim cá nem um dia pra dar palpite. Quando eu entrei aqui no dia que ela me buscou lá na fazenda da minha sobrinha, a casa tava repleta de gente, até o padre tava aqui pra poder benzer a casa, que eu entrei, eu fiquei tão emocionada, mas tão emocionada que eu não tive palavras pra agradecer ela. E nesse mesmo dia, minha glicose tava 400, correram comigo pro hospital, de emoção, né?

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