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“Eu saí de Paracatu, mas Paracatu nunca saiu de mim”

História de: Antônio de Oliveira Mello
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/08/2017

Sinopse

Antônio de Oliveira Mello nasceu e cresceu em Paracatu. Seu pai teve um armazém e, na sua meninice, o ajudava vendendo alguns itens com um de seus irmãos pelas ruas da cidade. Oliveira Mello conta como era a movimentação da cidade, como chegam os produtos pelo rio e como eram os passeios às praias. Oliveira Mello conta também das apostas no Jóquei e como foi o processo de mudança de escola para o Seminário em Itu (SP), momento em que começou a se dedicar a pesquisar e a escrever sobre a história de sua cidade. Em sua trajetória, publicou muitos livros e juntou um acervo riquíssimo sobre Paracatu que deu origem ao Arquivo Municipal.

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História completa

[A venda do pai] Foi na Rua do Peres, esquina com a Manoel Caetano. A venda eram duas portas, ou três? Acho que eram três portas na Rua do Peres, com a casa de residência anexa. Ali que era o armazenzinho dele, que a gente chamava de venda. Era o termo que usava na época. E ele vendia de tudo. O povo gostava muito de comprar as coisas dele, porque ele sempre foi um homem muito sistemático, muito correto, excessivamente correto, ele não vendia nada que não tivesse garantia de primeira qualidade. Inclusive, muita coisa era feita por minha própria mãe, em casa. Eu me lembro de que lá, chegavam uns capados, sabe o que é capado? O porco morto. E ele nos botava, meninos, pra tirar a gordura, limpar tudo, e minha mãe depois ia picar pra fazer linguiça, pra gente sair vendendo na rua no outro dia. Saíamos, meu irmão e eu, pra rua vender linguiça. E quando vinha da roça, naquela época, o surubim... Dourado, matrinxã. Esses peixes pescados no Rio Paracatu, eles salgavam tudo e vendiam. Meu pai era um exímio comprador. Comprava e botava a gente na rua pra vender. Tudo salgado, pra não perder, que não tinha luz, não tinha geladeira, não tinha nada. Eu lembro até de uma disputa, isso é coisa curiosa, uma disputa do meu irmão e eu pra ver que saía primeiro pra vender onde era bom. E eu costumava correr na frente dele pra ir lá ao Puxa Faca de Jorge, na zona boêmia, na casa das prostitutas, e Jorge com a Arminda, a mulher dele, eram os cafetões, os que tomavam conta lá das mulheres. E a gente sabia que era venda certa. A gente corria pra vender lá no Puxa Faca de Jorge, na Rua do Piolho. A Rua do Piolho lá em Paracatu, pra vocês terem uma noção, é onde hoje está à sede da Telefônica de lá, acho que se chama hoje Rua Benjamim Carneiro. 

Nós todos almoçávamos juntos na mesa posta, tinha o horário na venda. Minha mãe brigava muito com ele [papai], porque qualquer roceiro que estivesse lá no balcão, ele chamava pra comer. Tivesse comida ou não tivesse, ele convidava. Eu lembro que tinha um Serafim, ele vendia muita banana, naquelas bruacas, colocadas num cargueiro. Mamãe tinha ódio mortal desse Serafim, por isso, ele só chegava lá em casa na hora do almoço de propósito, pra papai chamá-lo para o almoço. E mamãe brigava muito.

Quando menino, papai me botava muito pra vigiar a venda, porque ele ia lá pra dentro, não tinha movimento nenhum, o movimento que tinha era cavalo amarrado na porta, (...) pra ninguém furtar, como se tivesse ladrão naquela época. Não tinha ladrão nenhum, a gente dormia de porta abert a, ninguém tinha preocupação em fechar a porta, fechar a janela, tinha nada. E naquela época, Paracatu era um isolamento, todo mundo conhecia todo mundo, e sabia até os hábitos de cada um. Aquela vida ali bem circunscrita.

Nós tínhamos um passeio muito gostoso, que era na praia. O que era a praia lá? A praia era o Córrego Rico. O Córrego Rico era dividido em várias fases de praia, nós íamos muito à Gruta de Vênus, cujas fotografias tem lá bastante. Da praia, nós descíamos, tinha a Praia do Macaco, que é onde passa a rodovia hoje dividindo. A Praia de São Gonçalo, que nós íamos, depois descíamos ali, você vê onde tem uma ponte, descíamos, ali nós íamos pra praia predileta que era a Praia do Vigário, que era o entroncamento do Córrego da Espalha com a praia, com o Córrego Rico. E a praia, ali nós todos banhávamos, tomávamos banho ali. (...) Papai nos levava, eram dias deliciosos... Eu conto isso no livro, não conto? Ele gostava da cervejinha dele no sábado, no domingo, levava as cervejas, a gente fazia as cacimbas pra ele, ele colocava na água pra cerveja perder aquele calor forte, de quente ficar mais fria. Enquanto isso, a gente ia fazer cacimba, brincava, era uma vida gostosa. Não precisava de praça de esporte, era bom. Nós gostávamos demais. Quando falava que ia pra praia, já tava todo mundo saindo. E minha mãe fazia o almoço mais cedo, levava o almoço pronto, chegava lá, pegava as pedras, fazia a fogueira pra esquentar a comida. E comia, ficava quase que o dia inteiro lá. Saía cedo, voltava já à tardinha.

O Jóquei Clube, mamãe deixava a gente ir, eu era menino. Era longe... Hoje é um dos bairros mais chiques de Paracatu. O Jóquei Clube era paixão. Brigava por causa de cavalos, os bons cavalos, os corredores. Lá tinha uns criadores de cavalo, por exemplo, Rodolfo de Oliveira Mello, meu primo, tem o apelido de Rodolfo Cavalo. Era aquela ânsia de ter os melhores sangues. E Paracatu atraía tanto isso que em 1949, em novembro, o Assis Chateaubriand foi a Paracatu com a comitiva enorme, inclusive o presidente do Jóquei Clube brasileiro, foi uma das maiores festas que já houve, com participação de toda a população, com teatro, com tudo. E foram grandes poetas como Anna Amélia Carneiro Mendonça, o grande historiador Marcos Carneiro Mendonça. E o prado lá pra gente no domingo era uma beleza. Uma pena que era temporada, mas nessa temporada a gente ia, eu chegava em casa rouquinho de gritar nome de cavalo, pra passar na frente, passar outro. Eu era menino. A gente dependurava. O Jóquei Clube lá foi marcante, tanto social, como cultural, e como financeiramente. O povo jogava. Eu mesmo era um que jogava, fazia aposta lá tranquilamente. Porque os meninos não eram proibidos. A gente pegava o programa, marcava qual o cavalo que ia ganhar primeiro, 10 mil réis, você fazia ali, você ganhava. Se você não ganhasse, paciência. (...) Eu já ganhei várias vezes. Eu era bom, porque eu conhecia bem os cavalos, eu ia à baia pra ver os cavalos.

E lá em Itu (SP) eu me dediquei a muita coisa. Teve um padre lá, que eu devo muito a esse padre, já deve ter morrido há muitos anos, frei Mário Bastos, ele notou que eu tinha esses interesses e me ajudava, me influenciava. Eu lembro que ele percebeu que eu gostava de história, e ele mandou que eu lesse os livros de Paulo Setúbal. (...) Nós tínhamos o grêmio no seminário chamado Beato Batista Mantuano, e lá a gente escrevia, lia, fazia discurso, era uma coisa muito boa, muito positiva na aprendizagem da gente. E lá no seminário, uma das coisas de impacto que eu sofri foi de me perguntarem sobre Paracatu, eu não sabia nada. Nada, nada, nada, nada. Inclusive, eu não tinha nem noção do que era asfalto. Porque eu falava: “O calçamento de Paracatu é asfalto, igual o seu”. E Itu naquela época era calçada toda de paralelepípedo. E eu falando que aquilo era asfalto, de tão burro que eu era. Hoje ainda sou, só fiquei menos burro um pouco. (...) Eu falei: “Gente, eu preciso estudar sobre Paracatu”.

(...) Eu já tava estudando, tinha uma noção melhor das coisas e tal. Eu passei a me interessar pelas coisas de Paracatu. E nesse interesse, eu descobri que Afonso Arinos era uma pessoa importantíssima na história do Brasil, como membro da Academia Brasileira de Letras, autor de Pelo Sertão. (...) Um dos primeiros textos dele que eu conheci foi O Buriti Perdido, que até hoje é muito divulgado, quase toda antologia que fala sobre ele tem.

Eu sempre mostrava para os alunos: “Vocês não falem que lugar nenhum não tem história. Tudo tem uma história. Se nós olharmos a nossa vida, nós temos história, o dia que eu nasci, como foi meu parto, como foi isso, meu crescimento, é uma história que vai sendo construída no tempo, todo mundo tem. A cidade, por menor que seja, tem uma história”. E sou ainda de outra opinião, que se cada um fizesse o seu livro de memórias, que maravilha de histórias municipais que nós teríamos nesse Brasil. Já pensou se cada um escrever seu livro de memória sobre a sua vida naquele local? Contando seus fatos. Daí ampliava o leque de pesquisa. A primeira coisa que nós temos que mostrar, o lugar mais importante do mundo, é a casa em que você nasceu, a rua em que você viveu, o bairro que você foi criado, aí você vai construindo o mundo. Você vai construindo seu mundo até chegar ao que você é hoje. Eu que despertei nessa geração o amor às coisas da terra.

Será que eu posso sonhar? Eu sei lá se eu tenho sonho, sabe? Meu sonho é ver minha família toda bem-sucedida, claro, que é de todos os pais. E meu sonho é ver o povo de Paracatu sentir uma coisa que eu sempre preguei, que graças a Deus eu to vendo, é voltar para o passado, procurar conservar o que existiu.

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