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História

Curiosidade, minas e história

História de: Alessandro Lucioli Nepomuceno
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/08/2017

Sinopse

Alessandro Lucioli Nepomuceno desde pequeno interessava-se por pedras e, quando chegou o momento, hesitou entre Geologia e Engenharia de Minas, mas acabou optando pela última. Seu primeiro trabalho, ainda como estagiário, já foi na área de meio ambiente quando pouco – ou quase nada – se falava sobre o tema. Já formado e com uma certa experiência na área, conseguiu uma oportunidade para estudar na França. Quando voltou, as empresas já discutiam sobre o tema e logo ele ingressou na Rio Tinto Mineração, em Paracatu, onde acompanhou a abertura das plantas e o desenvolvimento das minas e, também, a chegada da Kinross. Além disso, teve a oportunidade de ir novamente estudar no exterior, dessa vez, na Inglaterra.

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História completa

Eu sempre gostei muito de rochas. Rochas, minerais, muita curiosidade com pedra, pedra preciosa, toda essa área que mexe com minerais de modo geral. Desde a infância, eu me lembro que eu gostava muito disso. Eu, às vezes, colecionava pedras, ficava aquele monte de pedra em casa que não valia nada, ninguém sabia o que era aquilo: “Quem é esse doido que juntou essas pedras?”. Aí jogavam fora e, depois, eu juntava outras pedras que eu achava bonitas, de outros lugares. Eu sempre gostei.

Tinha um interesse, mas a cidade é propensa: [Conselheiro] Lafaiete (MG) é uma cidade mineral. O manganês hoje é um metal que não é muito utilizado, mas teve um período áureo nas décadas passadas, e Lafaiete foi a grande fornecedora de manganês pra vários países do mundo, inclusive para os Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. Pouca gente sabe que muitos dos navios e os aviões e tudo das fábricas americanas vieram do manganês que saiu da minha cidade. A mina chamava Morro da Mina, existe ainda, mas a mina hoje é menor, hoje gerenciada pela Vale do Rio Doce. Então, eu tive esse contato, eu cresci numa cidade que a gente via pedras, via rochas, eu sentia interesse, eu via o pessoal da mineração chegar com os carros, vinham os tratores... A gente tinha aquela curiosidade.

Depois, na escola, cresceu um pouco esse interesse porque eu pensei em fazer Geologia primeiro, que era esse estudo específico, né? Mas eu senti que na Geologia talvez ficasse muito restrito o campo de trabalho, via que a parte de Engenharia dava mais oportunidades. E aí eu entrei na área de engenharia, fiz Engenharia de Minas, mas numa época que não tinha nenhuma ciência relacionada com o meio ambiente ainda, específica. A Engenharia Ambiental, por exemplo, foi criada muito mais tarde. Mas o meu interesse, depois eu vim a descobrir, era realmente pela questão ambiental.

Quando eu estava terminando a universidade, em 1989, eu me dei conta: “Foi bacana a universidade, mas não é Engenharia de Minas que eu quero fazer o resto da minha vida, tem alguma coisa aqui a mais que é relacionado com ciências naturais, meio ambiente e tal”. E nessa ocasião apareceu um estágio numa empresa de consultoria pra área ambiental, e eu resolvi pegar esse estágio. Naquela época todo mundo, até quem era aluno de Engenharia de Minas mesmo, achava isso meio estranho, mexer com negócio de meio ambiente. Aquilo era considerado uma coisa meio estranha, a gente mexer com controle ambiental e tudo. Entrei nessa empresa, comecei a gostar muito, trabalhei com monitoramento de água, monitoramento de ruído, entendia aqueles problemas das pedreiras ali próximo de Belo Horizonte, como é que trazia, o problema de vibração, problema de ruído. Aí comecei a trabalhar com isso, virei um assistente ambiental nessa empresa de consultoria, depois engenheiro júnior. Quando eu formei, em julho de 90, eles me contrataram pra continuar fazendo esses monitoramentos.

[Depois] Apareceu um francês lá em Belo Horizonte, e ele estava procurando alunos, pessoas, que tivessem interesse em trabalhar com meio ambiente, e que tivessem formação na área de mineração. Por que isso? Porque na França, como as mineradoras estavam todas praticamente fechadas, eles tinham gerado um conhecimento técnico muito grande nessa área, então tinha uma universidade no sul da França, em Alès, que concentrava muito conhecimento na área de mineração, muitos professores com especialidade na área de mineração, de reabilitação, toda essa área, e eles ficaram um pouco sem saber o que fazer e criaram um curso internacional pra passar essa tecnologia para outros países (...). Então, houve um convênio do Cesmat [Centro de Estudos Superiores de Matérias-Primas], que é o Centro das Escolas Superiores da França com o CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico] no Brasil, e esse professor veio ao Brasil e fez uma prospecção, um levantamento pra levar alunos. E nessa ocasião foi interessante porque eu não tinha ainda os três anos [de experiência] que ele pediu, isso foi em 1991. Ele falou: “Olha, estuda francês porque em 1992 a gente vai voltar, e esse curso vai existir, vai continuar”. Aí eu falei: “Bem, então tudo bem”. E aí estudei um pouco de francês, estudei uns seis meses, depois deu quase um ano. Eu fui entrevistado, ele falou: “Olha, seu caso não tem três anos ainda, mas não tem muita gente que tem esses três anos de experiência e que tem Engenharia de Minas no Brasil”, então me selecionou junto com um grupo de cinco. Em novembro de 92, eu fui pra França e comecei um curso. Entrei nessa escola, com esse curso, um curso pra estrangeiro, era um curso de um ano, que tem um nível de mestrado. Era uma especialização na época e que depois ganhou reconhecimento de mestrado. Então, a gente fez todas aquelas disciplinas básicas de Matemática, de Física, de Mecânica e tal, os franceses são muito matemáticos, tudo deles é tudo muito modelado e depois vieram as disciplinas específicas, reabilitação de mina e tal, foi onde eu tive contato, inclusive, de ver os passivos de mineração. O Brasil ainda era relativamente jovem com mineração, e esses países já tinham passado por muitas experiências, né? A França, essa cidade de Alès, por exemplo, é uma coisa impressionante as minas de carvão, lá tinha minas de carvão. Nessa região é uma cidade perto de Nìmes, a cidade mais conhecida que é um balneário romano antigo, ali naquela região. Nessa cidade eu aprendi muito, eu aprendi, inclusive, que mineração pode ser algo de muito motivo de orgulho para uma comunidade. Aquela comunidade tinha um extremo orgulho de mineração. E depois eu entendi o porquê. Muitas pessoas viveram do carvão da França, inclusive durante a Primeira e Segunda Guerras Mundiais, a questão toda que envolveu a história da expulsão dos nazistas da França, a contribuição que essas mineradoras de carvão tiveram pra fornecer a energia pras pessoas, pra esconder, inclusive, pessoas dos grupos aliados que estiveram no sul da França. Assim como eles eram muito ligados, os trabalhadores tinham uma ligação quase de família. Tudo isso ficou muito marcado pra mim. E o orgulho que eles passaram a ter dos mineradores e, portanto, quem trabalhava numa mineração e quem tinha um parente ligado à mineração, naquela cidade era motivo de orgulho.

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