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Dona Josephina: uma vida que se conta escrevendo, lembrando e agradecendo

História de: Josephina Zagari Bello
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/02/2019

Sinopse

Josephina Zagari Bello nasceu no interior de São Paulo - Mineiros do Tietê - e foi morar com os avós quando o pai foi trabalhar numa fazenda. Ela precisava tirar o diploma do quarto ano. Com 18 anos foi para São Paulo. Lá, encontrou o Pepe, que viria a ser seu primeiro namorado e seu marido por 56 anos. Com quem teve cinco filhos. Que lhe deram dez netos. Que, por sua vez, lhe deram quatro bisnetos. E estavam todos reunidos quando comemorou 90 anos. Uma emoção de tirar o fôlego e só recuperar com água com açúcar. Enfrentou dificuldades na vida. Prefere lembrar-se das coisas boas e ficar com as reminiscências de infância, da escola, dos primeiros anos de casada. Sempre foi o esteio da família. Sempre ajudou e sempre soube contornar as coisas e os momentos desafiadores. Tem o sonho de ficar mais um tempo para estar com a família, que é unida, saudável e feliz.

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História completa

Vinte e seis de julho de 1927, Mineiros do Tietê, interior de São Paulo. Nessa data e nesse local, eu nasci. Fui batizada Josephina - assim mesmo, com ph: Josephina Zagari Bello, em homenagem à minha avó paterna. Com ela não tive contato. Lembro dela assim à distância, sentadinha, com aqueles vestidões, lenço na cabeça à moda portuguesa. Fui para a escola aos sete anos e, aos dez, eu concluí a quarta série. Recebi diploma, com direito a comemorações. Teve até um teatrinho e eu fiz o papel de mãe de um menino e uma menina. Passava até talco na cabeça para simular idade.


Da infância, lembro que minha mãe costurava - fazia vestidinhos para mim e terninhos para o meu irmão. Fazia, também, doces. Colocava numa bandejinha e o meu irmão ia vender no jardim. O jardim era o lugar onde os namorados iam se ver - moças de um lado, rapazes do outro.


Meu pai era carroceiro - varria as ruas, tirava o lixo. E, um dia, foi convidado para trabalhar numa fazenda - seria colono, que era aquele que tomava conta dos peões. Por causa da escola, eu não fui. Fiquei morando com os avós maternos. E fui ficando, mesmo depois de ter saído da escola, que não havia condições de eu continuar. Fiquei até os dezoito anos, quando vim para São Paulo, para a casa da minha família - pais e irmãos. É que minha avó ficou doente, faleceu. E nós viemos para cá - eu e o meu avô.


Sobre os meus pais, tem uma história no mínimo curiosa. Era tempo de guerra e meu pai - então namorado de minha mãe - foi convocado. Conseguiu fugir e se refugiou… na casa de meu avô! Quer dizer, da namorada. E por lá ficou, escondido de dia no alçapão, de onde só descia à noite. Assim ficou por três anos. Depois a guerra deu trégua, ele desceu de vez e casou.


Em São Paulo, eu conheci aquele que viria a ser o meu marido - por cinquenta e seis anos, até sua morte - e que foi, também, o meu primeiro e último namorado. Casei em uma igreja ainda em construção - meus irmãos eram marceneiros e estavam trabalhando no altar dela. Nossa Senhora de Fátima, enorme. Fui a primeira noiva que se casou naquela igreja. Aos 20 anos.

 

(...) e falou se eu consentia em entrar na igreja, mas debaixo dos andaimes. Eu aceitei. Aí, eles puseram um tapete vermelho e eu entrei na igreja nova.


Como disse, casei aos vinte. Fui morar em uma casa de madeira, numa chácara. Meu primeiro filho nasceu, eu estava com vinte e um anos. Casa de madeira, riacho aos fundos, chão de terra, fogão de lenha, para lavar a roupa e tudo o mais tinha que puxar água de um poço, sete metros de altura. Mas foi uma vida maravilhosa, cinco filhos, dez netos, quatro bisnetos. Fiquei viúva e não quis morar com ninguém. Gosto da minha independência: acordar na hora em que quero, dormir na hora em que quero. Se quiser, eu cozinho; se não quiser, eu não cozinho. Gosto de sair. Saio de ônibus, apesar dos filhos reclamarem. Gosto da minha casinha. Os filhos querem que eu vá para um apartamento. Vou não.


Mas lá naquela primeira casa - em verdade, um barracão de madeira - foi que nasceu o meu primeiro filho. De parto normal, como todos os outros. Com parteira dita curiosa, como os outros, exceto a segunda, que nasceu no hospital. À luz de lamparina, que não tinha eletricidade. A segunda foi no hospital, precisou ficar na estufa. O terceiro é que nasceu com um probleminha, mas não teve sequelas. Nenhuma, nenhuma. Nasceu com o cordão umbilical enrolado no pescoço. Nessa época, aconteceu um fato que considero indicativo da presença de Deus. Eu tive uma vizinha que ficou grávida e o marido não deixou ir ao médico. Uma gravidez sem assistência médica, sem acompanhamento. E um dia, por volta de meia-noite, ela começou a passar mal, a criança com dificuldade para vir ao mundo. Eu era totalmente inexperiente e a única noção que tinha era o que a minha mãe havia me passado: fazer força, medir um palmo a partir do umbigo, cortar e amarrar. E assim eu fiz. E assim quis Deus que fosse coroado de sucesso. Resultado: não só batizei a menina, como ela se chama Sônia Josephina. Em agradecimento.


Passamos muitas dificuldades. Lembro do lanche pobre que meu filho levava para o colégio. Da impossibilidade de servir lanche aos colegas deles - colegas de brincadeiras. Mas lembro, também, dos rasgados elogios na escola pelo desempenho escolar. Vejo hoje todos eles bem situados. E os netos encaminhados.

 

E assim a gente vai levando a vidinha da gente.


Faz dezesseis anos que o meu marido morreu. Justo no dia do aniversário de um dos filhos. Já estava com alta no hospital e, de repente, sofreu três paradas cardíacas. Eu estava lá para buscá-lo vivo, trouxe-o morto. Diabetes. Ele não acreditava que é tratável e que a pessoa pode viver anos com ela controlada. E assim, não se cuidou. Apesar dos meus cuidados e dos meus esforços, ele praticamente se rendeu à doença: “Ah, ela vai me matar mesmo…”. Excelente pai. Chamava-se José, era conhecido por Pepe.


Antes da doença, houve um episódio também muito grave na vida dele. Traumático, pode-se dizer. Ele trabalhava na Prefeitura e aconteceu de a Rádio Bandeirante pegar fogo. O chefe dele pediu que ele levasse o caminhão-pipa até lá, para ajudar. Chegando ao local, uma mangueira se soltou, ele atravessou a rua, havia uma fumaça intensa e ele foi atropelado, arrastado por um carro. Feriu-se muito, mas escapou. Ele dizia que eu era o esteio da casa, da família. É que sempre procurei ajudar. Nas tarefas, nas despesas de casa. Fui, como costumo dizer, uma verdadeira mascate. Sempre vendendo isso, fazendo aquilo. Para aumentar a renda da família, não é? E assim foi a nossa vida, com coisas que deram certo, outras nem tanto. Apenas sinto que recebi dois golpes recentes que me tornaram menos alegre. Primeiro, um assalto: entraram em casa no Ano Novo - eu estava na praia - e fizeram a limpa: dinheiro que eu tinha na poupança e havia tirado para uma obra que pretendia fazer, jóias… E depois - como dizem que vem tudo junto - perdi uma nora, que era para mim uma filha.


Mas, pensando no quanto eu gosto da vida e procuro conservar as coisas boas e colocar uma pedra em cima das ruins, é que eu peço ao Senhor que me dê um pouco mais de tempo. Para acompanhar meus filhos e netos, com saúde e lembrar das coisas mais antigas - da infância, da escola - e de como foi bom me tornar avó - o primeiro neto é, também, meu afilhado. Pena que os noventa e um, noventa e dois não são como os noventa. Nossa, que emoção! Uma festa-surpresa. Convenceram-me de que seria uma comemoração simples, numa pizzaria, com pouca gente e, no entanto, foi tão emocionante que eu pensei que não fosse voltar para casa. Quase desmaiei. Tive que tomar água com açúcar. Na verdade, quase me mataram com tanto carinho, tantos cuidados, tanto esmero na preparação da festa, na seleção dos convidados, na decoração do ambiente, sem falar nos comes e bebes.


Se me perguntam de meu sonho hoje, eu digo: ficar aqui um tempo a mais para ver minha família bem e com saúde. Para tanto, eu rezo ao anjo da guarda de todos eles.

 

Não sou beata. Vou à igreja quando posso. Mas a minha igreja está dentro da minha casa.


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