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Gê Black Power: um exemplo, muitas vitórias, uma lenda

História de: Gê Black Power
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/02/2019

Sinopse

Gê Black Power, baiano de Caetité, criado no Paraná e vitorioso em São Paulo, coleciona histórias de superação de dificuldades - as maiores e piores - e de reconhecimento ao seu talento, capacidade, esforço e dedicação. Tornou-se conhecido em toda a São Paulo dos anos 70 e 80 como o preferido de jogadores, artistas da música popular e que tais, particularmente os seletos integrantes do grupo afro, adepto do estilo black power de cabelo. Começou atendendo debaixo de uma escada e chegou a trabalhar escondido porque não dava conta da demanda - uma jornada de nove horas à meia-noite e a marca incrível de trinta cortes em um único dia. Hoje, reconhece avanços na questão do racismo e do preconceito e julga que aproveitou o melhor de sua profissão. Mas não a deseja para seus filhos e netos, esperando que eles escolham outras atividades que não a sua.

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História completa

Sou o Gê Black Power, Geraldo da Silva registrado, natural de Caetité, Bahia, onde nasci em 1947 - 10 de maio. As recordações que trago, da infância e da adolescência, são do interior do Paraná, e de uma severa pobreza. Que era dividida entre quatorze irmãos. O pai, lavrador, e isso, em parte, explica a gente tão pobre. Havia muitos para comer, a comida que daria para três tinha que dar para oito. A gente pedia chuva, vinha sol. Então, quando colhia uma roça, perdia outra. Nós, jovens, só pensávamos em sair dali e ir para a cidade - pequena ou grande. Estudar, nem pensar: a cidade mais próxima ficava a quarenta quilômetros, que teriam que ser vencidos a pé. Praticamente eu nunca estudei na minha vida - eu só fiz o segundo ano primário, à noite, em São Paulo.

 

Com 15, 16 anos, eu já cortava cabelo do pessoal que morava naquela região em que a gente morava, no Paraná.

 

Com 17 anos vim para São Paulo. Queria ser garçom, mas, naquele tempo, não aceitavam da minha cor. Tornei-me aluno, depois professor de escola de cabeleireiro. Ninguém me chamava para salão nenhum. Porque eu era preto, no último tom. Emociono-me ao lembrar que, naquele início, era debaixo de uma escada que eu dormia. Sete meses. E foi ali que eu passei a cortar o cabelo do pessoal - entre a escada e a garagem. Mas, logo, logo estava fazendo fila. Foram muitas as dificuldades, mas nada comparável ao que deixei lá na roça. Eu só vim a conhecer dinheiro aos treze anos e foi com essa idade, mais ou menos, que eu tive o primeiro calçado. A casa era feita de lenha; os buracos, a gente tampava com barro.  Lá não se tomava banho, lavava-se o pé, à luz de lamparina, para dormir. E comia-se o que tinha. Quando a safra de feijão era perdida, a fome apertava. Ovo, precisava vender para fazer dinheiro. Galinha, uma só não dava. Então, era almeirão, serraia... Sempre esperando no jantar coisa melhor do que no almoço. Se acaso catasse no mato uma dúzia de ovos, não dava pra tanta gente - tinha que fritar “esticando”. Na época não tinha televisão, a pobreza vivia escondida.

 

Mas eu sempre pensando assim: tem que ser diferente, tem que ser diferente. E, às vezes, eu me emociono quando… Porque parece, às vezes, que não é verdade.

 

Não foi fácil. E tinha a questão do preconceito. Ainda mais para alguém preto como eu. O primeiro salão nem nome tinha, era conhecido como Salão do Neguinho. Aí foi que o Serginho Chulapa, nessa época no juvenil do São Paulo, que tinha o cabelo muito maltratado, cortou comigo. E daí para diante as coisas aconteceram: atrás dele veio todo o time do São Paulo. Lembro que o Mirandinha, a sensação do momento, também veio. Vieram o Valdir Peres, o Muricy Ramalho... Jogador é assim, não tem preconceito. É igual a bandido. Bandido também não tem. E dali eu fui para o centro da cidade, uma lojinha apertada, porém na Galeria Presidente. Aí eu vou lembrando que não parou mais. O Tim Maia - usava black também - chegava assim meio louco. O Agepê. O Jorginho do Império e o Júnior, hoje comentarista. Vinham do Rio para cortar comigo. Eu dizia: “Gente, por quê?” Aí veio a família Jackson - Jackson Five - e eu fui ao Anhembi para pentear os cabelos de todos eles. Depois veio o James Brown, dois mega-shows no Palmeiras, quatorze mil pessoas. E eu lá, trabalhando. Em dado momento, eu olhava aqueles artistas, aqueles jogadores e chegava a constatar: “Puxa, eles são famosos! Mas eu também sou!”. Sim, eu já era famoso e requisitado. Praticamente desde que cheguei em São Paulo eu só fazia trabalhar.

 

E o meu tempo todo… Eu tenho cinquenta anos de cabeleireiro, o meu tempo é só trabalhar. Mas não posso reclamar: sem estudar, para ganhar o que eu ganho hoje…

 

E não posso reclamar mesmo. Quando adolescente, lá no Paraná, eu só tinha vontade de ser uma pessoa normal. Uma pessoa que não precisasse passar vontades. Que, tendo fome, eu pudesse comer, almoçar como todo mundo: arroz com feijão, salada, bife… Por exemplo, eu adorava mortadela. Quando eu ia à cidade, sentia assim aquele cheirinho de mortadela, passava vontade. Cadê dinheiro para comprar? Mas aí as coisas foram acontecendo, veio o segundo salão, nas Grandes Galerias. Eu já atendia o Tim Maia, o Jorge Ben, o Jair Rodrigues. E eu dizia: “Não acredito”. Veio o primeiro desfile de cabelo - Tony Tornado, chegado de Miami - com o show dos Originais do Samba. Aí é que eu posso dizer que as coisas aconteceram, o famoso “vamos, que vamos!” Fazia fila nos meus salões, eu cheguei a trabalhar de nove à meia-noite. Se bem que deu tempo para namorar e pensar em casar aos vinte anos apenas. Ah, e aos dezenove, trazer os meus pais para cá. Enfim, esse foi o momento do impulso, do destaque, de consagrar o meu estilo diferenciado, de deslanchar. E ainda mais que eu vendia os convites para os ultra requisitados bailes do Palmeiras, através do Chic Show. Que durou até que o dono resolvesse fraudar a bilheteria. Daí ele perdeu tudo, hoje faz carreto numa lata-velha.

 

Aí, o Silvio Santos pediu para eu ir aos domingos, uns lugares lá, cantava, fazer cabelo. (...) O Jassa ficou cortando cabelo caucasiano e eu black power. (...) Não dava para mim. Tinha que ir terça-feira lá. Chegava às dez horas e ficava o dia inteiro, para a gravação.

 

Então, eu me tornei conhecido em São Paulo inteira. Ficou praticamente impossível eu recusar um corte e passar para alguém da equipe. Em dado momento, eu cheguei a trinta cortes em um único dia, no salão. E não é essa a estratégia dos grandes cabeleireiros. Eles fazem ali um número limitado de cortes e o resto do tempo vão administrar. Isso quando não são investidores. Ou seja, nem profissionais da área são.

 

Eu monto um salão. Quanto mais bonito, mais eu trabalho. Quanto mais eu trabalho… Então, até hoje…

 

Só que aí eu preferi sair do centro da cidade, abandonei a Galeria. Qual a razão? É simples: quando você se torna muito conhecido, tanto as coisas boas quanto as ruins atingem você, a sua carreira, o seu nome como profissional; enfim, a sua imagem. Então, eu comecei a sentir as repercussões negativas de fatos com os quais eu não tinha qualquer ligação, mas respingando no meu salão. Por exemplo, uma briga, uma morte no baile do Palmeiras. “Ah, é daquele baile do convite lá do salão do Gê”. Alguém vai comprar droga, alguém vai vender droga lá na Galeria. “Ah, é lá naquela Galeria do salão do Gê”. Um assalto nas imediações da Galeria. “Ah, o cara estava indo para o salão do Gê”. E assim “o salão do Gê” passou a ser um referencial nas notícias sobre episódios de violência, vício, etc. Artistas foram assaltados, indo ou vindo de lá. Jogadores, idem. E, em geral, os brancos. Os negros, eles poupavam. Então, decidi sair de lá para não mais voltar. Principalmente porque me magoou muito que os mais escuros ficaram; porém, os mais claros pararam de ir.

 

Isso doeu em mim. E por que isso aconteceu? É que o negritude dá uma preferência incrível para mim. Mas eles são muito assim… São muito “pegativos”.

 

Agora, um aspecto que senti a vida inteira é que foi uma trajetória de novela, dado de onde eu saí e ao ponto em que cheguei. Todo ano, por exemplo, eu tinha o fechamento com desfiles - masculino e feminino. Com o Tim Maia, lá no Palmeiras. Todo ano eu tinha um estilo diferente para fechar. Porque o cabelo tem um significado para cada um de nós. Associa-se à estética e evidencia as diferenças. Acho que, dentro de cada um de nós, existe um tipo de beleza e um tipo de cabelo que, no fundo, todos nós buscamos. E cabe ao bom profissional fazer com que a pessoa encontre a sua identidade, o seu estilo.

 

Agora, o meu sonho hoje é que meus filhos não sigam a minha profissão. E que meus netos estudem e sigam outras profissões. Porque eles, jovens, são diferentes. No tocante ao racismo, ao preconceito, à igualdade. Sabe, a diferença que eu sinto nos jovens de hoje, nesse aspecto da cor, é a mesma que eu vejo, por exemplo, nos jovens médicos, que são mais humanos.

 

Eles são melhores em tudo, com uma consciência de espírito, porque a igualdade não tem cor, assim como a bondade.

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