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História

O morro também foi feito de jongo

História de: Maria de Lourdes Mendes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/01/2009

Sinopse

Em vez de simplificar seu nome, o apelido de Maria de Lourdes impõe ainda mais respeito: Tia Maria do Jongo da Serrinha. Nascida no bairro de Madureira, no Rio de Janeiro, ela vive no Morro da Serrinha desde a época em que era obrigada a ir para a cama enquanto os adultos praticavam o jongo – as crianças só puderam entrar na roda quando se percebeu que aquela tradição estava sendo esquecida. Desde então, Maria se dedica a praticar e a ensinar aos mais novos de hoje o que aprendeu com os mais velhos de seu tempo. Ela ganhou o título de mestre griô exatamente por guardar e transmitir seus saberes, além de suas muitas histórias. Uma delas, aliás, é especial: ao lado dos irmãos, ela fundou, em 1947, a famosa escola de samba Império Serrano.

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História completa

Foi em 47. Estava casada, com uns 30 e tantos anos já. Meus irmãos, nós saíamos, tinha uma escola de lá. Às vezes, tinha uma escola de samba, trazendo a Serrinha. Mas essa escola de samba, a Serrinha, só tirava em décimo, em quarto, em quinto, décimo [lugar]. Teve um ano em que ela foi para décimo oitavo, meu irmão se revoltou. “Mas não quero mais gastar dinheiro na Serrinha, e a Serrinha só perdendo, perdendo.” “Vamos fazer uma escola de samba, meu irmão João, vamos, meu irmão, fazer uma escola de samba.” Aí, o João ficou: “Ah, mas escola de samba não se faz com conversa, não; tem que saber, tem que conhecer. Mas vamos fazer, vamos chamar Seu Elói.” Seu Elói era o sogro dele, Seu Elói tinha uma escola de samba lá no Largo da Segunda-Feira. A escola do Seu Elói tinha terminado fazia pouco tempo. Meu irmão falou com o sogro, e ele disse: “Vamos fazer, eu vou ajudar vocês assim que eu puder.” Tinha acabado a escola de samba dele, veio geladeira, veio panela, veio mastro de bandeira. Ele trouxe o que pôde trazer para a gente. E eu tinha uma irmã, a Eulália, que ela era ativa: “Ah, vamos fazer.” Aí, pronto: formou o Império Serrano, em 47. Quarenta e oito, nós já botamos Carnaval, foi uma coisa. Antônio de Castro Alves, Império Serrano, primeiro lugar, quase morri. Eu nunca chorei tanto na minha vida como eu chorei aquele dia. Minha mãe me consolou: “Mas que é isso, todo mundo vibrando, rindo, bebendo, cantando e você...” Que nada, eu não tive mais graça! Porque, desde mocinha desfilando na Serrinha, só perdendo, perdendo, perdendo. Ah, quando falou que o Império Serrano ganhou o Carnaval... Eu tive aquela crise de choro que eu nunca mais esqueci. Aí foi o segundo, o terceiro, o quarto. E a gente saía.

O jongo sempre existiu na Serrinha. Eu era criança ainda. Quando minha mãe veio aqui para o Rio, em 1910, ela trouxe o jongo de Minas e encontrou aqui. Tinha o jongo na Portela, na Mangueira, no Salgueiro. Não tinha escola de samba, era no morro, as famílias que tinham o jongo lá. E tinha na Serrinha.

Os donos da casa faziam um altar no cantinho da sala e botavam o santinho ali. Acendiam uma vela. E, aí, vinha uma pessoa que sabia rezar, a Maria Joana e o esposo dela, seu Pedro. Eles iam rezar.

Só que a minha família não era de jongo. Eu aprendi a dançar jongo com a vovó Maria Joana, mãe do Darci, porque onde ela ia, ela me levava. Ela rezava ladainha nas casas em que tinha aniversário, festa de São João, São Pedro. O pessoal primeiro rezava aquela ladainha. Ia, ela rezava aquela ladainha que demorava para acabar, e a gente querendo brincar e tinha que ficar ali rezando com ela. Depois dessa ladainha, tinha o jongo. Dona Maria Joana botava a gente para dormir: “Vocês vão dormir.” Fazia uma cama lá no quintal, forrava logo uma esteira. “Vai lá, vão dormir que agora os velhos vão dançar.” Porque criança não dançava naquela época.

Um dia, Dona Maria chamou ele, falou: “Darci, vamos fazer uma coisa, meu filho, vamos botar as crianças para dançar jongo?” Aquilo, para ele, foi uma alegria: “Ah, minha mãe!” “Vamos botar, porque o jongo vai ficar em extinção.” Já não tinha mais. Quando ela falou isso para o Darci, no Salgueiro não tinha mais. Na Mangueira, não existia mais.

Ela falou: “Não, Darci, vamos fazer o jongo, vamos botar as crianças, senão o jongo vai acabar também aqui na Serrinha.” E assim o Darci fez. Surgiu uma roda de samba, logo me chamou, chamou as minhas sobrinhas. “Ah, vamos fazer uma roda de jongo.” Nós fizemos, ele começou a botar as crianças, ficou uma coisa bonita, dançando. Eu ia. Até hoje está aí, eu boto as crianças. E todas as comunidades jongueiras têm criança, porque não pode deixar de botar as crianças.

Eu sinto saudade, sinto emoção, saudade do Darci, Fuleiro, festa junina, dançava muito comigo. Vovó Maria Joana, quando abria uma roda de jongo, ela saía dançando, não tinha nada a ver com esses passos de agora, era diferente, parece até que ela ficava voando. Aquele passo em volta da roda, ela ia lá, vinha cá. Não tinha nada com o cavalheiro, ela fazia o que queria, e o cavalheiro também. E quando dançava com Fuleiro era assim também. Agora, você dança o jongo, pá-pá-pá (levanta e começa a dançar).

[Antes de começar o jongo] Nós cantamos um bendito. “Bendito, louvado seja, é o rosário de Maria. Bendito, louvado seja, é o rosário de Maria. Bendito pra Santo Antônio, bendito pra São João, senhora Sant’Ana. Saravá, meus irmãos. Saravá, ongoma quita. Saravá, meu candongueiro. Abre, Caxambu. Saravá, jongueiro. Bendito, louvado seja, meus irmãos. Agora mesmo que eu cheguei, foi pra saravá. Bendito, louvado seja. Senhora Sant’Ana. Agora mesmo que eu cheguei foi pra saravá.” Aí vai. Vamos cantando outra, eu canto, elas cantam. É bom demais!

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