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Levando a vida no pífano

História de: Francisco Gonçalo da Silva (Zé do Pife)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/03/2008

Sinopse

Zé do Pife é um artista talentoso e carismático, além de muito emotivo e poético. Conta, toca e canta em sua entrevista como aprendeu a tocar o pífano, e como saiu distribuindo melodias pelo Brasil em seus shows e suas andanças despreocupadas pelas ruas das grandes cidades. Fabricante de seu próprio instrumento, Zé do Pife ainda discorre sobre os segredos de se fazer um pífano afinado e de alta qualidade.

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História completa

O meu nome de nascimento é Francisco Gonçalo da Silva, mas o nome artístico é Zé do Pife. Não tem nada a ver Francisco Gonçalo da Silva pra Zé do Pife, mas em São Paulo, em 73, eu tocava a música de João do Pife, aí lá mesmo, sem eu falar e sem nada, o povo ficava me chamando de Zé do Pife! Depois viajei pra Brasília, tocando também o Pife e sem eu falar nada pro povo, o povo ficava me chamando de Zé do Pife e Zé do Pife ficou. Por isso que  meu nome artístico é Zé do Pife.

 

Eu nasci em 24 de maio de 1943 em São José do Egito, Pernambuco. Mas eu não sou da cidade, sou do sítio Riacho de Cima. Meu pai, quando ele era rapaz novo, ele tocava o pé de bode, que hoje chama sanfona. Meu avô também tocava pé de bode! Mas a maioria todinha trabalhava na roça, plantando milho e feijão. E eu e meus irmãos e minhas irmãs, nós tudinho era da roça, sofremos muito plantando, limpando mato, que lá a gente chama limpar mato, não é capinar, a gente chama limpar mato. Os pifeiro nordestino tudo aprende lá dentro da roça, lá dentro dos mato, vai plantar de manhã, vai capinar mato, quando volta meio-dia vai treinando devagarinho.

 

Eu tava com uns dez aninhos de idade e as bandas de pife estavam ao redor da minha cidade, que acostuma sair pelo sítio de junho a julho. Sempre tem festa lá, tocando para o sítio vizinho, tirando prenda para o leilão. E eles saíam de porta de casa em casa com a banda de pife, a santa no andorzinho, a santa no meio de duas pessoas lá andando e aquela multidão de gente atrás e as banda de pife tocando. De longe a gente escutava o tom do pife, que o tom dele vai longe! E eu ficava encantado com aquilo! "Eu vou aprender a tocar porque é muito bonito", eu era criança. Peguei por minha conta, fiz um pife de talo de jerimum e fiz  por minha conta. Fui tentando devagarinho, sem ninguém me ensinar, sem ninguém me dar explicação, aí cheguei a aprender um pouquinho e depois meu irmão também.

 

E sei que nós dois aprendemos e a banda da minha cidade viu que nós tinha esforço e tinha boa vontade de aprender a tocar. Eles então pegaram e deram um aparelhinho de pife pequenininho, que a gente era criança, que os grande o espaço é largo, não dava pra gente, eles deram e a gente desandou: desenvolveu a tocar o pífano! Até que meu avô montou uma banda de pife, comprou zabumba, comprou caixa, comprou prato, triângulo, montou a banda! Fomos chamados pela cidade vizinha, povoado, sítio, o povoado admirava com a gente, que a gente era criança e chegamo o ponto de aprender.

 

O povo ficava tudo de olho na gente, aquilo ali era um prazer imenso. Eu e meu irmão tocando lá no Tigre, Riacho do Meio, novena, festa junina. A gente tocando e aquele povo mais velho tudinho de olho na gente, achando bonito. Aquilo ali era um prazer pra gente, quanto mais a gente tocava, mais a gente tinha vontade porque a gente se sentia outra pessoa. Porque a música é cultura e é vida.

 

Depois de adulto, viajei pra São Paulo, sozinho. Cheguei lá, me empreguei numa construtora chamada Delta. Tocava lá dentro da obra, o povo ficava admirado, meus colegas de trabalho, e dizia: "Mas por que o senhor não vai se apresentar no Silvio Santos?", eu digo: "Vou nada", eu nem sabia o que era isso de rádio de televisão: "Vou nada".  Tocava é na Freguesia do Ó, Diamante Cor-de-rosa na Lapa, no forró do Pedro, sertanejo, forró do Zé Beto. Depois voltei pra Pernambuco, tive lá uns tempinhos e depois: "Agora vou viajar pra Brasília". Brasília eu também sou conhecido que só, que nem bolacha em padaria. Lá, eu toquei no forró do Júlio, forró do Pimentinha, a Globo fez entrevista comigo, o Correio Braziliense tudo fez matéria comigo, o SBT e a Record. É, eu aprendi assim sozinho que nem eu tô falando pra você, sem ter aula de ninguém, sem ter explicação de ninguém.

 

Em Brasília eu dei aula a 75 alunos. Escolhi cinco músicas pra ensinar pra eles. Na hora que eu tava tocando, parece que todo mundo tava tocando igual comigo, eu fiquei muito alegre! O meu prazer é grande de uma pessoa comprar o meu pífano e aprender a brincar melhor do que eu, passar de mim em músico, tocar bem. Chegar dizer assim: "Um aluno seu, uma pessoa que comprou um pífano do senhor tá tocando melhor do que o senhor". Isso é um grande prazer que eu tenho, imenso, imenso! E assim foi. Nós saímos lá da sala na UNB, tocando. Foi um encontro muito bonito de mim com os alunos, todo mundo tirando foto e sei que fiquei muito alegre. O meu coração é grande. Eu não só quero pra mim, eu quero pra todo mundo.

 

Meu pai e meus avôs, que são pessoas já mais antiga, me contavam e eu acompanho deles falar pra todo mundo que o pife nasceu e veio dos índios. Eu era criança e eles diziam que o pífano veio dos índios, foi criado pelos índios, o pífano, a pena, a flauta doce. E daí foi muita gente aprendendo a tocar pife. É bonito uma pessoa tocar o pífano sozinho, eu já fiz gente chorar, sempre faço. E sendo dois caras que toca o pífano, ainda mais bonito é porque fica duas voz, primeira e segunda, tipo música sertaneja, é muito bonito. Eu tenho  meu irmão que tá lá no nordeste, que ele podia tá aqui mais eu.


É um prazer que eu tenho na minha vida: tocar para o público e sentir que o povo gosta do meu trabalho, que isso foi um dom que Deus me deu. Sou uma pessoa que não falo muito bem, mas as minhas coisas que eu falo, ruim e pouco, o povo acha graça, pra mim é uma alegria, pra mim e pra quem tá me assistindo. Eu nasci pra tocar o pífano, toco com facilidade. Me sinto bem.

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