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História

A arte de ensinar filatelia

História de: José Luiz Peron
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/11/2013

Sinopse

José Luiz Peron recorda em seu depoimento sua infância vivida na cidade de Uberlândia, Minas Gerais. Para estudar, migrou para Brasília, fazendo parte da primeira turma de Letras da UnB. Lembra de seus anos de estudos em Brasília, o envolvimento do pai com a política e seu interesse por selos. Ao recordar sua experiência no magistério, fala sobre as disciplinas do curso de filatelia que passou a lecionar na Escola de Administração Postal dos Correios e sobre a importância dos selos no Brasil. Por fim, lembra seu tempo de trabalho nos Correios como professor.

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História completa

Eu nasci em Santa Rita do Passa Quatro, Estado de São Paulo em 14 de fevereiro de 1944. Meus pais são de Santa Rita e meus avós italianos, da região do Vêneto. Eles vieram como imigrantes, entraram pelo porto de Santos, começaram a trabalhar na lavoura. Foi justamente naquele grande fluxo migratório que houve entre 1870-1890 para substituição da mão de obra escrava pelos imigrantes estrangeiros. Santa Rita era um lugar de fazendas de café, então havia muita disponibilidade para mão de obra cafeeira. Meus pais se conheceram na cidade, já por volta de 1940. Se não me falha a memória foi em igreja que eles se conheceram e depois se casaram. Tenho dois irmãos, só que não nasceram em Santa Rita. Na época que eu nasci os meus pais estavam de transferência para Uberlândia, Minas, porque em Santa Rita havia a companhia de eletricidade do Agostinho Prada e ele comprou depois a concessão em Uberlândia. Meu pai trabalhou primeiro com o meu avô. Depois, ele trabalhou num campo do Ministério da Agricultura, na demonstração de fumo, que eles trabalhavam justamente com sementes, melhorando a produção. Depois disso, começou a trabalhar com Agostinho Prada na companhia de eletricidade. Foi ali que ele aposentou, ele era maquinista de usina.
Eu tinha 40 dias quando saí de Santa Rita. E fiquei em Uberlândia até à véspera de eu completar 20 anos. Vim para Brasília, prestei vestibular na Universidade de Brasília. Na época eu consegui passar em primeiro lugar no curso de Letras daqui. E de 64 para cá, até hoje eu estou em Brasília. Em Uberlândia, minha casa era uma casa boa, construída pela companhia: casa de alvenaria, tinha eletricidade, água corrente, água quente, tinha vários quartos. Meus irmãos se formaram em Engenharia, um em Engenharia Elétrica e o outro, formado em Engenharia Civil.  
Naquela época Uberlândia era uma cidade relativamente pequena. Basta dizer que ao passo que a gente já tinha estradas asfaltadas que iam de Uberlândia até Goiânia, até São Paulo, passando por Uberaba e passando por Ribeirão Preto do que passando por Belo Horizonte, que só depois que eu mudei para cá que praticamente a rodovia passando por Belo Horizonte se completou direitinho. Quando eu mudei para cá em 1964, já era uma cidade mais ou menos, com mais de 50 mil habitantes. 
Meu pai era um homem muito reto, cumpridor dos deveres. Tinha sido Congregado Mariano na juventude, então ele tinha uma formação religiosa que levava isso para a vida dele. Era muito religioso, ele e minha mãe. Quando eles se conheceram ele era Congregado Mariano e ela era Filha de Maria na igreja. O nome da minha mãe é Ermínia. Ela trabalhava muito, ajudava, fazia inclusive costura, tem até a máquina antiga de costura dela aqui em casa, fazia costura, ajudava papai. Ela fazia doce, ele nos dias da folga vendia na cidade, foram fazendo economia juntos e conseguiram comprar casa, fizeram um pé de meia e deixaram para gente. 
Na minha infância, eu brincava com as crianças da Usina. As usinas ficavam a 24 quilômetros da cidade. A dificuldade maior nossa era a questão da escola, porque ela era seis quilômetros longe da usina. A gente almoçava cedo, gastava uma hora no caminho para ir e outra hora para voltar e a gente estudava à tarde. Com sete anos eu entrei na Escola Municipal Felipe dos Santos. Minha formação religiosa é católica. Na usina mais distante era difícil às vezes ir à missa, à igreja. Agora, depois que mudamos para uma usina mais próxima quando já tinha 14 anos, eu já estava no segundo ano colegial, então era mais fácil. A primeira vez que eu me lembro de política foi mais ou menos por volta da década de 50, quando houve aquela cassação do Partido Comunista. Papai era inimigo ferrenho do comunismo, então para ele foi a melhor coisa que teve. E ele era partidário de Getúlio Vargas, ele era getulista. Depois, por volta de 1950, ele era do PTB. Naquela época eu não tinha inclinação política. Em 54 foi a primeira vez que eu fui manifestando, na época eu já participava de uma coligação que era UDN, PSB e PRB. E do outro lado tinha o PSD, o PSD era o grande partido que a gente era contra. Tanto é que na época a gente não gostava de Juscelino, eu vim gostar de Juscelino depois que me mudei para Brasília, sinceramente, depois que ele já estava fora da política, por questão partidária. Então eu era partidário da UDN. Em 1960 nós tivemos uma grande decepção quando se elegeu Jânio Quadros e aprontou o que aprontou. 
Em Uberlândia era cinema todo domingo, durante a semana estudar, ir para casa e voltar. Eu queria ser professor. Admirava meus professores. Naquele tempo professor era uma profissão respeitada. Acabei sendo de português. Eu comecei a colecionar selos em 1957, com 14 anos.  Pelos conhecimentos que eu já tinha em filatelia, vim ser professor de Filatelia na Escola Superior de Administração Postal. Eu comecei a colecionar selos com 13 anos. Fui juntando selo fui gostando, trocando com os colegas, então fui montando. Naquele tempo a gente não dizia fazer coleção, era "juntar os selos".
Em 63 terminei o curso clássico, vim aqui para Brasília e fiz o curso de Letras. Eu vim porque a Universidade de Brasília estava abrindo.  Darcy Ribeiro tinha começado a faculdade no meio do ano de 63. Em 64, a segunda turma que entrou na Universidade foi a minha. Começamos o curso em fevereiro, e em primeiro de abril a Universidade foi cercada e muitos professores foram presos e levados. Depois alguns foram devolvidos, outros não. Naquela época eu a juventude era esquerdista e eu tive uma formação mais o que seria democrata cristã. 
A gente alugava quarto na Asa Norte, que era bem próximo da Universidade. Funcionários públicos alugavam quartos e a gente alugava quartos, estudava na Universidade de manhã, ficava de tarde. Eu fiquei como bolsista, trabalhando no departamento no primeiro ano. Depois do segundo ano em diante que eu comecei a lecionar em cursinhos por aqui. Depois fiz concurso. Antes fiz um exame de suficiência no MEC. Eu comecei a trabalhar em cursinho no primeiro ano, no final do primeiro ano eu já comecei a trabalhar. No segundo ano seguinte eu já comecei na Secretaria de Educação. Teve um período que era bem puxado para mim: estudava de manhã na Universidade de Brasília, à tarde lecionava na Fundação Educacional.  Comecei a lecionar na UDF era a Associação de Ensino do Distrito Federal, universidade que hoje foi comprada pela Cruzeiro do Sul de São Paulo, mas era uma universidade independente e eu lecionei até 2005, quando eu me aposentei. Eu parei de lecionar no Ensino Médio e fui contratado pelos Correios para lecionar na Escola Superior de Administração Postal. No ano seguinte, quando abriu a cadeira de filatelia, eu comecei a lecionar filatelia também. Primeiro era uma escola do Correios, Escola Superior de Administração Postal, porque tinha um curso só. Agora, depois ficou Universidade Correios, porque tem vários cursos, principalmente tem MBA. No ano 2000 não havia curso de Administração Postal, as turmas estavam interrompidas na época  e eu fui para o Gabinete da Presidência ser assistente da Presidência. O convite para trabalhar na assessoria da presidência veio do chefe do Gabinete, o Júlio. Eu revisava tudo que passava pela presidência: relatórios, comunicação interna, correspondência externa. Discurso, até alguns a gente ajudava a montar. Eu trabalhei nos Correios de 1978 a 2009, 31 anos. 
E na época do DCT, os telegramas demoravam muito, quase tanto quanto as cartas. Esse selo depois ficou sendo usado para correspondência normal. Outros selos, por exemplo, os que saíram em 1900 para comemorar o quarto centenário do descobrimento do Brasil também só tinham circulação interna. Para o exterior tinha que usar os selos azul, vermelho e verde, ordinários, ou normais que eram recomendados pela UPU (União Postal Universal). A UPU queria padronizar para poder inclusive fazer a unificação dos Correios todos, porque havia muitas discrepâncias, ainda estava em fase de formação. Isso foi até depois da Primeira Guerra Mundial. Só em 1924, no Congresso da União Postal Universal de Estocolmo é que eles aboliram essa restrição aos selos comemorativos. 
A importância do selo enquanto símbolo pode ser evidenciado, basta dizer que antes de ter selo, o serviço postal era muito deficiente.  O selo trouxe uma grande revolução no serviço postal! Nos primeiros selos geralmente aparecia só o valor, não aparecia o nome do país. Depois a União Postal Universal, ela fez a recomendação que todos os países utilizassem o nome e a indicação monetária. O único país do mundo que hoje tem o privilégio de não escrever o seu nome no selo é a Inglaterra, que foi o primeiro país do mundo a emitir.
Eu dava aulas na Escola Superior de Administração Postal, ESAP. Era para formação de administradores postais especificamente para os Correios.  Era época do telex. Hoje em dia com a ajuda do computador a coisa é mais simples. Você pode digitar pelo computador, mandar para os Correios, não precisa nem sair de casa para mandar um telegrama.  A implantação do Sedex foi no final da década de 70, inicio da década de 80 que começou exatamente o Sedex, então era correspondência agrupada, era questão do setor de encomendas. Sedex já foi uma especialização mais já em relação a esse ponto. 
Os Correios no século passado, ele era muito elitista e os Correios funcionavam relativamente bem porque eram poucos os que precisavam e os serviços eram rápidos.  Com a fusão dos Correios e Telégrafos,  os Correios funcionaram muito bem, mas muito bem mesmo, durante o Estado Novo. De 46 em diante, o serviço começou a cair, principalmente porque os Correios começaram a virar de novo cabide de emprego. Os Correios chegaram por volta de 63, por volta de 64 ao fundo do poço, dando prejuízo tremendo. Foi a partir de 1971, 72, quando os Correios começaram a usar  o transporte rodoviário com as linhas transnacionais, que as cartas começaram a fluir. Os Correios vem sempre acompanhando a evolução do país. Principalmente na questão de integração nacional, de transporte, de estar presente em situações, inclusive em épocas de catástrofe. Correios procuram fazer a integração nacional. Quanto à minha coleção de selos, eu fui especializando, na verdade foi até diminuindo. Porque eu juntava vários países, depois fui diminuindo, diminuindo, até que fiquei com a Alemanha praticamente de uma maneira geral juntando selos da Alemanha e depois, mais especificamente, uma coleção mais de estudo dos selos relativos ao período de ocupação interaliada, 1945-1949, que tem muita variedade, muitos selos. Eu participo de um clube filatélico que nós fundamos em 1967 para a prestação de serviços. É um clube de serviços filatélicos que a gente manda proposta para diversos colecionadores do mundo e eles dizem de que país eles gostariam de receber selos, se gostam de selos novos, selos usados, pode até pegar, pode ir olhando. Foram registrados mais de quatro mil sócios até hoje, desde 1967 até hoje. Mas a grande maioria desses ou já desistiu, ou já morreu, então nós temos, mais ou menos, por volta de mil e 500 ativos, no momento. 
Quando eu entrei nos Correios eu já estava casado, já tinha duas filhas. Eu conheci a minha esposa em 1970 quando ela era minha aluna na Faculdade de Letras. Uma das melhores alunas, uma das mais bonitas também. Entre namoro, noivado e casamento tivemos seis meses. Entre julho de 1970 até janeiro de 71, nós namoramos e depois casamos em 71. Estamos casados até hoje. Tivemos duas filhas. Uma chama Andréia Cristina e a outra chama Carla Fabrícia. Cada uma delas tem um filho. Ela foi professora. Quando eu a conheci ela era professora normalista, depois fez o curso de Letras e foi professora da Fundação Educacional do Distrito Federal até a aposentadoria dela, década de 90. Quanto aos Correios, ainda dou assistência de vez em quando. Normalmente ajudo os colegas, mas nada oficial. 
Um período muito importante foi o início da oficialização dos Correios no Brasil. O papel dos Correios no desenvolvimento do Brasil foi o de integração nacional e, principalmente, transporte de notícias, encomendas, tudo. Praticamente fazer a ligação de diversas regiões. 

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